Almoços Grátis. série 3 [11]

Pelos vistos estamos na semana dedicada aos doces. Sentia-se até um certo cheirinho pela sala, e, talvez, um ou outro sorriso mais aberto. Os doces são, de longe, onde a L. mais se realiza e onde consegue dar mais enfase ao seu cunho pessoal. Se a expusessem ao discurso psicanalítico julgo que os mecanismos perversos da livre associação a levariam rapidamente a chamar-me de ‘melgaço’, uma mistura de melga com melaço, que será como o seu inconsciente me trata em momentos de exasperação. Apesar do episódio do último dia hoje eu também estava bem disposto e até receptivo a alguma ironia, inclusive daquelas que só se distinguem do escárnio porque são ditas em ritmo de murmuração, o que lhes dá um poder encantatório a que nenhum homem resiste. Confesso, até podem sussurrar ao ouvido de um homem que ele é a maior merda desinteressante do universo que ele entenderá isso sempre como um convite pre-coital.
Pedi lulas recheadas. Ó séculos que eu não comia umas lulas recheadas. Recheadas com quê? Não percebi. Tentei sacar uma explicação a um dos empregados mas ele apenas me disse ‘óscar secret’. Já percebi que vou ter de lidar com o fantasma desse óscar e decidi não dar parte de fraco. Pedi um gelado de baunilha com um café entornado por cima e ainda fiquei uns minutos a observar o movimento da sala. Gente mais nova que o normal, grupos de miúdos de consultoras a esturrarem os primeiros ordenados, ainda todos com o viço da ingenuidade bem misturado com uma competência ainda por comprovar. Tristes dos que já não têm nada para provar. A L. ainda veio a tempo de me acenar do balcão. Poderia ter vindo à mesa, ter-me dado um beijo, uma festa, um sussurro, posto a mão na perna, recitado um soneto do camões, comido um pudim flan a meias, qualquer coisa. Estou na fase qualquer coisa. Não é que eu me contente com qualquer coisa, mas. Qualquer coisinha, porra.

Almoços Grátis. série 3 [10]

Não se pode dizer que hoje me tenha sido fácil ir lá almoçar. Devo ter entrado de cara carregada pois duas ou três pessoas fixaram-me o olhar e também não posso ser assim tão feio. Lembro-me que ia a pensar que aquele restaurante tinha respondido bem aos dias difíceis da austeridade. Não sei se era engenho ou arte mas havia até uma sensação de prosperidade crescente a impregnar muitos detalhes que definem uma casa daquelas. A L. tinha vestida uma saia burberry ligeiramente travada, uma blusa de seda creme bem cintada e via-se que tinha acabado de chegar de algum local que a tinha feito feliz. Se é de senso adquirido que se correm riscos desnecessários ao regressar a um local onde já fomos felizes, por outro lado devia ser aconselhável voltar a um sítio onde já fomos infelizes e que nos traga memórias desagradáveis, para fazer uma certa purga de maus passados, por assim dizer. Não sei se terei coragem de abordar a L. com um pretexto destes, assim tão vago e quase literário, ainda estou, digamos, com pouca confiança. Com quem é que ela teria estado. A escolher legumes é que não tinha sido de certeza. Pedi um folhado de marisco, algo também novo nesta ementa, se bem que já o tivesse provado em tempos distantes. Hoje a minha réstia de intuição dizia-me que ela se aproximaria de mim, se calhar até foi por isso que inconscientemente escolhi aquele prato, tentando demonstrar apreço pelas suas mudanças de menu. Não há inconsciente mais bem treinado que o meu, é tão tão treinado que às vezes até parece consciente. Como é que se cativa uma mulher? Como? Quando ela passou perto da mesa saiu-me isto: «Olha que este prato está óptimo mesmo». Respondeu na ponta da língua: «Ah, foi ideia do Óscar!». ‘Óscar’, foda-se! Que raio de nome é este? Quem é este gajo? O Otelo é que tinha um nome de código ‘óscar’ durante a operação do 25 de abril! Será que ouve aqui alguma revolução e eu estou a fazer de marcelo caetano? Entornei o café em cima da camisa, deixei cair a cadeira ao levantar-me, bati com a cabeça na porta de vidro da saída que estava fechada, e obviamente tropecei no passeio. A rapariga dos molhos estava cá fora a fumar e ainda a ouvi dizer-me: Para a próxima não seja tão possessivo e descolonize a tempo.

Almoços Grátis. série 3 [9]

Hoje o restaurante inaugurava uma nova ementa. Pelos vistos ninguém estava à espera, fora um segredo bem guardado. A L. gosta de transmitir esse aureolado enigmático, mas também já deve saber que é um risco que corre, nem todos os estômagos estão preparados para absorver surpresas ao ritmo da sua imaginação (capricho - a imaginação feminina chama-se capricho). O novo folheto-menu tinha sido desenhado por uma amiga ( a L. gosta de mostrar que tem amigas – e amigos - para todas as ocasiões) e parecia saído dum conto de fadas tal a fantasia colocada no nome dos pratos. Reduziam-se as opções em carnes puras, aumentava a aposta em souflés, empadas, folhados e papas afins e o peixe voltava a ser o rei da festa. Mas o bombo da dita continuaria a ser eu. Pedi ovas de pescada grelhadas, uma novidade. Nada como atacar pelo lado da entranha feminina e esperar pela pancada. A L. rodava de mesa em mesa a auscultar as reacções, recebia elogios como uma estrela de cinema, puxando bem a cabeça para trás naqueles sorrisos abertos que procuram receber as energias todas que os céus tenham disponíveis. A rapariga-dos-molhos torneou a minha mesa, fez uma pausa de libelinha e deu uma revirada de olhos a indicar que ‘esteja descansado que ela ainda vem cá picar o ponto’. E veio. Sentou-se, depois de um trejeito qualquer de formalismo que já lhe é tão natural como esquecer-me, e aviou-me uma directa: «então, por cá outra vez!? Tiveste saudades ou apenas te deixaste corromper pela curiosidade?». Sem me deixar responder (um clássico), distribui: «se vamos entrar pelo capítulo das recriminações vou-me já embora!». Olhei para as ovas (era o que tinha mais à mão para repousar o espírito) e ainda tentava esboçar uma resposta meramente tática para ganhar tempo quando ela alça da terceira farpa curta: «podias ter escolhido a cataplana! É bem melhor que a paella que noutro dia ofereceste à tua amiga vistosa; já volto». Novamente só, com as minhas ovas, ainda deu para apanhar um piscar d’olhos furtivo de descodificação impossível, e saí, sem acabar as ovas, sem tomar sobremesa, nem café, nem nada, possuído pela angústia do homem gozado, a humilhação dos pobres de espírito que nem conseguem sequer ser rejeitados em público e transportam a sensação de que apenas servem de betume para tapar falhas. São os betumen.

Almoços Grátis. série 3 [8]

Quando entrei hoje no restaurante levava comigo uma estranhamente-estranha-estranheza espalhada por todo o corpo. Tentei sacudi-la com duas ou três parvoíces mentais da família das boas recordações mas essa estranhamente-estranha-estranheza esbarrava sempre com os poros da pele fechados não a deixando sair.
Sentei-me numa das poucas mesas livres, a casa estava bem compostinha como nos velhos tempos dos deficits glamorosos, e anda nem tinha coçado convenientemente a testa já a rapariga-dos-molhos me vinha provocar com um previsível (encomendado?) «então hoje não trouxe nenhuma das suas amiguinhas?». Como andei a treinar olhares corri-a com um do género dos fulminantes que a fará desaparecer para a freguesia dos couverts durante uma semana.
Foi substituída por um rapaz de toque apaneleirado, qualquer restaurante que se preze tem de possuir um exemplar desses, e a L. quando toca a escolher paneleiros esmera-se. Ainda pensei que me fosse sugerir salsicha em couve lombarda, mas não, ficou-se por uns lombinhos de porco preto que eu, só para o contrariar, troquei por picanha.
Diz a vida, enquanto a mãe de todos os ensinamentos, que elas acontecem quando menos se espera, e foi precisamente enquanto eu pensava em rigorosamente nada de interesse, algo que faço com particular esmero e intensidade, que a L. se chega à mesa e pergunta se se pode sentar, usando aquele seu ar formal que me irrita mais que picante em colon inflamado. «Não gostaste do meu empregado novo?». Como aproximação pareceu-me interessante, bem melhor que perguntar-me o que teria acontecido a uma fatia importante do meu cabelo desde a última vez que nos víramos. Ri-me para ela, talvez por instinto, pois devo julgar que ela gosta de me ver sorrir e que isso a desarma um pouco. Está explicada a estranhamente-estranha-estranheza, pensei, e ainda fui a tempo de ouvir «ficaste mudo, ou quê?». Estava a pensar o que te faz prender agora tanto tempo na cozinha – respondi, ainda com o sabor da manteiga de alho a betumar-me o céu-da-boca. Tenho andado apenas a ganhar tempo junto ao quentinho do forno – disse L. com uma rapidez de resposta que me deixou intranquilo. Depois, tocou-me na mão, como já fizera milhares de vezes, levantou-se e desapareceu no horizonte. Mas, para mim, naquele momento, 20 centímetros à minha frente já era horizonte. Inda agora não sei como acabou aquele almoço, devem-me ter posto numa ambulância e descarregado no escritório com uma tabuleta ao pescoço dizendo: canja durante dois dias e deixá-lo ressuscitar ao terceiro sem fazer muitas perguntas.

Almoços Grátis. série 3 [7]

Hoje levei comigo a S. a almoçar. É uma mulher que se enquadra na tipologia clássica de ‘parar o trânsito’. É minha cliente, tem um negócio em fase de stress, já a salvei de muitos apuros, mas hoje leva uma vida semi-regalada. É casada com um tipo porreiro, pachola e bom rapaz, um pouco estúpido até. Não quis vir. Certamente acha, e bem, que eu não lhe desencaminharei a mulher, ou melhor, que a mulher não se perderá por minha causa. Não abona muito nas minhas capacidades, mas também ninguém sabe. Dois segundos depois de termos entrado a L. já tinha toda a fotografia da situação fornecida pelos espiões de sala, cada um atento e especializado ao seu detalhe, aliás o que tinha o pelouro de medir a altura das mini-saias não disfarçou muito. A S. tem umas pernas de capa de revista (para além de um rabo de vitrine, um busto de republicana, uma cintura de sereia e uma carinha de anjo em fase de magnificat). Pedimos ambos uma paella, fica sempre bonito comer a meias com uma mulher daquelas. Falou-se de negócios e a rapariga-dos-molhos fazia a sua inspeção técnica em cada 5 minutos, de tal forma se focava nas nossas caras que devia ser a responsável pelo departamento das covinhas na bochecha. L. apareceu duas vezes na sala. Na primeira passou juntinho à nossa mesa, fez um sorriso à S. a que esta retribuiu, e que a predispôs a perguntar-me se eu costumava lá ir muitas vezes. ‘De vez em quando’, se bem que daria mais efeito ter dito ‘de quando em vez’. O almoço foi inesperadamente decorrendo sem incidentes de maior. Ou o ciúme já não é o que era, ou fui mesmo colocado entre o açucareiro e a vinagreira. O que é um facto sem interferência de especulação é que saí de lá de barriga cheia mas de mãos a abanar.

Almoços Grátis. série 3 [6]

Hoje o restaurante transmitia uma boa disposição para a qual eu não conseguia encontrar explicação, nem sequer impressão, nem sequer aquele instrumento híbrido da mente (eventualmente fusão dos dois anteriores) que é a célebre intuição. Não percebo mesmo como nunca apareceu nenhuma corrente filosófico-artistica chamada intuicionismo (tipo gnosticismo laico) que aqui me daria certamente elementos para caracterizar o ambiente de frescura e alegria que se vivia naquele restaurante. A L. apresentava uma espécie de melancolia da família do desgosto leve, mas bem disfarçada por uma pose absorta, como que indicando que as mamas estavam na sala mas a alma ficara a marinar junto à batedeira numa tigela com piranhas em vinagrete. De todo o modo, hoje foi o primeiro dia, desde que tinha voltado ao restaurante, em que pude observar bem o corpo dela. Não sei se foi de propósito mas o que é um facto é que ela várias vezes se encostou ao balcão com aquele ar de diva em pleno exercício do seu múnus gastronómico, parecendo querer ilustrar o momento do Génesis em que Deus Todo Poderoso, depois de hesitar, decidiu arredondar mais o corpo da mulher qual ampulheta a mostrar ao homem que por vezes têm areia a mais para a sua (deles) camioneta. Pataniscas e arroz de tomate, nada mais adequado para um dia com tais enquadramentos, e ainda uma passagem da rapariga-dos-molhos pela minha mesa, com um ar de vampira a servir raminhos de salsa, largando a enigmática deixa: « ‘Ela’ manda dizer que ao senhor também lhe caia bem uma dietazinha». Touché. Será que se avizinha uma concordata pelo lado do cardio-fitness? A carne tem razões que o molho desconhece. Saí intrigado mas animado. O homem encontra esperança onde um qualquer outro animal apenas descobriria um sítio para mijar à vontade.

Almoços Grátis. série 3 [5]

Ontem era, e foi, dia da espiga. Entrei no restaurante com um estado de espírito animado, levando o bilhete no bolso de fora do casaco, ali à mão de semear mas de forma a poder fazer aquela encenação do que ‘não sei bem se o trouxe ou onde o pus’ se tal viesse a ser necessário. Todas as mesas tinham um toque decorativo alusivo ao dia (tentará a L. exigir da decoração aquilo que o coração não lhe dá?), ora uma espiga, ora um malmequer, ora uma margarida e preparava já para me sentar numa qualquer quando a rapariga-dos-molhos me dirige, sem possibilidade de apelo, para uma mesa que se destacava com uma certa imponência por ter um ramo completo e rico a servir de astro rei no centro. Uma mesa com dois pratos postos: «Hoje vou-lhe trazer um rolinho de carne especial». Fiquei semi anestesiado, com a imaginação a dar mais voltas do que um encefalograma conseguiria apanhar, e procurando pela sala todos os sinais que me pudessem indicar se iria acontecer alguma coisa que alterasse o meu futuro, ou até o passado, quem sabe. Veio o dito rolo de carne, com o previsível molho de orégãos, e eu fui saboreando-o qual palatofílico compulsivo à procura de algo que me dissesse que a L. o tinha preparado para mim (para nós ?). Entretanto o outro talher da mesa foi-se mantendo sem comensal, e o prato vazio ia-se rindo para mim dizendo: ‘lembras-te daquele outro dia da espiga, há uns anos atrás, em que ficaste à minha espera e eu não apareci?! Devias ter percebido que era uma premonição, e que eu algum dia te deixaria apeado. Talvez hoje percebas’. Entretanto a L. apareceu, vinha servir a uma das mesas uma garrafa de tinto da casta Nero d’Avola, um vinho brilhante, da Sicília, que eu adoro, mas ela nem sabe. Também não pode saber tudo. Passou os olhos por mim como se eu fosse uma sombra de crepúsculo, franziu o nariz e voltou para a caverna onde certamente estará algum cabrão dum Platão. Quando saí do restaurante estava convencido que isto já só lá vai com a suprema prova de todos os amores: o ciúme. A universal, exclusiva e infalível forma de saber se alguém gosta de nós. Foda-se, é que por mais voltas que se dê, apenas na bancada do ciúme se pode comprovar a experiência do amor. Até o microscópio dá saltos.

Almoços Grátis. série 3 [4]

Lombo. Hoje apeteceu-me mesmo um daqueles bifes de lombo. Redondo, cheio duma carne sem sombra de nervos, liso, quase artificial, mesmo produzido à base de um bocadinho de photoshop culinário. Comer como quem guia numa autoestrada vazia, sem ter de saborear, sabendo de antemão que o corpo vai receber aquilo com a mesma naturalidade de quando boceja ou tosse. Era o dia do aniversário do restaurante, havia um tiramisu especial, e a L. andava de mesa em mesa, numa roda-viva, entregando-se a todos com o mesmo esmero com que se dedicava a nem sequer dar nota da minha presença. A diferença entre presença e existência é que se a esta última chegamos a ela pela puta da filosofia, à presença só lhe tocamos mesmo quando sentimos que alguém gosta de nós. A L. já tinha gostado de mim, claro, há dois anos até me escreveu que o único sal que conhecia era o meu. Se calhar estava a mentir, um anjo pôs-lhe pimenta na língua para sempre e agora culpa-me por isso. Deixei metade do bife no prato, podia ser que ela o guardasse como relíquia, picasse, fizesse um rolo de carne e dormisse com ele embrulhado em papel de alumínio pulverizado com perfume de orégãos. Já ia a meio do tiramisu (ainda estive para o não comer por birra, não é bem birra, um homem adulto (mas não adulterado) não faz birras, é despeito, ressentimento, que se diz) quando ela passou ao lado da mesa. Inesperadamente deixa lá um bilhete dobrado e afasta-se num passo hesitante. Helás: toda a conquista (reconquista?) passa por uma hesitação. O papel fixou-se ali em cima da mesa e nem se mexeu, podia ser um daqueles papéis com asas mas não era. Eu iria ter de o abrir, mas tinha de fazer um movimento com alguma pose, não é Charlemagne quem quer, porra. «Por muito tempo». Só lá estava escrito «por muito tempo». Mas o que é esta merda!? Já nem um ‘até que a morte nos separe’ soube escrever. Ou será que eu já morri e nem dei por isso? Pedi à rapariga dos molhos para me beliscar e ela fugiu: meio assustada, meio sem saber se havia de contar à patroa, meio corada. Parecia inchada, daí os três meios.

Almoços Grátis. série 3 [3]

Sexta-feira e sala cheia. A proximidade do fim-de-semana descontrai-nos e põe os sentidos mais disponíveis para o lado deseconómico da existência: comer mais do que precisamos, correr mais do que precisamos, descansar mais do que precisamos, pensar mais do que necessitamos, conviver mais do que necessitamos, beber mais do que necessário e etecetera e tal mais do que necessitamos. Como que a compor o ramalhete L. trazia vestido uma saia também um pouco mais curta do que aquilo que seria necessário para ela, mas um pouco mais comprida do que seria necessário (e proveitoso) para mim. Ainda me lembro da primeira vez que lhe vi as pernas (um bom bocado delas, para ser mais rigoroso) despidas pela primeira vez ali junto ao rio. Já levava a memória um pouco acima do joelho dela quando fui impelido a escolher o menu pela empregada-dos-molhos. Reparo de caminho que ela também é benfeitinha, benza-a deus , e escolho bacalhau à Brás sem perder muito tempo a exercitar o pouco livre arbítrio que ainda me resta. Já vou no terceiro dia que retomei as minhas idas ao restaurante e a L. ainda não me dirigiu palavra nem sequer se aproximou a menos de 15 metros. Haverá criminosos com medidas de restrição menos exigentes. Via-a a sair da cozinha a rir-se, seria certamente uma piada boa porque se manteve num estado quase efusivo durante mais de 10 segundos. A última vez que eu a tinha feito rir assim já fora à custa de muito esforço. Acho que agora terá a minha imagem fixada mais como um filho da puta do que propriamente como um gajo engraçado, mas nem sequer um grande filho da puta, apenas aquele tipo de filho da puta que ainda recentemente foi desmamado de tipo-sem-interesse. Chegou a sentar-se junto dos clientes que estavam na mesa mais próxima do balcão, notava-se que eram clientes que se tinham tornado mais regulares recentemente, e ainda alimentou alguma galhofa técnica, o suficiente para fixar o charme necessário para um negócio em fase de ivas majorados. E foi assim, entre necessários, suficientes e insuficientes que acabei por tomar um café já frio; bem a condizer. Estupidamente fui até ao balcão sob o pretexto de pagar a conta mais rapidamente e ainda tive tempo de ouvir do lado de lá da cortina de ferro: ele sabe que aqui nunca pagará nada. Saí como se fosse um Barrabás em corpo de Lázaro.

Almoços Grátis. série 3 [2]

L. estava cá fora a fumar. Via-a ainda ao longe e obviamente hesitei. Ela deu conta da minha mal trabalhada hesitação, deitou fora a metade do cigarro ainda não fumado e sem esboçar qualquer sinal relevante entrou para dentro do restaurante. Minto, mostrou um certa indiferença daquelas arraçadas de comiseração. Mas por que caralho é que ela agora teria pena de mim? Será que já tinha coitadinho pintado na testa e até se via a mais de 100 metros? Quando entrei ela já não estava à vista. Contaram-me que agora passa mais tempo na cozinha e menos na sala. O meu hemisfério esquerdo diz-me que isso é porque tem um novo amante de imponente barrete branco mas o meu hemisfério direito diz-me que é porque não suporta ver casalinhos felizes a comer no seu restaurante (por óbvias saudades minhas). É a saltar de hemisfério em hemisfério que escolho um risoto à bulhão pato, novidade absoluta do menu, e para quem começou tardiamente na vida a gostar de comer pareceu-me uma boa opção, sempre podia imaginar que teria sido ela a abrir as ameijoas - uma a uma para mim. Estava bom o cabrão do risoto. Uma empregada nova veio-me perguntar se queria algum dos molhos da casa para temperar melhor. Acho que nem lhe respondi, para já, o que quer que seja que me perguntem soa-me a metade provocação metade ‘põe-te ao fresco’. É tão agradável sentirmo-nos mal vindos. Já estava na sobremesa quando a L. apareceu na sala. Queque de abóbora com gelado de canela. Olhou para mim e escreveu no ar com os olhos: amar-te-ei até que o tempo acabe. Trinquei a língua e pedi o livro de reclamações. Ficou lá plasmado para o delegado de saúde poder comprovar: neste estabelecimento as abóboras são bêbedas. Saí de nariz encarnado e feliz como só um parvo encartado consegue. 

Almoços Grátis. série 3 [1]

Passaram outra vez dois anos até lá voltar. Parecia ter tudo mudado estando tudo na mesma. Toalhas de pano com uma tonalidade rosácea, guardanapos cor de sangue, pratos verde pálido, copos roxos como que a querer disfarçar venenos novos. Uma paleta anunciando um arco-irís de sentimentos contraditórios. O faqueiro também era diferente, o garfo apresentava um inequívoco formato de forquilha, facas sem bico tentando simular suavidade e o contorno das colheres a esboçar a translação do astro que nos calhou na rifa. Nenhum músculo externo de L. deu sinal de vida quando me olhou pela primeira vez. Dos músculos internos não sei o que dizer. Comi costeletinhas de borrego, sem molhos, sem saladas, sem acompanhamentos, sem merdas que pudessem disfarçar qualquer porra que lá tivessem metido e que me pudesse dar cabo das glândulas. Quando pedi a conta, veio um empregado novo, bem parecido, a brilhar como que saído dum masterchef, trazendo-me um bilhetinho decorado com papoilas: «para ti é sempre à borla». Procurei o olhar dela à saída mas o que encontrei foi apenas uma silhueta encostada ao balcão. Vou pensar que me está a evitar. Evitar é sempre melhor que desprezar. Se não podemos ter esperança resta-nos a ignorância.

Back to Basics



A fé constitui aquela adesão pessoal – que engloba todas nossas faculdades – à revelação do amor gratuito e «apaixonado» que Deus tem por nós e que se manifesta plenamente em Jesus Cristo

In Mensagem do Papa Bento XVI para a Quaresma de 2013

ringelblumen


Koloman Moser

vai-se a ver é carolina herrera


Os nuestros hermanos, que não podem ver nada, na impossibilidade de arranjarem um consultor da onu porque são fracos em línguas, desencantaram um tal de Mulas Granados - que por acaso terá participado num tal de estudo do FMI - que escrevia artigos sob pseudónimo numa tal de fundação. Convenhamos que se esforçaram, mas não é nada que se pareça com o nosso baptista da silva. Aguarda-se agora a divulgação da marca da mala que vão oferecer às suas pepas xavieres.

alô, fala dos mercados?

Seguindo os sábios conselhos dum ex-membro da confraria do bacalhau e consultor pro bono da ONU o governo requereu o alargamento do prazo de pagamento da dívida pública, já só falta Gaspar dar uma mala Chanel a cada pensionista para apaziguar o tribunal constitucional e tudo voltará à normalidade.

dou-vos um mandamento novo


Nós somos aquele país que acaba o ano com um baptista da silva e começa o seguinte logo com uma pepa xavier. Por outro lado, não satisfeito com o tsunicómio criado há uns meses atrás, o governo mete moeda e saca dum relatório efemirizado, revelando que afinal se consegue voltar ao Estado equilibrado de salazar e caetano ( esta expressão continua a ser bastante boa, que fazer) sem precisar de pôr ninguém no tarrafal desde que uns quantos se contentem em ir viver para debaixo das pontes. Como democrata evoluído estou completamente de acordo com tudo desde que não me calhe. Como regra, o democrata evoluído deve pensar apenas nos seus interesses e por duas ordens de razões: a) somos os melhores a saber os nossos interesses (isto faz parte da evolução, por exemplo no tempo do Estado de Salazar e Caetano eram eles quem sabiam o que era o melhor para nós); b) não devemos ajuizar dos interesses dos outros porque nos podemos enganar (enganarmo-nos faz parte da evolução, antes praticamente ninguém se enganava porque morria relativamente cedo). Esclarecida a minha posição, serve o presente apenas para declarar que se deus nosso senhor me proteger presentemente prometerei votar pelo bem comum nas próximas eleições.

A Fiscalização Sucessiva


A Magna Carta

Marília e Maurício, após dois anos de namoro oficial marcado por uma oscilação programada entre momentos de parcimónia hormonal e de exaltação erótica, decidiram aderir a uma fórmula histórica e sociologicamente testada com relativo sucesso logístico por uma longa série de gerações de alegados descendentes de Eva e decidiram-se casar em detrimento de outras soluções antropologicamente válidas como a escravatura sexual ou a promiscuidade.

Bem e mal alertados por gente com boas e más experiências dotados de boas e más intenções, decidiram de mútuo acordo, passe a redundância, estabelecer, conceber, redigir, assinar e registar uma 'Carta Conjugal' que enquadrasse a sua futura relação matrimoniosa; seria um documento com óbvios efeitos internos no casal mas também com relevância para terceiros, sabido hoje que todos os terceiros são incluídos, ao contrário do que poderia transparecer dalgumas leis da lógica simplificativa.

Foi num dia de chuva molha-parvos que se dirigiram a um notário ali às Avenidas Novas, curiosamente especializado em testamentos para toureiros e em divórcios derivados do exercício de prepotência sexual feminina, a fim de deixarem solenemente registado o documento que lhes haveria de constitucionalizar os direitos, liberdades e garantias matrimoniais.

 Como enquadramento geral sabe-se que Marília tinha um rico historial de assédio, ou nalguns casos mero encosto exploratório, por parte de homens de bom porte, enquanto Maurício se arrastara com algum sucesso lúdico por ambientes de marginalidade sexual onde se privilegiava uma espécie de blitzkrieg erótico, também conhecido por orgasmo rápido.  

 Apesar deste documento não ter como objectivo a mera calendarização de actos sexuais e peri-sexuais , tanto na sua quantidade como qualidade ( daqueles que dão origem ao célebre e pitoresco : «eu cá fodo às quintas, quem está, está ») seria incontornável que estes fossem minimamente aflorados nesta forma contratual. Contudo, o corpo desta ´Carta Conjugal' afastava-se dum mero acordo pré-nupcial e visava essencialmente estabelecer qual o lugar dos valores fundamentais da mátria conjugal, como sejam o amor, o sexo, o carinho, a esfera íntima , a partilha obrigatória e a facultativa, a reprodução, entre muitos outros, e, não poderia faltar, a definição das circunscrições principais para as fidelidades, os excessos e os plafonds de recusa e rejeição.

 Tentando não causar escândalo nem embaraço na leitura notarial e pública do documento, nos artigos em que se regulamentavam as práticas de sexualidade mais recreativa tentou-se utilizar uma linguagem que, sem deixar de ser objectiva e isenta de ambiguidades, pudesse assinalar alguma motivação poética-cientifica subjacente. Assim, podiam encontrar-se normas que se referiam ao «botão de rosa plantado no ribeiro do Vale da Nádega da mulher», ou à «polpa do grande labial da consorte», como também tudo o que relacionasse a «suprema vaginalidade feminina» com a «sumarenta língua do parceiro», chegando até a referir-se que «a geometria da cópula deverá ser escolhida em regime de permanente alternância». Enfim, todo o articulado tinha de estar ao serviço do sucesso do Acto Único Conjugal que se pretendera regulamentar, sempre sem descurar a tradição historico-jurídica em que estava inserido.

 Uma das salvaguardas importantes da Carta Conjugal foi aquela em que Marília e Maurício assumiram que o serviço sexual subjacente à sua relação era tendencialmente gratuito, ou seja, tudo deveria ser feito de molde a que não houvesse ocasião para cobranças excessivas em nenhum caso, inclusive nas práticas mais arrojadas que fossem permitidas ao parceiro, nem, por isso, nas experiências efectuadas por qualquer deles fora do Serviço Matrimonial de Sexo (SMS), ou seja, nos chamados Sub-sistemas privados de Pulo da Cerca.

Outro dos capítulos mais importantes deste documento fundamental era o que dizia respeito às amizades que extravasassem a mera cordialidade social e profissional convencional.  Ficaram definidas as «zonas possíveis para o contacto físico» com terceiros que não parentes de 1º grau ( foram assim excluídos todos os pontos que se enquadravam no conceito de 'extremidade', designadamente falanginhas e falangetas, narizes, orelhas, pilas, joelhos, mamilos, calcanhares e cotovelos - o rabo considerou-se subentendido) , o grau de «isolamento permitido» (a pessoa mais próxima em isolamento não poderia estar a mais de 2 metros de alcance do olhar) e a duração destes «encontros em isolamento legal» ( meia hora foi considerado o limite de tempo para temperaturas abaixo dos 18 graus, mas acima desta temperatura ambiente só eram permitidos encontros em isolamento com duração abaixo dos 5 minutos); quanto ao local dos encontros em isolamento legal com terceiros era dada mais abertura (desde que respeitadas as normas antes referidas) mas fora de qualquer possibilidade estavam locais onde se constatasse a instalação, de forma temporária ou permanente, de peças de mobiliário que permitissem o apoio de braços ou pernas ou até o aconchego lombar, e muito menos adereços com propriedades dissimulatórias, como biombos, cortinados, mesas de camilha ou cobertores de lã escocesa.

Uma das zonas de regulamentação essencial é que a consagrava os princípios da igualdade. Marília e Maurício tinham direito a tratamento igual em situações iguais, isso estava expresso sem deixar margem para dúvidas. No entanto, não seria possível escamotear a existência de diferenças estruturais e a sua consequência não poderia ficar exposta às arbitrariedades das circunstâncias. Assim, se a altura mínima duma saia de Marília podia ser regulada, o mesmo já não faria sentido para Maurício que, dessa forma, teve de transigir numa limitação relativa à abertura das suas camisas, que assim ficou limitada ao segundo botão, qualquer que fosse a moda vigente.  Houve, no entanto, total liberdade para o branqueamento de dentes, o que acabou por permitir a Marília a utilização de implantes ou alavancas mamárias, sem que para tal fosse necessário reunir o Conselho de Concertação Glandular.

Tratava-se dum documento longo, elaborado com cuidado, sem excessos burkânicos e num equilíbrio balanceado de precisão e abrangência que, por exemplo, não interferia na imaginação de cada consorte, que assim poderia perfeitamente estar a pensar no vizinho de baixo enquanto se banqueteava nos entrecostos do parceiro, da mesma forma que um rico pode pagar os seus impostos progressivos com boa cara enquanto chama cabrão aos pobres, mas não poderemos aqui apresentar toda a amplitude ou alcance desse documento de uma riqueza inquestionável.

No entanto, um importante elemento adicional terá de ser referido. Nele ficou instituída a existência - competências e modus operandi - do 'Tribunal Conjugal', um orgão que deliberaria sobre todas as situações controversas que se colocassem e que exigissem a sua análise à luz do texto - letra, pontuação e espírito  - da 'Carta Conjugal'.

Esse Tribunal era composto por 13 membros, a saber: um pater famílias condom-free, um solteirão militante, um libertino com provas dadas, uma divorciada ressabiada, um encornado assumido, uma viúva alegre, um ou uma encalhada, uma mal-fodida, um frustrado não psicótico, uma avozinha especialista em tricot, uma padreca da igreja evangelista, uma fêmea do modelo sempre-em-prenhe, e um membro dos casais empenhados de uma paróquia do diocese do Fundão.

O Caso

Raimundo fora um dos namorados mais esmerados e entusiásticos de Marília e nunca se conformara com o seu enlace com Maurício. Depois do casamento destes arrastou-se pelas sarjetas do costume (psiquiatras, bordeis, vodka, amigas conselheiras e feias, amigas conselheiras e boazonas, pornografia cara e barata, bolo de chocolate e séries da fox) até que caiu em si , pôs mãos à obra e foi estudar Direito de 'Carta Conjugal'.

Entretanto a vida de Marília e Maurício lá ia correndo dentro da tramitação normal, com uma ou outra ida periódica ao Tribunal Conjugal para esclarecimento de situações concretas que iam aparecendo, das quais se destacam uma ida de Maurício às putas em Ibiza enquanto Marília bebia Ponche com um amigo do infantário, uma exigência de fellatio no aniversário da 1ª comunhão de Marília e a utilização por parte desta duma máscara de Margaret Tatcher durante uma sessão em posição de missionário (como retaliação a um preservativo com sabor a sardinha) e que foram resolvidas com inteligência persuasória e equilíbrio por parte dos Juízes, o mesmo já não acontecendo numa situação  concreta em que Marília quis passar um fim de semana romântico-a-dois em Veneza, enquanto Maurício queira ia jogar bridge para Albufeira, tendo acabado os dois, depois duma decisão controversa e de índole salomónica do Colectivo, a fazer canoagem na barragem da Aguieira.

Já profundo conhecedor de todos os meandros do Direito da Carta, Raimundo ficou à espera duma oportunidade para testar a adequabilidade constitucional do comportamento do casal.  A ocasião apresentou-se quando um belo dia Maurício tentou sacar de Marília uma repetição da kamasutrica posição retro-quadrípede como compensação de um cunnilingus efectuado depois de uma copiosa derrota do seu clube de futebol. Marília, já de joelhos amassados,  insurgiu-se de imediato com esta fria contabilidade do parceiro, mas quando, por inércia, já estava quase a consentir sem exigir a fiscalização preventiva do acto, recebe um sms de Raimundo a propor-lhe um pequeno almoço na Baixa ao abrigo da regra de excepção consagrada na 2ª Emenda do 'Acordo Conjugal' designada na gíria constitucional como 'brunch without broche'.

Aí se encontraram, relembrando velhos tempos de uma frescura irrecuperável e acabou por ser inevitável o desabafo de Marília. Assim, e entre um croissant misto e uma meia de leite (Raimundo tinha apenas pedido um pingado), chegaram à conclusão que estavam reunidas as condições para a fiscalização sucessiva da conjugostitucionalidade de certas e determinadas práticas reiteradas de Maurício. Raimundo emitiu um parecer, fazendo inclusivamente referências eruditas às Memórias de Adriano e às famosas 'punhetas de roth' (como na gíria do Direito da Carta Conjugal  é conhecida a possibilidade de denúncia do contrato matrimonial quando uma das partes utiliza a auto-gratificação solitária como escape privilegiado da frustração de expectativas), no qual dava bastantes argumentos ao Tribunal Conjugal para determinar da prática de repetidos comportamentos anti-conjugostitucionais por parte de Maurício e que configuravam um inequívoco e irreparável desrespeito pela Lei Fundamental da Conjugalidade.

Raimundo já esfregava as mãos e fazia povoar os seus sonhos com noites escaldantes na companhia do espírito de Marília e das respectivas carnes, quando sai o Acordão com uma decisão inesperada e, no mínimo, controversa. Este estabelecia que o que devia prevalecer era o Primado do Amor e da Estabilidade. Desde que o binómio «lubrificação e intumescência» se mantivesse e desde que em paralelo existissem meios económicos e biológicos para garantir a reciprocidade de gratificação, o contrato matrimonial não poderia ser desfeito pela via conjugostitucional.

E foi assim que Raimundo rapidamente passou de mãos esfregadas a mãos a abanar, e frustrada a fiscalização sucessiva dedicou-se ao voyeurismo constitucional: mais ejaculação, menos ejaculação, nada lhe dava mais tesão que colocar Marília em tentação e Maurício em exasperação.

anda, caralho


Apesar de não possuir caderneta profissional de terapeuta julgo que todos, numa aproximação imperfeita ao Mandamento do Senhor, temos a obrigação de proporcionar ao próximo um mínimo de condições para que ele extravase a sua raiva interior e que o faça da forma mais benigna para os que o rodeiam. Este é o ponto, e é um ponto bonito, na minha maneira de ver.

Um dos locais de eleição para esse transvase de bílis é do conhecimento de todos: o trânsito. Não irei discorrer sobre o tema em teoria, ele já está tratado seja por especialistas, seja por curiosos, seja por amantes da opinião livre em geral e da badalhoquice em particular.

A forma que escolhi para cumprir este mandamento na sua versão terapêutica foi atrasar-me ligeiramente a arrancar ao sinal verde, proporcionando assim ao condutor de trás momentos de verdadeiro êxtase de raiva e ódio sobre mim expelidos de forma concentrada, mas sempre devidamente controlada e confinada no espaço.

A fórmula de escape terapeutico que tenho assistido com mais frequência e que me parece de resultados mais imediatos é um «anda, caralho», dito apenas com um ligeiro arregalar de olhos e um levantar das maçãs do rosto que muitas vezes evidencia duas rugas laterais de belo efeito em caucasianas sem maqulhagem excessiva. Na maioria das situações este movimento terapêutico atinge-se com um mero atraso-de-arranque de 1,5  segundos mas já encontrei casos desesperados de reacção aos 6 décimos de segundo.

Um segundo modelo de intervenção é aquele que tem associado o formato de impropério simples:  «foda-se, arranca!». Dado o grande potencial de dinamização económica que tem associado, geralmente é adequado a pessoas com uma intervenção cívica relevante e que se preocupam realmente com o estado das contas nacionais, deficits e espirais recessivas. Por regra, esta fórmula terapêutica deve vir acompanhada com aquele movimento de braços que numa primeira fase se afastam em leque do volante para depois nele aterrarem com veemência  recolocando-se em posição de ataque ao semáforo e ao carro da frente (o terapeuta - eu) . Grandes oscilações de pescoço já não são necessariamente observadas nestas ocasiões, e como se seguem arranques rápidos a terapia conclui-se sem efeitos secundários. Já acompanhei pacientes que depois do arranque chegam mesmo a conseguir bufar duas ou três vezes o que é altamente recomendável desde que não embacie.

Uma outra técnica terapêutica que também aconselho é a que está associada a sinais de amarelo intermitente. Atrasar o arranque acima dos 2 segundos em bastantes destas situações consegue proporcionar ao nosso cliente do carro de trás aquele movimento para trás com a cabeça e olhos no zénite e que, com jeitinho e paciência, conseguimos que ainda esboce um «merda, mexe-te, merda». Se repararmos, este impropério terapêutico é de enorme potencial pois não só permite a irritação adicional de ter de dizer desenroladamente 3 émes seguidos, sendo que um deles é um verbo, e ainda para mais é uma frase capicua, o que nalguns espíritos mais escrupulosos adiciona bastante valor-de-exasperação.

É evidente que - e os leitores mais atentos e conhecedores certamente já terão pensado neste reparo - nem sempre a terapia termina nem esgota com o mero atraso de arranque seguido de impropério de ódio dirigido contra certos-incertos. É preciso garantir que se segue um alívio e esse alívio tem de ser muitas vezes concretizado com expressões em surdina como «não tens nada para fazer, cabrão», ou «é por causa destes cabrões que isto não anda para a frente», ou mesmo até um «país de conas é o que isto é» (as generalizações em certas sessões terapeuticas podem ser bastante apropriadas). E é nestes momentos que o terapeuta que todos temos dentro de nós se deve sentir realizado.
Mais realizado que isto só mesmo hoje a seguir ao almoço quando uma miúda bem gira do pescoço cima, ali num semáforo às Amoreiras, depois de lhe ter atrasado um arranque em coisa de mais de 1,45 segundos, lhe consegui sacar um «fode-me assim outra vez, meu amor, fode», com sopradela de franja e tudo. São estas coisas gratificantes que nos ficam. Nem passei factura, que Deus me perdoe.