Com um deus distante e uma fé invernosa escolheu o seu
deserto interior para refúgio maldito. Mau conselheiro de si próprio mas
desconfiado do conselho de alheio, entregou-se a memórias vagas e recalcamentos
persistentes, desatou os nós que trazia no estômago e esperou pela pancada.
Veio ao terceiro dia, como uma ressurreição pagã, disfarçada de dor de
garganta, pois tudo que vale a pena precisa da dor para ter dignidade. Agarrado
pelas entranhas superiores perdeu-se em divagações sobre a culpa e o destino, a
sorte e a má sorte, o reconhecimento e a incompreensão. Estava no consolo que
toda a ingratidão propicia quando um Espírito Santo sem orelha lhe sussurrou
duas verdades de demonstração inacessível para o seu grau de sofisticação no
momento. Forçado a crer como alternativa viável, aconchegou-se naquele prazer
demoníaco que é todo o desprezo pelo que nos rodeia e soltou a língua em forma
de avé-maria sem graça. Recolhido na oração dos simples, deixou o coração
divagar pelos pecados que nunca tinha cometido, mas que lhe tinham sido
prometidos pela imaginação em estado de flor, e ruminou uma contrição de
circunstância abrilhantada por dois toques em solavanco por um peito ainda em
posição de pós insuflação arrítmica. Caçado pelo cruel predador que é a solidão
imposta, um felino que nem sequer mija por onde passa, deixou-lhe as feridas
para lamber, qual retalhista de almas para chulos montados em estofos de pele. Com o
arrependimento a aproximar-se em pezinhos de lã, deu duas voltas à goela
embebida em conhaque e suspirou como só um grande falso incompreendido sabe
fazer. Coladas as bem-aventuranças com cuspo, citado o filho pródigo como quem
limpa o rabo a meninos, e enfiadas duas bojardas evangélicas ao ritmo de quem
cose uma gengiva, ei-lo com o espelho da alma bem espetado nos cornos, verdadeiros talentos à espera de parábola. Nem pestanejou. Abriu os olhos com
a rapidez e a precisão duma vítima furtiva e pôs-se na mira do anjo da guarda.
O grande mar vermelho abriu-se outra vez para a sua passagem e quando chegou ao
outro lado abraçou um novo verão de promissórias várias, montado numa cavalgadura
de tentações de fazer chorar qualquer menino jesus devidamente recenseado. Cada Estio deve ter direito à sua caverna invernosa.
Ali Bábá e os quatro-mil-milhões
Quando Gaspar descobriu que na caverna do estado social
estavam escondidos quatemimnhões foi a correr contar a Passos.
- E como é que lá
entramos?
- 'Abre-te selassié',
acho que é a senha, e se lá conseguirmos entrar vai ser canja pormos as mãos
nos quatemimnhões!
- Achas que não vai estar lá mais ninguém?
- Vamos num dia em que haja manifestações!
Gaspar e Passos esfregavam já as mãos com a imagem de um
pote cheio de quatemimnhões quando lhes apareceu Portas a dizer que também
queria ter uma palavra a dizer sobre os quatemimnhões.
- Mas tu não sabes qual é a senha! - rematou logo Gaspar.
- Sei sissinhora, é:
'Abre-te Lagarde'!
- Não é, Toma! E essa só manda no departamento de bijutaria
e marroquinaria e os quatemimnhões são despesas sociais.
- Então vou perguntar ao Bagão Felix e ele diz-me a senha
- Ora, ora, espertinho, a senha já não é a mesma, ehehe,
pensas o quê!?
Portas irritado manda chamar Mota Soares.
- Mota, então não eras tu o dono do estado social, porra!?
Mandei-te para lá e agora deixaste mudar a senha e perdemos o controlo à coisa!
- Chefe, desde que descobriram que estavam lá os
quatemimnhões andam todos fechados em copas e a fazer panelinha com o selassié
- Sabes o número desse gajo?
- Não, ele liga-me sempre dum anónimo
- Cabrão...e agora fazemos o quê?
- Sei lá, olha, para já pomos o puto-almeida a esbracejar e depois
logo se vê
Entretanto Gaspar e Passos foram para a porta do estado
social e começaram a dizer baixinho:
- Abre-te selassié, abre-te selassié...
E então, num movimento lento e majestoso, as portas blindadas
do estado social abrem-se de par em par e eis que um tesoiro exuberante,
doirado e resplandecente de subsídios de desemprego e pensões de reforma lhes aparece a tilintar
e luzir.
- Meu Deus, tanta riqueza?! Já viste ali aquela pensão de
viúva? Linda de morrer!? e aquele subsídio de funeral!? Que jóia...
- Sim, Gaspar, sim, deslumbrante, e olha ali para aquela
bolsa de estudo! Parece um pergaminho raro!
- Estava aqui um pote de quatemimnhões e nós nem sabíamos!
- Olha, começa a meter no saco aqueles abonos de familia que
estão todos espalhados e ainda podem voar com a corrente de ar
- E cheiram tão bem...são uma autêntica especiaria social
- Não sejas depravado, Gaspar, não é para brincares com
isso!
- Ao menos deixa-me ficar só esta noite com uma taxa
moderadora, para brincar com ela, vá lá, depois amanhã eu trago
- Sim, mas não digas nada ao Macedo, que o gajo é invejoso,
e ainda vai querer meter a unha nos nossos quatemimnhões!
- Nada disso, os quateminhões são nossos! Fomos nós que os
descobrimos!
- Sim! Credo, já viste, nem pensar, com os nossos quatemimnhões
ninguém brinca...Eu sou o número dois, não sou?...
- Claro, Gaspar, meu rei mago, tu és o meu número dois, pronto.
- E mais ninguém vai saber do nosso segredo, pois não,
número um?
- Não, ninguém!
- Nem o Marques Mendes?
- Não...
- Humm...quatemimnhões só para nós e para os nossos modelos
escanzelométricos, nham, nham.
Etiquetas:
La vie au Rachat
the dark side of the wool #n+k+l
Um dia o pastor enquanto tosquiva uma ovelha descobriu uma
moeda dobrada no meio da lã. Olhou à volta e no cimo de um monte viu o lobo a
rir-se atrapalhado e com um dente partido. Depois virou-se para o lado da planície
e viu o fiel cão com o seu mealheiro ao pescoço. Fez-lhe uma festa rápida e
tirou-lho. Já se preparava para o abrir e contar as moedas quando constatou que
tinha lá inscrito em tempos: nem tudo o que é fofo é lã.
Etiquetas:
Dark side of the wool
Dead Can Dance II
Uma das principais conquistas do novo Purgatório-social é
que Deus Nosso Senhor doravante apenas terá acesso ao visionamento das nossas
vidas depois de criteriosamente editadas. Enquanto antes nos apresentávamos ao
Criador e seus acólitos de forma bruta, desde a refundação do Purgatório que
temos direito a pequenos ajustes efectuados por anjos especializados em limar
as arestas do pecado. Muito boa gente hoje ainda amocha anos e anos à espera duma
vaga no Céu porque pura e simplesmente ninguém teve o cuidado de cortar
pedacinhos sem importância da sua passagem por este degredo de Eva, muitos
deles até certamente apenas pequenas distracções ou mesmo meras manifestação de
respeito perante tentações que se apresentavam generosas e determinadas. Todos
sabemos perfeitamente que mudar um enquadramento ou desfocar um ou outro plano
são suficientes para transformar momentos de natureza mais duvidosa da nossa
vida em meras circunstancias de confraternização e formas alternativas de viver
alguns dos mandamentos, certamente apreciadas pela corte de Anjos, sempre ciosa
de confirmar as nossas performances proselitistas; ora não há conversão sem
contacto, como é sobejamente reconhecido. A edição de vidas para efeitos de
visionamento e apuramento de responsabilidades morais é assim uma das
principais conquistas do pecador moderno e deverá ser salvaguardada, sem
quaisquer compromissos com arrivismos de escrupulosos ou puritanos de ocasião.
Dead Can Dance
Deus, como seria de esperar, olha para nós com curiosidade
divina. A curiosidade divina consiste numa espécie de auto-redenção do criador
que recebe o homem-feito-deus e lhe administra a eternidade chave-na-mão com
uma paciência infinita. Mas o homem há muito que pôs Deus na borda do prato (há
quem diga que é o local onde guardamos o que gostamos mais para depois degustar
com cuidado) e Ele teve de reestruturar o Purgatório face à nova realidade
religiosa. Podemos chamar a este novo local, para utilizar uma terminologia d'época:
o Purgatório-social. A meio caminho entre a eternidade-ameaça e a
eternidade-protecção este novo purgatório tem apenas para fornecer aos penitentes
os serviços mínimos de penitência e adoração. A comissão instaladora definiu
assim as suas funções: garantir apenas que perceberam a merda que fizeram e a
merda que deixaram por fazer. Ou seja, deixamos de ter a possibilidade de
vislumbrar antecipadamente a experiência de O ver face a face, mas por outro
lado também não nos consumimos demasiado com a pecadilhada que distribuímos
enquanto por aqui andámos. O novo Purgatório-social permitirá que nos
habituemos mais gradualmente à nossa nova condição de mortos-pendentes do Juízo
Final e que mantenhamos as virtudes teologais a um nível que nem envergonhe os
santos nem desespere mais os que ficaram entalados noutros braseiros. Revistos
os serviços mínimos deste Purgatório livre de expectativas que a fé de um
penitente moderno já não consegue acompanhar, restam-nos agora uns quantos
séculos de misericordiodependência e , quanto muito, um ou outro período de
graças gordas.
A sexta avaliação
Carlos Fontes estava ansioso naquela terça-feira que
arrancou com uma desconsoladora neblina. Iria estar com Luísa pela sexta vez e
dos outros encontros não conseguira retirar um percurso, uma casualidade de
emoções, reacções, suspiros ou sequer sorrisos, um love path. Cada encontro era um universo
novo a descobrir, nem sequer percebia se se daria uma translação ou uma mera
rotação, nos momentos que estiveram juntos o tempo parecera-lhe saído da cauda dum cometa desgovernado. Umas vezes faladora e expansiva, noutras circunspecta, em momentos
lúcida e racional, noutros lúdica e enigmática. E como seria que ela o veria? Nunca
conseguira perceber. Cada abraço era um exame, o simples olhar dela era uma
cirurgia, cada carícia uma ecografia, cada beijo fugaz era saboreado como se
duma ressonância magnética se tratasse. Desta vez encontraram-se num pastelaria
de bairro junto a uma praça quase vazia duma zona antiga da cidade. Luísa
apresentou-se calada e na expectativa. Parecia querer fazer do seu silêncio uma
bancada de laboratório onde ele se teria de deitar para observação. Será que o
verdadeiro teste a um homem é quando uma mulher se deixa ficar calada? Foi este
o pensamento que o arrebatou imediatamente. Mas Carlos sentia-se um grande
polidor do silêncio feminino e encarou aquela sexta avaliação como uma
oportunidade de a conquistar irreversivelmente, de a cobrir com uma patine de
sensualidade que a deixaria brilhante, como uma santa queirosiana de colo
ebúrneo e trança de oiro. Quando ela esboçou a primeira intenção de falar ele
chamou o indicador à frente de batalha e traçou-lhe os lábios, ainda
ressequidos mas já carnudos e puníceos, como numa benção pagã, preparando um
ritual de palavras ternas, doces. O silêncio de Luisa seria coberto por uma
manta de sussurros, qual paramentária de pentecostes, rubra e festiva,
eloquente, como só eloquente consegue ser um homem que ama sem razões. Deixou-a
sem fala, presa num torpor de encantamentos inesperados e pronta para lhe
fornecer o seu amor em tranches voluptuosas e ardentes, que ele trincaria
reverberando uma constelação de estrelas. Serás o cobridor do meu silêncio, Amor,
foi este o seu relatório, austero, mas digno duma rainha das palavras difíceis, dos sentimentos escondidos e das carências amarguradas.
À espera de Murphy
Não há muito tempo o blog 'dias felizes' (hoje com outro
nome não menos beckettiano) numa série de 'aforismos naturais' (melhor que o
natural só mesmo aquele com pedaços de frutas silvestres) escreveu: «Não se
deve esperar muito de um feitio que balança entre o ensimesmado e o trocista».
Dos vários garruços que pulularam de imediato à minha volta quando li aquilo,
praticamente todos me assentaram que nem uma luva feita à medida, no entanto
não comentei a descoberta com ninguém, não fosse deixar a descoberto a minha
careca de gajo-do-qual-não-se-pode-esperar-grande coisa. Retive no meu
ensimesmamento (que tem tanto de estéril quando de oportuno) a consciência de
grande inútil e trocei (na medida do possível) comigo próprio naquela base de
que antes estar quieto que estragar, pois antes um murphy na mão que dois
godots a voar.
valha-nos nossa senhora da emasculada conceptualização
Senhores de uma pívia intelectual de bom porte os
novos-sábios vieram tomar o lugar dos novos-ricos. Aparentemente tudo apontaria
para que ficassemos mal servidos. Mas até não. A energia que antes fazia
desabrochar fábriquetas de peúgas e tshirts, se bem que algumas de duvidoso
porte vindas do grande maná da esperteza saloia, hoje dá à luz dondocas de salão
de chá não dançante com o pomposo nome de comentadores. Gente incapaz de
produzir um mínimo de riqueza que se possa apalpar com dedos de gente, (aquilo
que agora a gíria chama de bens transaccionáveis) encaixou-se na fresta dos grandes
bordéis do pensamento e fez nascer o novo cluster dos entertaineres de opinião,
opinioristas praticamente de cédula garantida e com rodado preparado para
qualquer tipo de piso. Mas o facto é que dalguma forma houve bom time to market
nesta decisão dos mediamakers. Os canais generalistas têm novelas, reality
shows e um ou outro concurso, e os canais de notícias fazem a festa com estes banality
shows, permitindo até a alguns dos artistas-da-opinião saltarem de canal em
canal para que ninguém se fique a rir. A chamada opinião livre está para a
sociedade livre como o tremoço está para as terras cansadas. Ou seja, para o
povo relaxar da ficção redundante ou da notícia anestesiante, os media fornecem
um entretenimento que propicia algum fôlego benigno, algo que também dá muito
boa serventia enquanto se passa a ropinha da máquina da lavar para a de secar,
e que se pode ir desbastando sem comprometer nenhuma colheita essencial; não
chega a dar sombrinha mas também não dá guarida a nenhum pássaro que acabe por
nos cagar em cima. Ou seja, os opinioristas revelam-se não tanto os exemplares
menores da caderneta da liberdade de expressão, mas antes os grandes guardiões
do pensamento inerte, verdadeiras pílulas do nem-aquece-nem-arrefece,
ventiladores de baixo custo e brisa morna garantida. Estes retalhistas do
pensamento livram-nos da conceptualização cartelizada dos grossistas das academias e da erudição, e permitem-nos aceder à eterna graça que é esterilidade do raciocínio
humano, consolidando-se como uma das bem-aventuranças dos tempos modernos em
que o melhor que se pode fazer com uma notícia é tricot e, vá, um ou outro
crochet decorativo para consciências em estado cívico.
blocogamia
De todos os grandes temas do momento, designadamente, o
video-do-marcelo, as declarações-da-jonet, a visita-da-angela-doroteia, e o
novo casal-do-bloco, apenas este último me parece de real importância. Não se
trata, como aparentemente se poderia supor, de uma liderança bicéfala, (aliás,
é até aos homens, isoladamente considerados, a quem geralmente é atribuída essa
qualidade de pensar com duas cabeças) trata-se antes, e numa primeira análise, de uma tentativa de
re-hormonização do poder. Face à carga erótica que geralmente está acometida a
qualquer liderança, o bloco de esquerda enveredou por dessexualizar o exercício
do poder e fê-lo precisamente: sexualizando-o. Face à herança hermafrodita de
Louçã não seria fácil encontrar uma solução que não esta de amancebar heterosexualmente dois
espíritos de esquerda num único casulo trotskista. E é assim que se traz para o
maravilhoso mundo da termodinâmica homem-mulher uma nova e empolgante categoria. Face
a relações menos ortodoxas entre um homem e uma mulher, que geralmente dão
origem às explicações tipo: a) ah, são apenas amigos; b) ah, são apenas sócios
num negócio; d) ah, têm apenas os filhos no mesmo colégio; e) ah, foram apenas
colegas desde o infantário; f) ah, apenas tiram fotografias juntos; g) ah, são
apenas vizinhos, junta-se agora o h) ah, são apenas co-líderes. A co-liderança
é, assim, uma relação meta-sexual em que tudo funciona em vasos comunicantes,
sendo que a troca de fluidos é substituída por uma comunhão de ideais de
esquerda partisanica, também conhecidos como trostkosterona. Esta hormona revolucionária, produzida pelas
glândulas quando funcionam em bloco, é a responsável pela orientação do organismo
para todas as causas desfavorecidas, permitindo-lhe a adesão à polémica
incontinente e à abolição de todas as indulgências aos consagrados. Assim, o
bloco-casal (que enche um chouriço diferente da sicasal) tem ao seu alcance
proporcionar todo um tipo de sensações de libertação e empatia com o mundo em
geral até hoje apenas verificáveis em ambientes de espiritismo ou amor livre, mas agora numa confluência de energias propiciadora de revolução, serenidade e compreensão mútua.
Deixo então aqui, aquele que será o novo hino do bloco, numa
adaptação do êxito de Lara Li ('Telepatia')
Blocogamia, revolução e calma,
Feitiçaria na nossa alma
Passo a passo, sem ter medo
Abrímos, soltámos o nosso segredo
E a sorrir, devorámos o mundo
Num abraço tão profundo.
Feitiçaria na nossa alma
Passo a passo, sem ter medo
Abrímos, soltámos o nosso segredo
E a sorrir, devorámos o mundo
Num abraço tão profundo.
a (refundação da) mulher de confiança #2 - a bota chelsea
Neste processo de minúcia que é a reforma profunda da mulher
portuguesa não devemos encolher-nos perante estigmas ou preconceitos de
qualquer espécie. Assim, ao 'diz-nos com quem andas dir-te-ei quem és» há que
juntar o, até mais óbvio e consensual, julgo,
'diz-me o que tens nos pés dir-te-ei como andas'. Se no primeiro
capítulo deste breve ensaio comecei pela cabeça, será agora de elementar
justiça dar cobertura à outra extremidade. O pé-de-mulher (conceito que se
situa nos antípodas do também familiar pé-de-atleta ) constitui-se não só como
um dos grandes mistérios do erotismo feminino mas principalmente na consagração
da mulher como o real sustentáculo duma sociedade em permanente volatilidade e
ciclomaníaca. Deixo desde já claro que não pretendo elaborar aqui nenhum libelo
contra modas como o salto ou o cano alto, mas antes reforçar aquilo que
constitui o núcleo de confiança que se pretende encontrar numa mulher: firmeza
e flexibilidade. A bota chelsea consegue concentrar estes dois atributos numa
economia de meios notável e, ainda para mais, deixando em aberto uma ampla gama
de soluções de nível estético que mantêm a mulher no pináculo da atracção sem
lhe atraiçoar o pudor, nem a respeitabilidade. Num notável equilibrismo de
forma, proporção e funcionalidade, a bota chelsea envolve o pé feminino sem que
este se perca num deslumbramento de subtileza ou numa ilusão de força, que deitariam
tudo a perder nessa missão essencial de transmitir confiança ao homem que cada
mulher leva pela mão, ou por qualquer outra ponta por onde se lhe pegue. Com a
imaginação e a insegurança masculina nas doses e temperos certos, o homem sabe
que tem na mulher-com-bota-chelsea, não uma vulgar bota de elástico, mas antes
uma companheira serena, segura, sóbria e sinuosa quanto baste, pois, como está
demonstrado, a curva feminina é tanto um lugar de derrapagem como de contorno
táctico.
Neste momento histórico de redefinição do papel da
mulher-junto-do-homem, quer ela se assuma mais mulher-previdência ou mais
mulher-desfrute, a discreta e eficiente bota chelsea é essencial não só para que não
se tenha de preocupar com as falhas na calçada portuguesa nem com os calos, mas
para que igualmente possa traçar a perna sem que o homem desvie a atenção para o que
é realmente providencial.
Etiquetas:
refundação da mulher
Lafayette & Talleyrand
A revolução em Portugal acabou por não conseguir gerar uma
mitologia decente e consistente. Se, por um lado, Soares ainda se aproximou do
brilho da liturgia aristocratico-revolucionária, dando cores persistentes à
primavera politica e construindo em seu torno uma película lafayettiana de esplendor e espontaneidade,
nada de jeito se produziu no outro extremo. Chegados à troikicidade do momento
olhamos à nossa volta e não encontramos nenhum grande calculista, nenhum grande
e perene manipulador de bastidores. Vários candidatos foram ficando pelo caminho
(marcelos, almeidas santos, jaimes gamas, angelos correias, etc) sem deixarem
nenhuma marca que não o episódio ou flirt irónico e conspirista. Chegados aqui
vemos que a revolução em Portugal não produziu nenhum Grande Cínico, alguém que
trouxesse no sangue a dissimulação em estado puro, um reflexivo obsessivo. E
que falta nos faz a existência desse pólo agregador de todas as forças da
especulação e do genuíno amor aos bastidores e aos cordelinhos. Fosse por
incompetência, por excesso de vaidade mediática ou por mera mesquinhez
genética, estamos órfãos desse talleyranico poder, e o país rumina pelos cantos sem descobrir nem
redenções nem conspirações que o salvem. Em nos ter falhado o poder mítico dum
cavaleiro andante e duma eminência parda estamos confiados a pardos andarilhos
de poder. Sempre com o picotado ao pescoço.
Etiquetas:
La vie au Rachat
aguentómetro
nível 1 - lembram-se
daquele tempo maravilhoso em que se discutia se o couvert devia ser pago em
separado?
nível 2 - lembram-se daquele tempo fantástico em que o
grande problema do mundo era o racismo na África do sul?
nível 3 - lembram-se daquele tempo em que a salazarenta ponte
25 de abril ficou bloqueada porque os camionistas não queriam pagar o aumento
das portagens?
nível 4 - lembram-se daquele tempo maravilhoso em que se era
a favor ou contra a invasão do Iraque?
nível 5 - lembram-se daqueles tempos em que evitávamos comer
carne de vaca por causa da espongifórmica?
nível 6 - lembram-se daquele tempo em que a principal
questão nacional era um problema técnico sobre o novo aeroporto: ou em cima das
estacas da Ota ou entre os sobreiros de Alcochete?
nível 7 - lembram-se daquele tempo maravilhoso em que o
engenheiro guterres não sabia calcular percentagens do pib?
nível 8 - lembram-se daquele tempo em que o sporting tinha
equipa de futebol?
nível 9 - lembram-se daqueles anos luminosos em que cavaco
comia bolo rei?
nível 10 - lembram-se quando estávamos de tanga?
Etiquetas:
La vie au Rachat
salafixologia
Ao contrário do que somos levados a pensar, o epíteto
«salazarento» , que alegadamente terá ofendido Gaspar, victor e ministro, não se deve tanto ao mobilizador ideológico-idiomático
'salazar', mas antes ao sufixo 'ento' que, com o aditivo do 'z' já possuído
pelo referido salazar nos conduz directamente a 'cinzento', cor interessante
para combinações mais clássicas no vestuário, mas que nos remete para um
universo de retrogradismo e bafio. Vejo assim que está ao nosso alcance definir
uma nova classificação semântica dos vários salazarixos. Observemos. Se utilizarmos
o 'salazarosa' podemos lograr injuriar a
preceito alguém que esteja próximo do lobi gay; se quisermos dizer que um
politico está com um discurso mortiço e cambaleante poderemos chamar-lhe um
'salazarombi'; se por acaso alguém entrar por um discurso decadente de vaidade
e bazófia poderemos utilizar o novel adjectivo 'salazarófia'; se pretendermos
desconsiderar alguém e as suas ideias julgo que a utilização de 'salazareco'
será de muito bom efeito. Por outro lado, ao nos depararmos com alguém que
esteja a misturar tudo, naquela onda de que está tudo ligado e que tudo é igual
a tudo, dará muito boa serventia a expressão achocolatada de 'salazarame', e se
nos aparecer algum artolas com um estilo de romancista chato e arrastado não
ficará mal de todo chamá-lo de 'salazarola', com emílio ou sem emílio. E então,
por último, e para ir jantar, se quisermos arranjar uma designação acutilante para
o que acabei de escrever, muito bem ficará chamar-lhe um post da salazareta.
Etiquetas:
La vie au Rachat
a (refundação da) mulher de confiança #1 - a bandelette
Qualquer homem num determinado momento da sua vida precisa
de ter uma mulher de confiança. Seja
qual for a posição formal que ocupe na sua vida (cuidado que as mães nunca são
de confiança) trata-se de alguém em que ele possa encontrar aquilo que não tem,
nem nunca terá, por força duma fatalidade que se dá pelo nome de natureza. A mulher, sem deixar de ser
também uma construção social e cultural, (como o homem, de resto, mas este menos)
encerra em si um pouco daquilo que apenas a religião consegue fornecer com
estilo, ou seja: o mistério. Apesar de Pessoa ter alertado para que «o único
mistério é haver quem pense no mistério», é impossível fugir à inegável
capacidade que a mulher tem em se constituir numa espécie de metafísica com
pernas ( e mais qualquer coisa de bónus). A mulher, ciente dessa sua
característica desde muito tenra idade, (mantendo-se, muitas delas, inclusive
tenras por muito tempo) tem uma forte tendência para lhe ir acrescentando
muitos outros atributos que acabam por diluir o papel peri-religioso que
recebeu das entranhas da criação. É assim para o homem uma tarefa de primordial
importância saber discernir de todas as mulheres que as circunstâncias lhe
colocaram no caminho, qual ou quais as que podem ser realmente a sua ponte, a
sua ligação ideal, a sua chave, a sua ignição. Como a mulher é extremamente
permeável às iconografias de camuflagem, isso acaba por permitir ao homem
construir uma espécie roteiro de decifra que funcione como descodificador de
bolso. É desses sinais (mutáveis e vulneráveis à dissimulação feminina, claro)
que aqui falarei, nestes momentos históricos em que se irá definir qual o tipo de mulher a que temos direito.
O primeiro que me parece consensual é o uso de bandelette. A gestão (da forma) do
cabelo é uma das principais rotas de definição do humano ( o animal, por exemplo, pode arranjar as unhas ou garras mas não se auto-penteia) e a mulher
forçosamente não consegue fugir a esse processo. Com maior ou menor consciência o seu penteado vai
transmitir aquilo que ela é, e, mais precisamente, é para o homem. Ora a
bandelette é um instrumento de eleição para a mulher emitir um sinal inequívoco
de que: tem a consciência de que é um ser-da-selva mas que se sabe controlar. A
mulher bandeletizada prova com esse adereço que saberá constitui-se num
acondicionador para o lado desregrado do homem e que saberá estar ao lado dele
quando for preciso atravessarem o rio, esteja ele cheio de predadores ou apenas com uma corrente mais forte. O homem poderá
confiar nela pois nunca deixará que o vento lhe leve o cabelo a tapar a vista, a mulher com bandelette nunca perderá a perspectiva, nunca se deixará ficar
presa em nenhum ângulo morto ou arame farpado. Por outro lado, a mulher-de-bandelette não vai
perder tempo a cortar franjas, a endireitar linhas de penteado nem a empinar caracóis (tendo até mais disponibilidade para empinar outras curvas),
será sempre uma mulher prática que não deixará o homem perder-se em divagações,
em pensamentos inúteis ou de uma futilidade castradora. A mulher de bandelette
não terá a tentação de soprar a cortina de franjas, será muito menos atreita a
usar rabo de cavalo (o enfeite mais enganador para o homem), e nunca deixará
avolumar em excesso o seu cabelo, ou seja, manterá a sua nobreza sempre
conservada num banho de sobriedade. Sendo a mulher bastante atreita às
limitações impostas pelas convenções sociais (muito mais que o homem) o uso da
bandelette evidenciará que ela é das que, compenetrada nessa sua histórica fragilidade,
saberá pôr o homem que confia nela acima de todas as luxúrias de condição ou liturgias de ilusória libertação.
Podemos, pois, afirmar com alguma segurança, e sem recorrer a discurso fácil ou de cassete, que uma mulher em estado-de-confiança provavelmente usará uma bandelette.
Podemos, pois, afirmar com alguma segurança, e sem recorrer a discurso fácil ou de cassete, que uma mulher em estado-de-confiança provavelmente usará uma bandelette.
Etiquetas:
refundação da mulher
Subscrever:
Mensagens (Atom)



