Windianápolis


Who has seen the wind?
Neither I nor you:
But when the leaves hang trembling,
The wind is passing through.

Who has seen the wind?
Neither you nor I:
But when the trees bow down their heads,
The wind is passing by.

Christina Rossetti, in «Who Has Seen the Wind?», The Complete Poems (Penguin Classics, 1993, p. 143)

Ó da Guarda


Face às várias espirais e cornucópias do momento (recessiva, depressiva e sodomitiva) o Reino dos Céus teve de reavaliar a sua ancestral estratégia para os Anjos da Guarda. Foi assim devidamente empossada pelos Arcanjos Miguel e Gabriel uma Comissão para a Análise do Papel do Anjo da Guarda Durante o Resgaste e elaborado o respectivo livro branco.
Deste documento irei destacar alguns excertos das conclusões que, dalguma forma, poderão dar uma iluminação a todos nós, designadamente no nosso posicionamento face ao oculto, o desconhecido, e a todos os modelos econométricos em geral, com ou sem projecção arenoso-ocular.

 « (...) Esta Comissão teve o cuidado de escrutinar os conteúdos programáticos vigentes desde as aparições em Fátima, por forma a calibrar o modelo de Anjo da Guarda de Portugal face aos novos dados, quer sejam eles o grau de desprezo pelo transcendente,  quer o nível oscilante de penetração do cagaço cósmico nas consciências mais materialistas, quer mesmo o facto de já não existirem azinheiras suficientes para a quantidade de contribuintes que sonham com a pastorícia mística ou outras (...)

(...) A existência dum único modelo de simulação de Anjos da Guarda para Portugal revela-se ineficiente pois  parece haver uma movimento axífugo nas ânsias mais elementares da alma portuguesa que apresenta uma notória pendularidade entre: vontade de espetar um ferro em brasa pelo cú de todo e qualquer governante e assimilado, ou pura e simplesmente desprezá-los e viver cada um sua vidinha como se nem sequer o medina carreira existisse. (...)

(...) O cluster dos Anjos da Guarda tem vindo a perder peso junto do Grande Senado do Criador em detrimento dos sectores dos Santos Protectores, das Senhoras das Ladeiras, do Imaculado Chip do Tablet, e até inclusive, nos últimos tempos, para a própria Fundação dos Beatos Graxistas (...)

(...) Um Anjo da Guarda em ambiente de austeridade & saque orçamental pode assumir diversas formas de posicionamento: a) neutralidade orçamental: o Anjo não influencia o comportamento fiscal do seu protegido e apenas o ajuda a suportar o fardo da colecta; b) racionalidade orçamental: o Anjo dá indicações ao respectivo penitente para qual catacumba fiscal se deve pirar face a cada imposto específico; c) ilusionismo orçamental: o Anjo com o seu diáfano manto cobre o pecador e garante-lhe uma invisibilidade fiscal de cartola (...)

(...) O Anjo da Guarda de Portugal deve providenciar a adesão ao pecado único. Assim, um português só deve considerar que está em pecado por única falta fiscal, podendo dar-se o cúmulo penitencial logo após a primeira multa de estacionamento não paga (...)

(...) Para que um país como Portugal se possa defender devidamente de: secas, reality shows, coligações politicas em fase de broche assistido, politólogos, rotundas múltiplas e todo um rodízio de Altas Autoridades , o Anjo da Guarda deverá fazer a geminação com um buda em faiança para o que der e vier (...)

(...) Os Anjos da Guarda de todos e quaiquer países deverão ter um representante nos modelos econométricos que estejam a ser utilizados nos respectivos ministérios das finanças e bancos centrais; estes seus avatares estatísticos, para além de terem de apresentar um relatório discriminado por cada movimento brusco que seja detectado nas derivadas das equações, deverão imediatamente provocar um curto circuito nos postos de transformação do ministério (...)

(...) Sempre que estejam a ponto de ser introduzidas medidas parvas, quer por imposição de troikas, de casais de holdings em swing fiscal, ou mesmo de grupos de sueca, quer mesmo por simples imbecilidade endógena, o Anjo da Guarda deve providenciar um fenómeno de natureza tsunâmica que, para além de colocar vários ministros isolados em cima dum telhado de Alfama, de caminho enfie o crespo numa fresta da muralha fernandina ou definitivamente a entrevistar baratas na dispensa do capitólio. (...)»

Não houve outro modelo como o Rebelo


Durante mais de 20 anos Rebelo Alves foi mexilhão de 1ª na costa de Peniche. Chegado ao momento de decidir qual seria o seu legado à Bibalvidade escolheu entregar-se às ciências sociais; foi inclusive mais longe, apresentou-se logo na Academia e endereçou-lhes o convite: experimentem-me desde já. Os cientistas sociais esfregaram as mãos de contentes face ao inesperado brinde e pediram a Rebelo Alves para comparecer todas as terças num tuperware em tons branco esperma com tampa verde ranho. 

Numa primeira abordagem, um grupo de empíricos recreativos injectou em Rebelo uma pensão de reforma com molho de estragão e mandou-o três meses para ser cheirado pelos clientes do vila joya. Depois de ter sido exercido o contraditório com um par de ameijoas gémeas em bulhão pato, a modelação concluiu que a curva de interferência do dente de alho apresentava uma derivada superior ao esperado quando o rácio do coentro entrava na sua maturidade específica e convencional. Tirada a conclusão de que o mexilhão estava pronto para a vinagrada foi entregue a dois economistas especializados em resgates de coentrada em dó sustenido. Posto o nosso Rebelo numa caçarola untada em manteiga de Azeitão rapidamente apresentou fungos ao primeiro contacto com a gordura; o modelo começa a explodir de alegria, confirmara-se a adaptação do mexilhão à carência e tratava-se agora de juntar berbigões e cadelinhas esfregando-lhes com o exemplo mexilhânico nas trombas. Não se encontrando tromba nos ditos bibalves foi definido pelo modelo que onde não há tromba há crescimento sustentado. Entusiasmada a academia, passou a entsuiasmada num salto de co-variância, e  foi decretada a estabilidade do mexilhão em ambiente de salmoura controlada, mas onde em vez do sal poderia ser usada urina de toiro lidado em praça.

Agora celebridade de laboratório, o nosso mexilhão Rebelo passou a ser presente mensalmente à análise da grande reunião dos Conselheiros da Mexilhânia. Entre ais e uis académicos os conselheiros começaram por avisar de que não se podia temperar assim o mexilhão-modelo como se ele fosse ânus para toda a sodomia, haveria que deixar repousar o lombo do bibalve de vez em quando. Foi então decidido em reunião plenária que Rebelo Alves teria direito a passar 2 dias por mês num viveiro de berbigonas podendo aí extravasar-se au naturel. No caso de passar o exame periódico da Alta Autoridade para a Molhagem do Pão, poderia até praticar livremente o ostrassismo, que consistia em se encavalitar num par de ostras livres de econometria.

Depois de 3 anos entre molhangas estatísticas Rebelo achou que tinha chegado o momento de adornar alguém que o merecesse, e entregou as suas conchas a um ourives da Cedofeita, que as envolveu em folha de oiro e despachou para o pescoço de uma baronesa do gás transcaucasiano, alérgica a abcissas mas boa consoladora de chouriças.

Disfunção réptil


O lagarto Rodrigo atacou o Outono com um empenho inesperado. Tomado de subtilezas meditou sobre a desilusão que trazem todos os calores e solicitou uma transfusão. Pagou um suplemento por um lote de sangue brioso e com plaquetas já filtradas pelas mais altas literaturas, passou o recobro sobre uma folha de acácia semi-ressequida e foi visitado por duas lesmas em serviço social e uma sanguessuga em serviço de acompanhante de luxo. Libertou-se da mão violenta de Dom TSUão, inscreveu-se numa expedição a Kathmandu e mandou-os levar no.

Devotadamente mamiferizado comia filetes de peixe e arrozes vários, e viciou-se em cabidela às sextas. Sonhava com a revolução permanente, a defenestração de secretários de estado, a desfloração de deputadas loiras e a imolação de presidentes de câmara sem capachinho. Já perdera a segunda guerra mundial não queria agora perder a terceira. Alistou-se na legião dos Conas, comprou um blusão de cabedal azul petróleo e alugou uma mauser que já tinha disparado duas vezes em el Alamein. Lia kafka às terças e ouvia bob dylan às quintas; todos os dias um bocadinho da vida de Churchill depois do jantar, sublinhando sempre as reprimendas de Clementina.

Tentando tirar partido da sua nova incandescência interior abraçou amores que antes lhe estavam vedados mas foi sempre atraiçoado pelo seu remanescente sorriso, que o colocava na categoria dos malandros com perfídia e sem emenda.

Especializou-se então em eminência parda e foi trabalhar para um ministro sem pasta. Era alguém que já tinha passado por muitos buracos e frestas e que já tinha olhado para o mundo de perfil sem nunca ter necessitado de o enfrentar pela boca. Manteve a língua afiada e uma cauda infinitamente reciclável. Chegou a ser amado pelos corredores do poder, e apenas cometia pequenas traições a seguir ao lanche e antes do despacho de diplomas controversos.

Numa tarde de Março, com o primeiro sol a plantar-se nos muros caiados de fresco, o  hemograma começou a dar parte de fraco e pediu uma licença sem vencimento. Internou-se numa clínica para répteis regressivos, imediatamente copulou com a enfermeira de banco e foi inscrito num programa de modelos empíricos para lagartos com a tsuão em dia.

Retransfusionado com uma mistura de sangue de colibri reformado com galinha choca foi colocado em regime de observação durante três meses, com administração diária de 2 subsídios mínimos de neutrófilos. Após este período foi considerado apto para servir como modelo para duas oficinas de faiança tradicional em Condeixa.
*
O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.

Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,

a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.


Carlos Drummond de Andrade in A Máquina do Mundo

*


desmaker corner

Confesso que cheguei a criar algumas expectativas. Acontecia esporadicamente, mas parecia vir acompanhado dos condimentos todos e com uma cadência que fazia antever hipe garantido. O Meditação na Pastelaria e o Da Literatura envolviam-se em escaramuças à volta de criticas feitas por ambos aos mesmos livros,  verdadeiras peixeiradas que escorriam pela padiola dos posts e dos comentários (do MnaP), numa varinagem de escrita, mais ou menos explícita, que dava gosto ler e acompanhar e se possível até fazer o relato. Tudo faria prever que os responsáveis pelos jornais e revistas em que ambos escrevem aproveitassem esse tom de ejaculação literária assistida para o capitalizarem em polémica regular, aumentando tiragens, publicidade e vendas, criando até a devida rede de pittetes e leonardettes , e porque não merchandizing mesmo, que a pudesse alimentar, rentabilizar e multiplicar (guerreiro vs lucas, ou até uma vasconcelos vs silva). Mas não, tudo se parece ter esfumado em meia dúzia de galhardetes, acabaram os miminhos, nem uma acusação de plágio, nem de paneleirice, nem d'és feia como cornos, nem uma contagem de virgulas, nem uma acusação de encher-chouriçagem, copypastismo, nadinha disto, apenas uns ameaços de ironia, mas já nada a prometer a perenidade do cinismo, nada que deixasse ainda uma gretinha para alguém lá ir escarafunchar.
A perda desta energia de avacalhamento que está no nervo ciático da critica literária é, mais do que um sinal de perda de húmus criador, uma absoluta rendição ao jornalismo paternalista e automático (veja-se este cirúrgico post do Henrique F.) , que já deixou o mínimo contacto com o risco e a sublimação de neuras, aquilo que , convenhamos, efectivamente fundou aquele local em que crítica e  literatura se juntam e que deve ficar ali bem juntinho das portas do inferno. Já há falta de bons negócios e os poucos que aparecem deixamo-los a escorrer assim negligentemente pelos algerozes do cuidadinho que é para não estragar.

similia similibus curantur II


Cada D. Sebastião tem o seu se e o seu bastão by Plumeria lancifolia

Hoje, onde mija um português já tem de dar para quatro by Frangula alnus

Em espeto de carpinteiro o frango é de pau by Panax quinquefolium

Se a virtude está na castidade e o poder na abstinência, a virtude e o poder estão juntos na temperança by Paullinia cupana

Espera o melhor, prepara-te para o pior e reza pelo assim-assim by Eugenia jambolana

Não havendo argumentos históricos contra o absurdo devemos confiar apenas nos deuses que regem as ilusões  by Melaleuca alternifolia

Dom Feveruário


Há (ou houve, posso estar desfasado) um bruá instalado por causa de uma entrevista dum Bispo. A minha primeira reacção vinda das vísceras do meu anti-clericalismo, (qualquer católico que se preze é anti-clerical) mesmo sem ter sequer lido as ditas declarações, foi que o Bispo (também conhecido nas hierarquias como Senhor Bispo) fez merda. No entanto, começou a desenvolver-se em mim um certo prazer quase catecumenal em ver um bispo a dar um pouco de escândalo, seja qual tenha sido o motivo ou motivação. Este conceito de escândalo é completamente evangélico e remonta aos primórdios do apostolado cristão, leia-se: da fundação da Igreja Católica Romana, e por isso deve ser acarinhado por qualquer crente. A Teologia do Escândalo foi inventada pelo frade franciscano Giuseppe Almondega no séc. XVI , em Milão, quando desenvolveu a tese de que 'antes um camelo dum rico entalado num buraco duma agulha do que um pobre dum protestante espetado na sua ponta'. Ou seja, deixem os pobres em paz mas não sejam camelos. Foi no seguimento desta inspiração que fundou a Ordem dos Beduínos, uma regra de semi-reclusão em que os ricos eram chamados a entregar 20% dos seus rendimentos em carne picada que depois era transformada em bolinhas abençoadas (daí o nome te ficado como almôndegas). O sucesso foi tanto que o preço das picadoras subiu de tal forma que ainda deu para criar a Diocese do Passe-Vite, especialmente orientada para receber devotos ricos em fase de esticar o pernil. A teologia do escândalo teve um enorme número de seguidores em comunidades de banqueiros que inventaram o spread-indulgência, uma espécie de retenção na fonte alternativa que faziam desviar para obras de caridade como marinas e campos de golf, desporto este que, como sabemos, foi inspirado num camelo que se desviou da agulha e tentou esconder uma almôndega num buraquinho que estava no jardim em frente a sua casa. É assim na esteira deste ilustre teólogo que eu enquadro hoje todos os grandes escandaleiros cristãos, gente que, mesmo ser estar sob o efeito de febres altas,  procura aproximar de Deus não mostrando as virtudes do templo mas antes a barriga dos vendilhões, tanto mais que no templo até pode nem haver ar condicionado nem nada.

similia similibus curantur


A alma é um espírito ajudado by Aconitum napellus

A arte é um número que não serve para contar by Atropa belladonna

A inspiração é uma tentação desprovida de pecado by Calendula officinalis

O ciúme é uma carta dentro do baralho by Chelidonium majus

A atracção gere-se com movimentos de translação, o desejo com movimentos de rotação by Abrus precatorius

Se é o amor que produz as maravilhas é a emoção que cobra o bilhete by Viburnum opulus


Pormenor do Tecto da Igreja da Encarnação, em Lisboa

À quinta é para fazer correr tinta


«Receia mesmo que esgotada a euforia socialista, caído o bloco de Leste, perdido o Império, o nosso País volte, sob a pressão do capitalismo selvagem, à situação de pobreza, de apatia, em que o encontrei no final da República»

António de Oliveira, citado por 3ª pessoa, em As Máscaras de Salazar de Fernando Dacosta ( pág. 350)

O Ferro de Moncorvo


Carlos e Licínia concluíram, depois do levantar da neblina, que afinal lhes bastava o amor e uma mina. Para esventrar o coração nada melhor que a escuridão. Juntos foram em romaria a Moncorvo, queriam ficar marcados pelo ferro. Mas a brasa que se lhes apresentou não estava suficientemente quente, as marcas podiam ficar com o aspecto duma tatuagem, e eles queriam uma união mais bovina, queriam sentir na coiro um ardor que depois se estendesse às miudezas, quem só ama com o coração e despreza o rim, a bexiga ou mesmo a vesícula corre o risco de ganhar cálculos em todos os órgãos moles. E não há nada pior que um amor calculista. Moncorvo estava às moscas, a mina não mostrava condições para ser explorada, mas mesmo assim eles desceram até uma profundidade que lhes garantisse um mínimo de dignidade. Nunca olharam um para o outro, nunca trocaram uma palavra, tinham receio das represálias dos sentidos mais básicos, e ainda pensavam que o deleite amoroso era asensorial. O grande problema da escuridão é que não fornece sombras, e sem contrastes não há possibilidade de moer consciências em condições. Sem tormentos a consciência liberaliza-se, transforma os dilemas em jogos de interesses e enterra-se na falácia do equilíbrio. Por uma daquelas felicidades que só se dão em séculos de translações de planetas, Carlos e Licínia não tinham nada em comum e quando roçavam pelas paredes da mina produzia-se apenas uma frescura que lhes cortava a pele como uma tangente de gelo. Cada vez se sentiam mais unidos por aquela combinação de estranheza e inquietação que ora faz santos ora faz carrascos. O Ouro e o Tungsténio já tinham ficado longe e o ferro parecia possuir aquele magnetismo básico que os limpava de todas as suas energias de destruidores de emoções. Deitaram-se em cima da pouca lã que já se mostrava tricotada e pensaram apenas no dia em que o sol os viesse resgatar. Já não precisavam sequer de ver sombras projectadas na parede da mina, bastar-lhes-ia a certeza de saberem que quando a lua nova dá biblicamente a outra face aparece esplendorosa uma lua cheia. 

O astracã de Valongo


Licínia, sem que Carlos soubesse, vivia à boca da mina. Levava as suas lãs, passava o tempo a imaginar torcidos especiais mas não chegava a tocar nas agulhas. Carlos tinha-lhe aparecido num sonho vestido com uma capa de linho azul e com um ar como que atormentado pelo frio. Foi incapaz de resistir, pediu uma licença sem vencimento, abasteceu-se da melhor lã num armazém em Valongo e alugou um quarto numa pensão em Valpaços. Olhava para os novelos como se fossem avatares duma qualquer graça, autênticos sacramentais com pêlo. Acariciava o rosto com aquela lã de benzedura e imaginava-se dentro da mina a aquecer Carlos e a servir-lhe o tungsténio numa bandeja de mica polida. Haveriam de saber combinar a rigidez com a suavidade foi a sua interpretação do sonho. Um dia, encheu-se de coragem e foi falar com o encarregado perguntando-lhe por Carlos. Ah, o Búzio, esse sacana anda sempre a polir as paredes da mina, julga que vai sair alguma sereia do freático. A menina se lhe vai fazer um cachecol tenha cuidado senão ele ainda se enforca nele. Licínia ficou com o ar a fazer bolhinhas na traqueia e caiu de joelhos na porta da mina. Um dos novelos rebolou até parar numa bota encarniçada. Sim, como os filmes. Carlos agarrou na lã, levou-a à testa, esfregou o suor e de seguida pegou em Licínia como numa cena de pietá invertida. Agora sim, estavam prontos para voltar a jales.

O Tungsténio de Valpaços


O ouro de jales não correspondeu às expectativas de Carlos Búzio. Afinal este metal precioso não lhe concedeu nem o amparo nem a clarividência que exige o tratamento de um amor que emite mensagens de não correspondência. É metal de filigranas e custódias e o amor exige uma certa rudeza e uma certa liberdade para ser reconhecido. Criou-se um impasse a 100 metros, Carlos teria de voltar à superfície e reavaliar a sua situação. A ascensão fez-se sem sobressaltos, o encarregado foi compreensivo, já tinha levado um par de cornos enquanto andou pela faixa piritosa, e não gostava de ver os seus homens a garimpar com a testa. Durante a mudança falou pelo telefone com Licínia que lhe pareceu triste, e a tristeza duma mulher é o melhor catalizador para o homem enquanto bicho de bons sentimentos. Voltou a Valpaços numa terça-feira batida a ventos de nordeste, os melhores ventos para limpar o ranho das dúvidas de coração. Tens de estar preparado para a patine do tungsténio, - disse-lhe o novo encarregado - e aos 30 metros já as paredes da mina simulavam o reflexo dos cabelos acobreados de Licínia. Na primeira noite o seu sonho trouxe-lhe ainda resíduos do ouro de jales mas a partir daí só deu Licínia em formato de amante pródiga, regressando-lhe todas as noites com arrependimentos cada vez mais empolgantes. Carlos descobriu a sua vocação junto do tungsténio, tinha um coração demasiado mole para as emoções exigentes da vida afectiva e teria de enrijecer no submundo por uns tempos. Por entre a ilusão dum reflexo e a ilusão dum sonho a dura realidade haveria de despontar com a subtileza e o fascínio dum contraluz. E foi assim que Carlos passou a viver à sombra da tocha.

o garimpeiro de jales


Quando Carlos Búzio viu oiro a reluzir pela primeira vez estava a pensar em Licínia Cosme. Tudo se passou a 50 metros de profundidade e a sua cabeça parecia um tremor de terra.  Carlos tinha trocado o tungsténio de Valpaços porque lhe tinham dito que fazia mal aos amores não correspondidos e assim optou pelo metal de todas as ilusões para tentar recuperar a esperança. Mas a esperança só surge aos 100 metros. Pediu ao encarregado e desceu mais um pouco, demorou uma semana até começar a entranhar aquele cheiro intenso que exala do subsolo misterioso e que traz consigo um formigueiro que os mais optimistas comparam à paixão amorosa. Logo na primeira noite Carlos sonhou com uma Licínia sorridente, com um olhar de cobiça e uma pose de desafio. Acordou com os suores da praxe e com o seu companheiro do lado a olhá-lo com espanto.  Esse rezava, tinha ido procurar um Deus mais disponível para o perdão nas catacumbas da tabela periódica. Até em Deus podemos testar a incompreensão tal é a nossa debilidade. Ficaram os dois a falar um bocado, por entre o silêncio das entranhas duma terra em digestão lenta. Não podiam falar sobre o tempo e por isso acabaram por desfiar algumas desconfianças do mundo como quem conta carneiros. Carlos tinha a cara encostada à rocha fria, por vezes forçava a testa a provocá-la, até que o seu companheiro brincou e perguntou-lhe se procurava algum corno a nascer; então Carlos abriu os olhos e disse: felizes dos que são enganados. Tossiu, tossiu uma e outra vez, como que a tosse o estivesse a recriminar por qualquer pecado de coração. Tocou a sirene e salvou-o da penitência. Passaria o dia debruçado na garimpagem,  pensando se não teria sido melhor ter ficado em Valpaços, onde os desamores pelo menos eram recompensados com noites bem dormidas e sonhos de plástico.

A Bosona de Nelas


A primeira partícula elementar instalou-se em Portugal por alturas da expo 98. Na altura alugou um apartamento em Moscavide a meias com dois electrões que estavam a trabalhar à hora na central do Pego , mas pouco tempo depois partiu à procura de melhores ares e instalou-se em Nelas numa vivenda com vista para a serra do Caramulo. Chegou a ter um caso com um protão de Mangualde mas rapidamente percebeu que estava destinada para a vida solitária. Quando chegou a oportunidade de ir fazer umas tardes na limpeza do grande acelerador de Tondela não hesitou e hoje comanda uma equipa de desentupidores de túneis de vento afectos ao departamento de ciência politica da universidade de Coimbra. No entanto manteve-se fiel a Nelas, a terra que a acolhera  e a fez sentir como em casa, inclusivamente abriram um café com o nome de big-bang onde ela costumava ir apanhar descargas electromagnéticas depois do jantar. O seu porte atlético e as suas maneiras elegantes disfarçavam o tom algo brusco com que tratava os vizinhos, e rapidamente começou a ser visita de casa de muitas famílias da zona, que, para além da boa companhia, acabavam por carregar os termoacumuladores de calor quando ela se sentava em cima. Tudo parecia correr-lhe de feição quando um dia uma fermiona de Cantanhede apareceu na terra a oferecer serviços de aconchego quântico aos homens mais carentes. Da noite para o dia o grupo de pressão newtoniana das mães de Nelas começou a olhar para a bozona com indisfarçável desconfiança. O rastilho ateou quando Lurdes Pereira, o ver o seu marido Gabriel a tomar uma cerveja na qual a bozona já tinha sorvido dois fotões de espuma,não se conteve e exclamou: 'tu vai lá polir aceleradores para a tua terra, o minha bozona de merda'. Ressentida com a falsidade da acusação, a nossa bosona não suportou o fardo que começava a carregar e telefonou a um primo seu que era protão numas salas de cinema em Badalona. Reorganizou a sua vida e acabou por emigrar em Julho de 2012, reconstruindo agora a sua vida fora do país, num projecto de partículas de Deus duma paróquia perto de Fuenlabrada, onde inclusive já pensa em assentar com Paco Salinas, um sacristão de partículas que enviuvara recentemente de Pilar Morientes, a famosa decoradora de aceleradores em Gibraltar, que falecera na sequência dum choque em cadeia de electronas groupies a caminho dum concerto de Julio Higgslésias. E foi assim que se iniciou o êxodo de bosões e bosonas para fora do país, aumentando cada vez mais o fosso que nos separa da europa quântica, e tudo por causa duma ou outra vulva mal servida em Nelas. Continuamos destinados aos Nobeles da cona lambida.

Colo Center II


Apresenta-se de seguida o diálogo gravado na agência de colo center do programa Shoulderzam da empresa Póvoa de Lanhosoft. São Intervenientes o sr. Ernesto Mourão (utilizador do software) e a menina Dulce Miranda (funcionária do colo center e enfermeira nos tempos livres)

Utilizador Ernesto Mourão - Está...fala dos serviços de apoio ao Shoulderzam?...

Colista Dulce - Sim, fala Dulce, em que lhe posso ser útil

Ernesto Mourão - Menina, algo terá acontecido com o meu shouderzam porque eu encosto o tablete ao ombro e só me cheira a bacalhau assado e...

Colista Dulce - Tenho o prazer de estar a falar com...

E.M. - Fala Ernesto Mourão, eventualmente até já leu algum livro meu...

Colista Dulce - Ernesto, posso tratá-lo assim, diga-me: qual é a versão do seu shoulderzam ?

E.M. - Sem problema, até Erny, se preferir, e a minha versão é a hot 3.0

Colista Dulce - Muito bem, sr Erny, diga-me, já desligou o tablete e voltou a ligar

E.M. - Dulce, filha, não faço outra coisa há mais de duas horas e o melhor que consegui foi um cheirinho a hortelã pimenta que me lembrou uma namorada que tive, que era de Alenquer e me fazia cócegas numa zona aqui atrás e...

Colista Dulce - Sr. Erny, então agora vamos fazer o seguinte: com o tablete ligado, carrega durante 5 segundos no icon do shoulderzam e no gps e diga-me o que lhe aparece no ecrã...

E.M. - Ora só um bocadinho...hummm...agora 5 segundos...já está: então agora no ecrã aparece a Vera Farmiga vestida com uns collants azul turquesa a dizer em sussurro: «da próxima toca-me com mais jeitinho e eu faço-te uns peixinhos da horta»

Colista Dulce - Muito bem, então agora carrega na mama esquerda da Vera Farmiga e na letra 'F' do teclado que lhe aparecerá na parte inferior esquerda do ecrã

E.M. - ora então... agora ela levantou o braço direito e começou a cheirar a ... parece-me aquele eau d'issey que usa a minha prima Carla com quem eu brinquei às enfermeiras na consoada de 1977

Colista Dulce - Muito bem, então agora com os dois dedos no ecrã afasta ligeiramente as pernas da dona Vera Farmiga, por favor...

E.M. - já está... bem... agora os collants começaram a deslizar para baixo e já estão enrolados à volta do joelho... e aparece escrito no canto superior: «lembras-te das minhas coxas, erny darling?»... agora estou confuso, porque eu nunca esqueço uma coxa, nem sequer de frango, e não me lembro de nada...acha que estou a fazer bem?

Colista Dulce - Está a ir lindamente Ernesto, agora tem de carregar na letra 'x' enquanto puxa para baixo o collant da perna esquerda até ao tornozelo...

E.M. - ora cá vai...eh lá!...agora está a vir aquele cheiro a coelho à caçadora que a minha avó Luísa fazia quando eu ia lá a casa depois dos exames de matemática...hummm, minha querida avó....

Colista Dulce - E agora diga-me Erny, não lhe aparece também o símbolo dum mil folhas no canto inferior esquerdo do ecrã?

E. M. - Sim, sim, igualzinho ao que comi com a Viviane Lopes no dia em que... , pronto, num dia, em que ela fez de massa folhada e eu de farinha de trigo

Colista Dulce - É isso mesmo, então agora carrega aí e na mama direita da Vera Farmiga, por favor

E.M. - Hummm...bem...., agora a Vera virou-se de costas e está a apanhar no teclado as letras 'D' e 'R'... isto nunca tinha visto...será vírus, será serpente, será maçã?

Colista Dulce - Não...é mesmo assim...diga-me, não conhece nenhuma rapariga chamada por exemplo Dália Rita?...

E.M. - Sim, sim conheço...não me diga que essa cabra...

Colista Dulce - Calma, calma...agora tem de deslocar as letras que ficaram soltas do teclado do ecrã e colocar uma em cada nádega da Vera Farmiga - se ouvir um gemidinho é mesmo assim, o 'D' e o 'R' também podem querer dizer, na versão 4.0, 'dedinho no...' vá, adiante

E.M. - Pronto ...já está...ela agora pôs-se de joelhos, pegou numa esfregona e humm... está um cheirinho óptimo a pop limão que me faz lembrar a minha tia Maria José, que até foi Miss Caneças e....

Colista Dulce - Estamos quase sr. Ernesto, agora pega na esfregona e arrasta-a para cima da tecla com a letra 'C'

E. M. - Ora aqui vai...já está...Ah finalmente!!! já cheira à canja da minha mãe! aleluia, cheguei a pensar que nunca mais conseguiria!

Colista Dulce - Então já tem o seu shoulderzam desbloqueado, sr Ernesto, mais alguma coisa em que lhe possa ser útil?

E. M. - Mais nada, menina Dulce, tomara eu que todas me desbloqueassem com tanta dedicação como a menina, já nem se fazem colinhos assim.


Diálogo publicado no Grande Anuário do Tablete, edição de 2012

Colo Center


O mundo - a cidade dos homens - está devastado por carências várias. Depois de ter falhado o sexo (com Cleópatra), o espiritismo (com a física quântica), a literatura (com Ana Karenina) e a punheta liberal (com a mão invisível) procura-se avidamente a quinta coluna da redenção pelo carinho. Como seria natural, este movimento civilizacional fez-se na aplicação criteriosa da mais pura dialéctica, tendo-se dado uma síntese provisória com a bolha democrática. Esta rapidamente teve o condão de deixar a nu que a alma humana não evidencia necessidades perenes nem de poder nem de prazer ao contrário daquilo que os sintomas da historiofilia e da antropofilia pareciam indicar. Foi Simone Bolina com o seu livro ' Antes um iniesta na mão que dois balotellis a voar' que levantou o véu sobre o poder, a energia até,  escondida que se encontra no carinho tradicional e desinteressado, para a qual nem os gregos (os bombeiros da praxe para esta coisa dos conceitos perdidos) arranjaram sequer um nome decente. O 'Grupo de Empreendedores de Mangas Arregaçadas de Braga' pegou na ideia e desenvolveu uma aplicação para tablets denominada 'encosta aqui o teu ombro' (o 'shoulderzam') que permitia ao utilizador não só sentir o calor e apoio perdido da infância, incluindo o cheiro da canja com arroz (na versão free), o do cerelac (na versão plus) ou até a sensação de mordidela na orelha (na versão hot) , como igualmente dizer qual era a estrela de cinema que estava suspirando por ele nesse preciso momento. Imediatamente a empresa foi comprada por uma subsidiária secreta da Microsoft da Póvoa do Lanhoso que a transformou numa aplicação mais abrangente e que deu origem a um jogo de consola, com o nome sugestivo de Consolazam, no qual os jogadores procuram ganhar um colo maternal, inacessível e relaxante ao fim dum dia de trabalho e arrelias várias, com um comando opcional para festinhas na nuca. Portugal entrou assim no roteiro da inovação fundindo a ternura com html5 e hoje o seu cluster mais representativo é o dos colo centers, composto por redes de apoio ao carinho servido em tabletes.

A Lula Frígida


(...) Quando Cláudia descobriu que os homens não lhe inspiravam as químicas para as quais a natureza supostamente a deveria ter programado assumiu que teria de viver como uma rocha. Ser mulher-rocha implica muita atitude por parte duma mulher, designadamente expor-se a bivalves de ocasião que por vezes não sabem decifrar a frigidez como um estado precário e a interpretam como uma táctica sofisticada de engate. Foi deste jogo de desenganos que se alimentou a vida adulta de Cláudia, uma verdadeira sucessão de enjoos que eram lidos como insidiosas e ambulantes perversões. Não fora Raul Picoito ter detectado as suas potencialidades para o exercício da espionagem criativa e Cláudia hoje faria de ilustração para manuais de psiquiatria sexofílica. A primeira missão que lhe foi confiada destinou-se a colocar um chip na braguilha de Suleiman Bashar, um quadro superior do BCE que era responsável pelas politicas de harmonização fiscal na tributação do silicone mamário. O sucesso foi tal que Portugal se tornou o paraíso mundial do enlargement tit graças a uma inesperada e inovadora isenção total de impostos atribuída a uma profissão de desgaste lento conhecida como os calibradores-de-mama. Tudo parecia correr bem a Cláudia quando, nada o fazendo prever, apareceu morta no parque de estacionamento da clínica 'Conchas de Anjo' em Alverca. A investigação criminal que se iniciou acabou por revelar que Cláudia era traficante dum bug informático conhecido como volfranete, (designação inspirada no famoso volfrâmio que alimentou espiões e guerras secretas em Portugal durante a 2ª guerra) que era introduzido nos sistemas através dos ecrãs tácteis. Cláudia tinha conhecido o inventor duma substância que, misturada no verniz das unhas, ao entrar em contacto com os ecrãs deixava os sistemas operativos completamente reféns dos seus caprichos. A mistura entre a frigidez e o toque de ecrã tornou-se explosiva e uma rival acabou por lhe enfiar um ipad nas trombas durante uma escaramuça em Odivelas motivada por ciúmes: Cláudia seduzia os homens com uma facilidade aterradora e sacava-lhes as passwords num abrir e fechar de soutien. Com uma password e um volfranete ela até punha um powerpoint a desembarcar nas coxas da Normandia. «És tão frígida como uma porta usb, mas tiveste mais hdmis que barriga» dizia o bilhete que se encontrava no seu casaco quando faleceu.

excerto do primeiro capítulo de Lula Frígida , romance escrito pelo Inspector Álvaro Simões, e publicado pela editora Mosca Morta.