Lumen Gentium 2.0

É evidente que a cegueira da avidez, o inebriamento das ideologias e a impiedade das corrupções de vária natureza dão uma explicação satisfatória para as nossas consciências face ao estado do meio que as rodeia. No entanto, corremos o risco de deixar de fora uma variável de incontestável interesse e alcance: a estupidez humana. Conhecida desde que se conhece o homem, amada desde que descobrimos o amor e preservada desde que começámos a pensar ecologicamente, a estupidez humana é a nossa grande companheira de momentos bons e momentos menos bons. Os tempos moderníssimos (que são os tempos que vêm a seguir aos modernos) trouxeram-nos novos tipos de estupidez, dos quais eu destacaria a estupidez esclarecida e a estupidez sábia. A estupidez esclarecida já nos fazia muita falta, pois o mais parecido que até agora possuíamos no nosso património era a estupidez culta, e a versão esclarecida acrescenta-nos a importantíssima componente estatística que antes apenas vislumbrávamos na mediocridade e muito raramente na estupidez, pois esta, no seu formato culto, era muito pouco atreita a algarismos, proporcionadores de sensações únicas, como sabemos. No que concerne à estupidez sábia, trata-se duma evolução de cariz metabólico, nalguns espécimes adquirindo inclusive os contornos de mutação, e introduziu no vasto espectro do comportamento humano o aliciante da compreensão do mundo nas suas componentes mais íntimas, como que um mundo visto pela próstata. A sabedoria logrou adaptar-se aos ambientes mais adversos e encontrou também, qual coelhinho peludo, uma cartola segura na toca da estupidez. O sábio estúpido, também conhecido em linguagem técnica como o estúpido sábio, garante mais sofisticação à estupidez natural e dota-a de referências de saber acumulado ou esquecido - são praticamente sinónimos - ao longo de gerações. Como magnete poderoso a estupidez humana soube atrair a si o melhor que a civilização construiu e constitui hoje a nossa verdadeira reserva antropológica, a arca de noé de todos os nossos talentos. O que outrora foi estigma doravante será inspiração.

Feelingland

Depois de terem falhado todos os ramos da gurulogia, desde economistas, taxistas, apresentadores de tolquechôs, até sábios das mais diversas proveniências étnicas, e depois de se ter concluído que afinal desde Tamerlão não se produziram mais políticos com mão devidamente lubrificada para a coisa pública, a ONU decidiu construir uma cidade destinada a favorecer o aparecimento de seres inspirados. Numa tentativa entre a utopia ingénua e o segregacionismo compulsivo nasceu a Feelingland que, como o nome indica, se preparava para transmitir a quem lá habitasse aqueles je se sait quoi's que podem fazer toda a diferença, fossem eles receitas de torresmos, frases encantadas ou fórmulas integrais combinando o hemorroidal, a inflação e o desemprego.

A família Saraiva Pontes, de Santo Tirso, foi das primeiras a ser colocada, tendo ficado numa vivenda geminada com a da família Saharim Custhar do Benim. A obtenção de feeling pode estar sujeita a imensas interferências, sejam elas de índole filosófica, metereológica, psicológica e até gastroentrologica, pelo que os habitantes de FL tinham sobretudo de cuidar das suas diversas canalizações e manter-se atentos, de resto viviam a sua vidinha, como se estivessem num terraço de Hong Kong, num rés-do-chão em Budapeste, ou num glaciar para turistas & postais nos arredores de Reikjavick. Julio Saraiva Pontes teve a sua primeira aproximação de feeling quando perante a perda dolorosa do seu mui amado cachorrinho Chiló, anteviu um mundo de carências afectivas várias e insuportáveis, que o levaram a escrever no caderninho azul - que era distribuído a todos os residentes - um enigmático 'tudo pelo coração'. Muitas esperanças estavam depositadas em FeelingLand pois não tinha ainda desaparecido a crença no poder regenerador da natureza humana desde que esta conseguisse de vez em quando apanhar um bocadinho de ar fresco.

As pessoas escolhidas para habitantes tinham principalmente de cumprir um requisito higiénico: toda a merda que fizessem: limpavam. Parecia simples e impediria, na opinião dos progenitores da ideia, o aparecimento de iluminados pois, como se sabe, há uma grande diferença entre a luz e o feeling, 'but only god knows, folks', estava inscrito por todo lado, apelando a uma certa humildade clericalizada.

Baba Saharim Custhar era uma mulher com uma notória tendência para viver em patamares de experimentalismo espiritual, aquilo a que vulgarmente se chama em ambientes mais poluídos pelo preconceito: chanfrada. Mas a sua vinda para FeelingLand trouxera-lhe uma curiosa adaptação, a consciência de que tinha uma missão a cumprir apegara-a às coisas mais prosaicas da vida ao ponto de ter registado no seu caderninho: 'tudo por pouco'.

Esta experiência da FeelingLand parecia poder correr alguns riscos de desaguar num minimalismo sentimental, numa grotesca e requentada hippiezação da encruzilhada humana. No entanto, os estudiosos e mentores da feelingopoly já tinham pré-avaliado o processo e estavam preparados para a existência duma primeira fase de 'fantasismo dislumbrativo simplista' ('fds') que se iria desvanecendo aos poucos; não foi pois de estranhar que Gaspar Rumsfildenskopf num domingo de sol tardio dos inícios de Outubro tivesse exclamado numa espécie de speaker's corner de FL: 'amarmo-nos mesmo muito é apenas um trava línguas'. Estava dado o mote para o início da segunda fase de feeling, a 'negação da simplicidade do mundo' ('nsm'). Por mais que parecesse uma caixa de pandora, por mais que se suspeitasse ser uma quintessência da antropologia criativa, o Feeling afinal poderia não ser mais que um processo comandado por variáveis estudáveis e manobráveis pelos polvos suspeitos do costume.

Chang Tang Song estava em FL já há dois anos quando teve a sua primeira experiência, com comprovação técnica, de feeling. Tudo se deu quando lhe pediram por um par de peúgas mais do que por um par de sapatos. Aparentemente - revelara-lhe o seu complexo emocio-cerebral - se só havia lugar à existência da peúga por causa da prévia existência do sapato, a primeira não deveria exigir mais recursos que este último. O caderninho foi sacado e recebeu de benção epigráfica: ' o aperfeiçoamento faz-se de fora para dentro'. Se os pobres são malucos e os ricos são excêntricos, os Feelinglanders eram urbanizadamente bafejados por uma percepção clean do mundo. A fase 'nsm' era uma verdadeira fase de transição, prepará-los-ia para o acto que os teóricos chamam de 'desembrulhar a criação', e várias famílias estavam já a entrar nesse período de síntese de feelings.

Face aos risco de proliferação de feelings errados, os teóricos da Feelingpoly determinaram que deveria começar a haver uma intervenção externa quando se entrasse plenamente na fase de 'full-feeling-fantasy' ('fff')  . Assim, enquanto os Saharim Custhar, ou os Saraiva Pontes, ou mesmo os Rumsfildenskopf, ou até os Tang Song se libertavam dos primeiros constrangimentos do catch-feelings e abriam as suas mentes à percepção do what really matter, foi necessário criar estruturas para recepcionar o produto, conservá-lo, e etiquetá-lo convenientemente para posterior distribuição pela comunidade mundial. Mas falávamos apenas da compreensão do mundo, não havia necessidade nem de histerias nem de luxos. Curiosamente, aqueles que recebiam os right feelings não eram os mesmos que os sabiam reconhecer e dar-lhe os adornos certos, pelo que rapidamente a FeelingLand acolheu um novo tipo de residentes: os feeling-filters. Daí a criar-se uma clivagem entre os feeling producers e os feeling filters foi um pulinho, e esse conflito acabou por minar o processo, deixando por um lado muito feeeling razoável desperdiçado e por outro lado muito falso feeling em condições de ir para o mercado. Parecia estar tudo a voltar ao princípio e a estatística começou a tomar conta da realidade: por cada 3 bons feelings produzidos era enviado um dirty-feeeling. Ramish Saharim Custhar foi até apanhado na teia do tráfico ilegal do dirty-feeling e foi expulso por ter enviado para o mercado duas fórmulas supostamente secretas relacionadas com o ponto de equilíbrio entre a riqueza das nações e a sua população, mas que afinal não passava de uma adaptação grosseira da receita de bolo de chocolate com açafrão roubada da dispensa de Filomena Saraiva Pontes. 

FeelingLand tornou-se uma cidade fantasma por volta do ano 2023, quando um surto de austerifobia contaminou um cabaz de feelings destinados a promover o investimento em campos de gladíolos nas calotas polares, a fim de enviar uma imagem colorida do Planeta para o espaço. O apartamento dos Rumsfildenskopf pode hoje ser visto no museu de arte sacra de Friburgo, onde se destaca um exaustor para maus feelings, dois retábulos com o Anjo S. Gabriel a fazer um churrasco com S. Jerónimo e S. Agostinho, e um terceiro com Lutero a segurar no espeto e Schumpeter a pôr molho picante nos frangos.

verso à terça

O mundo nunca está pronto
para o nascimento de uma criança


(Na urodziny dziecka
swiat nigdy nie jest gotowy)


Wistawa Szymborska , in Rozpoczeta Opowiesc, tradução de Lord James Google.

la nouvelle menstruine

Depois da banalização do mal, do bem, e do assim-assim, depois da banalização das uniões e das desuniões de facto, de direito, de uso e de costume, depois da banalização do sexo, da dívida, da democracia e do pacheco pereira, depois da banalização dos blogs, das bonecas insufláveis e dos campos de 18 buracos, resta para celebrar apenas a menopausa. Juliana Ester da Costa detectou a oportunidade, vendeu a sua parte numa empresa de fabrico e distribuição de scones ao domicílio e dedicou-se a organizar festas de despedida da fertilidade. Mulheres que finalmente se viam livres desse encargo ontológico de parir face à incursão selectiva dos espermatozóides mais inteligentes e atrevidos, mulheres que finalmente se viam a entrar em fase de útero decorativo, eram o mercado alvo de Ester. A  sua primeira cliente foi Helena Gusmão que dera cumprimento ao mandato bíblico por 4 honrosas vezes acrescidas de 2 falsos alarmes e um desmancho precoce originado pelo ataque fulminante dumas salmonelas marroquinas. Fora senhora de concupiscência racionalmente dirigida e nem sequer ao vizinho de baixo, um advogado especializado em direitos de autor e possuidor de fraseados com fortes poderes persuasivos, tinha propiciado uma tão ansiada comunhão copulativa & alternativa. Despedia-se assim duma fertilidade socialmente agraciada, psicologicamente tricotada e afectivamente compensadora. Estiveram presentes oito das suas melhores amigas, três ajudantes de farmácia, uma ginecologista, duas floristas e um especialista de arte ecográfica. Foi rotulada para o ocasião a edição especial dum branco frutado da Bacalhoa, e de presente recebeu um jogo de lençóis franjeados com um aproveitamento imaginativo do bordado do seu vestido da primeira comunhão, ideia da sua prima Guida que acabou por não poder estar presente por motivos inflamatórios mas impróprios para a descrição estética. Ester, ciente da importância do seu primeiro evento comercial de despedida-de-fertilidade, decidiu, por sua conta, enriquecer a festa com um grupo de musculados cuspidores de fogo da Nicarágua. Um sucesso: quatro bebedeiras medicamente confirmadas, dois momentos de carinho de índole lésbica, um jarro de tílias embebidas em pisang ambom e a revelação entusiástica de um teste de gravidez positivo numa das suas amigas ainda em idade parível. Juliana Ester sentiu-se confiante depois da estreia e avançou destemida no negócio. Antes de terminar um ano de actividade já tinha ajudado a despedirem-se da era-da-fertilidade quatro executivas do sector da cosmética e cinco da higiene íntima, duas editoras-chefe, uma escritora de roteiros para revistas de viagens, uma pintora de azulejos, três professoras de francês, uma veterinária e duas críticas literárias. Pode dizer-se sem exageros que ajudava a franquear a menopausa das mulheres propiciando-lhes um sereno e gozoso adeus à ovulação.
Rita Coutinho passara pelos seus primeiros afrontamentos com uma irritação comedida, e dissera de si para os seus estrógenos: meus filhos, ide-vos foder. E telefonou de seguida para Juliana. Foi num ápice que combinaram tudo: uma entrada faustosa pela menopausa adentro; queria deixar a fertilidade como um toiro que se afasta gloriosamente da arena deixando todos a sentirem-se uns rabejadores precoces. Juliana, com orçamento praticamente ilimitado, iria transformar essa festa retumbante numas inolvidáveis Ovaríadas do Desassossego. Rita convidou todas as amigas com quem tinha, durante o seu Período Fecundolítico, confidenciado angústias e esperanças, dilatações e estreitamentos, lubrificações e securas, exigindo-lhes um dress code que incluísse uma máscara alusiva à fertilidade e, sem quaisquer preocupações com a comparticipação financeira estatal, tudo estaria por conta dela, a nova deusa da menopausa, uma Menstrua Sagrada. Como num regresso às ancestrais manifestações dos valores e mistérios antropológicos mais básicos antevia-se a inauguração dum ritual que deixaria as tribos de todo o mundo encolhidas de vergonha e espanto. Luísa Passarinho, a sua grande companheira de rambóias universitárias, foi a primeira a chegar e vinha mascarada de espermatozóide com duas caudas. Perante a estranheza que provocou, explicou: é aquela coisa do eros e do tanatos, vem logo no fluxo ejaculatório: a virilidade é sempre um pau de dois bicos. Estava dado o mote. Não foi pois de estranhar que aparecesse um pouco de tudo, desde pílulas em veludo e cetim a deusas mamalhudas, desde vaginas gigantes a afrodites com lencinho no cabelo e espanador do pó na mão, revelando que a iconografia da fertilidade feminina é um mundo tão rico e surpreendente quanto as finanças da pérola do atlântico.
Ester tinha conseguido com a festa de Ritinha Coutinho elevar o seu conceito de festa-da-menopausa a um estatuto de quebra-mitos, desafiando convenções e alargando o grande horizonte das leis do condicionamento hormonal para lá do bojador ovárico. Chamavam-lhe agora a Mary Quant Uterina, inaugurando uma nova geração de deusas pós-Cibelianas e renovando todo o ideal feminista, transformado agora na nova trompa de falópio da humanidade: a libertação do espartilho hormonal da mulher representava a união da natureza com a espiritualidade. E assim Juliana foi criando à sua volta não só um empreendimento comercial sólido como também uma sólida ideologia de pós-fecundidade, tornando-se numa espécie de Ferran Adrià das hormonas, abordando cada cliente menopáusica como quem confecciona um bouquet místico de joie de vivre com raminhos de gloriosa emancipação: la nouvelle menstruine.

O Talismã do Barrote

Farto daqueles personagens escritores, reformados ou no activo, filósofos, professores, artistas e afins que pululam pela novelística contemporânea, julgo que chegou o momento de dar novamente algum estrelato a profissões mais simples, como os carpinteiros, que desde o Nazareno não têm nenhum representante ilustre no cluster dos grandes fornecedores de enredo literário. Carlo Clitorini era apenas um desconhecido marceneiro de Trento quando um dia descobriu que as suas peças de mobiliário provocavam reacções no mínimo curiosas e no máximo fascinantes nas mulheres. Tudo começou quando Julia Endorfini lhe encomendou um pequeno escadote para chegar às prateleiras mais altas da sua arrecadação.  Aquilo que parecia destinado a ser uma mera combinação de traves, barrotes e vigas tornou-se quase um ser vivo, passando Julia a confessar-se ao escadote cada vez que se servia dele para arrumar umas garrafas de vinagre balsâmico ou uma lata de polpa de tomate ou até uma embalagem de parmesão. Muitas vezes sentava-se ao fim da tarde num dos seus degraus, passava os lábios e o pulmão por um ou dois cigarros, e deixava-se levar pelos pensamentos mais galopantemente sensuais que a sua imaginação alguma vez tinha concebido. Descia com o corpo ainda a estremecer e quando se ia refrescar parecia sair-lhe das faces um vapor cor de sucupira. Vulcões havia que comparados com aquilo mais pareceriam bidés de massagem.  Não era pois de estranhar que Gabriela Serotonini ao encomendar a Carlo um espaldar em cumaru para montar na sua garagem, a fim de a ajudar a tornear melhor as suas coxas e cintura acabasse por criar um relação de intimidade com aquela lubricopólia de madeira que lhe recebia as costas com a dedicação dum Hércules em fase de trabalhos. O espaldar de Gabriela parecia segredar-lhe ao ouvido em pequenas descargas de prazer quando ela lhe entregava num misticismo olímpico o seu património lombar e adjacente. Não havia zona do corpo de Gabriela livre de convulsões.  Com o tempo foi ficando impossível esconder os efeitos da marcenaria criativa de Carlo e então quando este entregou a  Firmina Colamini um genuflexório em sândalo deu-se uma revolução do calibre do wonderbra. Firmina via o que mais ninguém via e como não resistia em contá-lo ao pormenor às suas amigas foi alimentando sem recuo o mito dos Móveis Clitorini. Será importante dizer que Carlo não percebia em rigor o que se passava. Confeccionava aqueles pequenos altares de marcenaria fina da mesma forma com que fazia uma cadeira, uma mesa, uma consola, ou mesmo uma cabeceira duma cama, por isso ficou estarrecido quando lhe chegaram aos ouvidos os primeiros sinais da sua improvável extasoterapia mobiliária.  Não foi pois de estranhar que quando entregou a Lilina Dopamini a sua encomenda de dois curules em angelim já antevisse dias felizes para a sua cliente. O que não esperava é que Liliana praticamente subisse ao céu cada vez que se sentava naquele curule estofado num veludo cor de terra barrenta. Foi de tal ordem a rapidez da passagem de sólidos a gasosos no seio do inconsciente bulboso de Signora Dopamini que esta não descansou enquanto não descobriu as outras clientes eleitas de Clitorini como que numa vertigem de solidariedade de prazer. Juntas faziam quase um clube dos olhos revirados e a fama da terapia de Carlo começou a subir vertiginosamente, mesmo sendo o escadote apenas um dos seus afamados produtos de madeira. Não se sabia se era dos nós escondidos das madeiras, não se sabia se era dos seus acabamentos, não se sabia se se tratava de alguma receita magnética nas ferragens utilizadas, não se sabia se existia alguma energia que brotasse das batidas do martelo de Carlo Clitorini, mas na verdade das suas mãos saíam como borboletas com cio lotes de peças únicas que forneciam às suas donas um cocktail de sensações como já não se assistia desde que Cleópatra lavara as partes baixas com o leite da burra.  Curiosamente, e para benefício das finanças de mestre Clitorini, os efeitos só se faziam sentir nas donas dos seus móveis, e quando estas convidavam as amigas para as suas casas nada acontecia para além de uma ou outra luxação devida ao esforço suplementar que faziam ao tentar penetrar no espírito da madeira. Mas, por outro lado, quando Carlo quis expandir o negócio e empregar outros artesãos para aumentar as cadências o efeito era igualmente nulo, e até, espantemo-nos, quando ele quis criar um mínimo de método na sua produção, como fosse, num dia só fazia traves para escadotes, noutro só barras para espaldares e noutro só pernas redondas de curules, as peças assim produzidas pouco mais serviam que para alimentar as lareiras durante os invernos sudalpinos, ou, quanto muito, para fazer bengalas para os maridos das clientes de Carlo, aos quais se lhes encarquilhavam os musculos passados alguns meses depois da celebrada aquisição. Daí que não havia outro remédio: uma peça de cada vez e do princípio ao fim, como se de um encantamento se tratasse, aliás, os outros homens invejosos de tanta fama com proveito (ah, se calhar pensavam) apressaram-se a chamá-lo o Carlotte, o talismã do barrote.  Fixou-se o rumor de que tudo se deveria a uma fórmula secreta de tapa-poros mas nunca se consegui confirmar tamanho segredo. As peças de Clitorini foram, naturalmente, passando de gerações e, também como era esperado, cada vez que se dava essa passagem o seu poder ia-se desvanecendo, tanto que o último êxtase registado já remonta ao ano 1998 quando uma trisneta de Julia Endorfini (a primeira cliente e que chegou a passar alguns serões oleando o serrote de mestre Carlo) ainda sentiu uma aragem morna pelas pernas acima quando subiu ao escadote de sucupira para ir buscar uma garrafa de medronho que estava escondida entre as latas de mexilhão em vinagrete.

verso à terça

Pó cheira a raio de sol,
mel bravo à liberdade,
boca da moça à violeta,
e o ouro não cheira a nada.
A reseda cheira à água,
amor à maçã rescende,
mas agora já sabemos -
só o sangue cheira a sangue

Anna Akhmatova, in Resposta Tardia (1943, tradução de Nina e Filipe Guerra)

Ventris Tractatus

Tratado de Pançalogia

Na Inglaterra do entre guerras Colin Flissburg tornou-se conhecido pelas suas curiosas teorias de abordagem ao binómio corpo-personalidade. Não eram umas teorias quaisquer, mas não passaram à posteridade. Talvez alguma excentricidade não ajudasse, talvez a pouca clientela da altura não ajudasse, talvez a falta de sensibilidade aos temas não ajudasse, talvez os tempos em geral não o tivessem ajudado.

Seria uma pena que nos dias de hoje, ao ter acesso privilegiado a elas, eu não as recuperasse, tal a sua actualidade e tal o carácter simultaneamente revolucionário e prático que elas encerram.

Colin era um dependente das então famosas 'opalines' de Convent Garden, uns biscoitos deliciosos com sabor a alecrim com mostarda que tinham a peculiar propriedade de deixar criteriosamente colocados resíduos lípico-decorativos na zona abdominal. Colin decidiu então passar a observar barrigas, a classificá-las, e a estabelecer correlações com os comportamentos daqueles que as envergavam, quase em concorrência aberta com as correntes frenológicas, praticamente inaugurando a moderna ventriosulogia. Foram anos de pesquisa discreta, mas meticulosa, pelas esquinas, pelos jardins, pelos vendedores de atacadores, pelas plateias dos espectáculos, pelos bancos, pelos armazéns, pelos bordéis, por todo o lado.

Felizmente Mr. Flissburg deixou-nos o esboço do que hoje podemos chamar um autêntico tratado de ventrologia, no qual, muito mais do que a simples caracterização dos megatipos de panças, é dado um passo extraordinário na compreensão daquilo que é um património do masculino, daquilo que a genética pode e soube oferecer ao homem como compensação da dieta rigorosa a que foi obrigado desde os dislates e as ingenuidades de adão.

Em primeiro lugar deve registar-se que Colin conseguiu um feito notável ao sintetizar em 6 ventrótipos os perfis master de toda a pança masculina e sem necessitar de fazer qualquer citação de Oscar Wilde. Não deixa de ser curioso notar que não só se tratou duma tarefa de regularização geométrica em ruptura pós euclidiana - todos os tipos de perfil de ventre são de centro variável - como significou, e continuará a significar, para a grande maioria dos homens uma espécie de consolo por verificarem fazer parte duma grande e bem definida família de proeminências abdominais.

O primeiro grande tipo de perfil de ventre (vide fig.1) é aquele que Colin F. denominou de 'Pança Lunar'. O formato de quarto minguante ou crescente consoante os hemisférios vem geralmente associado a personalidades de alta previsibilidade, ciclotípicas, e que gostam, retiram evidente prazer de exibir a sua barriga. Pela sua forma equilibrada e de cariz elíptico, ajuda a construir comportamentos serenos se bem que com tendência para a vaidade e algum exibicionismo, aquilo que Evelyn Waugh haveria de apelidar em Vile Bodies: 'chic vitoriano tardio'.

A 'pança lunar' é muitas vezes confundida com a 'pança vírgula' (vide fig. 2), no entanto não poderiam ser mais diferentes. A 'pança virgula' é uma pança de transição, ou seja, está-se na pança vírgula em fases de interrogação interior (se repararmos é uma pança que também lembra um sinal de interrogação ao contrário) onde o umbigo se apresenta como um elemento essencial de todo o nosso sistema psicossomático e que, por isso, deverá estar sempre ao alcance visual. Geralmente associa-se este perfil ventral à chamada barriga de cerveja, o que é bastante injusto para a cerveja, aliás Colin F. quando se referia a este ventrótipo dizia eloquentemente: The Beer or not The Beer is not the question.

Uma das mais deliciosas descobertas de Colins foi quando atribuiu à 'pança-maminha' (vide fig.3) um estatuto que ninguém suspeitava. Este tipo de pança (que nalguns meios menos académicos assumiu o nome de 'pança pochete') começou a adquirir relevância científica quando se provou que a existência duma terceira via para a clássica mama peitoral dava um suplemento de auto-confiança ao homem, que se via assim também dotado dum elemento de sensualidade adicional. Há que distinguir este tipo do vulgar 'pneu', pois este na realidade não se enquadra na tipologia criada pelo prof. Colin Flissburg e nada mais é do que um fenómeno de inestética concentração de gordura em formato tubular e circundante. Ora a 'pança maminha' é um produto da mais elaborada produção antropológica e remonta às tribos do sul do paraguai quando estas descobriram que a maminha ventral atraia as representantes do sexo feminino ( em antropolês 'gaja' diz-se 'representante do sexo feminino') com os rabos (neste termo o antropolês não é esquisito) mais bem desenhados.

Mas nada mesmo faria crer que um quarto tipo de panças (vide fig.4) tivesse tão a ver com essa dinâmica das duplas panças, trata-se daquilo a que Colin chamou 'pança-três'. Talvez para evitar terminologias tipo dupla-pança, que atrairiam inevitavelmente comentários jocosos, estabeleceu uma nomenclatura mais discreta; mesmo assim não conseguiu evitar que nos meios mais críticos da ventriosulogia se estabelecesse uma piada dizendo tratar-se dum tipo de panças adequado às posições ímpares do kamasutra. Indiferente a esta falta de respeito, Colin foi muito claro na caracterização deste tipo: A 'pança-três' corresponde a um comportamento de perfil abdominal de indivíduos que se destacam por uma atitude compreensiva do mundo. Gostam que haja uma separação clara entre o bem e o mal (daí a clara distinção entre a parte de cima e a parte de baixo, não existente de forma tão flagrante em mais nenhum tipo) mas tendem a considerar que são ambos faces de uma mesma moeda. Não raro estes ventrótipos tendem a evoluir para a 'pança-lunar' pois, como sabemos, a natureza tem tendência para a promiscuidade e a miscigenação (neste caso, misciventriculação).

O tipo morfológico que causou mais controversa em toda a teoria foi indiscutivelmente a 'pança-colinho' e talvez tenha sido a grande responsável pelo seu relativo ostracismo. Ao principio pensou-se que Colins apenas quereria incluir um ventrótipo que sublimasse no homem o fenómeno da gravidez. (Como se sabe as teorias em torno dos formatos das barrigas de grávidas são muito mais antigas, remontam ao tempo em que a mãe de Nabucodonosor apareceu com uma barriga com o feitio duma caracoleta de Silves) Mas não. O prof. Flissburg foi bastante claro nas suas asserções: a 'pança colinho' (vide fig. 5) é, como a própria designação o indica, um fenómeno de paunch line que revela altas carências afectivas no homem que a apresenta. Quem desenvolve uma 'pança colinho' acaba por transferir para esse seu componente anatómico prerrogativas emocionais que mais nenhum elemento do corpo consegue, incluindo aquele que os estimados leitores estão a pensar. Colins chegou a referir um caso (ele era muito austero no que dizia respeito à apresentação de exemplos concretos) em que o cocuruto da barriguinha-colo ('paunchy-paunchy' era o termo que ele usava carinhosamente) se autonomizou e ganhou quase que uma identidade dentro doutra identidade, também conhecido no léxico técnico, numa aproximação freudiana, como a 'pança de transferência'.

Finalmente, o ultimo tipo de perfil abdominal tipo apresentado pelo prof. Flissburg ficou para a posteridade conhecido como a 'pança-tijolo'. Este ventrótipo (vide fig.6) com semelhanças óbvias ao produto rei da alvenaria, revela pessoas que são autênticas paredes emocionais. A barriga assume assim quase que uma indicação explícita dessa barreira e muitas vezes funciona como ponto de partida para amizades sinceras: dali não sai nem uma corrente de ar. Este mecanismo de pança-como-mensagem é muito importante em todos os estudos de Colin, e ele chega a dizer que haverá certamente uma zona do cérebro que dá indicações explicitas para que a arquitectura abdominal se desenvolva duma forma ou de outra.

Concluindo desde já, para mim, o que é mais importante a reter das teorias ventriusológicas de Colin Flissburg é que o perfil abdominal masculino não pode ser o parente pobre da psicosomatomorfologia, e que não se trata tanto do homem ter orgulho da sua barriga, que tão mal tratada tem sido pelos últimos suores da moda e do cardiofundamentalismo, mas sim da possibilidade de olhar para ela com o mesmo respeito como olha para um cérebro dissecado pelo antónio damásio ou para o rabo da jeniffer lopez; acho que ainda tem.

de girino a sapo parteiro

Saraiva Gusmão era um sapo toleirão e Isabelinha Rebordosa uma libelinha caprichosa. Esta é a história dos dois, vinda do tempo em que os animais sabiam coisas.

Saraiva, quando parecia ainda estar fresquinha a sua saída da girinidade, andava pelo charco distribuindo lampeduzadas. Isabelinha achou-lhe piada e deixou-se namorar num nenúfar recatado, defendido por uma cortina de juncos que lhe abafavam as gargalhadas. Riam juntos e em separado, mas namoravam mais de sonhos que de beiços.

Cada dia que passava Saraiva parecia aos olhos de Isabelinha um sapo raro, tocado pelos espíritos do charco, e deixava de ser apenas o sapo brincalhão, mais se parecendo quase um sapo-da-guarda, um elfo da coaxada.

Com o tempo Saraiva foi fazendo com que o charco parecesse a Isabelinha um mare nostrum, e ela deslizava por entre as nuvens, que se tornavam caravelas tais as preciosidades que ia descobrindo no seu saraivinha cor de oiro velho,  uns verdadeiros tesouros babushcamente dentro doutros tesoiros.

Saraiva sabia que não havia nenhuma razão para que Isabelinha gostasse dele, nenhuma libelinha esperta fica muito tempo com um sapo apenas por causa dum jeito especial de pestanejar e enrolar ideias ao entardecer. Isabelinha começou a sentir que os nenúfares estavam a ficar muito pegajentos e foi criando uma redoma onde Saraiva só podia tentar entrar à base do seu insinuante, sedutor e sinuoso coaxar, mas com poucas hipóteses para a sua perninha alçar.

Saraiva Gusmão ora investia ora recuava e Isabelinha Rebordosa divertia-se a fazer voos rasantes, voos sem tocar, ou raspando mas sem aterrar. Sabia-se no comando das hormonas do charco e sabia que o seu Saraivinha estaria sempre num nenúfar à sua espera, contando palpitações pelos dedos, ora vestindo uma casquinha de ovo, ora fazendo uns olhinhos que mais pareciam pérolas baças pela ansiedade e a incompreensão, acompanhados de porquês lançados fugazmente pela neblina.

Um dia Isabelinha bateu as asas com brusquidão, cansou-se, foi à vida dela, deixou o rasto do adeus nos céus,  e deixou de aparecer. Quem precisa dum sapo espirituoso e chato quando se pode ter um frigorífico cheio em casa. Um manto negro baixou sobre o charco e este transformou-se num pântano à espera de dreno. Drenou, secou, e Saraivinha adaptou-se à sua nova condição de guarda de deserto artificial mas sem direito a fardamentos novos.

Veraneantes de fim de semana iam visitar o que no passado tinha sido uma luminosa lagoa. Gafanhotos, centopeias, flamingos, garças, tartarugas e pelicanos. Não se sabe se percebiam o que lá se tinha passado, nem o sapo Saraiva dava fé de nada. Limitava-se a receber com cordialidade as visitas, mordiscando as bordinhas do cromossoma de girino parvo que ainda lhe restava. Não podia ficar a olhar para o céu senão mesmo sem pescoço ainda arranjava um torcicolo, e ninguém acreditaria num sapo com torcicolo.

Por razões que os deuses do pântano desconhecem, a libelinha caprichosa resolveu certo dia fazer um voo de nostalgia pelo pântano e encontrou um Saraiva mais frio e distante do que lhe sopraram os seus radares. Era um sapo dorido. Habituado à secura e indiferente aos ventos que silvavam por entre os canaviais. Isabelinha inesperadamente sentiu um aperto no seu outrora bem camuflado coração e com os sentidos ainda perturbados pelos novos odores da seco charco começou a ter visões de saraivinha rodeado por grilas, borboletas, besourinhas e até escaravelhas, a todas dando troco com o seu encanto de coxeador. Ora quem dá o coxear um dia vai cobrar na coxinha - pensou Isabelinha - e trocou-me pela primeira beija-flor que lhe apareceu.

Afinal Saraivinha Gusmão era um galã dos pântanos. Isabelinha pensara nele mais para irmãozinho mais novo, um anfíbio-de-companhia, um parceiro de nenúfar, um galhofeiro alternativo, alguém para ir discutindo as nuances de colorido do charco, mas no fim de contas tinha ali um garanhão dos juncos. Como era possível a libelinha Rebordosa e tão segura, não ter percebido que no meio de tamanho espírito, preciosidade e tesoiro estava um salteador de arcas perdidas, um fornecedor de lemes para libelinhas, um debochado que não descansava enquanto não fizesse cavalinhos com elas.

Esta é a história sem moral de como um sapo pode passar de porreiraço brincalhão a destrauss-kahnas dos pântanos. Mas o que aconteceu foi apenas os nenúfares terem secado com falta de oxigénio e, quando o sol voltou,  a sua pele limitou-se a reflectir a luz, que antes estava filtrada e esmorecida pela sombra frígida dos bambus.

L'homme a inventé le pouvoir des choses absentes (*)

Pacheco Pereira está quase a conseguir passar aquele cabo que separa os tipos chatos e irritantes para o patamar das coisas fofinhas. Ainda passará intermitentemente pela tormenta das marés da excentricidade, arrastará sempre a sua flana de iluminado rezingão, alimentar-se-á do sistema e doutros ecteteras avulsos, mas acabará por flutuar pela casa da branca de neve de forma bastante decente, dando-nos até uma ou outra maçã de venenos subliminares para trincar. Como é ténue a fronteira entre a indiferença e a imunização o veneno deve ser bebido às golfadas.

«os dias de hoje em que metade do mundo diz-nos que mesmo que façamos tudo o que devemos fazer ficamos na mesma situação do que não fazendo nada e a outra metade diz-nos que se fizermos tudo o que temos a fazer, talvez possamos fazer outra coisa, cuja não se sabe bem qual é»

Foi sempre assim. Será sempre assim. E, geralmente, quem não está bem não se muda, arrasta-se; os mais activos, claro, os outros deixam-se arrastar. A caminho da ausência.


(*) citação de Paul Valéry, também encontrável no Abrupto.

Desmaker memória

Por causa da morte de L. Freud repesco aqui um post do remoto mês de fevereiro de 2004. É um post banalíssimo, mas serve à causa.

Flesh. Flesh. Flesh.

Acabei por ficar com o Lucian Freud na cabeça. Por acaso acho que é um pintor que revela mais do que apenas a sua pintura. Sinto que acaba por ficar “ofuscado” pelo F. Bacon (com quem obviamente se influenciou e conviveu) e isso é algo que me atrai: alguém que fica ensombrado por outros que são mais fulgurantes, radicais, mais de “encher o olho”.

A “nova” figuração na pintura “produziu” dos mais interessantes – fantásticos diria mesmo – artistas (Hooper foi até uma das primeiras “discussões” de que eu dei conta aqui na blogosfera doméstica).

E L. Freud tem um percurso peculiar que vale a pena avaliar. Ele “parte” dum classicismo inicial (agora menos conhecido), fruto duma aprendizagem “tradicional” no estúdio dum retratista (Cedric Morris ), bem misturado com uma intensidade psicológica penetrante e suavemente desesperante (chegaram a chamá-lo o “Ingres do existencialismo”)

Só que “cansa-se”, e fazendo apelo a uma alteração na técnica específica da sua pintura, vai, já na segunda metade do século, revelar-nos a carnalidade que o torna agora mais conhecido.

Juntamente a outros como L. Kossof, F Auerbach, D. Hockney, e o próprio Bacon, dá azo até a uma vaidadezinha inglesa como “best figurative country” dos anos 80.

Este novo brilho, e até “obscenidade” da sua nova pintura vão afastá-lo um pouco da força insinuante dos seus primeiros anos (alguns críticos “arrasam-no” mesmo, dizendo quase que ele hipotecou a sua inspiração para se manter “vanguardista”), mas vão permitir um brilho nos seus nus, que serão certamente dos melhores da história da pintura.
Mas nem precisava deste superlativo. Só que esta coisa de classificar também nos está no corpo quase em carne viva.

Mostrar diferença é mesmo uma terrível fatalidade de quem tem de agradar. É por isso que eu desprezo o discurso da originalidade. Mas faço Lucian Freud passar ao lado desta minha ressaca preconceituosa


[E assim os sacrificados leitores sempre são poupados aquele esforço sem remuneração de ter de ver aqui especado um quadro do defunto, naquela busca destemperada dum quadro mais diferente que o do vizinho.]

Hamlect - minissérie


ela - Olha, espermatozoide deixou de ter acento no ó.

ele - Isso não abona na fertilidade nacional.

ela - Achas que toca a todos?

ele - Todos, como?

ela - Se, por exemplo, tu ficarás menos fértil também?

ele - Desde que a glândula se mantenha circunflexa acho que não haverá azar.

ela - Mas a gaita-de-foles vai perder a força do tracinho.

ele - Já me parece mais grave.

ela - Nada que se compare com o desaparecimento do cê da erecção.

ele - Esse já era esperado, o organismo teve tempo para se adaptar, incluindo na fase do jato.

ela - E talvez  na fase da retração já não se vá sentir tanto a falta.

ele - Será tudo uma questão de expectativas ou expetativas.

ela - Aí sim vai haver uma perda, penso.

ele - Diz que diminuem as desilusões.

ela - Tudo é suscetível de nos desiludir...

ele - Até se calhar a própria susceptibilidade depois de perder o pê.

ela - Sim, quando alguém perde certas susceptibilidades de estimação é sempre de desconfiar.

ele - Acho que, pelo sim pelo não, podemos ficar pelo tema do espermatozoide sem acento.

ela - És uma joia.

ele - É ótimo que o reconheças ao fim deste tempo todo, foi preciso ter perdido o acento também?

ela - Entre perder o pê ou perder o acento acho mais grave perder o acento porque pês há muitos.

ele - Sempre pensei que eu fosse a tua exceção de estimação...

ela - Estim'as melhoras.

verso à terça (*)

Desatarei a fantasia em cauda de pavão num ciclo de matizes,
entregarei a alma ao poder do enxame das rimas imprevistas

V. Maiakovski , in Escárnios (1916, tradução de Augusto de Campos)

(*) mas já a entrar pela quarta

Bonecas de Luxo

Um dos mais radiosos e eloquentes sinais da nossa oficial decadência é que noutro dia a mena mónica deu uma entrevista pós-menopausica ao jornal de negócios e já ninguém ligou nenhuma. Mena Mónica foi-se transformando numa espécie de medina carreira da misandria e longe vão os tempos em que as suas alarvidades de largo espectro entusiasmavam ou irritavam hordas de desocupados. No entanto, há sempre uma réstia de compulsão interior que nos (me, vá) leva a ler merdas do calibre de «as mulheres também gostam de seduzir os homens mas não o fazem duma forma tão (...) pateta.», quando podia perfeitamente ter ocupado o tempo a comer um coelho na brasa duma tasca aqui pertinho, mesmo que não se vislumbrem gajas em condições num raio de 5 kilómetros, tirando uma que há atrasado vi num semáforo a comer um calipo e que vestia um filha-da-puta-dum-vestido justinho em tons que me lembravam a madre teresa de calcutá mas sem as partes madre nem calcutá.
Dar audiência a mena mónica hoje significa que se aguardam frases como «nunca estive num conselho de administração mas imagino que falem como nas casas de banho de homens» para tentar explicar o estado obsceno do mundo, o que também, diga-se de passagem, não difere muito em qualidade de outras explicações mais sofisticadas que incluem desde a ganância da espécie em geral às famosas dívidas e dúvidas soberanas em particular.
Mena Mónica representa desde há uns anos uma pièce de resistence do valha-me deus com saias, tudo fazendo para que qualquer mulher que se preze aspire a ser violada por marcianos coxos ou inclusive carpinteiros vindos de Urano ou Filatelistas de Saturno. Terráqueos a evitar em absoluto, nem sequer para um chazinho mixuruca, pois fazem desabar sobre a mulher a sua vertigem para o poder e o domínio, (excepto com mena mónica que só copulou em regime de vantagens comparativas) principalmente os mais feios (mêninha não foi totalmente clara em relação aos porcos e aos maus)
Mena Mónica deveria assim ser preservada, julgo não ser ainda necessário investir no formol,  e face a isto: «os homens têm a sorte de a parte estética e da indumentária ser secundária. A mulher ainda é vista como uma boneca de luxo. (...) gosto imenso da cor de cabelo da Assunção Esteves» poderia, com proveito de todos, designadamente da maravilhosa zona saloia, ser-lhe atribuída a cátedra Vidal Eçasson vitalícia no politécnico da Malveira.

Pandovsky-Roudine uma história de vida.

Preocupado com os índices daquilo a que chamava a Indiferença Idiota, Zbigniev Pandovsky decidiu escrever o seu primeiro tratado de Resignação Criativa que intitulou de 'Os Refúgios da Mente'. A primeira edição continha apenas 4 capítulos (Sexo, Plantas aromáticas, Competição e Metafísica) e foi apresentado publicamente numa sessão especial do '2º congresso de Teatro Experimental da Saxónia' realizado em Leipzig em meados dos anos 50. O sucesso foi inesperado - pelo evidente exotismo do tema - mas retumbante, o que levou a que Zbigniev acabasse por criar a disciplina de 'Serenos Suplícios' na Universidade de Hamburgo. As suas aulas eram muito frequentadas e rapidamente Alina Roudine, uma emigrante russa e filha natural dum cônsul francês em Omsk, se tornou sua discípula e apoiante indefectível e fiel.

Zbigniev e Alina acabaram por casar numa boda discreta - se bem que devidamente patrocinada pelos deuses do alambique - em Estrasburgo e foi já conjuntamente que anexaram ao tratado inicial mais dois capítulos (Música e Cogumelos). Alina era uma talentosa violinista e reunia à sua volta inúmeros admiradores que tornaram célebres os serões na sua casa em Heidelberg, onde o casal acabou por se fixar e, em conjunto, administrar um curso livre que ficou para a posteridade com a designação semi-académica de 'A Introspecção sem fluidos'.

Com o tempo, o casal Pandovsky-Roudine (foram inovadores até nesta osmose de apelidos) foi desenvolvendo e refinando as suas teorias de Resignação Criativa tendo chamado a atenção dos mais diversos e até díspares quadrantes da sociedade, desde a área financeira à politica e inclusive gente de trabalho.

Como seria de esperar foram convidados a fazer um périplo de conferências nos Estados Unidos, com sucesso sempre em crescente, tendo ficado famoso o seu lado soundbytico ao discorrerem sobre o recurso aos poderes auto-anestesiantes duma mente sempre alerta (Alina tinha herdado essa característica retórica da sua mãe, uma costureira de Perm que costumava escrever bilhetinhos picantes às suas clientes com frases do género: 'uma bainha descosida é pior do que uma cona mal lambida').

Com o elan criado por estas conferências radicaram-se também no Missouri onde passavam metade do ano, alternando com Heidelberg onde os serões de Alina eram ansiados e repetidamente lembrados pelos seus admiradores, dos quais se destacava o cirurgião plástico Gregor Samezdini, um italo-germano nascido em Triste (os italianos nascem todos em trieste) e especializado em retirar superávits de carne das coxas e redistribuí-la por zonas menos abonadas do aquém e além lombo.

Aquando das suas bodas de prata, Zbigniev convenceu a mulher a acrescentarem ao agora já clássico tratado mais um capítulo e assim encerrarem com o número (de capítulos) que uma cigana budista de Gdansk lhes tinha dito se tratar do número da Grande Serenidade. Este capítulo, igualmente escrito a duas mãos, foi dedicado aos 'Refogados' e foi tanta a sua repercussão nos meios académicos que deu origem a várias edições em formato de opúsculo autónomo sob o título, algo longo mas apelativo : 'Não há nada que a alma rejeite se vier acondicionado em cebola e azeite'.

Curioso será notar que as bases programáticas da Resignação Criativa se mantiveram praticamente intocadas desde os primeiros tempos em que Zbigniev se dirigia às plateias da Saxónia dizendo: 'no coração dos homens está uma semente que transforma qualquer paralisia numa revolução permanente'. Uma das provas de que efectivamente as teorias de Pandovsky tocavam fundo nas pessoas e que ameaçavam muitas forças instaladas foi o aparecimento dum documento apócrifo que colocava Zbigniev a defender o cofiar da barba como o principal mecanismo de apoio à resignação que a natureza nos tinha dotado, deixando assim de lado a esmagadora maioria das mulheres que estariam relegadas a afagar pêlos alheios . Praticamente imune a estas campanhas para o denegrir foi sedimentando a sua teoria e não raramente governos e grandes instituições apelavam à sua intervenção para apaziguar e relançar ânimos e vontades, naquilo que alguns vieram a apelidar de Anti-motivacionismo. Entre outras, ficou célebre a sua conferência privada para o conselho de ministros do Governo austríaco em 1979 na qual Zbigniev desenvolveu detalhadamente as principais ideias do que ficou conhecido como a 'liderança no marasmo', hoje bastante citadas e referenciadas como a principal fonte ideológica do 'nem sim - nem sopas', uma corrente de contornos peri-liberais que se baseava numa espécie de Comodismo Algo Científico, bem retratada na sua máxima 'mesmo que algo não aconteça algo acontecerá'.

Z. Pandovsky fez a sua última aparição pública por alturas da 1ª guerra do Golfo, depois de ter aconselhado Bush pai a terminar a invasão e ir comer uns rojões à minhota no massachussets, tendo Alina continuado o seu legado com bastante sucesso, sendo hoje até voz corrente que está a pensar acrescentar dois capítulos ao Tratado de Resignação Criativa, em jeito se memorial, um primeiro subordinado às teses inacabadas do seu (dela) Zbigniev :'antes defaultar que ter hemorróidas' , e o outro, (que chegou a ser apresentado em formato embrionário no '25º congresso de enfermeiras anestesistas do colón da cidade do Cabo') já de circulação obrigatória nos circuitos underground dos ex-ministros das finanças com o titulo provisório: 'mesmo com um pouco de azia foi bom gastar enquanto havia '.

Como é para a menina io

Perdão, para a Senhora Dona Io ! Aqui vai:

1. Existe um livro que relerias várias vezes?

Nem pensar, eu faço isso com alguns mas é só como quem come salgadinhos e aperitivos salteados...a Ana Karenina é o meu pistachiozinho, o livro do desassossego é uma fava salgada, e vá...quando tenho o estômago em bom estado ainda trinco e retrinco um ou outro caju do dostoievski. Acompanho sempre com uma pinga do pavese. Mas são meros expedientes para ir entretendo a boca, nada mais.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

 São raros, raríssimos, os livros que leio até ao fim. Desde pequeno que me ensinaram que era feio rapar o prato. ( e também não tenho grande jeito para acabar nada - que também é a principal explicação da arrastada existência deste blog)

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?

Se não ficar passado dos carretos lerei o Novo Testamento até ao fim dos meus dias. É o único que me parece garantido.

3A. Se escolhesses uma vida para meter num livro, qual seria?

Ainda bem que me fazem esta pergunta: Oblomov, obviamente.

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Os únicos livros que me arrependerei de não ter lido foram aqueles que não li aos meus filhos quando eles eram pequenos. (julgo importante ter também uma resposta de pendor ternúrico)

4A. Que livro gostarias de não ter lido mas que, por algum motivo, leste?

Ainda bem que me fazem esta pergunta: A estrada. Ofereci a todos os meus amigos, para sofrerem como eu.

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?

A resposta nº 2 deixaria esta praticamente sem gás. No entanto, safo-me porque começo imensos livros pelo fim (quando não leio mesmo de trás para a frente). Assim, um bom fim, tomando em consideração que foi lido ao princípio e não me desanimou, pode ser o da Consciência de Zeno: «uma detonação formidável, que ninguém há-de ouvir - e a terra, voltada ao estado de nebulosa, continuará o seu curso nos céus libertos de homens, sem parasitas, sem doenças».

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Obviamente: não. Ler era coisa de panascas, mães empenhadas, pais rabugentos, irmãs mais velhas. Enfim, pessoal a evitar copiar. Algumas experiências - de leitura, atenção - terei tido, mas neguei e negá-las-ei evangelicamente bem mais que três vezes. Suponho que ver imagens com senhoras a libertarem-se de complexos não esteja incluído no maravilhoso e finíssimo conceito de leitura. Vá, o primeiro gajo ou gaja que tenha lido 3 vezes a guerra e paz antes de atingir a maioridade à antiga que atire a primeira pedra. Infelizmente o Austerlitz ainda não tinha sido escrito senão tinha-o levado para a 1ª comunhão.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim. Porquê?

Todos os livros são chatos. O prazer da leitura é uma invenção como o café pingado, um tipo habitua-se a ela e depois faz aquela figura de menina ao balcão. Estou em crer que tal - o referido na pergunta - me poderá ter acontecido mas em mero ambiente de coacção. Ou suborno.

7A. Qual o livro que achaste tão bom tão bom tão bom mas que ainda assim o mandaste logo para o lixo ?

Ainda bem que me fazem esta pergunta pois efectivamente tal ocorreu com toda a obra daquele moço das falésias de mármore e o caralho, um tipo quase com nome de esquentador, um tal de Ernesto Junger.

 8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Miúdas giras conseguiria responder...livros, não sei, sou muito tímido. Arrisco, acanhado: O Murphy do Samuel, os irmãos Karamanzov do Fiodor, as Benevolentes do Littel e a Metaformose do Maior. Espero que tenha rimado, foi só nessa condição, seja eu cego, surdo e mudo, mas quem me tira as Flores do Mal tira-me tudo. Mas se posso mesmo escolher: Tchitchikov ao poder!

8A. Que livro é que incluirias no plano internacional de leitura?

Ainda bem que me fazem esta pergunta, pois sou forçado a forçar que esse plano deveria incluir O Retrato de uma Senhora do henry james.

9. Que livro estás a ler?

Considerando que ler é aquele processo em que se passam os olhos em carreirinhas de letras posso dizer que tal fenómeno óptico se está a passar sobre um objecto que rebentou celulosicamente apenas um meio pinheiro manso que era tão querido, e que se chama 'Ekaterinburg'. Mas, garanto: estou mesmo a começar a ler essa porra só por causa deste questionário. E adianto-vos, acreditem, estou tão tão dorido, que tenho de ir por hirudoid senão ainda volto a ler o Freud.

9A. Que livro é que não estás a ler?

Ainda bem que me fazem esta pergunta, trata-se duma biografia do José Fouché que ontem estrafanei todinho a tentar matar um cabrão dum escaravelho na varanda.

Ora e se é para passar, passo à mm (para desenjoar das fotografias), à C. (pode responder nos comentários, é à borla), à Blanche (responder nos comentários, à borla também), à MC (está proibida de citar o Merton), ao dragão (para ver se ele larga o sismógrafo) , à Alexandra (a ver se acorda da matiné), à Cristina (por causa daquela coisa dos filmes marados e assim), à ana de amsterdam (para ela se distrair enquanto espera pela consulta do ginecologista) e ao LC (só para o chatear).

verso à terça



Mon amour tendre, doux
Je t'ai tendrement cherché.
Mais tu n'as pas dit mot:
Car m'aimais dans le silence.

Marina Tsvetaeva, in Les Carnets (em 1 de dezembro de 1917, tradução para francês)

O maravilhoso mundo dos jean-claudes

Era uma vez um brinquedo, mas um brinquedo que, desta vez, fugiu à iniciativa monopolifágica das grandes multinacionais do sector e foi inventado por um tipo curioso de engenhocas: os buro-engenhocas da moeda única. Inventaram e foram de férias. Agora, quem está a tomar conta da linha de montagem são dois encarregados: junker & trichet. Ora estes encarregados têm um problema sui generis: ficaram com o brinquedo nas mãos e agora, em vez dum brinquedo único, cada cliente quer um à sua medida e, pior, como o produto foi anunciado com garantia vitalícia, quem tem um em casa avariado já se está a colocar ao balcão a exigir reparação à borla ou, os mais afoitos, até querem um novinho em folha. Os nossos junker & trichet como não bastasse têm outra cena marada: dado que os brinquedos andam sempre de mão em mão e as crianças muitas vezes desmancham-nos, e dum fazem meia dúzia, neste momento não sabem quantos brinquedos estão nas mãos dos meninos. Há até meninos, caprichosos ou apenas tolos, que os trocam à balda por outros brinquedos e cada dia a confusão é maior. O que fazem então os junker & trichet: empaleiam os clientes dizendo-lhes que vão fazer um orçamento da reparação, e tal, e vão analisar se está coberto pela garantia (parece que muitos meninos andaram com o brinquedo à chuva e não se podia ), e vão estudar se arranjam uma espécie de brinquedo de substituição para os meninos se entreterem nos intervalos dos desenhos animados ou da bola. Como não bastassem os problemas, o junker & trichet não têm um patrão fixo. Ou seja, eles já não sabem bem o que fazer, mas ninguém é o dono da fábrica, e a todas as reuniões aparece gente nova que, em vez de trazerem a cabeça fresquinha de ideias, quanto mais não fosse para pilhas novas, levam para lá os problemas das suas próprias casinhas, pois, vai-se a ver, os donos da fábrica também têm meninos em casa com sarilhos nos mesmos brinquedos, ninguém escapa! , o brinquedo fez muito sucesso por todo o lado, fez até muitos meninos mandar os brinquedos antigos fora e agora já têm saudades. Há até uns brincalhões que dizem que se tem de inventar um novo brinquedo igual mas com outro nome, ou então que se deve ver quem são os meninos que deixaram o brinquedo estragar-se mais que a conta e a esses dar-lhes uns berlindes durante uns tempos para eles aprenderem que não se brinca com brinquedos pois os brinquedos não são para brincar. Os nossos jean claudes, que têm a fábrica parada com medo da inflação de brinquedos novos, pensam agora em fazer uma espécie de fundo de brinquedos estragados e com os bocados duns tentar arranjar os outros ganhando assim algum tempo entre a pequenada que, já se sabe, é danada para a brincadeira.

sete vezes nove não é igual a nove vezes sete

1. Quando G. se despediu de F. fê-lo duma forma displicente,  sem carinhos ambíguos nem frases de charneira, foi um adeus de currículo, uma coisa para ficar. F. enterrou essa despedida num canto do seu jardim das rejeições estúpidas, um canto onde nem os cães mijavam descansados, mas onde as chuvas ensopavam, nunca deixando lugar para a merda secar. O clássico cada um foi à sua vida prega partidas várias e naquele caso estava de serviço um destino dos que espreita sem se fazer notar. O Grande Pêndulo parecia perro e quando voltou bateu com estrondo. G. e F. gaguejaram com as suas primeiras investidas, ambos se explicavam e nada parecia ter explicação. O novelo foi-se desfiando aos poucos, cada borboto no encalço do seguinte, mas experimentando palavras antes caladas no segredo do preconceito, e na dúvida que transporta sempre o excesso de certeza. Os sentimentos mais banais pareciam bombas voadoras apanhando o balanço do Grande Pêndulo. Conseguiram fazer duas ou três paragens do tempo. É fácil fazer parar o tempo, mas exige que apenas se pestaneje nos segundos ímpares. G. era uma mulher talhada para ser única, saída dum fôlego inspirado. Uma mulher de agarrar. Mas não se pode pestanejar e F. baralhara-se na conta dos segundos. O problema dos regressos é como lidar com as partidas. Elas ficam arquivadas em que sótão? O problemas das luzes são as sombras. Onde se arquivam as sombras? Poderá uma sombra substituir a luz? Tiveram de deixar algumas perguntas no grande limbo da dor a caminho dos vários purganários da esperança. Quando cada um olhava para dentro de si via o outro. As melhores provas são as que vivem coladas à pele, como parasitas. Até a alma fica com inveja delas. Não há nada mais invejoso que uma alma alerta. Não há amor sem provas mas não há provas sem amor, concluíram.

2. G. pegara na mão dele e cartografara-lhe a personalidade. F. sabia que tinha entregue a mão para sempre. Num primeiro instante não percebeu o que tinha ido atrás da mão. Aos poucos foi percebendo. Tinha ido tudo. Saberia G. que lhe tinha ficado com tudo. Ninguém tem tudo de ninguém, diz o bem senso. E o mau senso também diz o mesmo. Como discernir, naquele caso. Pelos efeitos chegamos às causas. E quem se intromete no caminho entre as causas e os efeitos merece o desterro para os abismos da sorte. Tinha ido tudo.

3. F. beijara-a a primeira vez numa ladeira ao pé de sua casa, fora um beijo pensado como todos os beijos são pensados senão os lábios secam e G. arregalara os olhos de tal forma que F. ainda hoje não sabe o que isso significou, mas não consegue perguntar pois não se devem sobrepor perguntas umas às outras e há tantas outras por fazer mesmo sabendo-se que em cada pergunta por fazer há um menino que chora no outro lado do mundo. Mesmo assim.

4. G. dizia que não se ajeitava a exprimir sentimentos. F. dizia que era tão bom nisso que chegava a exprimir antes de sentir. Riam-se com aquele prazer que produz o riso descomprometido. Aliás, tinham-se comprometido a ser descomprometidos o que ainda dava mais vontade de rir. Mesmo quando arrufavam sabiam que acabariam a rir-se. Um dia choraram. Mas foi só um dia e nada comprometeram com isso.

5. F. conhecia bem G. G. conhecia bem F. Afiança-vos um narrador imparcial. Muito conhecimento mútuo gera confiança. Muita confiança gera segurança. Muita segurança gera tranquilidade. Muita tranquilidade não gera porra nenhuma. Afianço agora que não se conheciam assim tão bem.

6. G. um dia disse finalmente que o amava. F. estava sentado, felizmente. Inclinou a cabeça para trás e deu para os céus aquele sinal que, sob qualquer zodíaco, significa: foda-se até que enfim. Os céus não reagiram, certamente já saberiam, ou então simplesmente não queriam que ele se enchesse de entusiasmos. Um homem lida melhor com a rejeição do que com a correspondência. A correspondência é uma espécie de paz não anunciada, um armistício sem escaramuça. F. ficou tão feliz que ainda hoje pisca o olho à lua cheia. Às vezes até nem se aguenta e vai logo no quarto crescente.

7. Casaram numa igreja vazia. Só eles os dois, e a água benta descansando na pia; nenhum luxo faraónico, e  cada um testemunha do outro, no maior rigor canónico. Só ele sabia que estavam a casar, G. apenas sentiu que era um momento ou de sorte ou de azar, um solene e especial momento; hoje discutem se houve consentimento, chamam-se amor, príncipe e princesa, querido, flor, sim, parece ter sido consentido, e sem ponta de relaxe;  treinam as ternuras da praxe, em várias línguas, sabendo que umas são mais doces e outras mais afoitas e, claro, já tiveram de se esconder atrás das moitas. Treinaram todos os tipos de beijos: os audazes para demonstrar força na adversidade, os fugazes para provar bom aproveitamento do tempo, deram-nos bem cobertos e ao relento, mas sempre de olhos abertos. Minto, também com eles fechados, a sussurrar ténues obscenidades, como quem trafica mentiras ao preço de verdades. Chegam a dizer que mantêm a frescura do primeiro dia, aquele em que os olhares se cruzaram, os vasos timidamente se dilataram, e as prudências mais alto falaram. Se um tesouro de diamantes incrustado, muita falta lhes fazia, têm-no, bem guardado, pois possuem um, só deles, primeiro dia.