Dêem-me um cérebro novo que eu trato disto

Português que não ache que Portugal é uma merda nem merece ser português. Esta condição junta-se àquela, do mesmo calibre ao nível do sine qua non, de que português que não ache que Portugal é o melhor do mundo não merece nem um pôrzinho de sol enevoado na serra da arrábida. Ou seja, nós somos ao mesmo tempo o que quer que seja e o seu contrário, subvertendo todas as leis do aristotélico universo que parece ter sido criado sem tomar em consideração a abertura de espírito que emana da portugalidade que, assim, se vê obrigada a ter de concentrar em si todo o tipo de sentimentos sobre todo o tipo de fenómenos, no fundo, estar fodido e foder tudo na mesma acopulagem; valha-me Deus.
Penso assim que a alma portuguesa deverá ter direito a um tratamento especial quando chegar o momento do Juízo Final. O Juízo final, percebe-se, é um tema candente da minha riquíssima interioridade que, por experiência experimentada na própria experiência que experimentei, vos regista que com um português nunca se sabe bem se ele está a usar um livro de instruções se um livro de reclamações, o que o torna um cliente de juízos finais muito difícil de avaliar e consequentemente de encaminhar para a respectiva e correspondente zona purgatória. E tudo isto porquê? Pois não faço a mínima ideia; ai está outra característica que elimina toda e qualquer possibilidade de encontrar inclinação para o mal no português: não nos interessa o sentido das coisas; para nós, a maldade é uma mera maldade estética, pois serve apenas para tentar aparentar competência dado que bondade é trouxa e a indiferença é obra do diabo. Inclusivamente, o rancor nacional é apenas uma espécie de acidez que se torna indispensável para disfarçar o nível de extraordinária afabilidade que colocamos naturalmente nos nossos actos, que só não concorrem com os dos apóstolos porque, lá está, isso é pós tolos e nós de tolos não temos nada, espertos que nem uns ratos, independentemente de os ratos serem burros que nem um calhau - as analogias sempre foram uma especialidade nacional - senão não aceitavam entrar à borla naqueles testes dos psicólogos e mandavam-nos brincar só com pombinhos. E isto tudo porquê? Repito, não sei, almocei cozido, vendo bem almoço quase sempre cozido às quintas, aliás é sempre assim que sei que amanhã é sexta, nós, os portugueses, damos sempre muita importância aos pequenos sinais; sem contar os de trânsito; sic transit gloria mundi, queria eu dizer.

verso à terça (*)

Eli, Eli, lamma sabacthani porque me abandonaste entre os semáforos da gramática,
a mim que só pedira um dom pequeno?
o céu retirou-se como um livro que se enrola:
e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares,
acabou-se-me a língua bêbeda,
sôfrego, subtil, sibilante, sucessivo, solúvel

Herberto Helder, A faca não corta o fogo

(*) apesar de já ser quarta

vai um fado p'ra variar?

power rangers

O poder é uma construção estritamente humana. Uma das grandes revoluções do cristianismo (leia-se: do património religio-cultural que decorre da vinda ao mundo de Deus feito homem ) é permitir que se olhe para um Deus omnipotente 'fora do poder', (o 'deus-poder' é propriedade intelectual do paganismo) ou seja, Deus como presença, caminho, salvação, e uma carrada de não despiciendos etceteras, (ou apenas 'verdade e vida' para utilizarmos uma fórmula mais poeticamente friendly) deixando para os césares a secção do economato.
Num post do regressado dragonblog ele afirma que «o Poder vem sempre de alguma parte. Se não do «Alto e Sublime», então do baixo e desprezível. Se não conta a Palavra, passa a contar o número..» and so on, and so on. Ora na minha rudimentar forma de ver les choses: o poder nunca vem do «Alto e do Sublime», 'dasse!, 'o poder' é uma coisa do urbanismo da cidade dos homens, na cidade de deus só há aquilo que se pode sintetizar por 'amor', pois a confrontação com Deus impede toda a lógica inerente aos mecanismos de poder. Não podemos ir procurar em Deus a justificação do poder, tal como não é Lá que se encontra a solução para o tratamento de águas ou a luta contra as cáries. Nem a dignidade humana decorre do reconhecimento de Deus como fonte de todo o poder, a dignidade humana decorre do uso daquilo que nos torna humanos: 'uma moral' e 'uma caridade'. O homem está de facto condenado a ter de se amanhar com os poderzinhos que terá de ir alimentando e tecendo à sua maneira, seja com o dinheiro, ou a força, ou a ternura, ou o sexo, ou as ilusões em geral. É mesmo assim, e há pouco espaço para o assado. O poder é avassaladoramente mais inerente à nossa biologia do que à nossa espiritualidade; é por nós cá fabricado, numa linha de montagem sinuosa, por estas tais coisinhas «baixas e desprezíveis» pelas quais a Trindade penhorou a sua 2ª Pessoa, e iludido anda quem o quereria ver a jorrar, vindo das vestes do Altíssimo directamente para as consciências famintas dos degredados filhos de Eva. A liberdade foi uma das coisas mais fodidas que o Criador deixou nas mãozinhas destes rangers do domínio e da submissão que somos nós.

fétevôjou

O meu nome é Cavacalegre e sou um dos candidatos do novo jogo patrocinado pela empresa de apostas Betanduine (não confundir com o betadine). Ao arrepio do que possam pensar o objectivo deste jogo é encontrar um namorado novo para a diana chaves quando o cesar peixoto, depois de conseguir marcar um golo ao scp, a trocar por uma miúda que aparece numa telenovela a fazer de irmã dela e que, segundo apurei em fontes bem informadas, já limpou o sebo a 4 tipos. Assuntos realmente importantes se não mesmo dos tais fracturantes, tanto mais que o meu principal concorrente é Defensor Nobre, um veterinário de Serpa que entrou para a ribalta pois, ao ter descoberto um remédio novo para as infeccções nas tetas da ovelhas, fundou a associação Pastores sem Fronteiras, que se dedica a ir pelo mundo fora a fazer tosquias e ordenhas em zonas onde a cabra tende a ficar hegemónica. Traz-me por isso aqui uma atroz campanha de difamação, calúnia e infestação de piolhos que estão a mover contra mim e inclusivamente à minha pessoa, por alegadamente ter plagiado um poema em verso alexandrino a um carpinteiro do Buçaco (que estava apaixonado por uma cerzideira de Mortágua) e posteriormente o ter vendido para um fado da Carminho ao preço duma balada do Sérgio Godinho. Assim, para que os apostadores possam exercer as suas apostas cívicas na máxima segurança, responsabilidade e coronárias desentupidas, quero afirmar pela minha honra e próstata limpa, que (apesar de apenas ter nascido uma vez dado que a minha mãe só tinha posses para partos em unidose) esse carpinteiro do Buçaco apenas tinha feito uma mesinha de cabeceira para o casamento da minha mai nova e que, para isso, eu lhe tinha arranjado um bom tarolo de mogno ali numa serração no Carregal do Sal que é dum primo dum cunhado meu a quem eu tinha ajudado a desinfectar uma verruga, aí já com o betadine. Agradecia agora, isso sim, que fossem investigar o que é que andaram a dar de comer às ovelhinhas que o meu concorrente Defensor Nobre tosquiou, pois anda para ali muita mistura de fibra acrílica e poliester, vai-se a ver andaram a pastar nalgum poço de petróleo guardado por betanduinos, perdão, beduínos.

quando se for o pão cuidemos do circo

Por muito que nos possa custar, os políticos desempenham um papel ecológico, depurador (redentor já era exagero) na sociedade. Certos piquenos delitos comuns ao serem incorporados na sua (deles) actividade corrente acabam por se diluir e perder força, acabando por ser assimilados pela sociedade sob a forma de caquinha normal, fertilizando o bem comum.


O dicionário não ilustrado, neste período pré eleitoral, e sempre sempre sempre, mas sempre, em período de reflexão, não se pronuncia sobre as mais valias de cavaco nem sobre as menos valias de alegre ( julga mesmo que o melhor seria arranjarmos um cavaco alegre ) e apresenta a síntese definitiva da ética política nas entradas 1347 a 1351.

prometer o que não vai cumprir - pela sua natureza, tudo o que se relaciona com o futuro anexa actos de grande coragem. A 'promessa' enquadra-se nesta categoria. Assim, prometer aquilo que já se sabe que se vai cumprir é um desrespeito pela instituição 'promessa'; a verdadeira promessa deve estar associada à incógnita, ao falhanço, é preciso saber destacar bem a 'promessa' da 'previsão'. A promessa tem direito a uma dignidade muito especial e essa dignidade só lhe é conferida por um nível de cumprimento ridiculamente baixo. Quando o cidadão normal promete gera uma mera expectativa, quando o político promete cria todo um universo mitológico para a mentira.

manipular dados - desde Saussure e Lacan que sabemos que a linguagem provocou a 1ª grande falha entre o homem e a realidade. A segunda grande falha foi criada por aquilo que se costuma chamar de «os dados». O politico é o agente predestinado para melhor resolver essa grande quebra, relativizando-em-absoluto (reparem só nesta classe) a algebrização da realidade, tornando os factos reféns da sua, dele, vontade, e libertando-nos dessa grande responsabilidade e maçada que seria ter de aprender com a experiência. O cidadão interpela-se com os dados, o político atropela-nos com eles.

discriminação de clientelas - o acto fisiológico de viver é um acto puramente comercial; tudo trocas: energias, oxigenações, memórias, relações, fermentações; tudo se pode resumir a uma transacção de elementos: um dar, um receber, um pagar, um cobrar. Os políticos elevam à sua maior nobreza um dos fenómenos da troca vital: os favores; o figado faz favores ao estomago, o estômago faz favores ao intestino, os incisivos fazem favores aos molares, a bexiga vai-se aviar ao rim. Até o 'Pai Nosso' se vai aviar ao 'Credo'. O político transforma um metabolismo num património social.

fingir sentimentos - 'sentir' é já de si uma das grandes ilusões que o nosso corpo nos reserva. Está ali entre a fraude e a corrupção; ou seja, a máquina de sentimentos que temos incorporada merece ser devidamente posta no seu sítio e mostrar respeitinho ao ser que a acolheu. O político faz isso por nós: a ternura pelos que mais sofrem, as condolências pelas perdas abruptas, a consternação na hora da catástofre, a elevação da honra nacional, a dedicação ao bem de todos nós, o espírito de sacrifício pela coisa publica. Os políticos fingem por nós, abençoados, é essa a sua maior representatividade.

inventar passados - se o futuro é uma aventura o passado é uma ficção. Quem mais precisa do passado são os políticos e por isso são quem mais honra lhe pode prestar. O valor da fidelidade pode aplicar-se a muitas circunstâncias da vida, mas nunca ao passado. Prestigiar o passado é antes de tudo inventá-lo, truncá-lo, empolá-lo, adorná-lo, fazer dele uma obra de arte e técnica, pondo-o ao nosso serviço. Ora, se a maioria das pessoas precisa apenas do passado para lhe justificar algumas neuras, e uns recibos verdes aos psicoteratretas, os políticos usam-no como relicário para se passear pelas paróquias onde costumam arrear sermão. Se o contribuinte arrasta o passado inventado como uma via sacra, o político pode elevá-lo à condição de mistério do rosário.

sai uma first amendement para a mesa do canto, faxavor.

Poderia existir um tipo de perversidade de 3ª geração a guardar-nos a sanidade e a graça. Qual seria a moralidade daquele mal apenas pensado instrumentalmente, - nem Kant nem os anjos lá chegavam - apenas para nele concentrar as forças que poderiam, se desgovernadas a céu aberto, desencaminhar-nos em assuntos, esses sim, de importância real, vital, escatológica. Quem ama a Deus não terá também direito a uns minutinhos de mente sacana, aquele tipo de mente que conseguisse arranjar um vestíbulo para deixar o mal real apenas à porta a falar com o capacho. Será uma quimera esta psique que consiga encontrar um local de embuste que não é nem freudiano nem pavloviano nem damasiano? Esse lugar virtual onde cometêssemos os roubos, os insultos, um ethical-punch onde deixássemos a nossa soberba a esmurrar, a brincar ao faz de conta, onde déssemos os beijos de judas, sem Lhe tocar na face, e sem receber moedas em troca. Uma zona desmilitarizada. Um campo de tiro para a culatra da imaginação. Meu Deus, para ali não olhavas, sabias mas não olhavas, tipo os miúdos a jogar playstation enquanto os avós lhe dão sermões, era uma coisa só nossa. Um paralelo 38 da moral. Um pecadário, uma reserva artificial para pecados terapêuticos, indolores, incapazes, estéreis, fátuos, falsos. Risíveis. Eram a sombra das sombras da caverna. Precisamos deste espaço, meu Deus, duma válvula occipital, duma zona com imunidade penitencial, duma assoalhada onde as tábuas da lei ficassem apenas a fazer de parapeito e nunca de rodapé; vá lá, com uma fontezinha de água benta no meio. Podes fazer com mutação, com milagre, com arrefecimento global, com aparição, com selecção natural é que não pois leva muito tempo, pela nossa rica saúde.

avulso verso

Lépida a democracia apinhou
sarnosa e perdigueira
a dinâmica sevandija do verão.
O dejeto impunidade
na orla abjeta.

Joaquim Manuel Magalhães, in Um Toldo Vermelho

Euros e Tanatos

Hoje o dicionário não ilustrado trouxe a crise financeira para o divã; na sua 1ª aparição publico-privada (mesmo sem ser parceria) do ano não poderia deixar de fornecer ao amável público um guia - mon Dieu, moi même, je fait un guide! - para nos conduzir pelas novas inquietações, ó inquietação inquietação, pois está um recalcamento a cada esquina e uma sublimação a cada algeroz, e a diferença entre uma boa neurose e uma enrabadela de elefante pode ser apenas derivada à altura do genuflexório. Entradas 1338 a 1346.

taxa de juro - constituinte básico do sonho eurótico; sem uma taxa, qualquer entrega carnal se pode perder nos meandros da vulgar relação amorosa que, como sabemos, faz com que ainda não terminado o investimento já estejamos a carregar com o valor residual.

politica orçamental - tipo de acto falhado em que a intenção se confunde com o destino.

reguladores - trata-se dum tipo de situação de domínio em que o falo, em vez de se sustentar num bom par de tomates, opta por umas bóias com patinhos.

rating - construção do inconsciente que revela a incapacidade do mercado em resolver o seu complexo de édipo, acabando por recorrer a uns pais de aluguer.

proteccionismo - espécie de pulsão de transição que se instala na zona alfandegária do inconsciente e que geralmente aparece quando estamos quase a esgotar as reservas do super-ego.

fundo de estabilização - depósito onde as fantasias se podem resgatar sob a forma de obsessão ou de histeria, e a devolução é sempre em forma de melancolia.

solvabilidade - tipo de alucinação cinestésica em que parece que a nossa carteira se está a encher mas afinal é só o quisto a mudar de posição.

dívida - máquina de sintomas que representa a paz provisória entre a inconsciência da posse e a pulsão do calote.

Liquidez - mecanismo estabilizador do movimento de vai-vem dos recalcamentos e também denominada na gíria dos especuladores da psique como o 'narcisismo dos mercados'.

Parolos de todo o mundo, uni-vos

Já tivemos proletários, já tivemos burgueses, já tivemos camponeses, chegámos a ter saloios. Chegou mesmo a existir uma coisa que se convencionou chamar sociedade, que alimentou ciências com estatísticas sobre electrodomésticos e divórcios. Na mente de alguns carolas bem intencionados chegou a afirmar-se a ideia peregrina do individuo, chegámos a ver essências e substâncias nas coisas; choraram-se gerações perdidas, rascas, fodidas e soubemos equilibrar-nos entre degredados filhos de eva e abençoados filhos de deus. Piedosamente elegeram-se líderes, devotamente criou-se o direito e, que nem iluminados, levámos uma candeia a anunciar a libertação pela informação. Chegámos a conseguir resumir tudo a oprimidos e opressores, situação e oposição, a inocentes e a filhos da puta. Todos já tiveram o seu hino, a sua causa, a sua justificação. Todos já tivemos os nossos momentos de semente, de massa e de fermento, quem quisesse já podia ter escolhido uma parábola e uma bem-aventurança para si. Sobra agora uma massa borbulhosa, pegajosa, amarelecida, ciosa da ignorância que conseguiu ir acumulando e engalanada de farinha em flocos. Os que querem ser mais diferentes acabam mais iguais e a bitola volta a ser fornecida pelo jardim de todas as zoologias. Sem saber o que era a morte já a experimentámos em escala, em isolamento, a pedido, súbita, e até já inventámos a morte estúpida. Ora abandonados pelo além, ora abandonados pelo aquém, mas, pelo sim pelo não, entrincheirados na cova do amor e da felicidade, não vá a coisa dar para o torto e sermos apanhados desprevenidos por algum petardo da má sorte. Já tivemos capital, já tivemos trabalho, já tivemos valor, já tivemos escolha. Já fizeram de nós matéria e até ideia. Até há quem nos ensine a viver. Somos o resultado parolo duma divisão em que o numerador vive com o medo de se tornar resto.

Julia Sardinha

Nascera numa desova perto de Peniche, cedo fora bem recebida no cardume e a sua primeira excursão de treino foi tão bem sucedida, que logo passou a responsável pela carreira de Leixões, sempre na bisga e sem encontrões. A sua melhor amiga na altura era a Ritinha, uma petinga de se lhe tirar o chapéu mas que, sem sorte nem arte, acabou entalada nas guelras dum espadarte enjoado de carapau. Desde a mais tenra idade Julinha se destacou pela forma como se esquivava aos predadores da costa, entrincheirados nas águas turvas, e dizia-se que a sua barbatana dorsal iria deixar muito arenque de boca aberta e espinha dobrada; seria safada. O seu sonho era espraiar-se numa enlatada gourmet, banhada de azeite virgem, tratada pelas mãos dum conserveiro experiente e cortês que zelasse dos seus belos omegas3 destinados a proteger corações com ânsias de vasculação. Namorou com Nemo, inspirou contos para crianças de escritores com excesso de imaginação, entrou em dois fados castiços, disfarçou-se de moby dick numa festa de carnaval das cavalas de Viana do Castelo, entrou numa receita com marmelo, passou uma noite ao luar dentro dum búzio oco, e foi madrinha de casamento de um choco, que se imortalizaria em tinta dum quadro de Soulages. Só morre o que mexe, mas conseguiu fugir à tomatada e ao escabeche, aos restaurantes chamados Belmares, à brasa, e aos santos populares. Fingiu-se fina, fingiu-se grossa, mas acabaria estaladiça e untuosa. Fritinha. Servida num prato de entradas juntamente com Luisinha, Miriam e Marisa, concorrendo com um pires de linguiça; boas entradas.

bailoutame mucho

1. política

Já há uns tempos o nosso Sócrates (sócrates deverá ascender à categoria de 'político de estimação', uma espécie de tamagoshi nacional) disse - estará o vasto auditório recordado, certamente - que ainda estaria para nascer quem reduzisse melhor o déficit do que ele. Há poucos dias Cavaco informou-nos que ainda teríamos (não sei se todos ou se só alguém em especial) de nascer duas vezes para ser tão honestos como ele. Enquanto aguardamos pela proposta de renascentista de passos coelho, confirmamos agora que Portugal-nação pode vir a encontrar a sua vocação como barriga de aluguer para políticos sérios e poupados desde que - um pormenor importante - devidamente fecundada no local próprio (sodomizarem-nos não resulta, já deviam saber). O recuo na primeira leva de 'cheques bebé' ficou assim explicado, só terá direito a essa verba a pessoa que nascer duas vezes, ou , no mínimo, que possa garantir formalmente estar ainda para nascer outra vez. Todo o português que nasça apenas uma vez está destinado à desonestidade e ao esbanjamento. Aconselha-se, por isso, a classe profissional das parteiras a darem o nó no cordão com muito jeitinho porque a partir de agora vai ser necessário desatar e atar outra vez. Avisa-se também a classe obstetrícia e ginecológica em geral que todo e qualquer rebentamento de águas deve ser cuidadosamente acompanhado pois a reserva estratégica de liquido amniótico tem de ser acautelada, a fim de secarmos em definitivo a fonte de perdulários e aldrabões que tem sido a nossa estirpe.

2. bola

Cumpre-me informar que, naquilo que é realmente importante, este ano trouxe mais do mesmo: nem uma grosa incandescente pelo cu acima poria os cabrões dos lagartos a jogar decentemente à bola. Gostaria de saber o que pode fazer um pai para manter os seus filhos fiéis a um clube que os faz passar vergonhas com os colegas, e que inclusivamente os pode levar a desconfiar da capacidade paterna para lhes proporcionar uma vida com mínimos de confiança, serenidade e algumas farripas de felicidade, quando não mesmo desconfiar da sanidade mental do progenitor. Sim, educar como, nestas condições de achincalhamento moral!? Como ajudar a destrinçar o certo do errado, o bem do mal, o amargo do doce, a barriga do rochemback da coxa da claudia vieira, quando aparentemente lhes abrimos o caminho para se enfiarem irracionalmente no maravilhoso mundo do frangalho e da derrota. Só um pai Sportinguista pode realmente perceber o alcance de uma crise.

3. gajas

Uma das conclusões mais dolorosas que temos de tirar para este ano é que não deu ao plasma nenhuma nova sex symbol de que o país se possa orgulhar e inclusivamente ainda deixámos fugir a orsi feher para o atletico de madrid. Como sabemos o prazo de validade da sex symbol portuguesa cifra-se nos 18 meses (está entre o queijo flamengo e o miolo de camarão) e se não aparecer nada de novo poderemos ter de voltar a descongelar uma Diana Chaves ou parecido. O desfoque provocado pelos planos tecnológicos e pela pressão no rating da república permitiu inclusive que a nova namorada do ronaldo se viesse imiscuir num território que deveria ser um reduto exclusivo da maminha e do rabo nacional. Se há coisa que esse uiquiliques devia pôr a mão era nisto: português que seja apanhado a babar-se perante febra de importação não merece perdão.

Para desenjoarem das listinhas de livros

1. pmés do ano

Grupo GiSiFex, composto por:

Giralda & Gomez, lda - empresa do sector de materiais de construção, líder no ramo do soalho flutuante no distrito de Oliveira do Hospital, importador exclusivo da marca croata de rodapés Pisex, 5 vendedores a tempo inteiro, 2 a tempo parcial, 3 engenheiros de ambiente estagiários no departamento do pós-venda, frota com 3 renault kangoo e uma Transit em leasing. Gestão séria e familiar, apesar da secretária Belinha ter dormido duas vezes com o chefe da contabilidade. Dois apartamentos para venda em S. Gião recebidos como dação de pagamento dum construtor de Arganil. Promoção fracassada de diluentes suecos 'Herlander' no Natal. Telefone e electricidade cortados na Páscoa, subsídios de férias pagos em espécie com torneiras de duche e azulejos de imitação de viúva Lamego.

Silicabrase, sa - empresa do sector dos abrasivos, pequena instalação fabril em S. João da Madeira e escritórios em Águeda. Forte penetração no mercado espanhol e russo. Director comercial fluente em línguas e patente exclusiva para a península do processo de fabrico Holandês 'Radromeer' célebre pela campanha fracassada 'lixa mas não fode'. Venda apenas a clientes industriais ou grandes distribuidores com armazéns próprios. Dois lay-offs de 15 dias em 2008, 1 contra-ordenação da inspecção de trabalho em 2009 por excesso de horas extra de três trabalhadoras moldavas e duas coimas por descarga ilegal de 5 litros de aguarás chinesa em 2010. Processo Cível movido pela empresa de papel higiénico 'Sófete' que reclamou uso indevido da tarjeta 'lisinho & limpinho' nas embalagens de lixa nª 3 da campanha de bricolage dos supermercados Pimenta da Azambuja.

Fedintex, lda - empresa possuidora da rede do master franchise das perfurarias Lulu & Sandra com forte implantação em centros comerciais no concelho de Loures. Lojas com 200 a 500 m2, venda personalizada de decoração de beiços e refrigeração de axilas. Representação exclusiva para portugal da marca mexicana de batons 'Bijoulini', da marca uruguaia de escovas 'Desfrizola' e da marca de implantes mamários do suriname 'Nigella'. Primeiros problemas técnicos com um lote de verniz cor de macadamia que apresentava fissuras ao fim de 3 dias, respectiva devolução sem reembolso e duas livranças por pagar. Uma grande promoção de stick desodorizante no S. Martinho para escoamento de stocks e realização de liquidez acabou por ser um fracasso e foram vendidos ao desbarato para uma manifestação de depositantes do BPP do distrito de Silves.

2. corninhos do ano

Deolinda Bastos - Chefe de repositoras da cadeia de minimercados Pimenta da Azambuja. Namoro sério durante dois anos com Julio Raposeira, serralheiro efectivo nas oficinas de reparação auto da Hyundai da Alhandra. Primeira experiência sexual conjunta num fim de semana em Oliveira do Bairro e amor oficialmente declarado em jantar a dois (se descontarmos uma tia avó de Julio com diabetes e surda que nem um calhau) no restaurante Luz de Benfica-grelhados no carvão. Juras de fidelidade eterna num domingo gordo em Torres Vedras e primeira menstruação com atraso nos santos populares; falso alarme, aparentemente efeito secundário duns ovos escalfados comidos em casa da mãe de Deolinda, senhora de recursos, e dona duma pensão (de bem) em Sacavém. Luis Gonzaga encontrava-se na Azambuja perdido quando entrou no minimercado Pimenta para comprar um pacote de filipinos. Deolinda ofereceu-lhe umas shortcake embaladas a vácuo que rapidamente se transformaram em shortqueca atrás dumas paletes de diospiros por influência do paleio insinuante e sedutor de Gonzaga, vendedor de apartamentos num empreendimento de luxo em Souselas que utilizava materiais fornecidos por Giralda & Gomez (vide supra)

3. Ministro desconhecido do ano

Cecília Bordalo - responsável pelo ministério do Imaginário Nacional. Destacam-se duas entrevistas a Mario Crespo (uma a meias com um cozinheiro da Marinha Mercante), uma capa no Jornal Voz de Viseu aquando do aniversário da 1ª comunhão de Viriato e uma jantar de beneficência com Soraia Chaves a favor das vitimas dos Descobrimentos. Responsável pela campanha de lançamento da marca 'PH' ('Pobres mas Honestos') revelou-se influente no executivo quando fez obrigar os seus colegas ministros a usarem ténis Sanjo durante as visitas de Estado. Durante a assinatura do Tratado de Lisboa foi responsável pelos salgadinhos e pela tradução para mirandês. A partir de Setembro acumulou com as funções do secretário de estado que entretanto teve de sair para ocupar o seu lugar de administrador dos jardins botânicos.

4. Cobrador de Impostos do ano

Rui Silas - funcionário da secção de IRS da 4ª repartição de finanças da Gafanha da Nazaré. Responsável pelo record de 200 penhoras de mobílias de sala de jantar, 153 edredons de penas e 89 botas de cano alto. Candidato ao prémio 'Colecta d'Oiro' pelos serviços prestados na detecção de falhas em facturas de farmácias de benuron e adalgur.
O seu trabalho de proposta do modelo de alargamento do conceito de mais valias realizadas mereceu uma menção honrosa no concurso europeu do 'Saque & Siga' e pela terceira vez consecutiva foi eleito 'Teixeira do ano' pela sua ideia do 'arredonda fiscal' em que cada liquidação de IRS seria sempre arredondada para a dezena de euros superior sob pena do pagamento ter de ser feito com notas de 5 euros terminadas em 11.

5. Beneficente do Ano

Julio Vargas - sócio nº 234 da secção sul da associação 'Amigos do Bem Fazer', sócio nº 327 da secção de Odivelas da 'Charité2000' e chefe da secção de arroz carolino em pacote do banco alimentar da Arruda dos Vinhos. Responsável pelo protocolo com as lojas de pronto a vestir Repolho & Bilro, que dão um desconto de 25% em malhas a todos os benfeitores da associação 'Repele Tristezas' com sede no distrito de Portalegre. Grande impulsionador da campanha 'Alcatra por Amor' que conseguiu reunir 200 mil croquetes numa sessão de cozinha pública na ponte da chamusca. Em Julho ajudou a lançar o cartão 'mastercardo' que permite a acumulação de pontos nas distribuições de sopa quente, e que permite a cada 500 pontos uma entrada no balneário do benfica e uma sandes de paio autografada pelo Oscar Cardoso.

6. Paneleiro do Ano

Vicente Catita - descobriu a sua orientação sexual quando se apaixonou pelo tubo de escape dum Seat Leon no festival de tunning da Cova da Piedade. Primeiras calças justas compradas nos saldos da Minimo Dutti do cascais shopping, e primeiro beijo na boca a Xavier Pontiac, ilusionista e empregado do bar no centro cultural e recreativo de Trajouce. Revelada a sua opção sexual no forum da tsf sob o nome de Silvio Bexiga e primeira manifestação pública num festival de sócias de mickael jackson em Aveiras de Cima. Portador do célebre cartaz 'pelo direito à diferença e à igualdade e a tudo o que tenho direito' nas manifestações de apoio à lei do acasalamento jurídico de homosexuais. Primeira dúvida-de-orientação quando levou a mijar à rua a cadela Sininho da sua vizinha do 4ª esquerdo, dona Dulce Firmino. Casamento com Ivo Sampaio (ex Irene Sampaio) em Setembro, alianças compradas no leilão da casa de penhores 'Reluzia' em Elvas. Eleitos casal do ano pela revista 'Glamure', distribuída nas perfumarias Lulu & Sandra (vide supra) e patrocinada pela rede de oculistas 'Utóptica'.

e para quando uma lista de anjos do ano?

Como sabemos Deus Nosso Senhor tem montado e em funcionamento um esquema tipo wikileaks desde tempos imemoriais, totalmente pensado para que, quando se realizar o Juizo Final, o lavar da roupa suja se verifique de forma ordeira, fundamentada e sem percalços relacionados com uma deficiente interpretação dos factos, ou como se diz no cânone moral, dos pensamentos, palavras, actos e omissões.

O primeiro encarregado-chefe desse departamento foi o Anjo Wilfredo Kirquegardo Leandro Kustódio que se notabilizara desde muito cedo por ter conseguido manobrar e controlar uma rebelião de bactérias no ano seguinte ao big bang. No seu curriculo contavam igualmente a erradicação definitiva do anjo AlaricoTinto por ter andado a bufar coisas maradas a um monhé chamado Maomet, fazendo-se passar pelo seu primo anjo Gabriel, e uns anos mais tarde conseguiu reunir as provas conclusivas para enfiar na solitária o anjo Hilário da Purificação que se tinha disfarçado de indulgência plenária num sonho daquele monge nervoso de seu nome Lutero. Tudo teria corrido bem ao anjo wikileaks não fosse ter sido apanhado a traficar aparições com uma virgem mártir da Alsácia que fez queixa dele por promessas não cumpridas relativas a milagres com princesas austríacas frígidas.

O Altísssimo teve então de fazer uma reestruturação deste serviço e, ao abrigo duma legislação de flexisegurança, colocou o Anjo Joaquim Roçou na chefia, acumulando com o cargo de treinador da selecção de danças de salão. Joaquim Roçou era um anjo com bastante iniciativa e ao assumir posse deu logo nas vistas, quando se fez disfarçar de bom selvagem e acabou por provocar a Revolução Francesa.

Mas Roçou revelou-se um anjo ansioso e, uns tempos depois da viragem para o século vinte, considerando que o mundo estava calmo, e a efervescência revolucionária se confinara ao panfleto e às bebidas generosas, pediu transferência para um departamento que estava a dar o seus primeiros passos (uma cena interna do Paraíso relacionada com os crimes de asa branca envolvendo alguns anjos famosos) obrigando o Criador a mais uma alteração tendo escolhido para o cargo o Ancanjo Juliano Assanhado, um rapaz da nova fornada, recém saído dum programa de novas oportunidades para anjos que tinham sido apanhados na malha do doping (com a grande depressão bastantes anjos da guarda tiveram de ficar a acompanhar 3 ou mais pessoas em simultâneo, o que levou muitos a terem de se socorrer da nandrolona).

Juliano Assanhado em poucos anos conseguiu arranjar material para 2 guerras mundiais e uma revolução comunista de bónus, não se via tal animação desde os tempos áureos de Lucifer, aliás, na portaria de Éden Celeste durante esse período fizeram-se fortunas em horas extraordinárias (por uma questão de principio estava vedada a contratação de temporários ao purgatório) para receber toda a sorte de clientela. O manancial de informação sobre os índices de CHA (Capacidade Humana para a Asneira) que foi recolhida sob o consulado de Assanhado constitui ainda hoje um património de valor incalculável (inclusive a comissão instaladora do Juízo Final já montou uma barbarioteca para poder passar uns documentários na fase de rescaldo do armagedeon enquanto o pessoal estiver nas salinhas de espera, ou a trocar de roupa para treinar o número do fim do mundo em cuecas).

Esta actividade milenar de ir retendo os segredos mais recôndidos da alma humana, designadamente as zonas limítrofes do penico onde muita da mijinha vai parar, é parte essencial do mistério da criação e é bastante claro que se Deus não tivesse entendido que a merda era um elemento chave do sistema teria deixado o esófago ligado directamente ao cu.

Camões perdeu o emprego

Como sabemos, Gonçalo M Tavares desde o dia da 1ª comunhão escreve um livro por fim-de-semana. Com a profusão de fins-de-semana prolongados e pontes não seria de estranhar que nalgum destes acabasse mesmo por escrever uma versão pessoal dos Lusíadas; o que veio a acontecer e dar à estampa recentemente sob o título de 'viagem à índia' tendo recebido mais encómios que os muffins da nigella lawson.

Face ao inesperado, o Irritipsilon, suplemento literário do Purgatório, - que se dedica a acompanhar a evolução das obras dos seus residentes - resolveu entrevistar Camões no sentido de obter algumas reacções sobre este inesperado acontecimento literário ocorrido na crosta terrestre.

Luis Vaz encontrava-se na sauna a ouvir um disco dos tindersticks e a preparar uma versão pessoal de 'o crime e castigo' para frades beneditinos com um herói chamado Ismael Karenine e entitulado 'as velhas da taprobana'.

Irritipsilon - Sr Camões, diga-nos, quais são as suas primeiras impressões da viagem à índia do gonçalo m tavares, e da colagem que é feita aos seus lusíadas?

Sr Camões - oh, infantes, primeiro atravessai mares a nado / fazei só c'uma mão a letra de um fado / tapai um dos olhos com uma casca de figo / e depois, sim, vinde falar comigo

Irritipsilon - Sinto-o um pouco acossado, até há pouco era intocável, e agora vêm...

Sr Camões - nunca da ira retirei favores/ sempre o destino me foi trabalhoso / e não andei a sulcar o mar e a desbravá-lo/ para agora me virem chatear com um qualquer de gonçalo

Irritisilon - Dizem os especialistas da crosta que se trata de um novo monumento literário que irá perdurar pelos séculos...

Sr Camões - oh, instrumento da triste história universal do aproveitamento / ruína do sangue de viriato / fica aqui o meu lamento: / quando esgotada a lebre é entronizado o gato

Irritipsilon - Mas não pensa que esta renovação da epopeia num estilo semi-existencialista poderá ser benéfica, até pela curiosa originalidade, para as letras portuguesas?

Sr Camões - revolvo a memória da minha mágoa / ditosa a flama que tudo arde / mas quando se confunde o fogo com a água / até o ulisses se pode amancebar com o sartre

Irritipsilon - Mas não acha que a alma desencantada do português moderno também merecia a sua nova tragédia?

Sr Camões - a alma é um animal que não repousa/ mais honesto não há nessa insaciedade/ por isso o tal tavares fica a meio da cousa / quando diz que a literatura não tem ciúmes da realidade.

Irritipsilon - Mas não acha que Gonçalo M Tavares veio destapar um compasso novo para o ritmo interior da escrita em português?

Sr Camões - vocês, das revistas literárias / quando o açúcar açambarcado vos falta / põem-se a lamber as canas várias / à procura d'adoçante q'agrade à malta

Irritipsilon - Mas isto da literatura não será um eterno jogo entre a ilusão e a desilusão? entre a descoberta e o encobrimento?

(lembro aqui que a semi-pena a que Camões ficou sujeito nos seus 3.270 anos de purgatório foi a de ter de fazer 15 piscinas diárias levando numa mão um exemplar da saga do gilgamesh ilustrada por Eládio Simões um cunhado do fernão mendes pinto que era o desenhador de motivos campestres para os cortinados dos palácios da corte de castela)

Sr Camões - oh, que espirradelas de fontana sem piazza / não sabeis perguntar algo que não me irrite / ainda vos enfiava pelo cu um soneto em brasa / não tivesse no ombro a porra duma tendinite

Irritipsilon - Acha então que os críticos da crosta estão a levar o Tavares ao colo?

Sr Camões - acho que se cansaram das coisas que se percebem / levados que foram pela voracidade do enigma e do pretexto / e como já não é pela métrica que os versos se medem/ até a épica dum tavares faz do lobo antunes um antónio aleixo

Irritipsilon - Mas não considera que quando Tavares escreve no que-antes-era-seu-e-agora-também-é-dele canto IX : «Ela quer, Bloom hesita. Os dois avançam, a coisa faz-se», acaba por inventar a 'foda ontológica'?

Sr Camões - perca-se, enfim, já tudo o que esperei / um par de nádegas virou musa / um bobo sem piada tornou-se rei / as mamas já não pertencem a quem as usa

Irritipsilon - Não acredita, portanto, na renovação do ideal romântico, sob as vestes duma saga de desencantos intermitentes?

Sr Camões - o futuro quanto mais me paga mais me deve /por muito bom haxixe que se fume / por muito que seja o frio a derreter a neve/ quem não me engana é esse cabrão do Bloom

Irritipsilon - Safa, o senhor camões não aguenta mesmo o sucesso dos outros... pensa mesmo que consigo tinha acabado a tragico-maritimice portuguesa? fizeram-lhe algum mal?

Sr Camões - não pode mal haver para comigo / de que eu já não me possa bem livrar /se esses tavares esfregarem bem no umbigo / verão que ainda têm muito estafilococos para tirar

Irritipsilon - Credo! Olhe se o Shakespeare também tivesse ficado assim depois da Enid Blyton!? ...Então e o Dante depois do Corto Maltese!?

Sr Camões - enquanto o tempo o claro dia torna escuro / a vida vai pedindo às palavras para ocuparem o espaço / mas como elas vão continuando a erguer o seu muro / aconselho ao tavares mais umas garrafitas de bagaço

Irritipsilon - No final do livro GMTavares diz que «a ingenuidade é irrecuperável», pensa que este livro é no fim de contas um lusíadas para realistas preguiçosos?

Sr Camões - dei-vos uma realidade em decassílabo como benção / mas vós desdenhosos chamais-lhe epopeia pelos mares/ agora, quando me vierem pedir letras para o festival da canção / dir-vos-ei mas é para irem ter com o tavares.

(e assim termina o tríptico adventício a propos de gmt)

viegas perdeu o emprego

Já estava praticamente em paz com a minha consciência, e inclusive com um bom negócio já apalavrado com o inconsciente, depois da alarvidade do post anterior, quando sou desamparadamente confrontado com uma entrevista que o Gonçalo M Tavares deu ao pravda da united colors of blogotton. Vacilei. De vez em quando fico infectado com este vacilo.

Como qualquer sportinguista sabe vive-se no nosso clube, seguindo o país, um momento de grande glória sob o triunvirato sergio-costinha-bettencurte. Julgo, pois, que é o momento certo de darmos mais um exemplo a todos e enriquecermos o discurso da 'entrevista-em-futebolês', introduzindo no seu seio o perfume do literaturês, ou seja, aquele incenso inebriante que emana das entrevistas a escritores e que se poderia também resumir em futebolês pelo: ocupar o espaço do entre-linhas. As entrevistas as escritores são das melhores coisas que não servem para nada do mundo - bem acima das pinturas do vasarely ou das vassouras dos kits lareira - e são uma oportunidade única que um treinador lagarto não pode nem deve desperdiçar quando precisa de dirigir a atenção para tudo menos para o que se passa no campo.


E foi assim que o júri do prémio Goncourt se lembrou arrancar com a nova categoria de prémio para a 'melhor entrevista a treinador estrangeiro', ao que Paulo Sérgio se devia candidatar aproveitando para usar algumas passagens com que GM Tavares abrilhantou a supracitada entrevista; passo a exemplificar.

Prémio Goncourt - Diga-nos, Paulo Sérgio, acha que as suas tácticas são determinantes para o jogo?

Paulo Sérgio - Tal como GMT disse «gosto muito da ideia de que cada forma diferente de escrita marca logo o conteúdo do que escrevemos», eu também gosto muito de considerar que são as minhas tácticas que determinam a merda de jogos que temos feito; eu estou para o bom futebol tal como certos romances estão para a arquitectura de interiores. Estou a pensar inicir uma nova estratégia de jogo a que chamarei 'Bairro Barbosa'.

P. G. - Sim...então, diga-nos, por exemplo, que instruções tinha dado ao seu jogador Vucevic para este se ter posto com fintinhas junto à bandeirola de canto quando podiam perfeitamente ter tentado ganhar àquela equipa do miúdo rouco, que até tinha menos um matreco e jogava com uma maçâ podre?

P.S. Bem, eu tinha dito ao Vucevic que, tal como ao GMT, «o que me atrai não é tanto o obstáculo é mais a ideia do cantinho escuro», ou seja, ele que procurasse os lugares do campo onde fosse feliz que assim as coisas bonitas e importantes haveriam de aparecer...

P. G. Sim...mas...não apareceram!?...

P.G. - Repare, eu e os meus jogadores somos como o GmT: «o que eu quero é ir iluminando partes do mundo que não conhecia», e todos nós sabemos que a zona da bandeirola de canto é ainda um grande mistério para o mundo do futebol.

P. G. - Vejo que aborda o jogo duma forma muito pessoal...

P.S. - Eu sou muito gmtavaresiano na forma de ler o jogo, como ele diria: «instintivamente , quando recebo uma 'jogada', é como se me movimentasse em redor dessa jogada', olhando para a parte de baixo dos passes, das desmarcações, como se pudéssemos levantar a saia dos dribles». Os bons treinadores estão sempre a desbravar a intimidade do jogo mas sem o macular, «eu não quero impor-me ao 'jogo', tento sempre colocar-me na posição de receber aquilo que ele me quer dar»

P.G. - Será por isso que uma ou outra vez alguns treinadores estão de cócoras no banco a olhar para o campo?

P.S. - «O Wittgenstein tem uma frase que considero muito bonita em que diz que quando quer mudar de teoria muda o corpo de posição. Isto faz muito sentido». E, como diria gmt, (não sei se já me referi a ele) treinar «não é mais do que contar uma história, que é a história de uma ideia».

PG - Acha que o seu treino, as suas tácticas, são mais histórias ou mais ideias?

PS -«Esta divisão entre histórias e ideias é uma divisão incorrecta». Eu «sou claramente do mundo das ligações», vejo o futebol como um processo, uma constante criação, «a pessoa vai avançando, avançando e a certa altura está num sítio diferente. Está naquilo.» O jogo é uma sequência de aquilos e os problemas que nos vão confrontando são precisamente os calcanhares d'aquilos.

PG - E então, sr Paulo Sérgio, como consegue equilibrar o jogo que salta tantas vezes de aquilos para aqueloutros duma forma tão vertiginosa?

PS - Bem, como diria GmTavares (julgo até que já falei dele) «estamos num mundo em que a questão do actual e do importante se joga minuto a minuto» e a minha fórmula é sempre esta, eu abordo o jogo como se ele já tivesse acabado, volto a GmT: «eu trabalho em diferido»

PG - Será então essa a razão pela qual esta época contratou 35 defesas centrais para depois continuar a jogar outra vez com os mesmos que já tinham provado ser uma bela trampa?

PS - Escalonar uma equipa é uma tarefa muito delicada e é preciso estabelecer critérios, «porque pode estar tudo numa confusão total, podemos estar mergulhados em elementos distintos, uns que atiram para um lado e outros para outro; quando começamos a organizar isso por ordem alfabética, a coisa ganha logo uma ordem, uma mágica». Eu acredito na mágica da ordem alfabética para definir uma equipa titular, e esta mágica irá impor-se, tenho a certeza.

PG - Mas terá de concordar que até agora não se viu nada de jeito...

PS. - Muitas vezes o processo da vitória e do sucesso é «um processo em que aquilo que nos parecia claro e evidente se torna mais escuro, mais obscuro». Ser vitorioso é ser paradoxal.

PG - Mas não há aí uma negação do heroísmo tão próprio da magia do jogo, do desporto?

PS - «Isto segue a estrutura da epopeia, logo desde a tempestade, no início». A magia precisa que primeiro se instale a perturbação, a desordem, é dessa combinação, sequência mesmo, que resultará o sucesso, como diria gmt (que, julgo, já referenciei há pouco): «nós precisamos das duas coisas, não te esqueças, cuidado, aqui há um perigo, mas ao mesmo tempo também acho que o encantamento é fundamental».

PG - Então vê os seus jogadores quase como personagens?...

PS - Claro. Por exemplo, Vucevic «é uma personagem que sabe muito claramente que é uma personagem, ali não há qualquer tentativa de parecer real». Por outro lado, se repararem bem, o Matias Fernandez (um jogador que foi contratado através do Facebook), joga como se levasse o santo graal na mão...

PG. - Acha que isso dará resultado?...

PS. - Posso-lhe assegurar que se GmT disse que «quase podemos organizar o mundo a partir do que as pessoas levam na mão» eu penso o mesmo em relação ao jogo, por exemplo, o Postiga nunca larga o seu cubo rubik e muitas vezes tem de rematar logo porque tem de tratar dele dado que as peças encravam muito com o uso e com a humidade da relva.

PG. - Se nos pode satisfazer a curiosidade... o que é que o João Pereira traz no seu regaço?

PS. - O João Pereira é um caso à parte porque é um rapaz que não consegue estar parado e eu , tal como o GMT (não sei se ouviram falar dele), «tenho muito medo das pessoas que não sabem lidar com o tédio», por isso como é importante tê-lo sempre em actividade, não vá arrear em alguém, ponho-lhe sempre na mão um pacote de cajus para ele ir roendo.

PG. - Julgamos entender... Identifica algum momento que tenha sido o seu primeiro grande entusiasmo táctico?

PS. - No jogo «gosto de coisas completamente opostas»... por exemplo, tal como GMT, entendo que «a grande velocidade é muito violenta», mas ao mesmo tempo o 'tédio também é perigoso', por isso tento incutir aos meus jogadores o encantamento da zona da bandeirola de canto ou do circulo central, e nos dias mais luminosos digo-lhes para irem uma ou outra vez à meia lua da área. Aos 18 anos vi os vídeos de todos os toques de calcanhar de Roberto Baggio, hoje não sei se seria capaz.

PG. - Acha então que se pode pensar no jogo como um lugar caótico, cheio de micronarrativas?

PS. - É engraçado: «parece-me que as pessoas ou são muito do e ou são muito do ou». « Eu 'vejo sempre vários jogos ao mesmo tempo'».

PG. - É por isso que os seus jogos estão sempre em diálogo com outros jogos?

PS. - É evidente que toda a tradição cultural está presente, não se pode pensar num Polga sem ignorar que já existiu um Hugo, nem se pode pensar num Saleiro ignorando que já existiu um Purovic, não se pode pensar que começámos logo a perder com o paços de ferreira sem esquecer que perdemos uma final da taça uefa em casa depois de estar a ganhar ao intervalo. 'Qualquer jogo que se jogue é sempre uma ousadia', como diria o nosso GmTavares, de quem julgo já falei aqui à atrasado.

(é evidente que esta potencial - e claramente precursora - entrevista de paulo sérgio para ser bem compreendida teria de ser acompanhada da leitura da entrevista de gMtavares à tal revista Ler (trechos entre aspas), mas como esta não foi incluída no pacote proposto para a campanha do banco alimentar, lamento o incómodo)

e descansem pois ainda não viram os meus desenhos no ibrushes

Considerando que a análise política e a análise económica estão destinadas ao fiasco, sobram apenas duas análises decentes ao homem moderno, e inclusivamente ao clássico: a análise literária e a análise religiosa. Repare-se antes de mais nos termos, não se tratam de 'comentários', nem 'críticas', são mesmo 'análises', ou seja, para melhor compreensão do vasto auditório: a análise é uma crítica mas já com as devidas e desproporcionadas ambições dialécticas de síntese, de, se quisermos ir mais longe (e , meu Deus, quem não quer ir mais longe) de sublimação, de - mais longe ainda - criação; e, Santíssima, (Deus já tinha sido invocado há pouco e praticamente em vão) quem não quer ser criador, nem que seja de galinhas!

Hoje tratarei de analisar em conjunto os fenómenos 'Gonçalo M Tavares' e 'preservativo', ou melhor, expondo-os em conjunto, designaria esta análise por: 'Santo António perdeu o emprego'. Reformulo apenas para efeitos didácticos: Gonçalo M Tavares (do qual o seu último livro premiado à francesa é bom exemplo) está para o soit disant «fenómeno da literatura em português» como o preservativo está para a não menos soit disant «ética sexual católica». Poderia dizer-se que é uma análise sem futuro pois só lê quem quer e só fode quem quer; falso. Irão compreender-me, prometo.

Experimentem acompanhar-me. Ao lermos GMT estamos a entrar num universo misterioso que deveria ser preservado: o universo da impotência literária, ou seja, entramos num grande ovário de paredes polidas onde apenas chocalha um liquido amniótico chamado 'vocês-nunca-poderão-acompanhar-este-paleio-porque-o-meu-espermatozoide-era-turbo'. O universo literário de GMT funciona assim como uma grande menopausa, não precisamos de nos prevenir de nada; diria até mais, basta ler utilizando o método-das-temperaturas: se estivermos com febre aquilo desliza muito melhor. Por outro lado, a tendência processual (ou o processo tendente, como se queira) para a reformulação moral ( 'reformulação' é o termo canónico para relativização, sublinhe-se) do uso de um método anti-concepcional artificial (está em curso a criação da Alta Autoridade para a definição de naturalidades e artificialidades) equiparando-o a uma mera abstinência (e não há nada mais artificial que uma abstinência técnica, alerto para o facto) é efectivamente também o método literário específico utilizado por GMT: quando se pensa que uma razoável ideia ficcional, poética, lírica, está pronta para germinar naturalmente, choca repentinamente com uma barreira aborrachada de nonsense que a deixa ali a chapinhar com outras produzindo um conjunto leitoso de nhanha literóide que se transformará, se for devidamente acondicionada, em direitos de autor alguns meses depois. É, então, um processo que merece ser acarinhado, até mesmo subsidiado, se bem que isso agora já não seria tão bem visto, depois da interrupção voluntária do cheque-bébé.

Permita-se-me então rapidamente a síntese: A melhor forma que a ética cristã tem de abordar o grande mistério da concepção é fazer ver aos seus fieis que sto antónio pode ter o emprego em perigo quando foder se tornar um mero acontecimento meta-literário.
procura-se: têmporas em bom estado para temporizar.
procura-se: valor para juízos de
procura-se: silogismo com património para premissa com iniciativa
procura-se: salvação para governo de
procura-se: biografia urgente para sucesso inesperado
procura-se: cálculo para folha de
procura-se: tentação barata para pecado urgente
procura-se: medo com ambições a fobia
procura-se: ciclo para fim de
procura-se: novos destinatários para batata quente
procura-se: nascimento para renascimento
procura-se: número para cautela premiada
procura-se: regime para pacto de
procura-se: adamastor para decoração de tormenta
procura-se: santo para milagre em bom estado
procura-se: cadência para de

desclassificados avulsos sem alvíssaras

.

Procura-se: país de 8 letras, 3 sílabas e nenhum acento, a meio caminho entre o grito, o espasmo, a jaculatória e o lamento


Procura-se: soberana para dívida sem pedigree


Procura-se: uma medíocre realidade que com um sofrível enquadramento produza um razoável cenário para a criação de boas circunstâncias


Procura-se: boas circunstâncias que com um razoável enquadramento produzam um sofrível cenário para disfarçar uma medíocre realidade


Procura-se: república para bananas com experiência


Procura-se: indicador económico que permita a país que deu novos mundos ao mundo poder passar claramente para o pelotão da frente do dito, sem precisar de ir buscar outra vez as caravelas à doca seca.


Procura-se: rendimento para tributação séria


Procura-se: múmias viçosas para pirâmide social em fase de decomposição


Procura-se: país em desaceleração para localizar à volta de linha de alta velocidade


Procura-se: meios agradáveis e duradoiros que justifiquem fins desconhecidos e incertos


Procura-se: misantropo com experência para crematório em expansão


Procura-se: bois que se deixem chamar pelos nomes a fim de atestar frontalidade em governação de rebanhos.


Procura-se: pobreza sem rosto para mera identificação estatística


Procura-se: formação geografico-politíca sem tratado, para troca de experiências constitucionais com compromisso. Garante-se a mínima referencialidade.


Procura-se: decisões de fundo para país que vive no buraco


Procura-se: frentes para fugas


Procura-se: potência polenizadora para país a quem saiu o favo


Procura-se: fronteira para contrabandista


Procura-se: espelho que Deus utilizou quando nos criou à sua imagem e semelhança


Procura-se: vício ligeiro para privação urgente


Procura-se: algo para dar a Deus depois de César ter levado tudo


Procura-se: santo padroeiro para costume bárbaro


Procura-se: tábuas da lei para seita marceneirista


Procura-se: salão de cabeleireiro para culto pentecostalista


Procura-se: toda a parte para encontrar Deus


Procura-se: prova da existência de Deus baseada na capacidade masculina de caminhar com a virilha assada e continuar a dar bons conselhos.


Procura-se: pastor adventista, porteiro episcopalista, contabilista baptista e jockey pentecostalista a fim de criar projecto empresarial visando transformar o papel bíblia em papel cavalinho


Procura-se: Deus compreensivo para testar moral atraente e credo ambulatório


Procura-se: humorista católico para desenvolver rábula entre a pila de adão e a cabeça da serpente.


Procura-se: hábito nº 48, cintado, que assente bem em monge que está a emagrecer duma fé nº 54 sem jogo de cintura.


Procura-se: certeza intermitente para céptico em part-time


Procura-se: esfera armilar para universo em contracção, a fim de produzir efeito roca para distrair o menino jesus.


Procura-se: graciosa venalidade que possua o sabor do crime, o encanto da distracção e o bom juízo da virtude


Procura-se: descarada para transplante de libido


Procura-se: chão para pés habituados a pensar, e ar para cabeça habituada a estar enterrada na areia


Procura-se: problema fantasma para enriquecer vida desassombrada


Procura-se: ciúme terapêutico para insegurança patológica


Procura-se: somatização ligeira ao nível da epiderme para canalizar efeitos de desgosto amoroso, mas que não exija o uso excessivo de pomadas com cheiro a menta.


Procura-se: melancolia para evitar engessar uma memória traumática muito exposta


Procura-se: escrúpulo com ambições a paranóia


Procura-se: inconsciente com prestígio para acolher recalcamentos duvidosos


Procura-se: linguae para lapsus carente


Procura-se: pequenas angústias para degustação por mente capciosa em momentos de racionamento psicótico.


Procura-se: arritmia sobresselente para vida monocórdica


Procura-se: sono para terapia de


Procura-se: método descomplexado para satisfazer dúvida preconceituosa. Dialéctica sigilosa.


Procura-se: existência para justificar pensamento


Procura-se: ignorante para comprovar sábio


Procura-se: a tal coisa para coiso e tal


Procura-se: lei natural para resolver problemas artificiais


Procura-se: rebelde com causa para revolução sem consequências


Procura-se: badana rígida e que não desiluda uma contracapa excitada perante um prefácio atrevido.


Procura-se: tabuleiro de xadrez com peças dispostas a tudo


Procura-se: feijoada para diarreia sem álibi.


Procura-se: ecrã de alta definição para distinguir cópula justa em mercado regulado, cópula equilibrada em mercado liberalizado, e cópula ininterrupta em mercado protegido.


Procura-se: bom olhar de esguelha para quem não sabe dar a outra face


Procura-se: vesícula com más vizinhanças para bílis em expansão.


Procura-se: lua em quarto minguante para astronauta com falta de orçamento


Procura-se: olho de vidro para comentador prever os acontecimentos que vão estar na berlinda


Procura-se: história sobre crimes à dentada para pivot da continuidade escrever nas folgas


Procura-se: agent provocateur no sentido de obter argent pacificateur


Procura-se: o que fazer com os espaços vazios do tracejado


Procura-se: óptimo disposto a travar amizade com bom


Procura-se: anti-americanismo primário para aplicação posterior ao decapante russo.


Procura-se: folha caduca para dar lição a rei de copa arrogante


Procura-se: tragédia ligeira para guarda roupa reduzido


Procura-se: sevilhana para dar uso a par de castanholas


Procura-se: sócio com boas ventas para negócio que está no pêlo


Procura-se: singular de pose simples para acompanhante de plural majestático


Procura-se: ginásio em roma para treinar transalpinos e biblioteca em pisa para treinar itálicos


Procura-se: signo entre o gelatinoso e o crocante para novo zodíaco em formação.


Procura-se: jardim suspenso para sexo seguro


Procura-se: amores não correspondidos a fim de criar clientela certa para negócio de cartomancia


Procura-se: combustível fóssil para desenvolver zona de património arqueológico.


Procura-se: pénis de alcance intermédio para fornicação táctica.


Procura-se: general na reserva para invadir região demarcada


Procura-se: 2º coelho para rentabilizar cajadada


Procura-se: modelo de carica para fusão amigável entre sagres e super bock.


Procura-se: ideólogo marxista para elaborar regulamento de luta de classes em recinto coberto. Eliminatórias a duas mãos para facilitar a alienação e aligeirar o determinismo histórico.


Procura-se: cães que nem ladrem para a caravana poder passar em sossego


Procura-se: portantos para poupar tampoucos


Procura-se: comunistas dissidentes para purgas didácticas a efectuar com a máxima discrição, fornecendo-se verba extra para renovação de guarda roupa e penteado.


Procura-se: pessoa responsável para treinar responsos


Procura-se: pastorinhos disponíveis para aparição sobre floresta de espécies não protegidas a fim de inviabilizar projecto imobiliário.


Procura-se: testemunha idónea e alibi convincente para crime passional provocado por ciúmes injustificados mas arroz sistematicamente queimado


Procura-se: antropólogo com bom feitio e melhores intenções para transformar sociedade horrivelmente machista em ternura de berço patriarcal


Procura-se: cruzamento de bermas largas em fase de promoção a rotunda para acção de formação a entroncamentos afunilados.


Procura-se: crime de colarinho branco para encobrir pescoço de pele de galinha


Procura-se: adepto fervoroso para equipa anti pirética


Procura-se: pescoço de enforcado sem marca de corda para ilustrar torcicolos em aula de anatomia


Procura-se: novas raças para hominídeos imberbes, de sentimentos nobres, dados ao desenvolvimento de fungos e ao encravamento de unhas.


Procura-se: expressão brejeira que produza um insulto situado entre a zona pélvica e as relações de parentesco de 2º grau, e que possa substituir com ganho de exuberância onomatopaica a tradicional cona da (minha) prima.


Procura-se: buraco de snooker que na horas livres possa fazer de baliza de matrecos.


Procura-se: curva com sobreiro, para derrapagem seguida de embate frontal para teste de tratamento paliativo


Procura-se: cozinheiro waabita para confeccionar xiitas de escabeche com arrozinho curdo servidos em hachemitas de barro.


Procura-se: garanhão bem alimentado para fertilização in litro


Procura-se: estampa de mulher para relação serigráfica. Fornecem-se marcas de água.


Procura-se: dois figurantes para a dezena chegar à dúzia.


Procura-se: assuntos em súbdita dispersão para exercer o poder de síntese.


Procura-se: enólogo com saliva alcalina para desenvolver casta rica em taninos.


Procura-se: realista mágico para recuperar enredo fragilizado por duas gémeas fumadoras com artrose e um amante ambientalista tísico.


Procura-se: palavra que rime com flor de estufa e que esteja disponível para relação estável em refrão de três versos a adocicar balada sobre incompetências românticas.


Procura-se: democracia bem instalada para escoamento de excedentes de tiques de autoridade