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procura-se: têmporas em bom estado para temporizar.
procura-se: valor para juízos de
procura-se: silogismo com património para premissa com iniciativa
procura-se: salvação para governo de
procura-se: biografia urgente para sucesso inesperado
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procura-se: tentação barata para pecado urgente
procura-se: medo com ambições a fobia
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procura-se: novos destinatários para batata quente
procura-se: nascimento para renascimento
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procura-se: santo para milagre em bom estado
procura-se: cadência para de
desclassificados avulsos sem alvíssaras
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Procura-se: país de 8 letras, 3 sílabas e nenhum acento, a meio caminho entre o grito, o espasmo, a jaculatória e o lamento
Procura-se: soberana para dívida sem pedigree
Procura-se: uma medíocre realidade que com um sofrível enquadramento produza um razoável cenário para a criação de boas circunstâncias
Procura-se: boas circunstâncias que com um razoável enquadramento produzam um sofrível cenário para disfarçar uma medíocre realidade
Procura-se: república para bananas com experiência
Procura-se: indicador económico que permita a país que deu novos mundos ao mundo poder passar claramente para o pelotão da frente do dito, sem precisar de ir buscar outra vez as caravelas à doca seca.
Procura-se: rendimento para tributação séria
Procura-se: múmias viçosas para pirâmide social em fase de decomposição
Procura-se: país em desaceleração para localizar à volta de linha de alta velocidade
Procura-se: meios agradáveis e duradoiros que justifiquem fins desconhecidos e incertos
Procura-se: misantropo com experência para crematório em expansão
Procura-se: bois que se deixem chamar pelos nomes a fim de atestar frontalidade em governação de rebanhos.
Procura-se: pobreza sem rosto para mera identificação estatística
Procura-se: formação geografico-politíca sem tratado, para troca de experiências constitucionais com compromisso. Garante-se a mínima referencialidade.
Procura-se: decisões de fundo para país que vive no buraco
Procura-se: frentes para fugas
Procura-se: potência polenizadora para país a quem saiu o favo
Procura-se: fronteira para contrabandista
Procura-se: espelho que Deus utilizou quando nos criou à sua imagem e semelhança
Procura-se: vício ligeiro para privação urgente
Procura-se: algo para dar a Deus depois de César ter levado tudo
Procura-se: santo padroeiro para costume bárbaro
Procura-se: tábuas da lei para seita marceneirista
Procura-se: salão de cabeleireiro para culto pentecostalista
Procura-se: toda a parte para encontrar Deus
Procura-se: prova da existência de Deus baseada na capacidade masculina de caminhar com a virilha assada e continuar a dar bons conselhos.
Procura-se: pastor adventista, porteiro episcopalista, contabilista baptista e jockey pentecostalista a fim de criar projecto empresarial visando transformar o papel bíblia em papel cavalinho
Procura-se: Deus compreensivo para testar moral atraente e credo ambulatório
Procura-se: humorista católico para desenvolver rábula entre a pila de adão e a cabeça da serpente.
Procura-se: hábito nº 48, cintado, que assente bem em monge que está a emagrecer duma fé nº 54 sem jogo de cintura.
Procura-se: certeza intermitente para céptico em part-time
Procura-se: esfera armilar para universo em contracção, a fim de produzir efeito roca para distrair o menino jesus.
Procura-se: graciosa venalidade que possua o sabor do crime, o encanto da distracção e o bom juízo da virtude
Procura-se: descarada para transplante de libido
Procura-se: chão para pés habituados a pensar, e ar para cabeça habituada a estar enterrada na areia
Procura-se: problema fantasma para enriquecer vida desassombrada
Procura-se: ciúme terapêutico para insegurança patológica
Procura-se: somatização ligeira ao nível da epiderme para canalizar efeitos de desgosto amoroso, mas que não exija o uso excessivo de pomadas com cheiro a menta.
Procura-se: melancolia para evitar engessar uma memória traumática muito exposta
Procura-se: escrúpulo com ambições a paranóia
Procura-se: inconsciente com prestígio para acolher recalcamentos duvidosos
Procura-se: linguae para lapsus carente
Procura-se: pequenas angústias para degustação por mente capciosa em momentos de racionamento psicótico.
Procura-se: arritmia sobresselente para vida monocórdica
Procura-se: sono para terapia de
Procura-se: método descomplexado para satisfazer dúvida preconceituosa. Dialéctica sigilosa.
Procura-se: existência para justificar pensamento
Procura-se: ignorante para comprovar sábio
Procura-se: a tal coisa para coiso e tal
Procura-se: lei natural para resolver problemas artificiais
Procura-se: rebelde com causa para revolução sem consequências
Procura-se: badana rígida e que não desiluda uma contracapa excitada perante um prefácio atrevido.
Procura-se: tabuleiro de xadrez com peças dispostas a tudo
Procura-se: feijoada para diarreia sem álibi.
Procura-se: ecrã de alta definição para distinguir cópula justa em mercado regulado, cópula equilibrada em mercado liberalizado, e cópula ininterrupta em mercado protegido.
Procura-se: bom olhar de esguelha para quem não sabe dar a outra face
Procura-se: vesícula com más vizinhanças para bílis em expansão.
Procura-se: lua em quarto minguante para astronauta com falta de orçamento
Procura-se: olho de vidro para comentador prever os acontecimentos que vão estar na berlinda
Procura-se: história sobre crimes à dentada para pivot da continuidade escrever nas folgas
Procura-se: agent provocateur no sentido de obter argent pacificateur
Procura-se: o que fazer com os espaços vazios do tracejado
Procura-se: óptimo disposto a travar amizade com bom
Procura-se: anti-americanismo primário para aplicação posterior ao decapante russo.
Procura-se: folha caduca para dar lição a rei de copa arrogante
Procura-se: tragédia ligeira para guarda roupa reduzido
Procura-se: sevilhana para dar uso a par de castanholas
Procura-se: sócio com boas ventas para negócio que está no pêlo
Procura-se: singular de pose simples para acompanhante de plural majestático
Procura-se: ginásio em roma para treinar transalpinos e biblioteca em pisa para treinar itálicos
Procura-se: signo entre o gelatinoso e o crocante para novo zodíaco em formação.
Procura-se: jardim suspenso para sexo seguro
Procura-se: amores não correspondidos a fim de criar clientela certa para negócio de cartomancia
Procura-se: combustível fóssil para desenvolver zona de património arqueológico.
Procura-se: pénis de alcance intermédio para fornicação táctica.
Procura-se: general na reserva para invadir região demarcada
Procura-se: 2º coelho para rentabilizar cajadada
Procura-se: modelo de carica para fusão amigável entre sagres e super bock.
Procura-se: ideólogo marxista para elaborar regulamento de luta de classes em recinto coberto. Eliminatórias a duas mãos para facilitar a alienação e aligeirar o determinismo histórico.
Procura-se: cães que nem ladrem para a caravana poder passar em sossego
Procura-se: portantos para poupar tampoucos
Procura-se: comunistas dissidentes para purgas didácticas a efectuar com a máxima discrição, fornecendo-se verba extra para renovação de guarda roupa e penteado.
Procura-se: pessoa responsável para treinar responsos
Procura-se: pastorinhos disponíveis para aparição sobre floresta de espécies não protegidas a fim de inviabilizar projecto imobiliário.
Procura-se: testemunha idónea e alibi convincente para crime passional provocado por ciúmes injustificados mas arroz sistematicamente queimado
Procura-se: antropólogo com bom feitio e melhores intenções para transformar sociedade horrivelmente machista em ternura de berço patriarcal
Procura-se: cruzamento de bermas largas em fase de promoção a rotunda para acção de formação a entroncamentos afunilados.
Procura-se: crime de colarinho branco para encobrir pescoço de pele de galinha
Procura-se: adepto fervoroso para equipa anti pirética
Procura-se: pescoço de enforcado sem marca de corda para ilustrar torcicolos em aula de anatomia
Procura-se: novas raças para hominídeos imberbes, de sentimentos nobres, dados ao desenvolvimento de fungos e ao encravamento de unhas.
Procura-se: expressão brejeira que produza um insulto situado entre a zona pélvica e as relações de parentesco de 2º grau, e que possa substituir com ganho de exuberância onomatopaica a tradicional cona da (minha) prima.
Procura-se: buraco de snooker que na horas livres possa fazer de baliza de matrecos.
Procura-se: curva com sobreiro, para derrapagem seguida de embate frontal para teste de tratamento paliativo
Procura-se: cozinheiro waabita para confeccionar xiitas de escabeche com arrozinho curdo servidos em hachemitas de barro.
Procura-se: garanhão bem alimentado para fertilização in litro
Procura-se: estampa de mulher para relação serigráfica. Fornecem-se marcas de água.
Procura-se: dois figurantes para a dezena chegar à dúzia.
Procura-se: assuntos em súbdita dispersão para exercer o poder de síntese.
Procura-se: enólogo com saliva alcalina para desenvolver casta rica em taninos.
Procura-se: realista mágico para recuperar enredo fragilizado por duas gémeas fumadoras com artrose e um amante ambientalista tísico.
Procura-se: palavra que rime com flor de estufa e que esteja disponível para relação estável em refrão de três versos a adocicar balada sobre incompetências românticas.
Procura-se: democracia bem instalada para escoamento de excedentes de tiques de autoridade
Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [12]
Na fase terminal do seu mandato, FMI revela-se uma mente em escassez de gases com poder combustível e avança por um iluminismo fin de siècle que, no caso, era moitier de siècle.
16 de Agosto de 2031
Hoje, durante a manhã, finalmente conclui o que anteriormente já intuí e mais atrás ainda pressupus: o saber é incompatível com o poder. De entre outras incompatibilidades recentemente epifanadas a que mais me surpreendeu foi a de que a própria intuição não coabita decentemente com a sensibilidade, chamando aqui sensibilidade àquela característica predominante nas criaturas que se especializaram em ser dominadas pela realidade; sendo que 'ser dominado' significa aqui 'absorver', o que é, assim, praticamente equivalente a 'dominar', concluo final, copulativa e arduamente: o mecanismo da intuição é inimigo da posse. Assim ficamos dum lado com o saber e a intuição e do outro com o poder e a posse. Felizmente (andava eu nisto) deu-me uma fome negra ao almoço e o Hélio Herpes da Cunha veio ter comigo, trazia um farnel de pães saloios com queijo aflamengado sendo notório o deficit, no caso, de vegetais. Falámos sobre fermentação leitosa e poesia galega, tendo-se juntado a nós a minha chefe de gabinete, que partilho com o ministro da cultura às segundas, quartas e sextas durante a tarde, e com o call center do Instituto de Socorros a Náufragos às terças o dia todo. Hoje, nos dias que correm, mais propriamente, as finanças públicas são um exercício combinado e iterativo de métrica e rima: vamos de sílaba em sílaba até à fonética final, e na última estrofe o mexilhão acaba sempre por aparecer porque tem a terminação mais requisitada. A L. hoje estava muito carinhosa comigo, parece ter adivinhado que estive numa récita da Florbela Tranca, aquela grande poetusa. A mulher em austeridade torna-se uma verdadeira predadora, ou seja, primeiro dá, sim, mas depois quer receber; em dobro. Vou dormir de banda pois parti uma costela a descascar um pistachio que confundi com uma santola (a ultima que vi foi no carnaval de torres em 2019 a fazer de cabeça do ministro da religião e das pescas). Tornei-me um visionário ao descobrir que quando nos diziam que Portugal era um país viável queriam dizer que teríamos uma boa rede viária para dar o salto.
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Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [11]
O desligamento de FMI em relação à realidade torna-se mais evidente a partir do último trimestre de 2030, apontando já para a sua fase mais sur-mística que se desencadeará definitivamente no ano seguinte com a entrada em vigor do sistema de 'governação vigilante', no qual, em vez de orçamento, aquilo que resta do Estado é gerido financeiramente pelo sistema FGC: um fuzileiro, uma granada e um cofre.
3 de Novembro de 2030
Quando em 2027 o Velasco Porfírio Vicente escreveu o seu livro em prosa semi-automática 'Quem mais orça mais mente', eu estava longe de prever que me seria tão inspirador para o decreto que hoje finalmente consegui aprovar naquela que ainda se denomina Assembleia da república - se bem que alguns já lhe chamem acémbleia dado que não se vê lá nada do lombo vai para mais de 30 anos: a partir de 2031 deixará de existir orçamento. Por outro lado tenho pena, pois nos últimos tempos o orçamento era a minha distracção preferida desde que acabaram as crónicas daquele moço, o balenciano, que fazia a critica dum disco de rock parecer uma descrição da digestão conjunta do compal de papaia com queijo de Serpa mal curado. O meu último orçamento foi mesmo dos mais inventivos pois, entre outras medidas, consegui que cada família tivesse de dar de jantar a um polícia por semana, ou então optar por dar uma banheira de água por mês para os bombeiros, e assim garanti praticamente o auto-financiamento da segurança da nação, modelo esse que vai sendo progressivamente adoptado por todos os países da Europa que ainda vivem harmonicamente o multiculturalismo, como a Suécia, onde, segundo li hoje, até voltaram a nascer bebés loiros. Inclusive, sinto-me orgulhoso, - mesmo que o orgulho não seja um sentimento - pois este ano dizem-me que estou bem colocado para ganhar o prémio goncourt para o melhor benefício fiscal, com a minha ideia de que por cada badana apresentada numa repartição de finanças o contribuinte passa a dispor de duas refeições quentes, um duche de água morna e uma salada de carnes frias por semana a uma taxa de iva reduzida de 72%.
Não quero parecer indelicado neste diário, mas depois de ter almoçado uns filetes de chispe está-me a dar a volta à barriga e preciso de perspectivar um momento de introspecção retrospectiva.
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Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [10]
Com o passar do tempo, o diário de FMI vai perdendo alguma colagem com a realidade mais próxima e imediata e vai derivando para um encharneiramento duvidoso com a linguagem que nuns tempos se chama psicadélica, noutros pop, e noutros uma trampa.
23 de Julho de 2030
Não fora um calorzinho estival que me percorre a espinha e hoje teria sucumbido ao gelo que a nosso atol financeiro não consegue fissurar quanto mais derreter. Infelizmente, desde a Reforma-do-paleio de 2025, as expressões que envolvam 'buraco' desapareceram da nossa terminologia oficial ou oficiosa, pois agora apercebo-me que o buraco tem algo de tão eloquente como útil: podemos lá esconder-nos, descansar, guardar segredos, tesoiros, espernear, espermear, e se ele for bem cavado e desenhado inclusivamente esticar as costas, ou até simplesmente ser esquecidos, algo que é, como se sabe, a camuflagem dos pobres. A seguir ao almoço consegui esquivar-me ao lançamento pela Roche Finance dum novo medicamento milagroso: o 'Keynesten'; trata-se de uma pomada que a economia aplica na zona lombar e que serve simultaneamente para anestesiar e para dizer às inflamações que façam de conta que são alergias enquanto não se sabe bem o que fazer. Foi o Velasco Porfírio Vicente que lhes escreveu a bula, «aplicar em camadas finas/ rodando sempre sem parar/ ou então, abrir um buraco nas minas/ e depois, puxar, puxar, puxar». Mas não deu para ir, tinha-me comprometido com o conselho de ministros a ir comprar uns rodapés ao ikea: já que andamos sempre de gatas, ao menos que tenhamos uma desculpa decente. Sinto que estou no topo da minha missão, naquele distinto lugar em que para saber a posição do Sol me basta observar para que lado os pássaros cagam.
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Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [9]
O amigo de FMI, Velasco Porfírio Vicente, ia cimentando o seu prestígio e cada vez era mais falado para a nobelização. A nação tinha os olhos postos na sua métrica sui generis e FMI, à falta de buracos em minas de cobre, depositava nele grandes esperanças para trazer outra vez Portugal para a ribalta, depois de tantos anos na ribaixa.
26 de Abril de 2030
Já vi escrito há muitos anos, num comentário a Ovídeo, que o que distingue os deuses dos homens é que os primeiros escolhem as suas metamorfoses enquanto que os homens sofrem-nas. Dei-me hoje a pensar nisto por causa da última medida radical que tive de introduzir: dado que a cobrança do irs tem reduzido de forma drástica - 80% das pessoas trabalham hoje de forma graciosa, e apenas para passar o tempo entretidas - substitui este imposto por um outro que incide sobre os sinais exteriores de envelhecimento. Para poupar na papelada e no timbre manteve-se o nome IRS (ficou 'Imposto da Ruga Sintomática') e deixei bem claro o que ele visava: a sociedade de portuguesa precisa de ter bom aspecto para poder continuar a dar a entender ao resto do mundo que estamos aqui para as curvas e que cada português serve perfeitamente como garantia para qualquer empréstimo que o Estado venha a necessitar. Em cada português há um Egas Moniz. Temos de estar despreocupados, libertos de angústias, de pele esticada, e de faces rosadas a disparar hemoglobina por toda a rosa dos ventos. Quando olharem para qualquer um de nós como garantia dos empréstimos da nação, os nossos credores sentir-se-ão seguros e confiantes. A ruga dá-nos cabo do rating.
Fui almoçar com aquele sentimento agradável duma tarefa cumprida, aquele espasmo quase metafísico de fazer o que deve ser feito. Como esta semana é par havia ovos mexidos na cantina do ministério e souberam-me bastante bem combinados com a salada de feijão verde que a L. me tinha preparado. Ainda reparti com o secretário de estado, que não via um legume desde aquele período que ficou conhecido como o do 'Referendo Saloio', no qual, em 2026, cada português passou a ter um talhão de horta na zona da Malveira.
O Velasco Porfírio Valente entregou-me hoje as provas do seu novo livro de poemas: 'Um túnel ao fundo da luz'. Trata-se de um trabalho minucioso, baseado nas últimas descobertas sobre a influência do soneto camoneano no efeito multiplicador do consumo de sementes de oleaginosas e, estou esperançado, vai abrir os olhos ao membros do comité do Nobel. Felizmente que mandei guardar um talhão com eucaliptos na Arruda dos Vinhos para que não falte o papel no dia da impressão.
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Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [8]
FMI tinha-se tornado ministro das finanças ainda relativamente novo, mas desde o início que se soube demarcar duma imagem de excesso de voluntarismo. Sempre pareceu ponderado, inclusive com a marca de distanciamento que lhe providenciava a prudência, mas sem mostrar medo de pôr a mão na massa. Dizia-se, a brincar, que gostava da massa al prudente.
16 de Outubro de 2029
Hoje faço 40 anos. Nada me dizem os números redondos, mas tenho de reconhecer que deles emana uma energia diferente. Foi até baseado nessa energia-especial-do-número-redondo que no início do mês assinei um despacho definindo que só passará a ser possível atestar depósitos - e bonificadamente jantar fora - na celebração das bodas de prata ou de ouro, fora dessas datas será cobrada a 'taxa de luxúria' - carinhosamente já conhecida nas repartições de finanças como a 'tuxa'. Penso alcançar com a tuxa uma cobrança que nos permita ligar os semáforos em Entrecampos aos domingos e, eventualmente, o elevador de Santa Justa no feriado da Ascensão.
Julgo que chego a esta idade em razoável bom estado, recebi até um inesperado piropo da L. ao me dizer que 'se as finanças públicas estivessem tão rijinhas como os teus abdominais este ano se calhar ainda podíamos pôr outra vez o iva abaixo dos 50% como chegou a estar quando nos casámos'. Considero que foi querida. O Hélio Herpes da Costa, por outro lado, ligou-me logo de manhã e, com o seu humor peculiar, disse-me que comigo no ministério anda tudo de finas ancas. O Velasco deve andar atarantado com alguns alexandrinos novos porque nem se lembrou de me dar os parabéns.
Jantei em casa, convidei o meu irmão M. que, como de costume, trouxe uma namorada nova - que é hospedeira-fritadeira daquela companhia de aviação nova, a Air-Bimby, em que os passageiros vão descascando batatas para reduzirem o preço do bilhete - e foi uma noite agradável que conseguimos passar sem fazer nenhuma alusão a péssima notícia de hoje, com a confirmação oficial de que está proibido o tempero da salada por um período indeterminado. Era inevitável, tivemos de trocar as nossas reservas estratégicas de azeite para comprar um lote de vacinas contra a micose asiática.
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Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [7]
Depois das grandes vagas de indiferença religiosa do início do século, uma campanha inovadora do patriarcado iniciada em 2021 junto dos barbeiros e cabeleireiras, com o título arrojado e controverso : 'Não à calvinice', fez recuperar o empenho geral em aprofundar a fé, baseados no lema de então: 'estamos carecas de saber que Deus é amor'
13 de Maio de 2029
Hoje acabei de ler o livro 'Para que serve Nossa Senhora'. Trata-se do último tratado de filosofia política de Minerva Damásia, uma psicolitóloga que se tornou famosa em meados desta década pelos seus estudos em torno da consciência colectiva, dos remorsos de classe e do aproveitamento dos miúdos de frango. Defende agora Damásia que o culto em torno de Nossa Senhora de Fátima, que obteve um impulso fulgurante depois do referendo de Novembro de 2025 em que foi decidido pendurar um terço em cada caixa multibanco, acabou por ser determinante para a construção do novo desígnio nacional baseado nesta ideia revolucionária: em cada casa uma azinheira. O livro, escrito num ritmo que o faz parecer um misto de romance de cavalaria com folheto do Media-markt, faz apelo à sensibilidade mais fina do leitor e teve o mérito de nos recordar que, até hoje, as aparições de Fátima foram a maior obra científica do povo português, apenas aproximada pela via verde, os telemóveis pré-pagos e as receitas da maria de lurdes modesto.
Durante a tarde voltaram-me as enxaquecas, mas como a Associação Nacional de Ervanárias celebrava hoje o seu 10º aniversário aproveitei uma promoção para renovar o stock de lúcia-lima com que me dou muito bem. Aliviei por volta das 5 da tarde e ainda fui a tempo de apanhar uma matiné com a ante-estreia do ultimo filme do Gabriel Guelrinhas. Trata-se duma adaptação em fusão - para poupança de recursos - da tomada de Lisboa aos mouros com a guerra de Tróia, na qual o Martim Moniz em vez de ficar entalado numa porta se disfarça dentro dum galo de Barcelos feito com a madeira dum corrimão da embaixada da Grécia. Desanuviei um pouco e ainda deu para dois dedos de conversa com o Guelrinhas, um tipo curioso que começou a carreira a filmar ciclos menstruais para projectar nas aulas das pro-graduações de fecundação in situ.
Depois do jantar ainda falei com o Velasco Porfirio Vicente ao telefone, estava cabisbaixo, havia mais de duas horas que não encontrava uma rima decente para o seu trabalho em redondilhas sobre a flutuação das taxas de câmbio. Também não o pude ajudar porque estou com um ardor na vesícula desde que comi um nogat que a L. me tinha comprado numa feira de petiscos que agora há todas as quartas nos Jerónimos desde que o alugámos à Nestlé.
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Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [6]
Em 2020 foi decidido que a 5ª república se caracterizaria por grandes ciclos de 9 anos divididos em sub-ciclos de 3 anos cada: três anos de reformas, três anos de referendos, três anos de pousio. (A 4ª republica fora um breve período de 6 meses em que a governação estivera entregue ao departamento de jogos da Sta Casa da Misericórdia que, entretanto, faliu)
23 de Março de 2029
Desde que foram abolidas as estações do ano que me assalta uma grande tristeza nestes dias em que antigamente começava a Primavera. Penso, no entanto, que foi uma medida acertada, pois, por exemplo, deixou de haver desperdício com a renovação das colecções de moda, (na grande Reforma do Clima de 2023 foi deliberado que era sempre Outono) podendo os recursos têxteis dirigir-se agora para aplicações mais úteis como a cobertura de estátuas para protecção dos pombos - não me esqueço da desvalorização que sofreu a do Marquês quando a vendemos ( toda borradinha, benza-a Deus) há alguns anos para o jardim zoológico de Singapura.
Vendo bem tanta estação também não nos fazia falta, mas ao menos podíamos ter ficado com uma semanita a fazer de Verão, nem que fosse por causa das mini-saias. À conta da austeridade as mulheres têm investido mais nas mamas e menos nas pernas, pois uma glândula ficou com prioridade em relação a um músculo desde a grande Reforma Anatómica de 2021.
Agora que estamos a terminar o primeiro grande ciclo de 9 anos, tenho de reconhecer que a melhor fase de todas foi a dos referendos. Todas as 1ªs sextas feiras do mês tínhamos um e as pessoas envolviam-se, sentiam a governação como se fosse uma coisa delas. São desse período a obrigação das torradas serem servidas aparadas e o bolo rei ser sempre mal cozido. Foi-se à raiz dos problemas.
Hoje jantou cá em casa o ministro da educação; veio com uma cunhada que é viúva dum guarda-republicano, trouxe empadas de frango e uma tarte de maçã; a L. fez a sua famosa sopa de agriões que é de alface e pôs música da Hope Sandoval. Podia ter sido uma noite muito bonita, não fora termos recebido um telefonema da policia a comunicar-nos, alarmada, que, em infracção gravíssima à Reforma Educativa de 2022, tinham sido descobertos a monte dois portugueses que ainda não tinham mestrado.
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Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [5]
8 de Janeiro de 2029
Hoje fiz um ano como ministro das finanças e ofereceram-me um centro de mesa em flores secas para pôr no gabinete. O presente até terá a ver com o meu apelido, mas as flores secas combinam bem comigo e com os tempos. Felizmente eu tinha levado uma caixa de palitos de la reine que sobejaram dos reis e ainda pude dar uma arzinho da minha graça, retribuindo a surpresa. A L. sempre foi contra esta minha ida para o governo e passou o dia meio amuada, rabujando por tudo e por nada, sendo que a sua única palavra de encorajamento foi quando disse que eu tinha conseguido que dentro dum campo de concentração nos sentíssemos como numa reserva natural. Afinal de contas, e ao contrário do que chegou a pensar no início do século, o que interessa numa mulher é combinar a força enigmática do conteúdo com o efeito decorativo no contexto.
Desde que se aboliram os impostos na grande reforma de 2024, a receita baseia-se na filantropia coerciva, na venda de património e no aluguer da costa para a pesca, por isso subcontratei o grosso do trabalho do ministério à Remax, o que me deixa algum tempo livre que hoje aproveitei para ir beber uma meia de leite com o Porfírio Vicente, com quem já não falava desde a passagem do ano. Mostrou-me um esboço da sua nova peça: 'O chupista e o louva-a-deus'; trata-se duma alegoria em que um oportunista especulador se apaixona por uma vendedora de flores que fala com os insectos, e que procura revelar-nos que o lado parasitário da nossa natureza é o mais nobre e o mais dado à correcta organização da sensibilidade.
Constato que há muito que deixei que ter sentimentos, mas ainda me lembro muito bem do último, quando comi uma fatia de fiambre.
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Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [4]
Por referendo, realizado em 2023, o dia de Portugal passara a ser o dia dos Santos Inocentes celebrado a 28 de Dezembro. Fora uma votação renhida e a vitória obtida apenas pela diferença de 50 votos sobre a proposta apoiada pelos partidos da FMA (frente da miséria assistida) que defendia o dia dos namorados.
28 de Dezembro de 2028
Neste dia de Portugal, como de costume, fui almoçar com o Herpes da Costa e o Velasco Porfírio Vicente umas fanecas fritas num restaurante em Algés. Encontrámo-nos na Fnhac do Cais do Sodré e apanhámos o comboio da uma. Em Alcântara entrou também o Ministro dos Contentores e acabámos por convidá-lo a vir connosco; é um tipo que nunca desilude com as suas histórias, pois desde que na grande erosão de 2021 desapareceu todo o areal entre a trafaria e sesimbra, aproveitámos para aí construir a 'Containerland' , um parque temático dedicado à poupança, pechisbeque, pelintrice & pechincha.
Derivámos um pouco em excesso e perdemo-nos no moscatel e nas horas. Fomos assim forçados a ir directos para a festa do grupo Genuflex. Desde 2025 que são o maior grupo industrial português. Tudo começou aquando da conversão do Japão ao cristianismo e a Genuflex (na altura dos irmãos Caixinhas) se iniciou na exportação maciça de confessionários para aquela zona. Quando eu fui director-geral das florestas e matagais mandara abater todos os eucaliptos (a ultima dose de pasta de papel foi produzida para a colecção de cartões de boas festas da Unicef em 2018) e fiz plantar pau santo por todo o país; tal veio a revelar-se uma boa ideia que os irmãos Caixinhas souberam aproveitar da melhor maneira, projectando as capacidades penitenciais de Portugal no mundo. Sempre me foram gratos, e a gratidão é a ultima coisa a desperdiçar - sem desprimor para os pasteis de bacalhau. A L. não quis ir; desde que pertence à seita dos picuinhas que lhe fazem impressão todas as actividades em que não se tenha de passar pelo menos de hora a hora com a mão pela consciência.
Está a chover muito e lembro-me agora do que dizia o meu pai: nestes dias de muita água nunca se sabe quando deixa de limpar e começa a enlamear.
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Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [3]
Uns meses antes de FMI ter tomado posse na pasta das finanças entrara em vigor o 58º plano tecnológico que tinha como objectivo fundamental o aproveitamento energético do bocejo. FMI descobrira que vários políticos poderiam com as suas entrevistas contribuir meritoriamente para este plano e estabelecera uma escala diária com os 128 canais de notícias.
22 de Setembro de 2028
Hoje tive uma correria a levar os ministros às entrevistas nas televisões, mas sinto-me realizado pois os últimos dados da marktest da semana passada revelaram um aumento de produção de 300 mil kw/bocejo. Julgo que, com isto, para o mês que vem já se poderão outra vez utilizar torradeiras na zona do litoral a norte de peniche; na zona sul vingou o lobi das cafeteiras e no interior o das escalfetas. Gosto muito da diversidade do meu país, pois mesmo sendo pequenino sabemos parecer muitos quando queremos.
Ao fim da tarde na recepção da embaixada de Espanha serviram tortilha e anchovas, por isso o governo esteve lá em peso. Eu teria preferido a da embaixada da Itália porque já não vejo carne no esparguete à bolonhesa desde o Natal de 2020. Fazem-me falta as carnes, tenho de reconhecer.
Hoje perdemos o Harmónio Palheto, um homem trabalhador e competente que pediu a demissão da Pasta do Ambiente porque teve uma infiltração em casa e o único canalizador do país está em Serrralves a arranjar uma obra do Raushenberg que precisamos de vender para o mês que vem.
O Velasco Porfírio Vicente veio cá jantar a casa, sinto-o numa fase de enorme produtividade desde que garantiu que a alma portuguesa fosse nomeada para património da humanidade juntamente com o museu ferroviário do Poceirão e os ovos moles.
Amanhã parto para uma semana de férias no Porto Santo. Já não ia ao estrangeiro desde a Páscoa de 2019 quando fui na semana santa ao Gerês.
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Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [2]
Nestes excertos do diário secreto de FMI , que se começaram aqui a transcrever, é patente a sua ansiedade permanente por querer agradar a todos, e uma das personalidades que neles é muito referida é o moralista criativo Hélio Herpes da Costa, com quem FMI mantinha uma amizade decorada de acesas discussões sobre tudo, mas, sobretudo, sobre nada.
16 de Junho de 2028
Tive uma manhã bastante turbulenta por causa dum telefonema que recebi do Herpes da Costa. Ele insiste em que a sociedade é um todo e que deviam ser reduzidas ao mínimo as medidas de protecção selectiva como aquela que eu introduzi ontem ao admitir que as lojas do Pingo Doce recebessem a cobrança do iva em espécie, tendo como contrapartida o fornecimento gracioso de todos os frutos secos para as embaixadas portuguesas. Aborrecem-me estas incompreensões de base ideológica, e a L. diz-me, inclusivamente, que me fazem uma espécie de borbulhagem na zona lombar - eu até lhe respondi, para tentar desanuviar, que assim ela já tinha algo que coçar. Rematou-me logo, sem apreciar a piada, que o Herpes da Costa, com quem, estou convencido, namorou nos tempos do liceu, gosta muito de dar palpites sobre o que os outros devem fazer ou não, lembrei-me então de que quando ele liderou a 'comissão para o aumento da natalidade' as suas principais propostas foram reduzir a distribuição de preservativos apenas para a 5ª sexta feira do mês, e o projecto científico dos 'partos às 20 semanas'. Mas no fundo acho que até gosto do Herpes da Costa, e o que ainda nos rimos ao telefone quando ele me disse que conseguiu convencer um grupo de indianos a comprar-nos a estação do Oriente para servir de entreposto à exportação de pitons para o negócio dos suicídios de honra.
Hoje doem-me muito as pernas porque agora no ministério só há elevadores às quartas feiras. Felizmente era o dia de distribuição de cajus aos funcionários começados pela letra F. Adoro adormecer com esta sensação salgada na boca, faz-me lembrar os tempos em que ainda se podiam gastar recursos naturais a fazer batatas fritas de pacote. Como dizem os astroanatomistas: o céu está na boca.
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Os Diários Secretos de Facundo Macário Induvial [1]
Segue-se a publicação de excertos dos diários daquele que foi o ministro das finanças de Portugal no famoso período de 2028 a 2033. Facundo Macário Induvial, um ilustre português de origem uruguaia, celebrizou-se por ter conseguido manter o país com o seu orgulho intacto depois da crise identitária originada pela venda do barlavento algarvio a um grupo paquistanês de peúgas. O período que se escolheu foi aquele em que FMI privou de perto com outra personalidade importante da época, o poeta Velasco Porfírio Vicente, que acabaria por ganhar o prémio nobel da economia como reconhecimento pelos seus trabalhos em verso alexandrino sobre o espirro chinês e a cólica coreana.
13 de Fevereiro de 2028
Hoje levantei-me mais tranquilo que o costume. Comi sem especial avidez a meia shortcake que tinha guardado de ontem e tanta era a minha calma que ainda tive de correr para apanhar a boleia do ministro da educação que está de serviço esta semana com a carrinha para deixar os ministros. Tenho de reconhecer que este mini-bus foi uma medida interessante que me foi sugerida pelo Velasco no Natal. Felizmente hoje o ministro da cultura estava de baixa, em assistência ao agregado, e sempre se poupou uma ida ao Poço do Bispo que, estou farto de o alertar, fica muito fora de mão.
O dia ficou marcado pelas enormes pressões que sofri para introduzir no Plano de Grandes Obras Públicas a substituição dos autoclismos na estação do Rossio. Penso que tenho de ser justo e equilibrado, mas custou-me deixar de fora os estores do Parlamento, tanto mais que não paro de receber cartas dos deputados a queixarem-se do sol na cara desde que se mudaram para o pavilhão do estádio universitário, de qualquer forma assinei hoje finalmente o contrato de promessa da venda do Palácio de São Bento, e o sinal que nos deu a Samsung já serviu para atestar o depósito dos cacilheiros.
Ao fim da tarde tive uma boa surpresa, chegaram as estatísticas e confirmou-se: no último trimestre do ano nasceram 14 portugueses, o que significa uma subida substancial em relação ao desastroso trimestre anterior em que apenas tinha nascido um casal de gémeos em Alverca.; entretanto pode ser que aquele poema que encomendei ao Velasco nos santos populares, 'Antes parir que aposentar' , esteja a começar a dar frutos.
Se amanhã conseguir vender o jardim zoológico à companhia das águas do Bahrein ainda vai dar para carregar os telemóveis dos secretários de estado com 20 euros cada.
Vou-me deitar cansado, tenho as gengivas a latejar, a placa está solta e só chega a cola da Indonésia em Abril; mas o raio dos ladrilhos do CCB têm prioridade.
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Berilos, Turmalinas & Volframatos.
Giacomo Piolini sentia-se, e consequentemente, no caso, considerava-se, um artista. Contudo, não apresentava talentos para render na vasta amálgama das designadas artes consagradas (uma espécie de estados religiosos aplicados à arte), daquelas em que não era preciso apresentar resultados explícitos para um artista se sentir realizado ('sentir-se realizado' é a 5ª essência da natureza humana, e a 1ª essência da natureza artística a par do Kunstschaffende Gedanke, já se sabe). Ora se é do acordo comum que um bom escritor não precisa de ser lido, um bom realizador não precisa de ver os seus filmes todos apipocados nas salas de cinema, um bom escultor não precisa de ver as suas obras a servirem de pisa-papéis, um bom pintor não precisa de vender os seus quadros ao Berardo, um bom actor de teatro não precisa de trepar às paredes como a beatriz batarda, and so on, and so on, Giacomo descobriu então que: se também se assumisse como um artista-do-negócio, poderia perfeitamente realizar-se sem que da sua arte tivesse de resultar qualquer mínimo vestígio de lucro, que, como é do conhecimento geral, e nalguns casos particular, se estabeleceu como a regra de oiro, mesmo com estatuto de condição sine qua non, para definir a bondade do negócio-que-não-é-arte-mas-apenas-negócio.
Doctor Piolini dedicou-se assim a conceber, planear e executar projectos de índole empresarial, nos quais realizasse a sua Kunstwollen sem o imperativo categórico (perdoem-me a deKantação terminológica) do cash-flow, ombreando assim sem vergonha com pintores da nova figuração, romancistas de diálogos do eu, bailarinos contorcionistas do expressionismo e cineastas do deserto da intimidade. Claro que teria sempre de ficar claro que jamais se trataria duma mera actividade-sem-fim-lucrativo, (como lavar o cuzinho a velhos indigentes ou distribuir sopas a benfiquistas) Não! mas outrossim algo que, de facto, estava rigorosamente pensado para dar lucro, mas pura e simplesmente dele não necessitava como raison de satisfation, tal como um pai-nosso se reza para nos dar força d'alma mas basta sabermos que nos pode salvar das chamas do inferno para aguentarmos a angústia da existência por mais uns 30 ou 40 e picos anos.
A sua primeira instalação - designação emprestada pelo sempre inovador e generoso mundo das artes mais ou menos plásticas - de negócio-arte concretizou-se numa empresa de polimento de minerais para incrustação em pontas de bengalas, pingalim's e bastões diversos. Tratava-se dum nicho dentro dum nicho, mas que cruzava várias linhas de força dentro do cluster dos body-suplements: 1) uma necessidade óbvia ( de coxos e demais aleijados) com 2) um adereço estético clássico (são vários os exemplos), acrescentando-lhe 3) uma nova singularidade estética com espasmos de propagação (leia-se: moda) e 4) uma nova forma de distinção (agora que se torna, meus Deus, cada vez mais difícil distinguir quem é quem na sociedade).
À estrutura da empresa foi decidido enquadrá-la num clássico funcional, uma espécie de chanel dos organigramas, sendo que alguma transversalidade também era admitida face à segmentação de negócios: linha coxo tradicional, linha paneleirote, linha aristocrática e linha gadjetada. Cada área tinha objectivos traçados anualmente, conta de resultados autonomizada e, obviamente, planos de investimentos, marketing e desenvolvimento que, dalguma forma, competiam internamente entre si, tornaram-se inclusivamente famosas as rivalidades entre o designer chefe da paneleirote division e o seu homólogo da baronete division. As reuniões eram periódicas, as agendas conhecidas com a antecedência necessária, e a inovação (não se pense que era um produto maduro) era incentivada a par dum enorme, mas equilibrado, sentido corporativo, sem excessos iconográficos. Informalidade & Rigor era o lema que todos levavam para casa ao fim do dia mas com o qual retornavam diariamente, e sempre remoçado. Uma empresa, um negócio, um projecto que era uma peça de arte.
No primeiro ano foram adquiridas pela 'La Cannelona, SA' 2 toneladas das mais diversas madeiras e bambus (a empresa não admitia materiais que não fossem fornecidos directamente pela mãe natureza) e 1 ton dos mais diversos minérios. Foi devidamente subcontratado (a beleza incontornável do outsourcing, lá está) o serviço mais grosseiro de tratamento de madeiras e minerais e às instalações da empresa já só chegavam paus e roliças pedras.
A promoção e vendas estava suportada num catálogo que se tornou rapidamente uma obra de referência, e a distribuição realizava-se através de lojas seleccionadas, sendo que cada bengala era, obviamente, uma peça única, que cada cliente haveria de sentir que tinha sido pensada especialmente para ele. Nesse primeiro ano de presença no mercado foram vendidas 1253 bengalas (155 para coxos tradicionais, 328 para baronetes, 422 para uma gay parade em Leixões e as restantes para uma promoção do desodorizante em stick roll on da Old Spice, sendo que 2 delas ainda assumiram um estatuto mais elevado, pois uma ficou exposta no museu de marqueterie de Rennes, e uma outra no salão nobre da Câmara Municipal de Gdansk).
Esta combinação de organização exemplar, (com altos níveis de motivação do pessoal, a que não é alheio a obtenção em 3 anos consecutivos do prémio da melhor sandes de presunto em snack de refeitório ) a inovação crescente de produtos, (o melhor gadjet-cócó do ano em 2016 pela sua bengala com anti-fungos e corta unhas para pés), e o grande reconhecimento pelos fornecedores (eleita empresa-transformadora do ano por mais de uma vez pela União das Pedreiras do Piamonte) fizeram de La Cannelona SA uma empresa que se tornaria com o tempo uma obra de arte requisitada pelas mais reputadas galerias internacionais de empresas modelo, das Kunstwollen corporations. Não foi pois de estranhar que em 2022 tenha ganho o Prémio Camões, pelos relevantíssimos serviços prestados à difusão da cultura nacional das empresas-arte, batendo concorrentes fortíssimos como o conjunto de receitas para bolo mármore de Medina Carreira , o moscatel de Henrique granadeiro, ou os preservativos de renda de Joana Vasconcelos. Em 2019 uma colecção especial das suas bengalas foi escolhida por Fidel Castro para celebrar o 1º regadio em Havana e em 2027 passou a ser elemento de uso obrigatório nas tomadas de posse do governo da região da Madeira.
Giacomo Piolini foi agraciado com a grã ordem de mérito artistico-industrial e em 2023 uma bengala com incrustações a pedra lunar da colecção primavera la paneleirota de 'La Canellona, SA' foi colocada no museu Pompidou junto ao urinol de Duchamp, com este verso de Valery por perto: « e cem anos depois qualquer coxo poderá sacudir sem cair». Giacomo tinha conseguido. A sua empresa era uma obra de arte reconhecida em todo o mundo. Em mais de 30 anos nunca dera lucro, a sua divida bancária subira gradualmente ao ritmo do custo duma barriga de aluguer de Ronaldo por ano, chegando à fantástica soma de 150 EBITDA's na celebração das suas Bodas de Prata. Apesar de nunca ter distribuído dividendos, o seu valor em bolsa subira mais de 20 vezes e para qualquer banco era um orgulho ter aí parte da sua dívida estacionada, chegando as empresas de rating a apelidar de crédito-cannelona a este tipo de dívida artística, que se caracterizava por pouco interessar se algum dia seria paga ou não mas que qualquer banco se esforçava por apresentar no balanço, dizia-se no meio que se revestia de leverage artístico, a Kunsthebel. Giacomo Piolini chegou ao ponto de não aceitar que qualquer banco emprestasse à 'La Cannelona, SA'. O desenho do 1º organograma (baseado num vestido de casamento de Armani) foi leiloado pela Sothebys por 3 milhões de euros, o 1º recibo de ordenado (da telefonista-recepcionista-polidora-de-morganites, D. Cibele Sousa) foi comprado pela biblioteca do congresso da guiné equatorial por 200.000 dólares, e a 1ª factura ( de uma bengala da 1ª colecção baronete adquirida por um Aorta e Tosta para o casamento de uma sobrinha com o descendente do inventor do bico de Bunsen) foi resgatada pelo museu da cera de Londres por 100.000 libras para acompanhar a estátua de Tony Blair. Amen.
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Kunstschaffende Gedanke à ostraniene
salmo 121
Levanto os olhos para os montes:
de onde me virá o auxílio?
O meu auxílio vem do Senhor
que fez o céu e a terra.
Ele não deixará que vacilem os teus pés;
aquele que te guarda, não dormirá.
Pois não há-de dormir nem dormitar,
aquele que guarda Israel.
O Senhor é quem te guarda e está a teu lado.
Ele é a tua protecção.
O Sol não te fará mal durante o dia,
nem a Lua, durante a noite.
O Senhor protege-te de todo o mal
e vela pela tua vida.
O Senhor protege-te nas tuas idas e vindas,
agora e para sempre.
.
Julien Fetucci (1948-2037)
Há apenas três formas saudáveis de olhar para a realidade: mitificá-la, estruturificá-la e relativizá-la. A melhor solução é aplicar em simultâneo e ao extremo a receita tripla e ficará assim garantida a felicidade terrena. O primeiro e principal teórico da 'Felicidade Explicativa' (um tipo de felicidade que em paralelo ajuda a explicar tudo o que nos rodeia) foi Julien Fetucci, um suiço residente em Genéve e que deixou a sua empresa de private equity, que vendeu a um russo depois da falência do Lehman, para se dedicar à difusão das suas teorias. Julien tinha surpreendido meio mundo no início dos anos 90 quando publicou um pequeno opúsculo intitulado 'O mundo é uma tosta mista' onde apresentava várias grelhas de 'mitos-estruturas-relativizações' que deveriam enquadrar todo o potencial humano de Felicidade-Explicativa, a sua 'Explainepiness'.
Todo este conceito se baseava numa combinação circular de premissas que para o Dr. Fetucci (que tinha defendido uma tese de doutoramento nos anos 70 em bio-neurologia sobre a interacção entre o nível de ocupação da bexiga e a capacidade de pensar) era crucial: 1) sem explicações não há equilíbrio ; 2) sem equilíbrio não há conjunto; 3) sem conjunto não há absolutos; 4) sem absolutos não há relativos; 5) sem relativos não há felicidade; 6) sem felicidade não há explicações.
Julien considerava que existia uma grelha base de 3x3x3 a enquadrar: os 3 tipos de mitologias constitutivas: o bem, a verdade, a eternidade; com os 3 tipos de estruturas base: explorativa, libertária, concertativa; e com os 3 tipos de relativizações fundamentais: 'podemos sempre piorar', 'todo o verso tem reverso', 'nada é realmente importante'.
Nesta fase de criação duma identidade teórica J. F. teve um opositor férreo no ex-escritor de policiais grego Seitaridis Papasogrelus, que era apologista duma teoria concorrente, a 'Happyxplainig' que defendia uma clara ascendência do mecanismo explicativo sobre a felicidade itself, menosprezando por isso a componente mitológica, ao que não era certamente alheia uma alergia a queijo feta que lhe sobreviera depois duma salada ingerida numa pizza hut em Creta quando tinha 11 anos e 3 meses. Papasogrelus tornara-se 100% carnívoriano e deixou a sua importante obra a meio quando faleceu de congestão após um entrecosto mal marinado. Não deixou seguidores.
A Explainepiness de Julien Fetucci começou a fazer furor quando foi adoptada pela jornalista lombarda Cristina Lazaroni aquando do seu artigo e investigação de fundo sobre a 'invulgar capacidade das cabeleireiras serem felizes'. Cristina descobriu que as cabeleireiras da Lombardia estruturavam a sua vida neste triângulo fetucinico: «um penteado pode ser eterno se com um espírito livre percebermos que nada é mais importante do que uma boa madeixa»; Cristina Lazaroni descortinava neste enunciado que no espírito da cabeleireira lombarda se enraizava uma matriz com: um mito de eternidade, uma estrutura libertária e um relativismo de importância, uma das combinações possíveis da 'tosta-de-julien', como ela lhe chamou.
Lazaroni e Fetucci deram uma série de conferências pelo norte de Itália e ficaram conhecidos como a dupla da tosta-matriz, ao que não seriam certamente alheios os posters de divulgação desenhados por Gomez Suazo, um hondureño radicado em Milão que ficara famoso pela sua campanha dos dossiers de argolas da Armani. (a imagem foi encontrada numa carvoaria de Nápoles, daí a fraca qualidade da imagem)
Em Julien Fetucci havia uma genuína rejeição dos tremendismos, ('a qualquer momento o mundo acaba-se') dos vulgarismos, ('nós é que só sabemos complicar tudo') e dos mesmismos ('isto anda tudo ao mesmo') e realmente acreditava que uma estrutura equilibrada e lógica de mitos devidamente relativizada era meio caminho para uma felicidade duradoira com o bónus da explicação do mundo.
A crítica mais dura a Julien era a de que ele mais não fazia do que voltar a uma fórmula já experimentada por civilizações ancestrais, com olimpos, cavernas & banhos turcos na crista da onda, ao que ele respondia sem hesitações: na busca duma felicidade explicativa há duas vias que parecem semelhantes: a via helénica que se fundamentava num circuito realidade-ilusão-realidade e a minha via que se assume sobre uma base flutuante de ilusão-quase-realidade. «Eu sou um homem dos quases», dizia frequentemente. «Os meus protões são os quases» foi precisamente o titulo do seu ultimo livro, que fez imenso sucesso na comunidade suiça de físicos e matemáticos pois explorava, no entender desses cientistas, uma formulação alternativa daquilo a que chamavam 'a nova economia do átomo', ou seja, o átomo procurava o seu equilíbrio sempre numa combinação entre a sua estrutura e a sua possibilidade, balançando entre o mito do sempre e o relativismo do nada.
Enfim, como diria o Nozolino depois de sair do barbeiro, exijo que este post não conste no historial deste blogue.
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