Harpagophytum procumbens


Um dos episódios mais ignorados da histografia nacional é a frustrada tentativa de dobrar o cabo da Boa Esperança encetada pelo navegador português Carlos Eirós uns meses antes da façanha de Bartolomeu Dias. A esta obscuridade não será certamente alheio o episódio curioso a que está associado o insucesso dessa operação. Constava em registos, até há pouco nunca confirmados por outras fontes, que Carlos Eirós e alguns dos seus marinheiros desembarcaram umas milhas antes da referida dobra a fim de apanhar um pouco de ar que não cheirasse a peixe quando foram surpreendidos por um grupo de leões que tinha sido banido pela forças vivas da savana. Ora esse grupo de leões (que se preparava para, em desespero, incorporar o carrossel duma feira em Alicante) apresentava-se com algumas necessidades de índole hormonal e encontrou nos navegadores portugueses uma possibilidade de alívio e satisfação; e satisfizeram-se. Inesperadamente, há uns dias, foi encontrado um documento original e muitíssimo bem conservado do então cronista do reino e dos descobrimentos Aurélio Freitas Fagundes que incorporava uma bem esclarecedora entrevista com Carlos Eirós, precisamente quando este regressava ao navio já com um caminhar novo. Ei-la:

Aurélio Fagundes - Diga-me, comandante Eirós, o que achou desta sua nova experiência com os leões?

Carlos Eirós - Bem, já sabíamos que eles trabalhavam muito bem as bolas entre si, tentámos adiar a sodomização o mais que pudemos, mas na realidade acho que fomos bem sodomizados.

Aurélio Fagundes - Não acha que a estratégia foi demasiado defensiva?

Carlos Eirós - Chegámos a pensar ficar no barco, mas o Vicente já não podia mais, tinha aviado com 5 kilos de figos algarvios que a mãe lhe dera, pisámos terra firme com a convicção que tínhamos de lutar folha a folha, cato a cato, gramínea a gramínea pelo nosso terreno.

Aurélio Fagundes - Não julga, portanto, que a sodomização pudesse ter sido evitada...

Carlos Eirós - Repare, estávamos perante os leões que eram os 2ºs do ranking, os primeiros já tínhamos passado por eles no apeadeiro do Golfo da Guiné, e aí apenas o marinheiro Crispim foi desflorado, algo que até nem se importou porque quando chegar à metrópole já vai poder casar com o Semedo que ficou a decorar o hall.

Aurélio Fagundes - E qual a razão de ter mudado de estratégia quando os leões pareciam estar a perder a, digamos, concentração vascular nas extremidades?

Carlos Eirós - Nós tínhamos uma estratégia bem definida, primeiro desgastá-los na zona lombar e depois dar de frosques quando o sol se começasse a pôr. Fomos sodomizados numa altura em que já não estávamos à espera. Como se sabe somos melhor a improvisar do que a planear, fazer o planeado, confirma-se, significa pormo-nos a jeito.

Aurélio Fagundes - Chegou a pensar que ainda conseguia inverter a situação?

Carlos Eirós - Como nos ensina a natureza 'quem tem cu tem medo', mas a nossa ideia era pôr no campo toda a nossa energia e qualidade, se acabámos sodomizados há que saber reconhecer o mérito daqueles que se mostraram mais consistentes.

Aurélio Fagundes - Não acha que alguns casos de insubordinação na tribulação possam ter contribuído para esta sodomização, quando pareciam estar criadas as condições para levar as filhas do adamastor para casa?

Carlos Eirós - O grupo esteve sempre unido...com o trajecto bem definido...um dos leões chegou até a dizer: segura-me também no leme, por favor, reconhecendo o nosso valor... nós estivémos sempre unidos...

Aurélio Fagundes - ...mas não acha que um grupo muito unido é mais fácil de sodomizar..

Carlos Eirós - eu ia dizendo, os casos mediáticos são produzidos pelos cronistas do reino, à falta de notícias sobre filhos ilegítimos na corte, aqui nós estávamos focados na nossa tarefa, sabíamos que podíamos encontrar leões com falta de leoa, mas também sabíamos da nossa qualidade, e do trabalho que tínhamos vindo a fazer nos treinos com maçarocas, gargalos de super bock e azeite Galo.

Aurélio Fagundes - E o que retira desta experiência?

Carlos Eirós - Em primeiro lugar fomos sodomizados com dignidade, não se ouviram gemidos, um ou outro joelho esfolado mas nada que uma noite de repouso e bagaço não resolva, há que olhar em frente e puxar as calças para cima.

Aurélio Fagundes - Então e agora?

Carlos Eirós - Agora voltaremos mais fortes. Quando estes leões nos aparecerem pela frente outra vez já não daremos o cu ao manifesto com tanta facilidade, eles terão de nos agarrar pela cintura, eventualmente prender-nos a uma palmeira, e até usar mais óleo de coco.

Aurélio Fagundes - E como está o espírito do grupo?

Carlos Eirós - Há uma grande consciência do dever cumprido, ainda há pouco ouvi o cronista Mendes a afirmar que o marinheiro Geraldo se sentia «destroçado com uma tristeza inimaginável», e é de compreender , pois havia a expectativa de pudermos ter bebido um ginger ale sossegados sem que um grupo de leões nos andasse a rodear no intuito de sodomizar.

Esta peça de registo histórico do cronista Aurélio Fagundes constitui um documento de valor incalculável e levanta definitivamente o véu a um dos episódios mais obscuros da nossa história, que alimentava há séculos a imaginação popular que, como se sabe, vive impregnada de golden shares, spreads, chips, e já não há scut que aguente.

Achillea millefolium

Phil Perry era o fiel lubrificador da espada de oiro de Francis Drake. Zeloso, permitia que Sir Francis desembainhasse a famosa arma com uma velocidade aterrorizante. Foi compensado com várias terras no Sussex e muitos anos depois um descendente seu acabaria por ser o guardador de cabeleiras de Sir Robert Walpole, e inclusive, diz-se, montava-lhe as molduras dos Canalettos, o que fez com que o 1º ministro lhe oferecesse uma pequena propriedade na zona de Notingham para que ele se pudesse abastecer de madeira em condições, em vez dos ramos manhosos de figueira importados de Itália que usara nos primeiros quadros. Foi assim com naturalidade que um trisneto seu se afirmou como o fornecedor oficial de bengalas da casa real na fase de arranque dos Saxe-Coburgos, tradição essa que só foi quebrada quando John Perry, seu neto, acompanhou Chamberlain no tempo dos acordos de Munique como fornecedor de ansiolíticos em unidose. Desta insigne genealogia haveria de surgir John Perry III que se revelou um médio de ataque consistente e pouco atreito a lesões, tirando um furúnculo resistente na zona alta da coxa esquerda que haveria de lhe conferir um toque curioso na corrida, semelhante ao de uma avestruz com vaginite.

Louis Rampard fora o fornecedor de tinta permanente a Cromwell enquanto este conspirava contra Tomas More e dessa forma garantiu um posto de chefe de pigmentação na olaria principal dos arredores de Coventry. Muitos anos depois um descendente seu haveria de se salientar na guerra da Crimeia fazendo pinturas de guerra aos soldados turcos que afugentavam os russos por estas lhes fazerem lembrar a língua de Tamerlão após comer um arroz de lebre em cabidela. Não foi então de estranhar que um novo membro da casta dos Rampards chegasse a decorador de roupões de Churchill, que jamais fazia um discurso sem primeiro se aconselhar com Frank Rampard, como, por exemplo, se o motivo dos pavões não seria demasiado excessivo para acompanhar a exortação à debandada do corpo expedicionário. É já com Brejnev a fazer palavras cruzadas com Estaline que nasce Frank Rampard III, que se haveria de revelar um defesa direito de eleição, conhecido por ameaçar os defesa contrários com tatuagens de franceses e alemães a dormirem com as suas mulheres.

Sam Johnson tirara uns dias para tratar das unhas dos pés quando Ana Bolena o convida para rezar o terço às escondidas. Inicia-se assim uma carreira mística que só termina quando uma aia com a qual tinha trocado impressões espermatozais lhe garantiu sentir células em movimento numa zona do corpo anteriormente destinada à fermentação química. Dessa fecundação in coito foram-se multiplicando gerações de predestinados para a multiplicação de células pelo que não foi de estranhar que o gene Johnson aparecesse ligado ao fornecimento de graxa para cabelo a Disraeli, negócio que haveria de garantir sustento e segurança à família que agora se poderia então dedicar a procriações mais sóbrias. A distinção e pedigree que se foi instalando com o negócio de aditivos para cabelo permitiu a Ken Johnson incluir na sua lista de clientes Margaret Tatcher que usava uma laca produzida à base de caspa de juba de leoa do Zimbabué. É neste berço de gel's e amaciadores que nasce Ken Johnson III que se haveria de destacar como ponta esquerdo do Birmingam, graças a um penteado inspirado na vertente nordeste do Annapurna e a uma finta com rotação para o interior seguida de centro tenso para o segundo poste.

David Mooney um devoto pastor anglicano de Leeds ficou afamado por ter ajudado John Knox a ler a Bíblia sem a ajuda do dedinho a acompanhar as linhas. Como reconhecimento, Knox recomendou Mooney a Elisabeth I que lhe destinou a orientação da catequese aos filhos ilegítimos das aias. Sempre cioso das suas obrigações David foi granjeando admiração e naturalmente foi ganhando influência obtendo, inclusivamente, algum ascendente moral sobre cozinheiras, pajens e floristas. Quando lhe nasceu a primeira filha, Louise, que aparentava ser filha duma coluna de som, teve de socorrer-se dessa influência para a conseguir casar com Jeremy, fatiador-ajudante de bacon da casa de York, um rapaz sem apelido e que aceitou a marca dos Mooney com gratidão, ao que não era alheio ter menos três dedos na mão esquerda, e uma marreca com o feitio do golfo da Biscaia. É no seio dessa união de interesses, polvilhada aqui e acolá por um carinho mútuo, que nasce Wayne Mooney que se viria a revelar um desbastador de buxo de altíssima qualidade, que chegou a esculpir três pilas num jardim de Elton John em apenas uma hora, e que viria a ser o avô de Wayne Mooney III, um médio-distribuidor de jogo que rapidamente se tornou célebre pelas desmarcações para as costas dos adversários, mantendo sempre um ar sereno de como se estivesse apenas a procurar joaninhas junto à bandeirola de canto.

É assim nesta linha de tradição que se forjou o quadrado mais célebre da selecção inglesa, Mooney, Johnson, Rampard e Perry, forjados naquela mistura de celtas, bretões, normandos e saxões, que lhes comunicava uma combinação impar de dinamismo e força, de raiva e cérebro, de sangue e suor, de joelho e sovaco. Olhavam para trás e antes de verem um fora de jogo ou uma ocupação de espaço vazio viam sempre um passado ancestral rico, iluminado com fio e pavio, povoado de honra, glória, pescoços tombados, potências e impotências várias, e uma ou outra tripa a esvoaçar. O que o futebol tem para ensinar à História é que se deve transportar sempre de forma muito controlada o que vai entre as pernas.

Origanum majorana

Dona Dolores tinha um negócio seguro a crochetar adereços para os paneleiros veraneantes de Sitges quando foi obrigada a socorrer o neto, Xavi Ermengol, que tinha sido dispensado dos juniores do Barcelona e que voltara a viver na mandriagem, sacando dinheiro às turistas, e proxenetanto um pouco aqui e acolá.

Numa tarde em que dona Dolores dava um belo sermão a Xavi enquanto bordava dois pequenos naperons para o enxoval de Lola e Marisa, este reparou que a forma de fluir do fio entre agulhas praticado pela sua avó poderia ser revelador duma nova forma de fazer deslocar o jogo na faixa central. Movido por um movimento inspirativo dirigiu-se imediatamente para o centro de estágios, onde se apresentou como detentor duma táctica revolucionária que se aplicaria tanto ao esquema do losango, como ao esquema dos dois pivôs defensivos em vai-vem, como no próprio esquema do tudo en revuelto.

Sergi Alonso, que tinha sido seu treinador dos juvenis, desde os tempos em que ouvira Cruift a dizer que o mais importante numa táctica era ter os olhos bem abertos e as pernas bem fechadas, que não presenciara uma dissertação tão luminosa e ainda para mais vinda dum rapazolas que ainda no dia anterior lhe tinha arranjado duas dominicanas para brincar às enfermeiras.

Recuperada a sua posição de médio interior esquerdo na equipa de reservas, rapidamente Xavi começou a dar nas vistas com o seu colega de losango, precisamente Andres Ramos, um ex-ciclista de circo, com o qual combinava séries mínimas de 300 passes sucessivos em esquema carrossel sem sair dum raio de 10 metros e que só paravam depois dos jogadores adversários terem dito 20 vezes «cabrones-hijos-de-puta-chupamos-aquí».

Depois de duas equipas adversárias terem sido apanhadas por um surto de torcicolos, Xavi e Andres, juntamente com Jesus Torres, (conhecido por afastar os defesas com uma simulação de anca que tinha aprendido com Marcia Soler num cabaret em Valência) foram incorporados na equipa principal onde se encontraram com Joan Hernandez, um esquerdino irrequieto que já de si também gostava de fazer crochet aos defesas laterais com a sua famosa 'finta-caranguejo', e não fora o estrabismo assim adquirido teria logrado fazer a campanha dos desodorizantes Rexona em roll-on sem alcool.

Foi assim com naturalidade que, em conjunto com Gerard Navas, iniciaram o movimento futebolístico que ficou conhecido como o 'método correntinha'. A inclusão de Gerard neste processo do pós-modernismo-táctico não é alheia ao facto de Gerard desde pequeno ter ajudado a sua avó, uma mulher rija de Gijon (não dizer muito depressa por favor), a fazer tranças de cebola que depois vendia num mercado em San Sebastian com o avô, o sr Gustav, um acordeonista amador de Segóvia, homem de poucas falas mas de assobio e álgebras fáceis.

O 'método correntinha' aliado às entradas dos laterais pelas faixas utilizando a 'variante rococó' tornou o futebol espanhol uma autêntica tapeçaria chinesa e foi rapidamente incorporado como o método oficial da selecção nacional, substituindo a anterior táctica da 'fúria espanhola' que afinal nunca tinha passado duma invencível armada com os pintelhinhos tremelicando aos lábios virginais da deusa Tamisa.

Durante as pausas dos estágios, Xavi, Gerard, Joan & sus muchachos, treinavam afincadamente pelerines com as famosas agulhas 4.0 da Clover, e antes de adormecer faziam sempre dois ou três jogos mikado aproveitando as KnitPro Symphonie Wood, sendo que quem perdesse estava obrigado a fazer dois passes de ruptura nos primeiros 15 minutos do desafio seguinte. Ficaram inclusivamente célebres os pequenos cachecóis de Jaime Pujol, um neófito dentro do 'movimento correntinha' mas que rapidamente começou a fazer parte do núcleo duro pois tinha qualidades ímpares na ocupação dos espaços vazios, algo que provavelmente tinha herdado da sua avó Carmen Gutierres que trabalhara durante a guerra civil em Saragoça, na esquina da calle de Santa cruz com a calle de Viena, a vender churros envenenados a republicanos; olé.

Quinteto Lebensraum


Radimir Purovic tinha acabado de enviar uma bola ao poste, - leia-se à esquina da rua Pasterova com a Rua Deligradska - quando a sua mãe Maria Svinic o chamou para jantar. Radimir fingiu não ouvir, fez mais duas sessões de fintas a Raslo Simic que estava convalescente duma tuberculose, e quando chegou a casa levou com dois scuds de cotovelo que o deixaram de cama 15 dias. Recuperado da acção pedago-agressiva da progenitora, Radimir fugiu de casa, perto do centro de Belgrado, e apanhou a boleia dum furgão Bedford que o fez chegar alguns dias depois aos arredores de Stuttgard onde acabou por se salientar como médio interior direito no grupo desportivo duma empresa que fazia fresas para os pistons da mercedes.

Bruno Smolareck era ajudante de uma padaria em Legnica quando foi convidado por Hector Pinevski para se apresentar nos treinos do Dresden FC, que procurava um rapaz bom de mãos para substituir o seu guarda redes que fora apanhado na piscina com a filha de Zbigniev Lahm, precisamente o preparador físico do Dresden FC e que tinha reservado para a sua filha um lugar no grupo de franciscanas que dava assistência na Versoksunskirche. Avisado que doravante devia guardar as suas mãos e restantes apêndices do tronco para funções ligadas com a modalidade, Bruno incorporou a equipa, tendo porfiado e arrecadado.

Foi em boa hora que Frankisev Vrbata foi visto a roubar Herr Shuster que estava de visita turística a Plzen. Constatada a sua capacidade de se esquivar às forças de segurança checas, imediatamente foi contratado por Victor Schumann, olheiro do Fulda FC, que ia na sua terceira terrina de cerveja mas que até à quinta ainda conseguia pregar rasteiras, e que não hesitou em convencê-lo a optar por uma carreira de estremo esquerdo, através da qual poderia passar a festejar abanando as redes alemãs em vez de se lamentar roendo as grades checas.

Heirich Twardowski tinha iniciado a sua primeira semana como policia sinaleiro precisamente no cruzamento da Bogurodzici com a Kaszubska em pleno centro de Szczecin. Eram duas da tarde duma tarde chuvosa de Maio quando Thomas Haufmann, treinador adjunto dos juniores do Hamburgo, se distrai precisamente nesse cruzamento quando, ao seu lado, pára o renault clio de Martina Sirineva, acabadinha de fazer uns caracóis novos no salão de cabeleireiro de Zumira Kirkeva, uma Bielorussa estabelecida em Szczecin desde que Jaruselski prometera uma permanente (sem coloração) no Natal a cada polaca que descolasse mais de 200 cartazes do Solidariedade numa semana. Ora, quando Marina se lembrou de fazer o movimento vidalsasson, Herr Haufmaum foi acometido de reminiscências penosas duma namorada dinamarquesa que o tinha trocado no verão anterior por um electricista ucraniano e, não fora o movimento expedito e profissional de Heirich Twardowski a fazer virar o sentido do trânsito, hoje, o produto da combustão de Thomas Haufmann estaria a fazer depósito num vasilhame de grés de dupla cozedura. Ainda mal refeito do susto, Thomas ficou a apreciar a mestria de Twardowski a distribuir o trânsito pelas artérias venosas de Szczecin, qual autêntico Beckenbauer da Bogurodzici com a Kaszubska. Tal a impressão, que esperou o fim do turno de Heirich para o convidar de imediato a fazer provas como médio pivot do Hamburgo, equipa que jogava um futebol demasiado directo o que já lhe tinha feito perder o patrocínio dos aspiradores da Bosch e assim obrigado a vender duas promessas do ataque ao Borussia de Munchengladbach que garantira o patrocínio das batedeiras Moulinex à conta dum ponta direita especialista a fazer picadinho de defesas laterais com rins de pau santo.

Mesut Kutur Westermmann parecia um predestinado para tudo menos para defesa central. A mãe era fiadora em Izmir antes de ter emigrado para Munich onde acabou a bordar toalhas para a Oktoberfest, e o pai , com os dedos em forma de estrelas do mar, era ajudante de relojoaria em Zurich, especializado a contar dentes em rodas cremalheiras. Ou seja, duas pessoas delicadas acabaram por parir um mamífero de 1,95 m, possuidor de uma força de pernas que em movimento de swing mostravam tenacidades superiores a 5000 kn por cm2 , e que se não fossem as potentes influências da providência que lhe colocaram no caminho Per Wiese, acabaria a abastecer as prateleiras everesticas da secção de lacticínios do Lidl da Shleisheimer Strasse. Estava Herr Wiese de passagem por Munique quando lhe apeteceu um leitinho achocolatado. Ora este apresentava-se na zona de influência de Mesut que se apressou em lhe propor uma promoção de 6 pacotinhos pelo preço de 4 com oferta de 20 pontos no cartão família e, como se não bastasse a simpatia, ofereceu todo o seu corpulento dorso quando a prateleira começou a dar de si e a prestar vassalagem a newton. Perante tal demonstração de coragem, colocação e resistência Pier Wiese não pode perder a ocasião para aconselhar Mesut Westermann ao seu primo Friedrich Grass que procurava um armário para a defesa do Bayern.

E foi assim que a Bundesliga a certa altura viu coincidirem os alemães Radimir Purovic, Bruno Smolareck, Frankisev Vrbata, Heirich Twardowski e Mesut Kutur Westermmann, como estrelas dos respectivos clubes, e que, com toda a naturalidade, acabaram por construir o núcleo duro da selecção, - sem necessidade de anexações de territórios, nem de acordos de munique - e dominar o futebol germânico com a estrutura cristalina que aportavam à tática da equipa, mesmo que tivessem alguma dificuldade de comunicar entre si; ficou inclusivamente célebre uma troca de galhardetes durante o treino dum estágio no Piamonte : «Twardowski não te esqueças das compensações, senão o Kutur perde a noção do Vrbata em relação à desmarcação do Smolareck para as entrelinhas», ao que o primeiro respondeu, «eu quero é que o Smolareck vá Vrbatar no Kutur». Diálogo este que, como sabemos, não ficou indiferente ao galês de Versalhes Nicolas Analka, perdão Anelka.

Cassia angustifolia

Maxi Hernandez nascera num berço miscigenado de mãe argentina e pai austríaco. O preceito obstetrício dera-se em Montevideu, quando o casal por ali tentava assentar, e essa marca haveria de conferir ao rebento atributos teleológicos. Um fisiotroponomologista uruguaio ( técnica para descobrir que profissão devemos seguir a partir das feições que apresentamos antes da puberdade) preconizara-lhe uma carreira desportiva, e a família tudo fez para garantir que Maxi seguia os desígnios que a ciência fisiotroponomológica lhe apontava, «a bolachinha no queixinho e o nariz ligeiramente virado a oeste, não me deixam quaisquer dúvidas que será um defesa direito de excepção, Herr Krauss». Dois anos passados com a sua avó mexicana fizeram-no debutar no Chivas Guadalajara, aprendendo com ela a rezar dois Glórias antes de cada jogo e uma ladainha de santos de língua espanhola ao intervalo, pelo que era o sempre o último a sair do balneário, miscigenando-se também aqui superstição com devoção, e garantindo-lhe a eterna alcunha de 'el ermitaño'. O facto de ser um defesa de betão, um confluir da robustez alpina com a fantasia asteca, foi-lhe conferindo destaque e competência entre aqueles que as podem transformar - ao destaque e à competência - em fama e proveito, e, quando chegou a altura, (a vida é uma sucessão de 'momentos' que podem dar em 'situações' e que depois se podem tornar 'alturas') decidiu ajudar a nação Uruguaia a tentar alcançar o seu terceiro título mundial, deixando Mamã e Papá ligeiramente descoroçoados, mas devidamente compensados na infusão de bênçãos que significava aquele destino cientificamente traçado.

Na selecção uruguaia o pendor devocional de Maxi - que ainda se reforçou quando a sua avó mexicana exalou as últimas preces - era visto com mais estranheza do que pelas terras mexicanas, mas com a constatação dos extremos esquerdos adversários a esbarrarem sucessiva e atordoadamente no seu complexo fisiomorfológico, muitos se foram convertendo àquela entrega despojada de Maxi Hernandez nas mãos da Divina e Soberana Vontade. A quem chamou mais à atenção foi ao seu companheiro de então no flanco esquerdo, Diego Suarez, que experimentou passar a entrar com o joelho esquerdo genuflectido no campo e um olhar piedoso para o alto da bancada Sul, mas o melhor que conseguiu foi duas operações à rótula bem sucedidas, e um abandono precoce da modalidade sob uma salva de «grande maricón's». Lançar preces ao céu tem o seus quês, para além, claro, dos seus efezierres.

No entanto, mais sucesso popular foram fazendo outras manifestações - apresentando um certo pendor paganizante - de entrega das sortes dos jogos nas mãos dum qualquer outro supremo desconhecido, como aquela que tornou conhecido o trinco Sebastian Perez que quando entrava em campo corria até à bandeirola e cheirava o sovaco esquerdo, tendo posteriormente esclarecido numa flash interview que se tratava de aproveitar a energia cósmica que emanava da bandeirola de campo e fazê-la fluir pelo seu tórax.

Como usualmente nos tempos livres dos estágios, Maxi Hernandez ia com o seu amigo e defesa central Nicolas Cáceres passear pelas ramblas de Montevideo e foi assim, num desses percursos, que um dia aproveitou para lhe dizer que estava a pensar fundar a União-dos-Jogadores-da-Ladaínha e que pensava contar com Nicolas para ser o outro dinamizador. E dessa forma se criaram no seio da selecção dois grupos de canalização mistico-energética e que viviam harmoniosamente: os 'ladaínhas' e os 'bandeirolas'; cada um procurava fazer confluir (acho que já vou em dois ou três confluires) para toda a equipa as forças e os talentos para a vitória, e envergavam as respectivas tshirts alusivas debaixo dos equipamentos, que orgulhosamente mostravam na celebração dos golos. O treinador, um Chileno chamado Mauricio Orellana, um ex-marxista columbófilo, com uma excursão de serralheiros à Roménia e um concurso de pesca na Bulgária no currículo, sabia muito bem que toda a vida era forjada entre alienações e complexos, (tinha até um autógrafo de Lacan que confundira com um extremo esquerdo do St Etiènne) e que o processo histórico passava por conturbados determinismos, incluindo futuros que já não são o que eram, deixou-se levar pela onda, afinal o verdadeiro ópio do jogador eram a nandrolona, e uma ou outra dominicana que fazia pela vida nos arredores dos estágios. Maurício revelou-se até um perito em expedientes supersticiocizantes e trazia sempre para o banco de suplentes um frasquinho d'agadoizó do estuário do rio da prata, devidamente benzida pelo padre Marco Ponce, - um fanático do Colo Colo - aliás tudo o que sabia de futebol devera-se a ele que, inclusive, o ensinara a rematar em folha seca no Domingo de Ramos de 1956.

Fora assim graças ao filho e neto de mexicanas piedosas e dum austríaco musculado fugido do anchluss que se dera o renascimento, se não mesmo a criação, da espiritualidade-de-cacifo naquele santuário que são os balneários de futebol, verdadeiras fontes de mitologias pre-barthesianas; não era pois de estranhar ver todo o grupo com Maxi Hernandez, Martin Muslera (um nº 10 que tinha pegado de estaca na posição, substituindo Gonzalo Rivera que se tinha afastado por motivos religiosos - pois tinha preferido a Argentina onde privilegiavam no balneário a devoção aos números especiais da playboy) e Nicolas Cáceres, entre muitos outros, a entrarem em campo de mãos dadas e a fazerem um ângulo de 77 graus com o pescoço, assumido por todos que era o melhor ângulo para receber as energias cósmicas, viessem elas do Sublime Éden se do Grande Zénite das Bandeirolas.

Cordia encalyculata

Rafik Bouazza Mansour, quando era ponta-de-lança júnior do ES Sétif da Argélia, ficou famoso, ainda com 16 anos, por ter feito um golo em trivela de joelho, da zona do bico da área, ao guarda redes do ASO Clef (um ex-ladrilhador recém convertido ao misticismo islâmico depois de ter falado com maomé pelo el twitter). Em virtude do fenómeno mediático que desencadeou tal jogada de fino origami, Rafik foi assediado por um olheiro francês (dentro dos limites do código penal napoleónico, do corão e do Manual Deontológico dos Olheiros do Loire) a integrar as escolas de futebol do Nantes, tendo-se aí destacado pelos seus dribles curtos seguidos de pique e assentamento de defesa, o que lhe originou a alcunha carinhosa de 'al jamboni'. A sua experiência pelas terras francesas, alimentado a generosas doses de pato fumado e brié, resultou-lhe numa combinação de velocidade, virtuosismo, envergadura física e energia de vencedor que o fazia entrar nos relvados como se que cada jogo se tratasse duma eliminatória das guerras púnicas, um campo de batalhas do caralho, perdão cartago.

Não foi assim de estranhar que um abonado clube inglês se interessasse pelo seu concurso, concretizando-se a transferência após uma época que estava a ser pontificada por impasses e mesmo alguns embaraços, incluindo a gravidez duma namorada de origem tunisina que se tinha apaixonado pela sua finta jambonette e pelo seu peugeot cabriolet.

Rafik Bouazza abraçou a experiência britânica como se de um novo renascimento mourisco se tratasse. Aceitou chuvas, nevoeiros e rosbifes com uma resignação de berbere à sombra e construiu uma carreira sólida, apenas com uma média de 3,7 filho-da-puta-dum-cabron e 2,5 motherfuckers por jogo, na primeira época, o que constituiu um record inédito para um rookie não oriundo da commonwealth e sem o cabelo pintado no pantone de fábio coentrão.

Não constituiu assim qualquer surpresa ter sido chamado à selecção do seu país, para pouco tempo depois ser titular indiscutível e isto, registe-se, sem pertencer a nenhum lobi, nem gay, nem opus-alá, nem bilderborga, nem mesmo da respeitada e influente Confraria dos Amigos da Barbicha Pingada, pois Rafik tinha-se apaixonado pelo cabelo penteado com gel depois de ter visto uma fotografia de Mário Conde numa revista dum dentista de Múrcia.

Os seus tempos livres no estágios eram passados a jogar super-mário-wii com Hassan Gezzal e Karim Halliche, mas não enjeitava um ping-pong com Nadir Chaouchi desde que este não usasse a tshirt com a fotografia de Beyonce que o desconcentrava no departamento da virilidade. Fora de questão estava jogar à bisca com Karim Belhad que concomitantemente arrotava a hortelã, principalmente se antes tivesse treinado livres directos com barreira. O seu massagista preferido era Yazid Ziani, também conhecido a norte do Atlas como o Anibal-da-falangeta, e todas as noites viam juntos (cada um no seu maple) episódios avulsos da Guerra das Estrelas escolhidos à sorte com umas rifas verdes feitas com o papel dos rebuçados de mentol que Hantar Saifi, o secretário técnico da selecção, distribuía depois do jantar.

Rafik tinha alguma dificuldade em adormecer durante os estágios da selecção, - um espécie de stress pré-traumático dizia o psicólogo da selecção, um zambiano especializado numa técnica que consistia em esfregar areias do kalahari na zona lombar - e frequentemente utilizava dois expedientes: ou pensava num golo que tinha marcado ao Portsmouth em que - supostamente - tinha rodopiado sobre o guarda redes sem sequer ter tocado na bola, ou então pensava num drible que fizera no Boxing day a Rio Ferdinand depois de ainda ter tido tempo de revirar os olhos a uma espectadora parecida com a actriz que fazia de miss Marple. Se ainda assim não conseguia entregar os seus vários níveis de consciência aos cuidados do orfeu encefálico, usava um método que lhe fora ensinado pelo preparador físico dos tempos de júnior no Nantes: ir recitando os nomes dos comandantes cristãos da batalha de Lepanto: João de Áustria, Sebastião Veniero, Andrea Doria, Marco António Colonna, Barbarigo, Alvaro de Bazán, sendo que normalmente já roncava antes de dizer o nome todo de Juan Ponce de León.

No entanto o ambiente dos estágios era tranquilo e pouco perturbado por insignificâncias relacionadas com os grandes tumultos da civilização, desde conflitos norte-sul a catástrofes nas finanças públicas, e as grandes preocupações acabavam por surgir em redor das pequenas invejas; Karim Halliche acabara por ser escolhido para rosto da campanha das cuecas Dolce & Gabbana em detrimento de Nadir Chaouchi que se tivera de contentar com a dos novos aperitivos Matutano light. Karim ainda só tivera uma pequena experiência em Inglaterra com as promoções dos saldos de inverno de pijamas do C&A, mas desestabilizara-se um pouco, isso sim, quando soube que a nova namorada de Salim Facunda, uma odalisca turca, aparecera num placard da yoplait em Southampton, sendo que Salim pouco mais sabia fazer do que despachar bolas pela linha lateral. Rafik perguntava-se frequentemente onde estava o olhar de Alá quando era preciso reparar estas injustiças. Nem toda a iniquidade está no chouriço, pensava Rafik com as suas caneleiras enquanto Hassan Guezzal rejubilava ao receber a noticia do primeiro dentinho do seu filho, e ir-lhe-ia dedicar o seu próximo golo, «só se os guarda-redes adversários andarem a xanax», resmoneou de si para si Yassoup Khadra, um interior direito que era conhecido pelo mau feitio e pelas tatuagens de crustáceos.

Karim respirava optimismo e tinha praticamente tratada a sua transferência para o Málaga, para junto da sua noiva, a hispano-marroquina Sofia Khazar, uma loira kerastaseana que chegara a ser prometida dum campeão olímpico de basquetebol, mas que dele se desgostara por não aguentar muito bem os sapatos de saltos altos. Karim, esse sim, garantia-lhe um amor solene e permanente sem ela precisar de tirar as chanatas desde que lhe preparasse sempre um arroz de gambas depois dos jogos e nunca, mas nunca, sequer focasse o olhar em Mohamed Abhad, o grande sex-symbol e ponta esquerda da selecção quando esta se apresenta em 4x3x3 ou falso ponta-de-lança quando está em 4x2x2, e cabeça de cartaz da nova campanha dos lombinhos de pescada da Pescanova.

trompe d'oeil


Cornelius Gijsbrechts (1670). Reverse Side of a Painting. Óleo s/ tela, 67 x 87 cm. Copenhagen: Statens Museum for Kunst.

Fatin-Latour


[1] O realismo é a fantasia mais famosa. Tal como o bom senso é a maior das precipitações. Quem alguma vez sentiu a amargura que é amar alguém sabe que apenas a ilusão dá sentido à vida, tal como apenas depois de se caminhar sobre as águas se sabe o peso que transportamos. Quando se chega ao clássico momento do 'i don't know what to say' é porque realmente percebemos que o importante nunca foi dito.

[2] A realidade é o outro nome para o desencanto. O realismo é a sua máquina de alimentar enganos. A máquina geralmente falha quando quer produzir um engano maior do que o rolamento que lhe fornece a inércia. Um dia, quando quisermos ir lá pôr o óleo da paz repararemos que afinal o motor nunca lá esteve: 'always already gone'. Era tudo inércia.

[3] O realismo funciona como uma misturadora. Mantendo tudo unido faz com que cada elemento perca a sua identidade e produz uma falsa sensação de unidade. No entanto, apenas o realismo pode juntar duas sensações que o destino tinha prudentemente colocado nos antípodas: 'seduced and abandoned'. O maior mérito de abordar a realidade pelo seu flanco ambíguo é que ficaremos treinados para o boca-a-boca com o vírus da dúvida.

[4] O realismo é um veículo onde a marcha a trás é a primeira mudança. Quem nele for convidado a embarcar pensará que o solavanco é o movimento normal. Mas depois, quando for pedir contas ao homem do asfalto, queixando-se do piso, ele responderá: 'You must be out of your mind'. Nessa altura perceberemos que quem escolheu as mudanças automáticas esteve certo desde o princípio e nós estivemos apenas fora de nós.

[5] Afinal o realismo não é o veículo, mas sim a própria estrada. A pior das conclusões; tanta coisa para isto: 'Walk a lonely road'. Nem sequer é voltar à casa da partida, nem sequer nos apresentou o precipício, nem sequer nos fez esbarrar numa parede, nem sequer nos fez despistar na berma. Apenas uma estrada abandonada.

[6] Eis a grande equação da nossa selva: quem é o parasita de quem, entre o conformismo e o realismo. Quem chupa o sangue de quem. Geralmente o conformismo anda de barriga cheia mas é o realismo que aparece nas revistas. E já se viu muito conformismo ter de levar cargas de realismo às costas. Mas o conformismo genuíno nunca se cansa.

[7] A maior virtude do realismo é conseguir decorar a desistência. Mas toda a desistência disfarça uma má escolha. O realismo descobre então a sua verdadeira vocação como purgador de falhanços. A máquina sem motor vira válvula. O realismo revela-se então como um buraco onde todos nos podemos esconder dando a imagem de que estamos apenas à espera.

[8] O realismo vive de fastio. E o que mais o enfastia é a própria realidade. Para a digerir melhor aquece-a num banho morno de simulações ou contingências. Para um lado parece que está a piscar o olho mas para o outro parece que pestaneja. O realismo pretende ser o tal caçador dos dois coelhos mas que ainda usa o mesmo e único cajado para mexer o guisado

[9] O realismo começou por ser apenas uma das mais nobres inspirações das doutrinas de apaziguamento, depois passou a ser uma das modalidades moralmente aceites para as mais finas hipocrisias e, depois de ter feito de madrinha em várias guerras frias, retirou-se para umas termas vazias. Hoje massaja fígados com amor-de-bílis e ajuda a calafetar excessos de confiança.


Máquina de fazer bettencourtes (VII)

«Os sócios, obviamente, não merecem o que se passou (...). A história do clube terá de voltar a ser grande como sempre foi», terá dito aquela abécula que assina e responde pelo nome de bettencout, e que em ambiente de epidural generalizada logrou abancar de camarote estofado e presidencializar-se na lagartada.

Ora passa-se o mesmo no que concerne aqui a este vosso humilde blog. Este blog é dos seus leitores, e eles não merecem o que aqui se passou. A história deste blog vai voltar a ser grande, como sempre foi, nem que seja preciso «forçar um pouco a mão» - como diria o nosso amigo lacão - numa clássica série de pívia-posts onde, por exemplo, poderia elucubrar sobre os clássicos russos e o efeito dos sonhos com Sónia Marmieladova na mente de um jovem adolescente. É preciso voltar a aproximar este blog dos seus leitores, dignificar o momento nobre que significa ocuparem-se da sua leitura, honrar as dioptrias que generosamente aqui derretem, nem que o lacrimejar provocado pela minha imensa sensibilidade vos espatife o rímel. Postador e leitor têm de estar unidos, doravante deixarão tudo em cada post, como se cada post fosse um fragmento de mimetismo, como se cada post fosse o último post . Voltaremos a ser grandes, devastaremos os todos com a beleza tensa dos detalhes, teremos os tecnoratis aos nossos pés, voltaremos a erguer os cachecóis no ar, nem que seja para linkar o jugular.
No entanto, antes de vos contar os meus sonhos com sónia marmieladova, gostaria de aproveitar esta oportunidade que me é concedida para dizer que se por acaso se lembrarem de colocar umas bandeirolas em brasa pelo cuzinho acima dos jogadores e restante pessoal técnico da lagartada, - massagistas, cabeleireiros e presidentes incluídos - contem comigo para dar um empurrãozinho, ou, se for caso, ir abanando para a brasa nunca apagar.

máquina de fazer crespos (VI)

Não sei se já vos tinha dito mas, noutro dia, a primeira-vampe Bárbara Guimarães, as vampes adjuntas Claudia Vieira e Soraia Chaves e uma executiva da FHM da República Checa encontraram-se à hora do lanche no cabeleireiro de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica duma conversa ouvida nos secadores de cabelo em redor e inclusivamente na zona da marquesa da pedicure Idalina que tem ouvidos de tísica. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como esteticamente débil por nunca lhes ter feito uma alusão cerimoniosa ou pelo menos posto uma fotografia delas neste blog; seria assim alguém que pouco mais mereceria do que ir para o twitter escrever anedotas de alentejanos ou comentar declarações do Roubini. Fui descrito como um bloggeur impreparado. Que injustiça. Eu que já escrevi posts sobre o Camus, Perec e Clara de Sousa. Definiram-me como um problema, teria de haver uma solução para que eu fosse definitivamente desterrado para o departamento dos blogues sem interesse nenhum, ou, no mínimo, nos blogues religiosos. É fidedigno. O arrumador é meu primo e fez um risco no carro da Soraia Chaves, que pode ser confirmado, ali ao pé da jante, com uma moeda de 50 cents que a Barbara Guimarães lhe tinha dado. Os blogs que não põem as vampes certas nas poses certas, e nem sequer falam do Passos Coelho, pelos vistos não são merecedores da antena mediática que o progresso tecnológico e a liberdade de expressão (vénia) lhes concede. É banal um bloggeeeurrrr sofisticado como este que aqui se esparrama e assina cair no desagrado do vamp system, mas sem essa dialéctica só haveria monólogos. Em sociedades saudáveis os contraditórios são essenciais, sem esse contraditório as vampes ficam sem saber o alcance real dos seus silicones, sem saber o efeito anabolizante das suas papadas ou o teor inebriante dos seus superavites de anca, e sem esse confronto só há lugar para yes-vamps cabeceando em redor das suas curvas mais ou menos photoshapadas. Já conseguiram afastar o blog do Pipi por causa do excesso de sarapitolas, já conseguiram afastar o blog do Pulido valente quando disse que a Ferreira Alves só tinha o 12º ano, já silenciaram o neo-calvinismo do Arroja, não tarda ainda censuram o blog do JPP porque ainda nenhuma delas foi fotografada no banco do jardim de Sto Amaro, e agora eu sou mais um problema que tem de ser solucionado.
Mas eu não sou pressionável. Isto está transformado numa comunidade insalubre, repleta de vampes decadentes, onde espíritos livres e esclarecidos como eu são considerados ofensas, máquinas de insensibilidade e falta de gosto. Que pervertido sentido de vamp. Uma perigosa palhaçada.

Máquina de fazer Rogérios e Evelinos (V)

Há tempos tinha perdido umas preciosas horas a debulhar uma maçaroca inconsequente chamada 'Corpos Vis' de Evelyn Waugh, mas esse acto-falho de leitura podia estar já perfeita e decentemente resolvido no meu contentor de asneiras (onde teria vasta e óptima companhia), não fora dar de caras com esta hemodiálise crítica no Expresso:

« a narrativa de "Corpos Vis" é fragmentária não porque Waugh viu a realidade como fragmentária mas porque detectou na fragmentação deliberada o melhor transporte formal para as suas intenções miméticas» escrita pela vedeta blógsmica aparentemente pseudonomizada como Rogério Casanova.

[fulminado por uma vertigem incontrolável de morbidez antropológica agarro no despojo de posts em livro do mesmo autor - não se preocupem, eu estou habituado a ser por momentos extraordinariamente volúvel - e constato (na contracapa) que podemos estar perante uma «escrita rara em portugal, culta, atrevida, solta, comovida e cheia de ironia»

Se bem que o triângulo atrevido-solto-comovido esteja destinado a transformar trapézios de pálida banalidade em vistosas pirâmides de rara e culta ironia, como entretanto não happenizou nada de entusiasmante na minha vida nos transactos 30 minutos, forcei a minha débil memória a redebruçar-se sobre a última vez que contactei com uma realidade que trouxesse subjacente esse supracitado tripé de devastadora originalidade, e ela ( a memória) encontrou Noémia, uma moça que nos passados anos 80 distribuía prazeres avulsos na zona do Conde Redondo ao preço de um 'Pastoral Portuguesa' por cada, digamos, acto de fellatiedade atrevida-solta-comovida - ao câmbio da data, não que eu tenha pago pois era praticamente eunuco e treinava para muitos anos depois me tornar um romântico tardio.]

Voltando à drenagem crítica de Casanova, Rogério, reparo imediatamente que poderíamos deleitosamente aplicar a mesma receita à fórmula de jogo dos lagartos nos últimos 20 anos, o que daria algo do género: a forma de jogar do sporting é fragmentária como o caralho, não porque os treinadores tenham visto o jogo como fragmentário como o caralho, mas porque detectaram na fragmentação deliberada como o caralho, o melhor transporte formal para as suas intenções miméticas do caralho. (eu tentei sem o caralho, mas resulta pior, acreditem, e desculpem se estiver ao vosso alcance). Ora a principal conclusão que retiro é esta: a partir de hoje todos as minhas intenções miméticas vão ser transportadas formalmente através dum fragmentarismo deliberado.

Refiro desde já, e antes que me venha a esquecer, que a minha última intenção mimética foi quando sorri como o robert redford - já tinha tentado o jude law - para a minha vizinha de cima (que não sei se já vos tinha dito ela é igual à Sharapova) e efectivamente ela me respondeu de forma fragmentária com um enigmático 'boa-tarde', e eu digo enigmático pois como sabemos boa tarde assim dito de forma deliberadamente fragmentária pode significar muita coisa, desde apenas um simples e pachola boa tarde até a um devastadoramente atrevido, solto & comovido boa tarde.

Queria, no entanto, chamar a vossa especial atenção - que a têm generosa, eu sei - para o facto de que: o fragmentarismo deliberado é usado em espectro largo na arte e ciência há bastante tempo, desde o bacalhau à brás até ao tracejado a separar as folhas de papel higiénico ou as faixas de rodagem, e também aqui não apareceu porque o bacalhau fosse uma realidade fragmentária, mas sim porque um cozinheiro sem escrúpulos se lembrou desse processo para o transportar formal e materialmente pela nossa goela abaixo mimetizando mais delicadamente enzimas e bactérias pelos vários apeadeiros.

Sendo verdade que o Evelyn tentou 'etnografar humoristicamente o exotismo das tribos' britânicas no entre-guerras, não é menos verdade que outros autores abordaram um não menos interessante exotismo, mas no entre-pernas e, seja de forma fragmentária seja por atacado, foram logrando transportes formais bastante mais interessantes, provocando vagas de minetismo, perdão mimetismo, que não mereceram tão boa crítica, nem conseguiram ser apelidados de comédia de costumes pelos rogérios em waugha.

Peço especial compreensão para o caso de poder ter andado a fragmentar em demasia, mas o transporte formal do meu mimetismo associado à clareza tensional dos meus detalhes está a revoltar-me duma forma toda ela devastadoramente bela. Bem Hajas, leitor ausente, pela invisível, mas dedicada, companhia.

máquina de fazer gainsbourgues (IV)

'Beck fê-la sentir-se mais confiante com a sua voz também. «éramos só nós dois em estúdio, com um engenheiro de som, e isso facilitou a intimidade e a entrega» diz-nos Belanciano, - o victor e não o arroz, - no Ipsilon, num especial gainsbourguer charlotte, menu big-beck, com molho picante e orgasmos faciais.

eu bem me parecia que devia ter ido para engenheiro de som; uma profissão, diz-nos agora a nossa charlotte, que em certas condições de temperatura e humidade: pode «facilitar a intimidade e a entrega». Esqueçam a capacidade afrodisíaca dos perfumes, esqueçam o paleio marialva, esqueçam as carícias anestesiantes, esqueçam as massagens, esqueçam os banhos de chocolate quente, esqueçam as cenas de ciúmes, esqueçam tudo o que vos lavou o cérebro: apenas a perspectiva dum som mágico e patrocinado pela ordem dos engenheiros facilitadores será suficiente para obtermos o elixir que nos soltará a existência deste devastado e penitencial degredo terrestre: intimidade & entrega . A partir de agora também só escreverei posts em ambientes que facilitem a intimidade e a entrega (incluindo de pizzas), mas que de preferência também propiciem pés quentes, pois sinto uma forte incapacidade em me entregar a quem quer que seja apresentando problemas de irrigação nas extremidades. Informo por isso que neste momento, e na impossibilidade moral de ter comigo uma engenheira de som que conheci na pizzaria em frente (deduzo isso porque exercitava sustenidos com wonderbras) estou a utilizar o computador já em ipad style, pois a covinha que de há uns mesitos para cá faz a minha zona diafragmal ali no quarteirão do dorso a tal mo permite, e cada um pratica a intimidade e a entrega com o que pode e tem mais à mão. Não sei se me sentem também mais confiante, eu diria que sim, mas só desde que enfiei mais um par de meias de lã e introduzi o meu hemisfério sul dentro dum déficit de parede denominado lareira. Apesar de ainda não ter ouvido as músicas, estou de acordo com o Beck, entre um engenheiro de som e a charlotte também teria praticado a intimidade e a entrega com esta última, deixando o primeiro a tratar dos arranjos e da problemática do trifásico. Aguardo assim um disco na sua essência ciclópico: devastador na beleza das misturas, de tensões inteligentemente resolvidas na clareza dos detalhes, e que me permita continuar a minha fase de revolta interior onde pontificam, aqui e acolá, momentos de grande intimidade e entrega.

Máquina de fazer salingueres (III)

Como sabemos, corre de badajoz para cá um concurso de construções na areia para o melhor busto com elogio fúnebre a salinger (a par de outro para acertar no rating da república em 2010 mas sem busto). Dada a circunstância do pessoal poder perfeitamente despachar o serviço de panegiretas dizendo que, ao defunto - que Deus tenha - lhe bastou escrever apenas um livro conhecido, mais a cena macaca do bananafish, tem sido um concurso monótono, tal como se fossemos ao casino e estivesse toda a gente a apostar no 23. No entanto, há sempre um adamastor que se destaca nos intervalos do musgo e desta vez encontrei um brinde no FJViegas, que reza assim:

«Salinger, ao contrário dos políticos, sabia que as revoluções não se fazem com revolucionários (geralmente profissionais) mas com revoltados. É esse o segredo dos autores que mudaram a vida de milhões de leitores»

Queria afirmar, com a solenidade que me permite a situação de estar a sentir uma apertada necessidade de passar a usar calças nº 46, que, a partir de hoje: sou oficialmente um revoltado - e não um revoltado qualquer, mas sim um revoltado profissional. Preparem-se, milhões aí desse lado: vou mudar a vossa vida até agora despovoada de verdadeiras emoções, e duma forma que nem a escova de dentes irá reconhecer a vossa gengiva. Devastar-vos-ei com a clareza tensa do meu discurso, numa epidurálica simbiose de beleza e intensidade que fará qualquer tocador de pífaro passar directamente para a tuba sem passar pelo trombone. Penso que inclusive já deveis estar a sentir, se fordes pessoas sensíveis, qualquer coisita pela espinha acima (ou abaixo, dependerá da hormona que esteja de plantão). Infelizmente o meu segredo foi descoberto - estava preparado para me revoltar apenas quando fizesse as próximas análises à próstata - e assim não posso adiar mais para soltar a revolta que transporto encarcerada no meu buliçoso e cada vez mais roliço ser. Geralmente eu quando revolto assim muito de repente - o homem morreu sem avisar e o fjviegas não soube guardar um segredo - dá-me sede e por isso tenho de fazer umas pausas para dar uma golfada, não estranhem e dêem um desconto pois costumo não ser tão presciente a escrever quando gargarejo - eu nunca engulo, registe-se. Ia então dizendo-vos que a minha revolta poderá abrir-vos horizontes que antes nem suspeitáveis, ainda há pouco, e nem estava completamente revoltado, a minha vizinha de baixo - que é parecida com uma moça que vaporiza revoltosos caracóis nuns anúncios de shampoo - me convidou para um chá verde com gengibre, julgo mesmo que foi assim que o mao começou a grande caminhada, nunca se esqueçam que o acto mais revolucionário é a amizade, sobretudo se vier acompanhada de bastante clareza nos detalhes. Sinto que já estou a mudar a vossa vida e ainda nem fiz uma opa à cimpor. Mas é preciso revoltar em grande para que tudo não revolte ao mesmo.

máquina de fazer beethovenes com gardineres (II)

«é antes através da clareza dos detalhes e da inteligente gestão das tensões do discurso que a grandeza do seu génio mais se revela» diz-nos Cristina Fernandes hoje no Público a propósito de gardiner e a sinfónica de londres à volta dum beethoven.

tenho de confessar que só conheço esse tal de beethoven de ouvir falar e dum presente que recebi no último Natal. No entanto, se tivesse sabido há mais tempo dessa hipótese de juntar 'clareza de detalhes' com 'inteligente gestão de tensões', hoje seria um homem muito mais completo e com fortes possibilidades de transbordar felicidade. Até ao presente para mim 'detalhe' é sinónimo de confusão e 'tensão' sinónimo de fertilizante para a estupidez. Assim, esta receita de beethoven avec gardiner fazia-me o pleno na resolução do maior problema que assola a declinação do meu actual frágil existir: 'tensão nos detalhes'. Ou seja, a vida por grosso afigura-se-me até apresentável e calma, mas se descermos ao retalhado patamar dos detalhes pouco se aproveita: entramos no maravilhoso mundo da devastadora tensão. Como tenho resolvido a coisa? (sem a milagrosa mistura de gardiner com beethoven, claro): tecendo minuciosos rodriguinhos de merda no seu estado psicoólico. Ora fodendo o juízo de quem teve o infortúnio ou mau cálculo de tropeçar comigo no caminho (Deus também cochicha um pouco), ora descobrindo escombros haitianos onde estão apenas douradas areias dominicanas. Estou numa fase devastadoramente bela para quem me queira como inspiração para escrever uma saga de psicopatas com jeito para desenhar cornucópias. Não me compreendem, não, não me compreendem, mas se me compreendessem ainda seria pior.

a máquina de fazer valter hugos mães (I)

«Como perceberá o leitor, ao deparar neste livro com algumas das páginas mais devastadoramente belas da ficção portuguesa recente» jms, em bibliotecário de babel e expresso


O belo que aprecio mais é o devastadoramente belo. Existe o belo apenas arrasador, mas não se compara ao devastador, o devastador como que se nos interpela pelas entranhas e já vi um ou outro belo a devastar-nos até ao pâncreas, inclusive fazem ecografias a pâncreas devastados pelo belo, se bem que a médis não comparticipa em zonas acima da bexiga. A última vez que tinha ficado indeciso no que concerne a um belo, sem saber se era devastador ou apenas arrasador, foi quando li aquele livro de uma fera na selva do henry james por recomendação da inês pedrosa, que como sabemos é uma pessoa completamente refém do belo, esteja ele no formato devastador ou apenas circunscrito ao modelo arrasador. Se no caso do belo literário a pendularidade entre devastação ou arrasamento pode ser determinante para a caracterização da obra em análise (apesar de poder parecer de mau gosto nos dias que correm, os críticos poderiam estabelecer uma escala para o tipo de desgaste que o belo pode provocar no território simbólico do belo do leitor) noutros tipos de belos já a classificativa peri-telúrica poderá ser ela própria devastadora. Se analisarmos o peculiar fenómeno da beleza anatómica feminina, a título de exemplo, já vejo com piores expectativas a sua utilização, seja pelo alarme rodoviário que provocaria um devastadoramente belo par de mamas, seja pelo inusitado risco hipnótico dum devastadoramente belo par de pestanas. Mas, sem querer tornar este meu testemunho devastadoramente aborrecido, coisa que nem sempre consigo, o que me deixa, isso sim, deveras arrasado (não chega a devastar) é escrever sempre desvastador em vez de devastador - ó mãe, quão miserável me sinto por não descobrir na minha sublime interioridade o meu lado de valter hugo, perdido certamente nas mais recônditas, inóspitas e devastadas zonas da minha aborrecida, mas bela, helás, psique.

queria apenas chamar a atenção de vexas

que este espaço preveligeado, vou tentar outra vez, previligiado, esqueçam, dos media, para além de ser o único espaço que voltou a falar de sofia aparicio (fechando assim o dossier anos 90) é também praticamente o único que ainda não se pronunciou sobre a figura ímpar de pedro passos coelho (*). Julgo que a mundo se pode mesmo dividir entre aqueles que sentem urgência em se debruçar sobre o fenómeno passos coelho e os que conseguem viver sem essa vertigem, se bem que, informam os sites de referência, mickael jackson destronou floribela nas pesquisas online de 2009, denotando que o gosto nacional se deslocou das mamas grandes para os narizes afilados, mas não dando boas indicações para a tendência de 2010. Entretanto envelheço.

(*) queria apenas salientar que depois do fenómeno sócrates abriu-se na sociedade nacional a hipótese do 'agora tudo é possivel' que, como sabemos, já deu novos mundos ao mundo, o micro-ondas, a arca de noé, e inclusive o turbo intercooler.