Demi-douzaine pour les vacances


O dicionário não ilustrado (entradas 1315 a 1320) avança com os n+1 do verão do nosso contentamento:

Segundas Intenções – Como apenas Deus alcança escrever direito por linhas tortas, o mais próximo que lá chegamos é falar dizendo aquilo que não queremos dizer. Podemos contudo ficar descansados pois o inferno está cheio, sim, mas é de boas e primeiras.


Terceiro Mundo – Ainda assim com direito a pódio, este mundo é onde os outros dois vão buscar as medalhas de bom comportamento. Paraíso para missionários, enfermeiras, estatísticos e fabricantes de tendas, é o melhor local para as nossas boas intenções - acima insinuadas -poderem treinar os músculos sem apanhar nenhuma distensão. Pelo sim pelo não, mandar o Guterres como batedor.


Quarto Poder – Com os primeiros três poderes esgotados de tanto serviço ao Bem Comum, este quarto pegou nas boas intenções que ainda sobraram de cima e decidiu dedicar-se à maldade privada, oferecendo um telecomando de brinde para os súbditos poderem escolher o desenho das sobrancelhas e a maquilhagem da pivot.


Quinto Império – Como finalmente decidimos quais os senadores com os quais podemos cozinhar um bom triunvirato: Isaltinius, Felgueirius e Valentinus, já podemos encomendar o leite de burra e escolher uma sevilhana para fazer de Cleópatra. Invasões pelo google maps, nomeação de governadores pelo twitter e tele-escola pelo youtube.


Sexto Sentido – Dado que os outros cinco ficaram aquém de nos decifrar o mundo convenientemente, este tesouro escondido da psique humana ir-nos-á libertar do pobre sensorialismo da nossa condição, revelando-nos o El Dorado que ainda resiste dentro de nós. Melhor que um inconsciente envernizado, que um dedinho adivinhador, que um Rebelo de Sousa, ou mesmo que um kit de Cassandra, ainda será este sentido extra que salvará a espécie de viver às apalpadelas a dizer q ‘isto não está a cheirar nada bem’.


Sétima Arte – E um dia, já todos sentados, depois de fechadas as luzes e com a lanterna mágica apontada para um fantasma vestido de cerimónia plasmado numa parede lisa, somos informados por uma voz abafada: Diogo Morgado faz de S. José enquanto Al Pacino faz de Herodes. Não sei se será preciso dizer mais alguma coisa.

stanzas for music (*)

There be none of Beauty's daughters / With a magic like thee; / And like music on the waters / Is thy sweet voice to me: / When, as if its sound were causing / The charmed ocean's pausing, / The waves lie still and gleaming, / And the lull'd winds seem dreaming: // And the midnight moon is weaving / Her bright chain o'er the deep; / Whose breast is gently heaving, / As an infant's asleep: / So the spirit bows before thee, / To listen and adore thee; / With a full but soft emotion, / Like the swell of Summer's ocean.

(*) Lord Byron (1815) Stanzas for Music © 2009 University of Toronto.

Explico agora com mais profundidade ainda

Os fundos de colecção do Bloco de Esquerda iniciaram a sua fase de monetarização e economia paralela. «Tu Zé, que vales apenas 15 votos, vais para a marcha popular do Costa a troco de duas tshirts do Che no tamanho da Drago (colecção Cenoura 89), tu Miguel LGBTLGTB d’Almeida vales 3.500 votos vais para o Sócrates mas a troco de bar aberto no Frágil para o grupo parlamentar durante um mandato, tu Joana-a-Dias vales 67.560 votos, ficas a tratar do canil. Tu, Rui Tavares ainda só vales 753 votos, mas podes valer mais depois de treinares o flamengo e cortares a barbicha, ficas ainda, o Fazenda vale 5 votos mas se se rir pode chegar aos 6, fica, o Pureza vale 2 ou 3 consoante representar Alfarelos ou Mamarosa, mas não temos mais ninguém para a Pocariça, fica. Tu, Arrastão d’Oliveira, não sabemos quanto vales, mas, pelo sim pelo não, ficas por causa duns olhinhos que a Clara Ferreira Alves te fez; trocamos ainda aquela moça que foi com o Miguel Portas para Estrasburgo - já fez o servicinho que tinha de fazer - pela Sanfona e mais 5.000 votos no circulo de Braga, só para foder os arcebispos e poder oferecer preservativos com estrias no Bom Jesus. Aceitamos o Pinho a título de empréstimo desde que ele traga também os chavelhos com ele, e até pode fazer a pré-epoca no Ancão. Não dispensamos aquele do Rosas porque é amigo do senhor do banco de jardim de Sto Amaro, vale 3 votos, vá apertadinhos 4.»

Mas hoje já estou com uma profunda capacidade para impressionar.

Sinto-me requintado. Praticamente incapaz de qualquer estridência, - para ouvir um ruído que seja, os estimável leitor terá mesmo de encostar o ouvidinho à tela – irei explicar-vos várias coisas sem recurso a muletas, dispensarei inclusive onomatopeias, e nem sabem o que me custa não usar assim uma bucha clássica tipo huumm, ou mesmo um splash, ou um grrrrrr, ou até um zzzt. Ficam assim afastados da minha explicação cães e gatos, fora de questão animais ferozes, quanto muito uma joaninha, ou então um colibri paralisado das asas.
A talhe de martelo (não está disponivel a foice) lembremo-nos que foi a metafísica escolástica que nos deixou como testamento a única definição que dispensou figuras de estilo: ‘Deus é aquele que é’. E assim, mesmo sem reticências, deixou-nos pendurados com a noção de puro ser, puro acto. Uma verdadeira explosão metafísica que dispensa pornoexclamações.
E isto tudo para (vos) expressar a minha semi-exclamativa consternação: e então nenhum partido convida a Diana Chaves? Estão à espera que venha cá o Berlusconi? Estaremos perante a descriminação das sex simbols? Integramos a paneleiragem e ostracisamos as gajas boas? Focamo-nos no investimento público e continuamos a importar beldades eslavas? Ele é testamentos vitais e bancos de esperma e ninguém pensa em apurar decentemente a raçola da fêmea lusa? Vão continuar a nascer portuguesas de pernas tortas e anca de baleia? Para ver lábios carnudos teremos sempre de ligar a tvi? Será que os meus netos terão de emigrar para apalpar umas mamas que não descaiam ao fim de 15 dias de racionamento de leite em pó? É também esse o encargo que lhes vamos deixar? Se pretendemos ser um rabiosque condigno da Europa temos de nos preparar em condições. Quero ver esses programinhas de governo, quero.

Francisco José!...

Um aluvião possidónico assolou de repente a blogaria literaloide portuguesa: a aversão ao ponto de exclamação. (pelos vistos até recuperando um esgar mexiano de 2007, mas duma altura em que ainda precisava de dar um pouco nas vistas). O texto de JMSilva então apresenta um acervo de tiradas dignas duma espécie de Paula Bobone da crítica literária (‘sintoma da absoluta falta de requinte estilístico’, ‘ideal para adolescentes idealistas’, ‘prenúncio de estridências capazes de furar o silêncio da leitura’, ‘profunda incapacidade de alguém se fazer explicar’, – esta é dum tal de Palomar, Senhor – ‘muleta dos maus escritores que querem impressionar’, etc) recolhendo o maior chorrilho de granulado para dissolver desde o discurso dos irmãos castro nos prémios gazeta dos desportos. Ora então queridos especialistas em escrita explicativa de requinte sem muleta, dizei-me, como vai significar um ‘bum’ sem ponto de exclamação, um peidinho sem cheiro?, (calma, ponto de interrogação ainda não fura o ‘silêncio da leitura’) um orgasmo sem jacto?, uma sodomia sem rabo? Como fazemos? E a seguir a um foda-se gritado? Também não se pode? Arredonda-se para ponto e vírgula? Como fazemos: «O senhor Palomar ia na rua encontrou o senhor Silva e estavam os dois muito bem a falar sobre o último Nabokov quando o sr Francisco José se aproxima e lhes arremessa com um 'martelo pneumático' na testa. Palomar, senhor, desmaia, e Silva, senhor também, grita: foda-se, ponto e virgula, Francisco José, que bruto, ponto e virgula; era uma metáfora virgula será que só tens reticências nessa moleirinha?». Será assim? O que fazemos com leitores e críticos tão sensíveis, receosos que a exclamação-em-ponto-de se lhes atormente a boca do cólon do estilo? Damos-lhes o lápis azul do ‘requinte estilístico’? É que nem a reticência vai escapar, coitada, mas atenção: novo lema: todos a castrar a exclamação, acordo ortográfico é que não! Perdão, ponto e virgula. E se o escritor quiser mandar o leitor e o personagem principal para o caralho, e por atacado, no final do livro, como faz? Mete dois pontos travessão? E se uma velha cai a rebolar numas escadas e lá em baixo no fundo das ditas está o Pacheco Pereira? Como se descreve? Ela diz, «carago, não me bastava cair das escadas e ainda tinha de apanhar com este ponto e virgula dum cabrão» (mulher do norte). Como é? (se me acabam com o ponto d’interrogação é que fico desgraçado) E como fazemos para não ‘furar o silêncio da leitura’ do sr. José Mário se quisermos mandar um GNR ir passar multas de excesso de velocidade para a puta que o pariu? «Senhor agente ainda agora me apeteceu enfiar-lhe um cacetete de exclamação pelo cu acima mas não sei o que vão dizer os críticos do Expresso». E o que faço quando me perguntarem da Granta como estou das costas? Digo «que aborrecimento esta sensação de espasmo que me subverte em dor o lombo querido»? Não seria melhor um «dói-me como o caralho!», meus anjos da guarda do estilo? Então e se eu quiser mesmo um 'martelo pneumático' no final da frase? Qual é o mal de querer um 'martelo pneumático' no final da frase? Não devo? Aumento as contas d'otorrino de alguém? Tenho de acabá-la em chave de fendas? Só a picareta é que não avilta o estilo? Desisto. Também ando com uma imensa incapacidade de impressionar.

Luna Park #99

«A minha sátira é a minha doença», Mickey Sabbath, in Teatro de Sabbath de Philip Roth

O Epigrafómano (que merda de título, francamente)

«Que rosto era o teu antes de o teu pai e a tua mãe se terem encontrado?» de um Koran Zen

Epígrafe in ‘Souvernirs Pieux’ de Marguerite Yourcenar

Todos os cristãos (e não só) são reféns da frase: «Deus criou o homem à sua imagem e semelhança?» (Livro do Génesis). Dizem que é figura de estilo. Dizem.

O Epigrafómano (este título também saíu uma bela trampa)

«Les poètes ont cela des hypocrites qu’ils défendent toujours ce qu’ils font, mais que leur conscience ne les laisse jamais en repos» de Racine, carta a Le Vasseur em 1660

Epígrafe in ‘Tolstoi ou Dostoievski’ , Cap II, de George Steiner.

Lá está, no fundo, somos todos poetas.

O Epigrafómano

«Ó Deus, fechado numa casca de noz eu poderia julgar-me rei de um espaço infinito [: se não fossem os sonhos maus que tenho]» de Shakespeare, Hamlet, II, 2

Epigrafe in ‘El Aleph’ de Jorge Luis Borges

Ou seja, O Inferno, 400 anos antes de Freud e Sartre

O Epigrafómano

«Não são as próprias coisas, mas as opiniões acerca das coisas o que atormenta os homens». Epictetus, Encheiridion

Epigrafe in ‘A vida e opiniões de Tristram Shandy’ de Laurence Stern


Esta tasca está a tornar-se chata. Nem sequer se consegue inclinar decentemente para si própria, quanto mais virar-se decentemente para o mundo; ora parece um torcicolo permanente a fazer trejeitos para tentar ver alguma coisa, ora põe a mão no lombo para se conseguir manter de pé direito. Já são demasiados anos a lamber opiniões como se fossem sabão.

[Não é que eu esteja atormentado, mas o que é essa merda de que todos falam da 'passagem do tempo num banco de jardim de sto amaro'? Sinto que posso estar a passar ao lado de algo realmente importante]

O Epigrafómano

«Abre bem os olhos e vê». Júlio Verne, 'Miguel Strogoff'.

Epígrafe in ‘A vida modo de usar’ de Georges Perec.

Pior que deixarmo-nos iludir pelas aparências é desperdiçarmos as evidências.

«Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós»

A frase do título (da Epistola de S.Paulo aos Romanos) está escrita num placar verde-garrafa instalado na A1 quase à saída de Lisboa. Deverá tratar-se de mais um apelo insinuante de alguma 'igreja evangélica', tentando vir a entrar na alma ( e se calhar bolso) do automobilista pelo flanco peri-apocalíptico, ou seja, apelando ao espírito de intocável que qualquer cristão dalguma forma transporta e qualquer pagão aspira.

Desde sempre que o cristão teve de incorporar na gestão da sua vida o problema das ‘forças do mal’, e, talvez mais rebuscado, o problema do sinal e do castigo. Nenhum católico (digo católico porque tenho dificuldade – por desconhecimento - em entender a alma protestante) poderá certamente dizer que nunca atribuiu (sentiu) algo de mal que lhe aconteceu (a ele ou ao mundo) como uma manifestação clara duma admoestação de Deus.

A manifestação da vontade de Deus na criação é um grande cabrão dum mistério. Mas ninguém se dispensa de ir dando palpites. Precisamos mesmo destes palpites para equilibrar interiormente a nossa vidinha. Ninguém – crente ou não - se consegue alimentar permanentemente de livre arbítrio; nenhum estômago aguenta.

O comunismo, as guerras mundiais, a sida, o terrorismo, a mais recente crise da ganância, as alterações climáticas, e agora, fresquinha fresquinha, a gripe porcino-global: é impossível que não perpasse de vez em quando pelas nossas santas alminhas que se tratam de sinais de Deus. (*) Estranhamente o mal exige mais causalidade que o Bem.

Faz parte da formação dum católico ir tentando equilibrar esta frágil casquinha d’ovo da nossa condição, ou seja: isolar do convívio diário o conflito entre o desígnio de Deus (a clara) e a liberdade do homem (a gema). Consegue-o a espaços; durante o sono.

Ao exigir a Deus que fique de braços cruzados depois de tanto esforço (criação, apaparicanço de povo eleito, redenção sem acompanhamento das televisões, cismas na igreja, etc etc) pede-se-lhe uma perfeição só ao alcance dos deuses menores. Ou seja, basicamente ninguém acredita que não ande aí a Sua Mãozinha. Não sabemos se anda, mas o pessoal não pára de desconfiar.

É então aqui que entra aquela noção de intocabilidade ontológica que a fé fornece. Ali a meio caminho entre o misticismo e as drogas leves, esta espiritualidade da ‘entrega nas mãos de Deus’, essa confiança no seu tripé providência-misericórdia-protecção, são marcas distintivas do catolicismo, (e cristianismo, vá) e são algo que irrita imenso quem esteja ao lado e veja em Deus apenas uma boa cabala manipulatória para deficitários de boa hormona.

Nunca terá irritado tanto como hoje a visão católica do mundo. Nós, os católicos, mais baralhados que nunca, buscamos e damos agora as respostas mais simples, num back in basics fodido de acompanhar: amai-vos, respeitai-vos, cuidai dos mais necessitados, e não vos deixeis levar pelo barco dum progresso que parece não fazer questão de ter alguém ao leme.

O cristão cola o optimismo com o pessimismo numa união verdadeiramente de facto: nenhuma espiritualidade consegue esse pleno de juntar a morte à vida, de fazer conviver o aqui com o aquém, a falha com a graça. Nada como o catolicismo consegue pôr as duas dimensões (que sto agostinho ‘inventou’) a rodarem num mesmo carrossel. Como o Par e o Ímpar a beijarem-se na roleta.

Antes um incómodo sinal de Deus na mão que dois livres arbítrios a voar.

(*) note-se, por exemplo, num post recente do ‘natureza do mal’ em que - de forma até engraçada - ele ironiza sobre as contingências higiénicas no culto religioso da Igreja, apenas um comentário se regozija com a graçola ( e é dum gajo de Penacova), o resto da sua vasta audiência acagaçou-se um pouco de se meter com o Deus da água benta, num post que até pedia mais comentários, designadamente as luvas Jodarte serem uma merda.

O Epigrafómano

«Ora vamos lá! Usemos da imaginação e passemos uma hora bem passada a contar histórias, que as nossas histórias servirão para educar os nossos heróis» Platão, A Republica, Livro II.

Epigrafe in ‘A História Secreta’ de Donna Tartt.

Penso que, se no tempo de Platão existisse televisão, ele seria a Júlia Pinheiro de Atenas.

2999 Odisseia no Erospaço

(e este blog associa-se assim às comemorações da chegada do homem à Lua)

O astronauta John Capuchini mais do que pisar novos planetas gostava de treinar acoplagens com a sua nave ‘Little Apricot’. Saía pela tardinha, enquanto toda a galáxia estava na matiné, e entranhava-se pelo espaço na busca da acoplagem perfeita, a last frontier das acoplagens, mesmo que efectuada em condições de grande adversidade, inclusive chuvas de cometas ou de mary’s poppins.
Naquele dia ‘Little Apricot’ tinha-lhe solenemente comunicado que não estava disposta a ir para perto de planetas com muito arvoredo, pois os radares eram muito sensíveis, e não estava para ficar emaranhada nalgumas moitas. Foram assim para a órbita do planeta Berardo (tinha o nome do antigo empresário português, numa homenagem à doação da sua colecção de cuecas de renda pintadas de luas por Joana Vasconcelos) uma espécie de Saturno mas com anéis em forma de arco-íris.
Uma das coisas que costumava deixar John Capuchini um bocado sensível durante as acoplagens era uma astronauta russa que se costumava passear com a sua nave levando um casal de clones de tigres da Sibéria a mijar no espaço porque achava que lhes fazia bem à pele. Quando isso acontecia geralmente John falhava a acoplagem, e por brincadeira ‘Little Apricot’ até o provocava perguntando-lhe se tinha de ir tratar do assunto com o modo de astronauta automático.
Mas naquele dia John enchera-se de brios e até comprara um kit de capacete e chave de fendas novos num Pingo Doce de Vénus que dizia nas instruções: «Pensa e acoplarás». Inesperadamente, um revolucionário acabamento em estrias helicoidais revelou-se problemático tendo inclusive deixado por duas vezes John com a chave na mão a olhar para o capacete e para uma ‘Little Apricot’ incrédula e quase que suspirando pelos tempos em que apenas se dedicavam a brincar à batalha de coordenadas de GPS, ou a fazer as palavras cruzadas do Ypsilon.
Mas John não desistia; e se não tinha obtido sucesso com a clássica técnica de acoplagem central iria arriscar com a alternativa acoplagem de perfil, sabendo de antemão que o espaço era exíguo derivado à proximidade dum satélite paquistanês que se instalara nas proximidades, e que se dedicava a fazer downloads ilegais de música cósmica para depois vender como imitação dos Pink Floyd. ‘Little Apricot’ enchera-se de boa vontade e até adornara a zona de acesso ao tanques de propulsão para que John não se pudesse desculpar com a astronauta russa, nem com o capacete novo de estrias que lhe estava sempre a cair para a testa, dando até um certo ar de ciclista, o que também, convenhamos, não ajudava a dar um ar profissional e convincente à acoplagem.
Estava no entanto tudo a correr às mil maravilhas, tirando um ou outro toque de John no satélite paquistanês, com os tanques de Hélio de ‘Little Apricot’ a entrarem em módulo de lubrificação acelerada, e eis senão quando, John, inesperadamente, alegando que o capacete lhe estava a cair para os olhos, interrompe a acoplagem e se põe a rogar pragas ao Pingo Doce. ‘Litte Apricot ‘ nem acreditava no que lhe estava a acontecer, e quase com vontade de pegar à força na merda da chave de fendas de John, pega no capacete, atira-o para o espaço sideral e declara: ‘tenho de ser eu a acabar esta porra sozinha’. ‘Tens de compreender que isto, nestas circunstâncias, não é fácil’ foi a única saída semi-airosa de John, que ia propondo colocar uma música dos Red House Painters para tentar desanuviar o ambiente tenso do cosmos. ‘Acho que senti falta das moitas de Jupiter’ foram as suas últimas, mas hesitantes, palavras que, no entanto, não o dispensaram de ouvir que se tivesse uma chave de fendas em condições, e não uma merdinha que mais parecia um isqueiro bic dos pequeninos, nada daquilo aconteceria e se calhar até a astronauta da nave dos tigres da Sibéria quereria ter experimentado. Mas fazia-se tarde, os sóis começavam todos a pôr-se pela galáxia, e ainda havia que ir comprar fruta e hidratar a fuselagem para não fazer má figura no hangar. Nem deu para comer umas línguas de gato.

Luna Park

«But I swear I’ll never kiss anyone / Who doesn’t burn me like the sun / and I’ll cherish every kiss like my first kiss »

Jens Lekman, ‘And I Remember Every Kiss’ in ‘Night Falls Over Kortedala’

O epigrafómano

«Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto» S. João, XII, 24. In ‘Os Irmãos Karamazov’, F.M. Dostoievski

Perto do ano 22 a.b. (ou seja, 22 anos antes da bloga), quando se juntava uma adolescência arrastada a uma maturidade enfiada a ferros, tive o entretenimento de ir ‘coleccionando’ as epígrafes dos livros que lia. Escrevia-as num livro de quadriculado comprado numa papelaria ali na Rua Poiais de S.Bento, antes de se entrar na Calçada do Combro, e depositava nelas imensa esperança, pois considerava que condensariam toda a mensagem da obra, eram, por assim dizer, um núcleo de sabedoria, uma fusão de estudo e inspiração. Nas voltas da vida o caderninho perdeu-se. Noutro dia, ao trazer uma epígrafe (dum livro de P. Roth) aqui para um post lembrei-me do caderninho e desse costume. Recuperar essa memorabilice é o renascimento possivel que vou arriscar. Oscilarei entre livros antigos e novos. Com ou sem comentários. Aqui.

A série começa com um clássico. Dos primeiros do caderninho. Para os tempos que correm parece uma frase de manicómio.

Container Age

Os tempos mais recentes ficaram marcados por duas polémicas sobre contentores: a das aulas para os ciganos em Barcelos, e a sempre-eterna do terminal de contentores do porto de Lisboa. Em qualquer dos casos transparece alguma sub-valorização da figura do contentor, que já não tinha boa fama desde que Melanie Klein se lembrou de lhe sacar o poder metafórico para as suas teorias de alavanca infanto-mamária, se me é permitido assim expressar. Ora o contentor – como se pode observar aqui, ou aqui, ou aqui, a mero título de exemplo (há milhares de merdas destas) – não merece. Para além de vos puder contar dezenas de coisas que se podem fazer num contentor – como se constatar aqui, ou aqui, ainda também apenas a título de exemplo – julgo ser importante voltar a dignificar o contentor e jamais deixar que ele fique ligado a este período de tanga da nossa história. O contentor é inequivocamente uma marca da nossa civilização e, para além disso, assume-se como o parente pobre do novo demo que é a globalização. Nem sei inclusive como é que ele escapou a uma referência critica na nova encíclica, que a Santa Madre Igreja me desculpe esta pequena graçola. Parece-me assim um desafio para todos nós trazer o contentor para o lugar que ele merece, recuperar de novo o contentor para o coração de todos nós. Esta situação tem-me deixado inclusive desgostoso, pois tudo indica que estamos à espera que haja um escândalo dentro dum contentor (género apanhar dentro dum a dupla Sanfona & Melo a fazerem aviõezinhos de papel como a fotografia de Constâncio) para que este ainda sirva de agente sublimador dos nossos complexos.
No entanto, interpreto estes acontecimentos como um sinal. Um sinal da história do nosso imaginário. Afinal a tanga não passava dum fase passageira, duma espécie de antecâmara da verdadeira viragem histórica. A nação-contentor, o país que nunca teve infância, nunca teve sequer a idade do armário, entrou definitivamente na fase terminal : queremos que alguém nos leve e guarde, nos deixe sossegadinhos uns ao pé dos outros, sem nos pedir para mexer muito e, e se quiserem alguma coisa de nós, encham-nos de mimos e peguem-nos ao colinho. Estamos feitos para guardar recordações, - somos afinal um país com história - e, se pedirem com jeitinho, podemos distribui-las pelo mundo fora a preço de chinês. Com ou sem corninhos.

O Aperitivo Categórico

É conhecido o fraquinho que Kant tinha por amendoins salgados. No entanto, o que é menos conhecido é que ele viveu atormentado toda a sua vida porque pensava que o pistachio era um aperitivo de categoria superior e, muito provavelmente, seria o próprio aperitivo universal que, no fundo, explicaria e daria sentido a todos os outros aperitivos. Atormentado por saber nunca vir a conseguir atingir o amendoim em si, desforrava-se comendo altas barrigadas do dito, endereçando ao aparelho intestinal os problemas que o seu idealismo em busca de almanaque não lograva descortinar, chegando mesmo a dizer: o amendoim sem o pistachio é um conceito cego.
Os últimos anos da sua vida foram dedicados a uma experiência de teor pragmático-metafísico: comer amendoim mas procurando ter a experiência do pistachio; tratava-se pura e simplesmente de pôr de mãos dadas o empirismo e o racionalismo, deixando a intuição beijar na boca a experiência.
Sabendo ter sido injusto para muitos outros aperitivos, deixou inacabada uma obra de carácter esotérico, mas visionário, em que pretendia demonstrar que o pistachio mais não era que um caju embrulhado numa casca de pevide, e que a verdadeira fonte de conhecimentos apriori se encontrava no céu da boca, o topos de toda a transcendência. Daí se dizer que quando morreu parecia estar com os topos.

«When I said I wanted to be your dog»

Jens Lekman vem (cantar) a Portugal. No artigo da Ípsilon de hoje, o Bonifácio de turno refere que os amigos de Lekman dizem das suas canções «isto não aconteceu assim», desconfiando de tanto sofrimento, de tanta, soit disant, ingenuidade sentimental. Eu gosto imenso de Lekman. Da voz, das melodias, dos textos, é isso mesmo: há ali um grau de pureza que desmancha as defesas, que mina a casca. E acho que se devemos investir em algo ‘ingenuamente’ é no sentimento. Se há algo que a experiência humana nos oferece de brinde é sentirmos ingenuamente; é esse sentimento que vai polindo por dentro a nossa redoma. Polir por dentro. Pura seiva dentro da mais dura casca. Mas temos de tratar bem da casca para preservarmos a seiva.
As modernas teorias da neurosentimentologia gostam de compartimentar e catalogar os sentimentos, (ou emoções, como se queira chamar) procurando caminhos, bifurcações, crochets e viadutos na mente. Especulando sobre as estratégias da nanoquímica. O mundo das canções (de Lekman) mostra que existe apenas um sentimento, uma seiva, e eu acrescentaria: o que existem são muitas cascas.