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a talhe de foice

Há muito tempo que o dicionário não ilustrado não falava dos artifícios do amor. Será o amor mais uma conveniência para a espécie, ou mais uma impertinência para o indivíduo? Meia dúzia de entradas (1289 a 1295) sobre as forças ocultas da cabala amorosa.

Apetecer – Estado de espírito comandado secretamente pela vontade, mas que se consegue camuflar bastante bem sob a capa da oportunidade

Querer – Combustível da era da primeira revolução industrial da alma, e que, por deixar muita fuligem, tem vindo a ser substituído com crescente sucesso pelas baterias portáteis do dar-jeito.

Poder – Espécie de instrumento derivado da vontade, não sujeito a qualquer regulamentação, e que permite obter a rentabilidade desejada sem grande empate de capital afectivo.

Convir – Movimento contabilístico da vontade que serve para saldar as contas entre o esforço necessário e o bem-estar suficiente.

Interessar – Mecanismo clássico da vida selvagem que o homem incorporou na sua vida pela via intravenosa e que vai filtrando pela via venenosa

Dar jeito – Energia de fácil acumulação e ainda mais fácil uso, que serve para sustentar movimentos de risco calculado em planos pouco inclinados.

Homo Congressistus

O dicionário não ilustrado volta às lides políticas com o alto patrocínio da sardinha portuguesa. (Com as entradas 1281 a 1288, dando mais um contributo para o espiolhar sociológico da nossa grei)

Pobres de espírito – Mistura de contornos bíblico-rabelaisianos, e que define o espécime do homem da polis que gosta de pensar com a sua cabeça, desde que esta não destoe muito da dos que estão ao seu lado.

Pragmáticos – Designação que acolhe nas mais diversas teorias com a designação de ‘oportunistas’, mas que no fundo caracteriza filosoficamente o tipo de pessoas que prefere a certeza dum lugar à incerteza duma ideia.

Desocupados – Abrange o género de pessoas que tanto podiam estar ali como na feira da Malveira a apalpar melancias. É talvez o grupo sociologicamente mais válido e coerente, e com maior potencial de concentração onírica.

Encalhados – O congresso parece-me um lugar fadado para o engate. E com características que se encaixam tanto no género tímido como no género marialva. Reparemos por um lado na enorme facilidade na escolha de temas sofisticados para desbravar conversas com potencial de intimidade (ex. o penteado voluptuoso de Mª de Belém, a enigmática virilidade de Maria de Lurdes, ou os lábios idilicamente carnudos de António Costa), e por outro lado na imensidão de momentos de pausas simbólicas para as fulminantes trocas de olhares (por exemplo, um suspiro de Almeida Santos, um raciocínio rápido de Jaime Gama, ou mesmo uma descarga neuronal de António José Seguro). E já nem falo de apagões.

Sacristães – Incapazes de viver longe de quem oficia as cerimónias, mas certos de que a migalha é a antecâmara do papo-seco, este tipo realiza nos congressos um dos seus momentos de glória, onde se faz sentir exuberantemente que sem alguidar de plástico não há lava-pés.

Curriculumeiros – Trata-se do vulgar representante do grupo dos ‘esteves’. Eles estiveram lá é a sua máxima vitae. Naquele Março de 2009, no apagão, foram eles que arranjaram o primeiro petromax para que o líder pudesse ligar para a mãe a avisar que afinal ia jantar. O seu currículo é uma lista de peregrinações a momentos de culto, e muitos ainda guardam a primeira pastilha elástica que Soares mascou quando Ramalho Eanes lhe renovou democraticamente a goela e a bilis.

Carentes – A necessidade de qualquer tipo de companhia é uma marca d’água das sociedades modernas. Não se trata aqui nem de engate, nem de solidariedade ideológica, é apenas a simples e discreta companhia. Alguém que olhe para nós com um sorriso que não seja piedade cristã, ou simples cortesia, não, é aquela coisa de estar na mesma sala do Jorge Lacão ou do Narciso Miranda, e ninguém nos mandar uma piada por issso, e até nos acenarem com a cabeça em sinal de comunitária satisfação, e inclusivamente um ou outro aperto de mão cúmplice sem cheirar ostensivamente a coiratos.

Puros – O que nem Abraão, nem Malthus, nem Darwin podiam adivinhar é que Adão tinha duas costelas parideiras e que, enquanto era cometido o pecado original, uma outra moça, que estava noutra zona a apanhar ameixas para fazer compota, se manteve fora da grande queda primodial e deu origem a uma genealogia de homens puros e bons, mas que, por força duma gama de espermatozoides mais escrupulosos e cuidadosos, nunca se reproduziram excessivamente. Estes homens e mulheres simples apenas sentem o seu destino de zelar pelo bem comum, e embrenham-se por toda a sociedade, incluindo congressos e feiras de enchidos do pingo doce, como pequenas luzes de esperança e amor, procurando apenas disseminar uma mensagem de confiança em lideres a quem um dia um anjo apareceu num sonho.

Estar verdadeiramente in

Desde que a adolescência foi descoberta por algum lobotomizador de mioleiras precoces do sec. XIX que o homem moderno tudo tem feito para tentar prolongá-la o mais possível. Fazer prevalecer os valores fundadores da idade de todas as perversões & inocências deverá ser contudo declarado como uma das condições prioritárias de sobrevivência, se não enriquecimento, da espécie, que só ganhará em saltar, abolindo mesmo, essa invenção de psicologistas pirosos chamada de idade madura - essa sim causadora dos maiores recalcamentos do homo hemorroidaliens que são os drops de ilusão revestidos a responsabilidade.

Hoje, o dicionário não ilustrado, nas suas primeiras entradas de 2009, (num estilo mais clássico, entradas 1272 a 1280) resolve dar lustro aos grandes princípios da libertação da espécie.

Insegurança – É a madrinha de todas as personalidades de excepção. Seja no estilo de Jesus na Cruz, no de Hamlet em Elsinore, ou mesmo no de Harry Potter em Hogwarts, apenas a insegurança provou, surpreendentemente, assegurar o carinho dos deuses e as melhores ressurreições. Um ser seguro dos sentimentos dos outros acaba a fazer sermões da montanha em penedos da saudade; e sem pistachios.

Insatisfação – É a mais importante variável científica da História depois do fogo no cu. Assistiu a inventores e a especuladores, ladrões, amantes e pintores. Ser consolado é ser comida posta de lado. E a paciência não há-de prestar nem para morrer.

Indiferença – O verdadeiro trago da vida, aquele que passa do esófago ao cólon deixando o estômago a desejar ser rim. Apenas quem saboreou o fel de ser indiferente a quem ama sabe o que é o amor. Apenas quem lutou contra a indiferença sabe o que é uma adversidade. Apenas sabe o que é a tesão quem já pôs os tomates numa balança e não viu o ponteiro a mexer-se.

Inconstância – Quem não quer apresentar um electroencefalograma de garoupa deve ir sabendo pôr o coração ao pé da boca de vez em quando. O homem estável só serve para passadiço. Mas assim tem forte concorrência das tábuas de madeira e dos certificados de aforro.

Incompreensão – Perceberem-nos é uma maçada. Estarmos rodeados de gente que sabe bem o que sentimos e queremos dizer é como ser esparguete numa bolonhesa: seremos chupadinhos antes do café. A incompreensão é a garantia de que estaremos mais fresquinhos no juízo final do que o céu-da-boca de S. João Baptista na travessa de Salomé.

Injustiça – É a 5ª essência da incompreensão, uma espécie de pleno canónico de incompreensão com martírio. A injustiça é o toque de midas da existência, transforma qualquer vidinha sossegada num permanente cálice sagrado para indiana jones. Sem Herodes não havia presépios.

Insolvência – A eterna dívida é praticamente condição sine qua non para que exista vida inteligente e que coçar não faça crosta. Tirando as anémonas, e os lagartos, só os pés virados para a cova indicam que não se deve nada a ninguém. Quando se saldam as contas, ou, pior, quando se passa à situação de credor, é sinal de que os vermes podem avançar pois a gordura está no ponto certo.

Intranquilidade – Quem opta por viver no rés-do-chão da alma porque tem medo das vertigens vai acabar por achar que o cheiro do esgoto afinal nem é mau de todo. O preço da acalmia de coração é poder apenas navegar perto da costa e, mais dia menos dia, depender dos reboques. A consciência tranquila é coisa de reformados, cujo maior pesadelo é deixarem dissolver a toma diária na sopa de feijão.

Inconveniência – Levar a vida como decoradores de interiores é o vertiginoso drama da maturidade. Fazer o que deve ser feito, sentir o que deve ser sentido, pensar o que deve ser pensado, foder o que deve ser fodido, é esta a cremalheira do bem-estar-bem decadente. Ora Deus não escolheu uma redenção de playstation, escolheu uma cruz de madeira e vinagre nas feridas. Se queremos caber numa vida teremos de saber vivê-la também com uma fralda de fora.

T.P.C.

O mainstream de turno tem sido bastante injusto com a epopeia neomagalhânica do nosso Sócrates. Não só penso que ele esteve bastante bem na divulgação do seu produto, - certo no timing, no tom, e na metonímia - como colocou o mito no ponto de rebuçado, ou seja, com a pitada de ridículo e a pitada de no sense no registo certo, tal como deixou em aberto uma nova revolução lexical que eu hoje pretenderia destacar. Se atentarmos bem em todo o potencial ero-gramatical que o presente do indicativo do verbo 'magalhar' já revela (eu magalho, tu magalhas, ele magalha, nós magalhamos, vós Magalhães, eles magalham) não será de estranhar que o Dicionário não ilustrado – ‘pensando no produto com maior extensão’, nas entradas 1261 a 1271 - agora se debruce sobre a nova terminologia do Portugal pós revolução magalhânica, o verdadeiro copérnico da nossa modernidade léxica.

‘já te magalhava toda’ – expressão de natureza viril que expõe toda a propensão masculina para fazer realçar na mulher as suas propriedades terapêuticas, e inclusive de sensibilidade criativa, metade virginias e metade wolfes, já se sabe.

‘ está aí uma bela magalhandrice’ – frase de alcance variado, mas que pode ser utilizada tanto na introdução de legislação pirata sob a capa do Orçamento de Estado, como em campanhas publicitárias onde, por exemplo, a Soraia Chaves segure um portátil entre as pernas enquanto com uma mão ajeita o fecho eclair ao Ivo Canelas e com a outra o laço ao Nicolau Breyner

‘vou bater um magalho’ – Prática com leves insinuações de índole onanica, mas que pretende referir-se ao registo introspectivo de alguém que julga deter a verdade e o destino, e sobre os quais depois fará fluir a sua verve esponjosa e ejaculativamente.

‘o magalhadinhas’ – Expressão devedora da obra de Aquilino Ribeiro e que pretende definir uma espécie de gadjet que transforma qualquer produto das novas oportunidades num assessor do governo.

‘magalhas-me o juizo’ – Expressão proposta pela ERC para rodapé a introduzir nas peças tele-jornalísticas que tenham mais de 15 segundos a falar dos contentores, do Sousa Tavares e dos estivadores.

‘ide para o magalho’- Opção a introduzir doravante em todos os boletins de voto, quaisquer que sejam as eleições, e que tenha igualmente direito a ser contemplada nas sondagens comentadas por aquele senhor que já foi da UGT e que agora também comenta as fífias do Paulo Bento.

‘passas o tempo na magalhofa’ – Frase a ser utilizada pelos encarregados de educação sempre que os filhos passem horas agarrados ao computador, levando o plano tecnológico a substituir o que outrora, com elevado sucesso, alcançavam as revistas pornográficas escondidas por entre os livros do Júlio Dinis.

‘coçar os magalhos’ – Momento de sublimação da masculinidade como estado contemplativo da natureza, e que já mereceria uma nova nomenclatura, devidamente baseada em processadores de 32 bits e que não coloque as virilhas em carne viva.

‘cada macaco no seu magalho’ – Refere-se esta expressão à moderna técnica da governação política, em que o líder iluminado faz chegar por uaireleçe a todos os seus assessores as linhas gerais, que imediata e sofetuericamente se desdobram em pequenas e bem definidas instruções, que todos devem respeitar meticulosamente para que nada se perca nas suas pobres e limitadas cabecinhas.

‘Estamos metidos numa bela magalhada’ – Com o desgaste semântico que levaram as palavras ‘crise’ e ‘crash’, era necessário reinventar o momentum sem perder o toque trágico-cómico que têm aquelas situações da História onde franceses minorcas casados com modelos sonham ser novos napoleões, ou chernes euro-encartados sonham dominar os tubarões.

O ‘magalho’(como unidade monetária) – Em fase de novas incertezas sobre o valor da moeda poderemos perfeitamente fixar um novo padrão como: o ‘Magalho’. Serviria, por exemplo, de novo indexante para salários mínimos, ( ex: 100 magalhos, e daí um bitoque com ovo nunca poderia exceder 1 magalho, para todos poderem comer diariamente um bitoque e ainda sobejar para um LCD resistente a mijadelas do Chavez) e serviria também de indexante para o serviço de transporte ( e aproveitávamos para achincalhar a espanholada, por exemplo um bilhete de TGV para Madrid só poderia custar 2 magalhos e 50 colombinas, ficando-se igualmente logo a perceber que um Colombo é um cêntimo do Magalho); e etecéteras e tal.

[sem borrões nem rasuras]
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Subprime Neighbourhood


Para desanuviar dos gráficos deixo agora aqui um singelo fluxograma da crise, (que até podia dar inclusive para fazer uma bela tshirt) explicando como, em dois anos, se pode passar de 600 biliões de hipotecas de merda, a carradas de triliões de merda sem hipoteca. No fundo, o graveto do bailout , que hoje não cabe na cova do dente da bolha, há coisa de dois anitos dava e sobejava para comprar e oferecer as casas todas ao pessoal do Bairro do Subprime



(Apanha-se em http://www.thedeal.com/newsweekly/features/chain-of-fools.php)

Como quem não quer a coisa, o dicionário não ilustrado vai fazer uma visita guiada à nouvelle cuisine mais velha do mundo. (entradas 1251 a 1260)

Segmentation – Sofisticada operação que visa chamar os bois pelos nomes sem os ofender muito

Securitizing – Técnica de arrebanhamento que põe as ovelhas a confraternizar com os lobos maus sem dar cavaco ao pastor

Leveraging – Preparação de pezinhos de coentrada sem coentros e nem pezinhos

Asset Backing – Técnica de refogado de passivos concretos que os transforma em activos indefinidos sem precisar de muito tomate

Warehousing – Técnica de camareira especializada que transforma uma confusa dispensa de hospício na sumptuosa sala de jantar dum hotel

Tranching – Clássica técnica da cozinha familiar, em que o fino fatiamento conduz ao melhor rendimento

Collaterizing – Processo pelo qual a minha canjinha fica sempre melhor com a galinha da vizinha

Combining - Movimento artístico que visou dar à gastronomia financeira a mesma dignidade do surrealismo.

Matching – Processo de enriquecimento fluido e progressivo, mas que no final se verifica que estão todos bem borrowedinhos.

Castelling - Método em que, depois de se retirar a gema ao mercado, se ficam a bater as claras até fazer o efeito clássico do farófia asset


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Yahoo

Os momentos de volatilidade, crise & ignorância são os que produzem os melhores gráficos. O mundo, irritado com as derivadas em regime de monótona previsibilidade, revolta-se e quer-se descrito de forma mais criativa, Decartes não passou frio e outras privações pélvicas para desperdiçarmos a sua criatividade com grafiquetas fatelas, tanto mais que, ainda por cima, bastam duas variáveis para se montar uma festa.

Aqui, por exemplo, num gráfico em condições gamado em econompicdata.blogspot.com


mostra-se que quando o famoso índice de volatilidade VIX (CBOE Volatility Index) atingiu valores elevados, quase sempre se seguiram meses de alta valorização.

Ora ele apresenta neste momento um valor record bem acima dos 50 (!) (às 11.00 AM de NY); estamos, pois, num ano Olímpico. Caso para o dicionário não ilustrado se voltar a pronunciar. (entradas 1243 a 1250)

Acaso – Designação físico-filosófica duma merda que ora nos sodomiza ora nos lubrifica

Incerteza – Designação corrente para uma merda genérica que pode justificar perante terceiros uma calinada particular.

Volatilidade – Designação artística para uma merda que nos fode sem dar tempo para aliviar os joelhos

Risco – Designação paneleira para uma merda que, basicamente, nem se sabe se é uma boa merda.

Medo – Designação poética para um rabo que de repente descobre que também é cu

Pânico – Designação jornalística para a situação em que um grupo de cus recentes descobre que não é tão cedo que voltam a ser meros rabos.

Recessão – Designação da ciência económica para a situação em que o número de rabos é inferior a 10% do número de pilas durante dois trimestres seguidos

Crise – Designação académica para os momentos em que os rabinhos já podem descansar que as pilas já estão satisfeitas.

(estará, outra vez, demasiado sintético?)

[actualização]

‘Vocês sabem do que estou a falar’ moments

O Dow Jones, hoje, no mesmo dia em que vai outra vez abaixo dos 10.000, numa hora subiu praticamente 500 pontos.

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Capricho Palavroso e Temático

O mundo dos blongas tem-se divido entre os que procuram as melhores frases para a antecâmara do escatológico crash e os que procuram uma boa fotografia do Paul Newman. No fundo, todos a procurarem as melhores metáforas para o fim do mundo, fazendo desabrochar o lado de manueles pinhos que todos temos dentro de nós. Ora neste enquadramento, Sócrates, engenheiro requalificado em vendedor de informática para o mercado da América Latina , disponibilizou o seu revolucionário programa das ‘Novas Oportunidades’ a todos os Estados Modernos que estejam numa crise vocacional e que queiram reencontrar o seu caminho nestes tempos turbulentos onde até o Blair vive de cobrar almoços.

De forma sintética, o dicionário não ilustrado apresenta o cardápio curricular mais clássico para Estados em redefinição de carreira:

Estado Regulador – geralmente é uma boa carreira para qualquer Estado que tenha alguns estudos, mas que não tenha dinheiro de família para arrancar com um negócio por conta própria

Estado Mediador – Constitui-se como uma boa opção para um Estado que não se importe de trabalhar à comissão, e que esteja disposto a ter a fotografia em folhetos de pára-brisas

Estado Vigilante – Boa carreira para qualquer Estado que não tenha problemas de circulação, e que assim não corra o risco de ganhar varizes enquanto vê os acontecimentos a passar.

Estado Supervisor – Oportunidade interessante para um Estado que tenha boa planta física, mas que precise duma ocupação de natureza intelectual para controlar a sua agressividade.

Estado Protector – Carreira bastante interessante para Estados mais sensíveis e com boas relações ao nível da camada de ozono.

Estado Estabilizador – Nova oportunidade para Estados que, mesmo tendo o motor, a direcção e as rodas na sucata, ainda julgam manter os amortecedores em bom estado.

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Post Estruturado com capital e link garantido, e com rendimento e feeds indexados à taxa de crescimento do PIB na Somália

O conflito entre a bailout e o short selling levam a um regresso tímido do dicionário não ilustrado, com as suas entradas swapadas nos números 3 biliões 1.228 a 3 biliões 1.235 (agora com números abaixo dos 3 bi, ninguém liga nenhuma).

Efeito Dominó – Movimento de registo horizontal que resulta na queda de várias peças, numa sequência envolvente e vistosa, e eventualmente sinuosa, simulando o quanto o mundo tem simultaneamente de tectónico e de lúdico.

Efeito Bolha – Um dos mais clássicos mecanismos de crise que aproveita toda a hidraulicidade da Criação e nos lembra, numa alternativa ginecológica à metáfora da cinza quaresmal, que: duma bolha saímos e numa bolha nos iremos esvair.

Efeito Bola de Neve – Movimento que enfatiza o lado feminino do Planeta, recordando-nos que apesar do recente, e praticamente inquestionável, aquecimento global, nunca saímos da idade do gelo.

Efeito Espiral – É o design industrial aplicado aos grandes movimentos de crise, e permite que um crash possa ser convenientemente preparado, ou seja, se a coisa helicoida para dentro é arranjar um bom ralo, se a coisa helicoida para fora é pôr uma rede à volta. E durante o vaivém podem vender-se bilhetes de montanha russa e acompanhar com farturas.

Efeito Onda – É uma espécie de subprime das crises porque geralmente só apanha quem está à beira mar acampado e a apanhar conquilhas para o jantar; o pessoal informado das marés geralmente já está no restaurante a chupar lagostins e a filmar a rebentação do terraço.

Efeito Borboleta – O mais mítico dos efeitos é hoje relegado para segundo plano pois, nos dias que correm, ainda a borboleta é larva na Nova Zelândia e já o Rui Ramos tem um artigo sobre o tufão da modernidade na penúltima página do Público.
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Efeito Car-jacking – Situação em que um depósito a prazo vai calmamente a entrar no seu período de vencimento e é subitamente abordado por um swap de default que o põe na bagageira dum hedge fund de alta cilindrada

Efeito Beckett – Movimento de cariz visionário que fez Sócrates convencer Chavez a investir maciçamente em manicómios desde que soube que afinal no sistema capitalista não regulam bem.
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Super cola 6

A rejeição amorosa representa para qualquer homem um verdadeiro renascimento. A uns aparecerá decorada como uma exuberante capela sistina, noutros parecerá um ecce homo carregadinho de chagas, mas para todos representará o seu primeiro contacto com o famoso síndrome/processo da ‘Capacidade de Retenção de Mulher’, fenómeno ainda desconhecido na época de Freud, que teve assim de se ficar pelo sensaborão Édipo em formato de complexo - nem sequer havia ainda em supositório; suponho.

A ‘Capacidade de Retenção de Mulher’ é bastante diferente da capacidade de engate, ou de sedução, ou mesmo de mero interessamento erótico conjuntural; a C.R.M, como é designada nos modernos compêndios de psicologia criativa, é um processo de índole carismático-mistico que se dá no âmago da personalidade do homem e que lhe fixa o seu grau de pegajosidade com o género oposto;

Formaram-se assim 6 tipos de homens que ocupam o topo da escala neste critério de permanência da adesividade feminina:

Homens Ventosa – são aqueles espécimes que as mulheres a partir de certa altura são fisicamente incapazes de largar. Eles apenas têm de se encostar um bocadinho, criar uma pequena zona intermédia de vazio e, quando se dá o estalinho, (‘poah’, não se se estão a ver) a mulher fica presa para sempre, seja para abrir as pernas, seja para ficar a segurar no pano da loiça.

Homens Esfoliação – Todas as mulheres precisam em determinados momentos da sua vida de homens que lhes cocem as costas; certos homens adquirem com a prática uma capacidade singular de ir criando dependência dessa ecológica raspagem de costas e a certa altura a mulher já não consegue passar sem aquele anestesiante roçar, principalmente porque pode ir lendo revistas ao mesmo tempo; entre outras coisas, dependendo do grau de lonely-heart que o homem apresente.

Homens Halo – Trata-se daquele grupo de homens dos quais emana um aureola de graça e encanto, um tal de je se sait quoi que separa os gajos a quem elas não ligam um caralho, daqueloutros a quem elas só sonham com eles e o caralho. Na gíria científica troca-se o sítio do agá e acabam por denominar-se os ‘homens do carhalo’.

Homens Aki-Bimby – É um clássico; poucas mulheres resistem em definitivo a um homem que tenha umas mãos prendadas para a bricolage & barbeque. A bricolage & barbeque, aquela capacidade singular de montar umas prateleiras, ajeitar uma torneira que pinga, um estore desenfrestado, ou grelhar um robalo, representa no imaginário feminino moderno aquilo que representavam uns bons caninos para o homem de neantherdal, quando tocava a amanhar a caça ou afiar a lança. Permanentemente irresistíveis desde a idade do bronze.

Homens Bóia – Falamos aqui daquele grupo de homens que dão muito boa serventia às mulheres que precisam de sentir que têm de ser salvas. Elas podem gostar de flutuar, surfar, nem se incomodam de beber o seu pirolito, até apreciam a caça submarina com arpão, mas, at the end of the day, precisam de sentir aquela coisinha molinha onde agarrar e enrolar o bracinho enquanto recuperam a respiração. O homem bóia apresenta ainda como bónus adicional um bom leque de posições de atracagem, pois tanto dá para aquelas moças que se contentam com um mero suporte de mãozinha antes de voltar a mergulhar, como se apresenta muito eficaz para as que exigem um encaixe mais envolvente e demorado. A dependência, essa, está lá garantida e sempre presente.

Homens Querubim – Representam o tipo de homens tão bons, tão bons, tão bons que a mulher fica impossibilitada de os deixar porque julga que Deus nosso Senhor as castigará com pragas de celulite, flacidez e casca de laranja. O homem querubinicamente bom, também chamado de ‘meu tesoiro’, distingue-se do ‘homem-banana’ pelo pormenor religioso: acabam por ter uma taxa de sucesso em afm’s (actos-fornicação-mês) bastante melhor, porque a própria mulher faz equivaler interiormente o acto sexual à indulgência plenária.
Assim meia dúzia só para aliviar

(e matar saudades)

Acto médico – O que está a meio caminho entre o do barbeiro e o da costureira, mas está isento de Iva

Acto sexual – Sublimação mecânica duma pulsão química recalcada entre um sonho biológico e uma livre associação (tomate e alface servidas à parte)

Acto único – Aquele que nem conseguiu ser Constituição nem sai de cima

Acto e potência – Forma como Aristóteles conseguiu sacar um arroz à valenciana quando a mulher só lhe queria dar arroz branco (aqui arroz de Herpilias também dava um trocadilho giro)

Acto cénico – Parte duma dramaturgia que serve para a Beatriz Batarda amaranhar pelas paredes porque o don juan não apareceu e só lhe saem hipólitos sem sal

X-acto – (fodasse, tanto afiei que agora me arrepiei)
Um conflito de territorialidade geralmente leva à necessidade de invenção de diversos espaços com funções de aliviar as pressões, gerir as tensões, potenciar as eventuais oportunidades, atenuar as ameaças e aspergir convenientemente os olhos com areia. Hoje o dicionário não ilustrado dedica-se então a um momento hezbollevax ultra. (entradas 1220 a 1227)

Zonas Tampão – tipo de zona onde as medidas higiénicas superficiais não garantem um serviço limpinho e é necessário actuar com outras em maior profundidade mesmo que estejam presas por um fio.

Zonas Húmidas – zona de potencial e sofisticada nidificação, e por isso especialmente sensível ao uso de repelentes para insectos, fungicidas e outros pesticidas, apesar de servir de encalhe para muitas moscas mortas.

Zonas Protegidas - Zonas de circulação restrita, geralmente apenas ao alcance de pessoal devidamente autorizado e desparasitado; contudo o uso de vedações tem caído em desuso face à actual valorização dos potenciais paisagísticos

Zonas Demarcadas – Zonas destinadas a garantir uma qualidade constante e distintiva ao utilizador do produto, e que permitem separar o trigo do joio, apesar de não eliminarem totalmente a ilusão de que nem tudo no que luz é oiro.

Zonas Francas – Zonas em que com o mínimo esforço se consegue alcançar o máximo desfrute, a superlativa inveja e a exponencial cobiça.

Zona de Transição – Zonas de forte ambiguidade e incerteza que vivem da performance dos compromissos de ocasião, cruzados com as técnicas de movimentação.

Zonas Históricas – Zonas onde houve vida e animação no passado e que agora servem para entreter a imaginação, enriquecer o pessoal dos postais ilustrados e fornecer material didáctico sem medo de estragar nem destruir as provas da pretérita felicidade.

Zona de Caça – São zonas onde a vegetação específica permite a boa alimentação e reprodução das espécies certas e não impedem as vistas ao caçador nem a escapatória à caça.

[Nota de edição: confirmo que não existem repetições numéricas ou de entradas, nem pleonasmos, nem erros ortográficos ou de sintaxe, nem metonímias avulsas ou oxímoros descarados e nem sequer, pasme-se!, caroços de azeitonas. a.]
O mundo tem vindo, e continuará, tudo aponta, a construir-se peri-marxista e airosamente por entre a luta entre contrários, procurando distrair-se do real (ou virtual, é bom deixar todas as hipóteses em aberto) conflito que o homem leva consigo próprio (evitei criteriosa e filosoficamente a palavra ‘alienação’). Hoje o dicionário não ilustrado, vai directo às grandes clivagens que ajudaram o mundo a tornar-se mais telegénico do que a Teresa Guilherme, ou o Goucha ou mesmo as partes baixas do Ricardo Carvalho. (entradas 1211 a 1219)

Indivíduo / Estado – Conflito clássico, no qual radica o entretenimento de muito boa gente desde taxistas a liberais encartados; em regra qualquer indivíduo que se preze diz cobras e lagartos do Estado e qualquer Estado consciencioso faz de pântano para servir de melhor habitat às ditas espécies.

Crítico /artista – Representativo do eterno conflito entre os que não sabem fazer mais nada e os que não têm mais nada para fazer

Mulher /homem – Conflito que se baseia numa demasiada proximidade biológica jamais explicada pelas teorias da evolução, e que, cobardemente, deixaram tudo para resolver pelas teorias do coração.

Patrão / empregado – Fricção fundadora do movimento de capitalização do universo, claramente a alavanca que faltou descobrir a Arquimedes, o estado da natureza esquecido por Aristóteles, o big bang que escapou aos astrónomos.

Pila / preservativo – Mal sabia a serpente que o mundo ainda se iria dividir pelos problemas levantados por uma 2ª pele. Mas nunca saberemos ao certo se o bom ladrão alguma vez terá dito a alguém: «a bolsa ou a vida»; a redenção aqui veio sem parábola e sem legenda.

Comprador / vendedor – O equilíbrio entre a oferta e a procura é, como se sabe, o mesmo que se obtém entre o lixo e a co-incineração: só ganha realmente quem está longe a brincar com as derivadas ou os fees.

Ingleses/ Ricardo – Praticamente com a mesma força que o amor à primeira vista, este conflito é alimentado a creme esfoliante a fazer as vezes da vaselina

Norte/Sul – Desde os tempos em que os neandertales se encontravam com os cromagnons ali na côte d’azur, e não era para fazer sardinhadas, que este conflito anima o imaginário antropológico. O sul jamais se conformará em que o norte seja mais magnético, e o norte invejará sempre um sul mais poético.

Acção/ Pensamento – O sonho comanda a vida e a comichão comanda a mão. O pleno faz-se coçando-nos a dormir.
‘Comecemos por cantar as Musas Helicónicas’ (*)

Esse tal Hesíodo, enquanto andava entretido a pôr as mulheres de Zeus a parir desenfreadamente naquele harém olímpico, mal sabia que, com as Musas, iria definir o paradigma da mulher enquanto gaja, ou seja, enquanto ser que cumpre o seu papel dando cabo da carola a um gajo (também chamada uma tal de ‘alteridade’) , seja ele pastor ou não, mas mantendo-o sempre sob a ilusão de que se está a inspirar. Hoje, Mad’am. , o dicionário não ilustrado, fazendo jus ao seu apelo, (praticamente de mainstream, diga-se) de dar o devido valor aos clássicos, dedica-se (e dedica-lhe) a fazer a verdadeira descodificação das artes geralmente atribuídas a cada uma das nove musas, em aberta concorrência com as sereias homéricas. E sempre se evita aquela coisa desagradável de andar a fazer massagens reflexológicas nos pés. (entradas 1202 a 1210)

Clio – Esta musa representa o estilo de mulher que leva o homem à base das obscuras artes e técnicas da História. Fá-lo crer que o passado existe, que é organizável, verificável, e que ela esteve sempre lá, à espera que ele a conseguisse descobrir no meio das outras todas, como a única que seria capaz de lhe tomar conta da Bastilha.

Euterpe – Esta é a musa que exige ao homem uma constante e afinada Música, e, se o sente muito calado ou monocórdico, pensa logo que está a preparar a pauta para outra. É uma eterna insatisfeita e só se contenta quando vê a clave de sol ali a passar-se do sustenido pró bemol e sem passar pela casa da partida.

Talia – É a musa da Comédia. Ou um gajo a põe a rir e sem precisar de receita, ou então é considerado poeta existencialista e sifilítico, e tem destinado a bricolage como destino mítico.

Melpómene – Musa destinada a homens com predisposição para a Tragédia. Ajusta-se àquele tipo de mulher que apela aos valores limites da masculinidade, e que só depois de bem atraiçoada e com a amante devidamente morta e cortadinha em postas, é que vai pôr a sopa no microondas e lhe dobra as peuguinhas.

Terpsícore – É uma das musas mais ingratas porque exige a Dança como forma de cumprimento dos rituais de sedução e respectivos adornos. Representa o tipo de mulher que aprecia ver o homem a ridicularizar-se no denominado movimento artístico-corporal, e que assim, tal como a fruta na sangria, acabará diluído e a abanar-se em seven-up’s reprimidos e envergonhados.

Erato – Musa correspondente àquela amante à maneira tradicional; exige a Lírica amorosa como prova de dedicação e passa o tempo a ver se a métrica confere com a expectativa criada pela rima. Só se satisfaz com piqueniques no monte Parnaso – e o respectivo enchido ‘parnassão’, claro - e com os mosquitos a zumbirem que nem um fastio de rima leonina.

Polimnia – É a musa que se dedica a influenciar o Paleio do homem que lhe é adjacente. Representa aquelas mulheres que exigem do homem uma constante actualização de temas, estilos e variedade de empolgamentos, (também conhecido como o engate hímnico) sob a eterna ameaça de se vir a tornar possuído pelo síndrome de inábil e desinteressante, e arriscar-se a ser trocado por um atleta de circo sem crises de inspiração.

Urania – Musa da Astronomia, destinada a homens de aparência distraída, mas que, vai-se a ver, andam é sempre à coca com as fases da lua, procurando antecipar as crises premonitórias dum quarto minguante.

Calíope – Musa que tem atribuída a inspiração da Poesia Épica e que fatalmente conduz os homens a terem de lutar por ela num ambiente de concorrência expressa e violenta. Precisa de vencedores, não lhe chegam gajos a quem a virtude caía do céu. Levar feridas para lamber é absolutamente essencial para dar vazão a esta musa cheia de… nada nada.


(*) É assim que começa a 'Teogonia' do Hesíodo, Helicónicas não me parece um nome feliz, mas ele depois limpa-se escrevendo:
...senhoras da grande e divina montanha de Helicon /as que dançam com os seus pés delicados em volta da fonte / de águas violáceas… e por aí adiante.
Hoje o dicionário não ilustrado dedica-se a algumas figuras de estilo da nova corrente literária: ‘textos a armar ao engraçadinho’. Não há gato sem bofe. (entradas 1195 a 1201)

As buchas – Verdadeiras maravilhas da técnica retórica de encher chouriços, costumam dar muito boa serventia em discursos com falta de nexo e excesso de sexo, dão volume, consistência e, em bem aplicadas, nem provocam flatulência.

As ligações improváveis – À falta de capacidade para prender o leitor com o frágil temazinho escolhido, uma das boas alternativas é ir injectando temas completamente inesperados, em cadência certinha, e esperar que a transfusão os misture sem os sobrepor em demasia. A improbabilidade está para o sucesso desta escrita como um universo reduzido para a estatística, ou a paradinha para os penalties.

A exemplificação exaustiva – Para demonstrar farto arcaboiço de fundamentação engraçadinha é essencial saber repescar exemplos engranelados de forma massacrante, impulsiva e variada. Cruzar ciências exactas com superstições, e artistas enfezados com vilões telegénicos (ou vice-versa) é absolutamente determinante. Todo o verdadeiro artista da escrita engraçadinha é forjado no rodriguinho causal e repetitivo com meneios geográficos ou filantrópicos ou bioquímicos ou alergológicos ou arqueológicos ou filosóficos ou oops.

A auto depreciação – É um must estilístico recorrente mas sempre de belo efeito, desde que acompanhado de alguma ânsia de reconhecimento alheio e dumas pitadinhas de negligência relativizante (não sei se esta frase funcionou... - isto é tecnicamente uma bucha). Está para a escrita engraçadinha como o pisca pisca nos reclames das casas de alterne.

O auto elogio – Inesperadamente a par da entrada anterior e patenteando (o esforço que eu ando aqui a fazer para catar sinónimos é da ordem do odisseico) que a escrita engraçadinha é filha legítima da realidade, esta figura estilística reserva inusitadas fontes de atracção. E deriva de características básicas da nossa condição, em que ser sem parecer não vale um caracol, e quem não dá um passo em frente arrisca-se a dar a imagem de que deu um passo atrás.

O exagero ostensivo (e em crescendo de absurdo) – Parece um artifício de escrita banal mas revela-se em todo o seu esplendor na escrita engraçadinha. O pormenor do crescendo é, no entanto, determinante, porque também aqui o climax orgásmico deve ser atingido por cima para não poder ser confundido com caimbras. São permitidas algumas oscilações canónicas, no entanto, sem o exagero em carrossel este tipo de escrita assemelha-se a rezar uma avé maria sem ter as mãozinhas juntas.

A eruditação (de assuntos tidos como banais) – Nos dias que correm há que balizar muito bem as fronteiras entre a escrita engraçadinha e a escrita revisteira; esta fronteira passa pelo relacionamento cirúrgico entre o cânone literário-científico com o cânone da bola ou da culinária, verdadeiramente só ao alcance da escrita engraçadinha. O verdadeiro artista dará sempre a ilusão de ser tão culto, tão culto, que até despreza a cultura, género o Deco a marcar livres como quem marca cantos de mão na anca (é pá, o gajo deixou de saber fazer essa merda, ou quê?)
Temos então no dicionário não ilustrado algumas variáveis dispersas da dimensão do tempo. Serviu-me assim de tema por não ter pachorra para escrever sobre rigorosamente nada, nem sequer para dizer mal, até porque o episódio do dia do cão ainda pôs o pessoal mais vidrinho; desde que está mesmo confirmado que evoluímos daqueles macacos que usavam o polegar dobrado para tirar os burriés ficámos muito peneirentos. (entradas nº 1187 a 1194)


A espera – Momento que combina a heroicidade da compreensão com a ansiedade da ausência. A indústria trouxe o contributo da pastilha elástica, a filosofia tentou o existencialismo pedagógico, mas os alentejanos foram mais felizes com a divulgação da sombra do chaparro.

A contemplação – É uma categoria ora extra-valorizada ora arrogantemente negligenciada, um pouco como os óregãos na comida, que tem a peculiaridade de permitir ao utilizador avaliar e relativizar tanto o usufruto como a posse, e está para a alma como uma letra eternamente em carteira está para o direito comercial.

O preenchimento – O tempo gerido de forma burocratizada é um fenómeno que decorre da mistura explosiva entre noção de finitude com a noção de obrigação. Sermos ultrapassados pelos acontecimentos é o risco de vivermos como peões num porra que parecia uma passadeira mas afinal era uma zebra míope atropelada numa via rápida.

O instante – Maravilha da contra lógica, na qual a parte pode ser maior que o todo, ou o todo não segura a parte, e em que uma parcela de tempo pode fazer com que todo o tempo passado antes e o que se vai passar a seguir já não tenham razão de existir sem ela; é o ponto rebuçado de toda a marmelada. Sem instantes, venham eles adornados de joelhos nus, ou mãos em concha, ou olhos fechados, o tempo é uma mera lengalenga em banho maria.

A partilha – O tempo alavancado tendencialmente de forma masturbatória é meio caminho não só para o desperdício de códigos genéticos como para tendinites de natureza lírico-vasculares. As novas correntes de filosofia-de-acolhimento não o demonstram, mas são infinitamente preferíveis umas coxinhas de coelho à caçadora para dois do que um Platão à perna.

A precipitação – Toda a vertigem deve ser consumida num compromisso entre bungie jumping e o parapente. Face ao ar ascendente e à gravidade só não nos devemos deixar levar pela ilusão de óptica. A melhor lente para o tempo é a que tem a distância focal bem correlacionada com o aperto nos tomates e o fogo no cu.

A suspensão – Característica pouco estudada de momentos com aparência paranormal ou amnésica. Pode oscilar entre o delírio ou o mero shiatsu de miolos, mas trata-se, contudo, de uma das poucas performances da nossa condição onde a ilusão pode fazer frente à realidade (como quem põe requeijão num refogado para fazer parmesão); para recuperarmos bem, basta roubarmos um bocadinho ao sono nessa noite e manter os amigos devidamente bebidos.

A continuidade – Figura obrigatória dentro da análise do tema e está para ele como o duplo mortal com meia pirueta para a ginástica desportiva: médio efeito, média dificuldade, médio contributo para a pontuação, ou seja: feito para distrair o tempo e preparar uma série de mortais árabes culminada com um triplo encarpado. Mas, no fundo, é uma injustiça não lembrar que o que determina a perfeição do tricot não é a qualidade da agulha mas sim o tamanho e a boa ligação da fibras do novelo.
É por todos sabido que Jesus (pelo menos aparentemente) nada escreveu, que aquilo que vem escrito nos evangelhos canónicos foi o que alguns acharam por bem relatar por escrito, (e outros conservar e difundir) num grego arredondado, pelos mais diversos motivos, (excluindo-se aqui talvez a publicação em rubricas de frases da semana e as canções do Roberto Leal) , incluindo o nobre de cativar, que os textos definitivos foram sendo fixados ao longo dos primeiros tempos com as previsíveis hesitações, mas certamente com oração, sobriedade e um cestinho das boas intenções que por vezes até enchem um local que não vem aqui ao caso.

A vida e a figura de Jesus não são algo de definitivo ou fechado, sem que isto queira dizer forçosamente problemático ou controverso, mas antes algo que se coaduna com o simples facto d’Ele ser Deus, e inesperadamente, tão Deus quanto homem - coisa que nem Homero sacou da imaginação entre duas drunfadas à beira mar - e vir dizer para amarmos como Ele nos amou (algo que só sabemos por aproximação) e para ser perfeitos como o Pai Celestial. Se eu ainda pudesse dizer aqui palavrões, diria que isto era uma grande foda, assim digo só que estamos prejudicados por causa da falta de informação. Perfeito homem, sim, esta atravessa agora a ironia de muito boa gente que busca ‘intercourses’ (gostou assim, mme?) e suores e descargas hormonais afins em todas as entrelinhas bíblicas; e, acrescento agora: com a sua sexualidade bem vincada, tendo ido para o deserto mas não querendo lá ficar, e deixando os seus discípulos sem reacção quando, quase no princípio da sua vida pública, falou a sós com a samaritana; sim, um judeu não dirigia palavra a uma mulher sozinha e até esta se espantou com o atrevimento.

Verificaremos então agora alguns dos reais, constitutivos e distintivos elementos da sexualidade masculina, sem o patrocínio de nenhum after-shave, nem de nenhuma marca de produtos para a queda do cabelo, mas retidos da vida de Jesus. Igualmente sem malabarismos, nem analogias demasiado alucinadas, mas sem receio das generalizações abusivas a pedir o ‘vê se te enxergas, meu’, nas entradas do dicionário não ilustrado nºs 1179 a 1186, e ainda sem saber ao certo qual o preço que vou pagar por isto.


(A figura da) mãe – Mesmo antes de Freud ter avisado as hostes, os filhos varões sempre colocaram as mães num pedestral desligado de tudo o resto. Uma mãe pode até ‘ter de ser posta no lugar’, contrariada, enfrentada, quando está em jogo o crescimento e a liberdade, pode chagar-nos o juízo numa qualquer boda de Canã, pode oferecer-nos uma camisola que já nem se usa no Sri Lanka, mas o ‘masculino’ revela-se definitivamente quando uma Mãe, mais que referência, representa para ele uma presença constante, desejada e quase inexplicável na alma, mesmo sem édipos à perna.

(A gestão da) virilidade – O chamado ‘acto viril’ é um conceito ambíguo e perigoso por estar sempre em contacto com as suas deturpações ou com a demasiada abertura das suas expectativas. O que é realmente constitutivo da sexualidade masculina é a noção de que a fragilidade deve ser evitada à exposição pública, e de que para um homem sexualmente convicto (belo conceito) os assuntos estão todos sob controlo. Sejam eles a Redenção de toda a humanidade, seja a porra dos focos de halogéneo no tecto falso.

(O comportamento face ao) ‘pecado feminino’ – A verdadeira sexualidade masculina leva a que qualquer mulher que lhe desabafe um 'pecado da carne' passa logo a ser como uma irmã mais nova que deve ser protegida. O uso do corpo como moeda de troca será sempre visto pelo homem – que não tenha interesses no negócio, claro - como uma oportunidade de demonstrar ao mundo que para ele nem tudo é sexo, nem para o bem nem para o mal. Só o homem relativiza o sexo verdadeiramente, deve ser por também ter pêlos no peito.

(O gosto em ser) acarinhado pelas mulheres – Este é um constituinte clássico da sexualidade masculina; as cenas em Betânia com Maria e Marta ilustram definitivamente o fenómeno: uma gajita gasta o subsídio de natal todinho num frasco de perfume caro e com os seus cabelos faz o que nem Cleópatra com… ó meu Deus eu agora tenho mas é de fazer uma pausa para respirar fundo. Penso que esta passagem dos evangelhos até deve ter levantado alguma celeuma entre as feministas das catacumbas, mas venceu a versão pré Kim Bassinger, até porque depois em Hollywood poderia chegar a não haver verbas para mais efeitos especiais em milagres, e o Ben-Hur já andar a cansar um bocadinho.

(A necessidade de actos de alguma) ‘violência’ – Pode custar a entender, mas a violência, a necessidade de actos bem expressivos e peri-agressivos, como Transfigurações, Ressuscitações, expulsões de demónios, é própria duma afirmação intrinsecamente masculina. Não pretendo descortinar simbolismos eróticos no fenómeno, mas a haver hormona na coisa é a testosterona. Para gerir esta situação e sobreviver, a mulher corrente inventou a água na fervura, o beicinho e as amigas vagamente confidentes, mas a Igreja, esposa mística de Cristo, mais liturgicamente manietada, teve de se render à água benta, ao incenso e às velinhas, tudo elementos de afrodidisismo periclitante, como sabemos.

(O uso da) sedução em parábola – A ideia de que a masculinidade se revela numa natureza mais básica, frontal e directa é uma falácia inventada pelas marcas de anti-celulíticos, implantes mamários e a Inês Pedrosa. O homem é um caçador que rodeia sempre a presa em movimentos pouco óbvios, ameaça que quer uma gazela esguia e acaba por arrefinfar numa zebra rechonchuda, faz-se parecer interessado numa lebre fugidia mas afinal apenas queria passar um bom bocado com uma esquila de pêlo suave. A formulação parabólica da mensagem é a afirmação duma desinibição retórica e está apenas ao alcance do sexo masculino, e é obviamente transferível para todas as suas atitudes, sejam elas mais ou menos físicas. A mulher seduz antes numa ululância de ventre, ou em elipses decorativas diversas, ou com a banda desenhada da Maitena, ou directamente com as pernas à mostra.

(A natureza da) camaradagem masculina – O homem é um ser sexualmente segregativo e discriminativo por natureza: ele há coisas para gajos e há coisas para gajas. Uma comezaina, seja para falar de bola, seja para combinar uma caçada, seja para contar anedotas porcas, seja para decidir uma traição ou uma paixão, para ser uma coisa bem feita, não pode meter gajas. Elas iriam logo bufar tudo às amigas. Jesus jamais faria a última Ceia com mulherio por perto, ia dar merda certinho, e depois lá tinha de começar tudo outra vez com o Moisés a vir de charter pró Egipto, e o Salomão a aguentar mais umas gajas aos berros. Quanto muito trataria, como tratou, de que elas estivessem por perto no momento de mudar o penso ou desinfectar as feridas, pois, lá está, os homens nessa altura teriam bazado todos. De cagaço, claro.

(A gestão do) contacto físico – Fala-se de vez em quando muito de que Jesus tocava e deixava-se tocar; no âmbito seu ministério, nos seus milagres e no etecetera. Ora, definitivamente, só o instinto sexual masculino sabe medir o tempo, a forma e a intensidade do contacto físico; se for apenas para um carinho desinteressado é duma maneira, se for para combinar algo para depois é doutra, e se for o caso de tratar do assunto logo ali será doutra diferente. Jesus estava sempre em cima dessa fronteira do gesto no ponto certo, fosse com a pecadora, fosse com a viúva a quem tinha morrido o filho, fosse junto do ceguinho ou do leproso: juntava o charme à eficiência. Uma mulher, por exemplo, se fizesse um milagre, mais ou menos orgásmico, entusiasmava-se logo e aquilo ainda podia correr o risco de voltar tudo para trás. Já, há atrasado, vi acontecer isto num bacalhau à Zé do Pipo.
Um dos mais prosaicos e simultaneamente misteriosos enunciados da nossa sofisticada condição é o: ‘cá se fazem cá se pagam’. É um conceito de certa forma vazio de moralidade mas prenhe dum equilíbrio ontológico ( e até de síntese fenomenologico-existencialista pelo mesmo preço) e ao certo não sabemos bem a sua origem, apresentando-se repleto duma transversalidade que arrepia: passa pelo amor, pelos negócios, pela família e pelos mais diversos vícios de boca e espinha, e restantes binómios de corpo & alma.
Hoje teremos a companhia da engenharia financeira básica ao serviço da alta mística no regresso do dicionário não ilustrado, a dedicar-se às diversas 'moradas da alma' que, no fundo, vive sitiada num ser em eterno e inexorável pagamento. A blogosfera já tinha direito a este tratado de mística renovadora e alternativa nas entradas 1173 a 1178 , que vão fazer parecer aquela outra excursão do Ulisses uma promoção da Halcon viagens em regime de meia pensão.

(Alma em) dívida – Este conceito está bastante ligado às circunstâncias fundadoras da espécie mas acaba por não ser um tema tão clássico como o incesto, o extermínio de amantes, ou o apalpanço de ninfas. Revela-nos essencialmente o nosso estatuto de animais menos auto-suficientes do universo ( daí a existência duma camufladora racionalidade e da cena da arca de Noé) e só quem não alcança que toda a vida é devida é porque se julga parido por dois fiadores atrás do balcão duma casa de penhores. É um estado da alma iniciático, e dalguma forma recorrente, mas tão imprescindível para a vida interior como a Autoridade da Concorrência será para analisar a potencial OPA da Lusomundo aos campos de milho de Samora Correia.

(Alma em) período de carência – A nossa natureza ficou avessa a despachar os assuntos às primeiras quando se apercebeu que o próprio processo criativo demorou 7 dias e que nem o género feminino saiu na fornada inicial de costelas. Toda a alma precisa dum aquecimento antes de começar a bombar o cashflow purgante e precisa igualmente de ir preparando as suas várias camadas de desgaste, tomando consciência que é no palimpsesto que está a sua sobrevivência e a sua potencialidade. Constatemos neste contexto que mais grave que Édipo ter casado com a mãe seria se, por exemplo, ele não tivesse limpo primeiro o sebo ao pai daquela maneira, preparando o caminho para um regime de prestações adequadamente trágicas. É um estado da alma absolutamente crucial, e pode ser tão determinante para a sua pujança e liberdade como seria para a República a colocação do busto do Afonso Costa ( em gesso marmoreado) como 3º figura do protocolo de Estado ( todo ele também muito carente como se sabe)

(Alma em ) prazo de pagamento – A nossa natureza (aquela mistura mais ou menos explosiva de sistemas nervosos e urinários) vive, como sabemos, duma ilusão de continuidade e duma ansiedade de recomeços ( ou vice-versa conforme o lado para onde tenhamos dormido). Um dos equilíbrios possíveis ao dispor encontra-se na costumeira divisão do tempo. Reparemos a este titulo que a invenção da roda não nos trouxe a descoberta do movimento mas sim a da circularidade. E foi assim que depois do ‘Tirésias’ veio o ‘Mickey’, depois veio o ‘Senhor dos Anéis’, depois veio o ‘Priorado do Sião’, depois virá o romance entre a Morgadinha dos Canaviais e o Apóstolo S. Tiago, e depois Steiner ainda descobrirá que Paulo Coelho afinal era duma linhagem canónica de grandes contadores de fábulas a par de Borges e da astróloga Maia numa sequência inscrita indelevelmente no nosso código genético ( e no da pescadinha de rabo-na-boca). Uma alma nesta fase tem de estar concentrada em todos os sinais exteriores e não pode desperdiçar energias a sonhar com amores impossíveis, ou com massagens esfoliantes e reflexologias diversas, ou com a ansiedade de saber se Freitas do Amaral anda a tomar os comprimidos a horas. No entanto, deverá aproveitar muitos dos mecanismos de escape com que se depare; e convenhamos que, por exemplo, antes uma histeria de registo alienante com o mundial de futebol, do que com uma marca de vaselina.

(Alma com) plafond esgotado – Nenhuma alma vem fornecida com a corda toda. Isso poderia dar azo a situações da família metafórica da erecção permanente e o Criador achou por bem pôr-nos uma rédea controlada. É pois bastante frequente a alma sentir que já deu o que tinha a dar e que o melhor então seria entregar-se ao alzheimer moral, uma espécie de ‘que se foda daqui a pouco já nem me lembro do nome dos sacramentos’. Mas Deus é essencialmente um negociador e jamais deixa uma alma cair na esparrela do desespero se ela se demonstrar ainda com alguma vontade para o negócio ( vidé exemplos como Ribeiro e Castro, Europa em geral, e Penélopes em período fértil). A relação com o divino é também uma gestão de expectativas, com a pequena nuance de que quem fornece a amostra para brincarmos é também o dono do universo. Nesta fase, a alma, refém da estatística do seu comportamento e da sua margem de manobra, o melhor que tem a fazer é treinar as piruetas e rezar para a rede esteja no sítio certo e que lhe achem graça: só assim voltará a ter corda. Depois só tem de lhe dar o uso certo.

(Alma em) mora – A entrada nesta fase por parte da alma pode parecer mais periclitante do que é efectivamente. A alma é inesperadamente um órgão muito bem talhado para a multa, para a coima, para a contra-ordenação, e até para o próprio emolumento. A alma foi pensada para ter de se estar sempre a justificar, para meter os pés pelas mãos de vez em quando, ela é mesmo um órgão político por excelência. No entanto, a alma – e especialmente nesta fase – gosta de se medir insolentemente com os Deuses, fazendo lembrar Agamémnon saído duma telenovela Esquiloniana depois de ter levado uma abada ao sete e meio da Cassandra. A alma tem o gene do atrevimento e é este o momento em que o deve levar a jogo, fazendo ver ao Altíssimo Credor: isto paga-se, mas calminha, que eu também tenho uma palavra a dizer, uma ropinha a secar, um bacalhau a acabar de demolhar, e o Tipo que ressuscitou o Lázaro também fazia as coisinhas lá muito à maneira dele e até chegou a dizer: ‘ainda não chegou a minha hora’. ( mas não chegou foi a dizer ‘eu vou andar por aí’... ora tu queres ver que o Santana...adiante)

(Alma em) valor residual – Sendo o desgaste uma evidência da nossa condição, e face a não sabermos ao certo como é que se nos aplica a fórmula da ‘renda perpétua’, o melhor que podemos garantir a título de consolo estratégico é que a nossa alma poderá valer mais que a mera avaliação decorrente da percepção dos especialistas do mercado. Mas uma alma quando chega à fase em que está obcecada com o seu ‘valor residual’ é porque afinal passou mas foi ao lado duma grande carreira no ‘aluguer operacional’ ( estou a começar a preocupar-me porque se calhar vocês não estão a acompanhar bem isto). Só uma alma de aluguer é que está totalmente dependente do seu valor no final do contrato; a alma que foi um investimento toda a vida chega ao fim mirradinha que nem um Benard da Costa a atribuir prémios de carreira ao Tom Cruise, parecendo que ainda pode dar mais duas voltas ao carrocel sem que tenham de lhe meter moedas e terá sempre uma corte de Antígonas Sofoclianas a lutarem por lhe dar uma sepultura digna.
Atormentam-me os grandes problemas do nosso tempo, os realmente fracturantes; hoje o dicionário não ilustrado vem com o gesso para segurar os conceitos mais galdérios. ( entradas 1162 a 1172 )

O Negacionismo – Género literário que só se afasta do lirismo porque continua limitado por alguns tiques de causalidade. Metodologicamente apresenta vantagens em relação às tradicionais lavagens ao cérebro porque se poupa em detergente e alucinogénios.

O Brokenbackianismo – Quando as malucas saem da gaiola e caem de chofre na pradaria fica demonstrado que já nem a ganga, nem os cavalos, nem as pernas arqueadas dão a garantia de antigamente.

O Escarletejohanssonismo – Registo de estética pré-decadente, que antecipa certamente o aparecimento de novos maneirismos, por forma a reformar este renascimento das gajas labialmente carnudas, sorriso xanaxizado e curvas nabokovizadas.

O Afirmacionismo – Corrente histórico-filosófica que substancia a compatibilização perimetafísica do ‘melhor isto que nada’ com o ‘que tem que ser tem muita força’. Os defensores do ‘antes isto que sermos enrabados’ pertencem a uma dissidência homofóbica.

O nuclearismo – Técnica que se baseia em cozinhar átomos sem lhes fazer primeiro uma vinha de alhos e acaba a valorizar o café sem querer ficar refém das borras.

O goldensharismo – Técnica do regulacionismo que actua no mercado como a cartelização ou publicidade enganosa: é preciso ir primeiro alguém para o hospital com uma intoxicação para que outro alguém se lembre de pôr umas letrinhas pequeninas no rodapé. É o sonho de midas de qualquer capitalista em crise minoritária.

O crítico-literarismo – Actividade de registo circular e psicopático que apenas difere dos carroceis de miúdos porque nela coabitam os coices com as lambidelas ao rabo do cavalo da frente.

O estou-me-a-cagar-para-istismo – Método instrumental da filosofia política, em que a sociedade faz de loja de brinquedos e o indivíduo de elefante. As instituições fazem sempre de caixa registadora.

O Jornalismismo – Movimento pós-psicanalítico que valoriza a livre associação de notícia como forma de gerir a realização do desejo fora do ambiente onírico.

O Sambismo – Corrente política que defende uma democracia representativa em que todos podem saracotear o rabo, mas delegam nalguns o movimento dos pés.

O digest-ionismo – Face à realidade se nos apresentar como a comida num prato raso à cegonha, são por isso abençoados os que no-la descodificam num condensado servido nas jarras cristalinas dos lugares comuns.
O dicionário não ilustrado, para matar saudades e deserotizar um pouco o ambiente vai tratar ‘do voto’. (apesar de já não ser um tema virgem no dicionário, mudo o ângulo de abordagem – isto agora está a soar-me mal…). E faço assim simultaneamente a minha homenagem aos esforçados apologistas de todas as candidaturas, principalmente aqueles que o conseguem fazer sem soltar um mínimo ‘foda-se’ que seja. Entradas 1150 a 1161

Utilidade do voto – Característica que está para o poder democrático como o digestivo no contexto duma refeição lenta e pesada.

Legitimidade do voto – É uma combinação da correspondente ao proxeneta com a correspondente ao cliente

Manipulação do voto - Como não dá para pegar com pinças porque não dá jeito para dobrar e enfiar na urna, acabamos muitas vezes por queimar as mãos

Dispersão do voto – Forma de aproveitar melhor a peneira com que se tapa o sol.

Concentração do voto – Mecanismo que se desencadeia quando se revela a sua faceta feminina. Uma maioria é sempre uma sofisticada sublimação dum W.C.

Oscilação de voto – Tendência mamo-antropomórfica do voto que se atenua com o soutien classicamente bipolarizado.

Orientação de voto – Nostalgia sufrágica do polícia sinaleiro.

Fixação de voto – Efeito laca aplicado ao neurónio, combinado com efeito gel aplicado à paciência. Tudo penteado com o efeito ‘que se lixe’.

Arma do povo – Pensada para poder ser automática mas acabamos por estar sempre a ter de recarregá-la.

Liberdade de voto – Por muito que nos custe é uma prorrogativa exclusiva da esferográfica.

Intenções de voto – Das boas está o abstencionismo cheio

Declaração de voto – Prémio de consolação para quem mesmo com tripla falha uma declaração de amor
My Tony de Matos side of the soul

O Dicionário não ilustrado hoje mostra que só o amor nos salva. Mas pelo sim pelo não eu cá levava bóia. As frases do nosso enamoramento em tantas entradas quantos os dias que o mês já leva. ( 1141 a 1149)

‘Nunca compreenderás o quanto te amo’ – Constatação de registo agnosticizante que revela uma condição de irracionalidade entre a angústia fragilizante e o fascínio pelos carapauzinhos fritos dum dia para o outro

‘Nunca conseguirei dizer o quanto te amo’ – Constatação de registo peri-afásico, que corre o risco de descambar numa gestualidade demasiado exuberante e que geralmente coloca a boca em locais originalmente apenas destinados às mãos e ao Dystron

‘Amar-te-ei até sucumbir’ – Revelação de um amor que apenas é refém da nossa condição biológica, e que vai de lua nova em lua nova olhando para as marés como um surfista quando sonha com aquela onda gigante que lhe daria para impressionar definitivamente as miúdas.

‘Causa-me dor tanto amor’ – Fenómeno verificável nalgumas relações amorosas em que a epidural da paixão foi dada numa zona mais descaída.

‘Não vejo como te possa amar mais, mas todos os dias cresce o meu amor por ti’ – Problema de índole cruzada entre a matemática e a lógica mas que encontra na libertação da escala logarítmica do inconsciente aquilo que parecia poder correr o risco de ovalizar em excesso no contacto com as abcissas da realidade e com o mau hálito.

‘Não me parecia possível um amor assim’ – Quando sentimos o coração balançando entre um fenómeno do Entroncamento e um bungee jumping. Geralmente acaba-se a camomila. Ou então sossegadinhos na cama com a Mila.

‘Este amor é a razão da minha existência’ – Constatação de registo metafísico que combina geralmente muito bem com momentos contemplativos adornados com visa, e com cruzeiros expiatórios em forma de veleiro serpenteando pelas ilhas gregas.

‘Sofrerei sempre por não saber se me amas com a mesma intensidade que eu’ – Típico problema da álgebra contabilística em que o ‘deve’ ao não se mostrar igual ao ‘haver’ teremos sempre uma auditoria à perna. Muitos conseguem ir sobrevivendo com umas ‘reservas’ ligeiras nas contas

‘Amo-te tanto que só te vejo a ti’ – Reflexo do mecanismo eucaliptizante do fenómeno amoroso que transforma tudo o que está à volta do ser amado em areal sem interesse mesmo que se vestisse do brilho ilusório da poeira do meteorito do desejo.