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Gajos com estudos moments

Isto do referendo vale essencialmente pela retórica, pelas piadas excessivas, pelo abuso de metáforas e analogias, pela estética e pela anti-estética. Algumas assim de chofre tiradas daquele blogue que diz que é uma espécie de magazine do sim (sim-referendo.blogspot.com)

«Não a vida como valor supremo, desencarnado, ficção possessiva, ideia enrolada» dum tal de João Sedas Nunes, também conhecido como o Ary dos Santos do ‘sim’

«vivemos numa sociedade de cidadãos, não numa sociedade de embriões» de um tal de João Pinto e Castro, agora evitando a piadola com pinto, parece-me claramente o Guterres do ‘sim’

«Voto SIM porque quero deixar de ter vergonha do meu país» da nossa f., hoje vestida de Miguel Sousa Tavares do ‘sim’

«nunca encontrei um único argumento que me impedisse de achar que se deva começar, primeiro e antes que tudo, por fazer o possível e o impossível para se evitar» dum tal de maradona, também conhecido como o Narciso Miranda do ‘sim’.

«O grande problema do “Não” é que o único salto abrupto do desenvolvimento humano ocorre no momento da fecundação» por um tal de Vasco Barreto, também conhecido como o Vasco Marta Crawford Granja do ‘sim’.

«As formulas são diversas. E, normalmente, muito originais. Mas vão todas dar ao mesmo: justificações para não se alterar uma lei indigna» por um tal de Vasco rato, também conhecido como a condolezza rice do ‘sim’.
O Culpado disto

É José Sócrates. Na presunção de uma capacidade única para ‘fazer o que deve ser feito’ leva o país para um referendo absurdo, tanto nos termos como na oportunidade. E porquê? Porque para esse iluminado a quem o poder caiu nas mãos como um ‘feto resultante duma noite de bebedeira’, a gravidez passou a ser mais um tema como a incineração, ou os aterros sanitários, ou as facturas discriminadas, ou o crédito à habitação, ou o seguro automóvel, ou seja, algo para se resolver limpinho, certinho e mais nada. O ‘direito à vida’, ou o ‘direito da mulher’ serão tratados como mais uns item no direito do consumidor; mas com direito a uma fanfarra referendária que alimenta ‘sim’s’ por respeito e tolerância, e ‘não’s’ por convicção de consciência. Aqui para nós, tudo uns belos fodasses.
La couveuse sportif

Podemos reduzir todos os problemas humanos à sua face prática, ou seja, a como encaixá-los da melhor maneira na vidinha, por forma a que não nos façam muitas comichões e nos permitam seguir em frente num caminho mais fácil, mesmo que pisque nas bermas um ‘depois logo se vê’ em cores vivas de casa de alterne. A gravidez, por exemplo, também tem essa face, ou seja: se atrapalha deve haver algumas soluções de aplicação mais fácil que outras. Desmanchá-la é por vezes a tal solução prática mais fácil e mesmo aquela que comporta menores danos face a uma análise de prós e contras ‘práticos’, é a que convive melhor com qualquer dos estilos, desde o lounge lifestyle até ao sportif lifestyle, já sem falar no ai-eu-preocupam-me-as-pessoas lifestyle. E garantir que as soluções mais fáceis sejam aplicadas com a maior limpeza e desempoeiramento é algo que se afigura duma lógica praticamente irrefutável.

O homem tem de conseguir saber viver bem sem valores muito sofisticados, senão seríamos uma espécie de tábuas da lei com pernas. A ‘vida humana’ é um valor muito rebuscado, credo. Não facilita nada as coisas enfiá-lo na nossa equação doméstica. Nem falemos então de ‘pessoa’, ou ‘alma’, e então de ‘finalidade’, que susto, até pode criar fungos no estômago. E, já se sabe, o homem presume-se inocente antes do aparecimento da serpente.

Restrinjamo-nos então às coisas simples: quem tem um poder , uma capacidade, deve exercê-la, quem cá está, está, quem não está, estivesse, só fazem falta os que cá estão ( esta é muito futeboleza, aliás), só os verdadeiramente malandros devem ir para a prisão, e antes o direito duma mulher na mão que o direito de dois fetos a voar.

Passemos agora à economia das aflições. ‘Já bem basta o que não podemos evitar’ é a contrição do momento; David Hume dizia que «um prazer que nos é conhecido afecta-nos mais do que outro, que reconhecemos ser superior, mas cuja natureza nos é totalmente desconhecida» (*), ou seja, subvertendo-o com aprumo, já que algo se vai foder, que seja algo que não nos possa fazer mal de seguida, se temos de viver aflitos ao menos que seja só com a inflação e os impostos, e se possa ir aos saldos e ver a bola com calma, que da condição humana tratamos quando tivermos verba para isso.

No fundo regemo-nos pela mesma lei do galinheiro: se as galinhas estiverem a chocar, a primeira prioridade continua a ser safarem-se da raposa, que o dono do churrasco também não se queixa.

Enquanto não houver provas irrefutáveis de que o árbitro vê tudo acho que devemos levar a vida na desportiva; e bem equipados de preferência.

(*) Tratado da Natureza Humana, Livro II , ‘das paixões’
Gajas inacessíveis moments

Ontem vi pela primeira vez na vida (!) um episódio inteiro da Ally Mc Beal. Ia com a indicação técnica, e remota, de ‘mulher engraçada’. Mas não sei, a minha referência de ‘mulher engraçada’ será sempre a Sandra Bullock. A mulher engraçada tem de ter o chamado ‘funk apeal’, ou seja, uma espécie de ‘sex apeal’ mas que leve a cantar, ou a pensar em qualquer coisa assim medianamente dançável ou mesmo rebolável (não basta ser uma mulher em que se fique a pensar nela tout court); mesmo que eu ache a dança uma manifestação da degradação do mamífero, que fica ali situado entre a borboleta e o beija-flor, consoante o ritmo do abananço de rabiosque. Uma ‘mulher engraçada’ tem de aguentar ouvir connosco os ‘I’m from Barcelona’ sem nós conseguirmos ficar com as mãos quietas, tipo jamiroquais lovers, e passarmos meses sem nos sair essa vertigem ululante da cabeça. Sintetizaria, a título de mensagem prática: toda a mulher deveria gostar de ser uma mulher engraçada, começando pela cintura e caminhando em qualquer dos sentidos.
Maria José Morgado moments

(pessoal: vocês leram bem, repito: leram bem!? as declarações da tal de procuradora geral adjunta??? Topem só: ‘sim porque’ por exemplo…«o aborto ilegal é um negócio que produz dinheiro sujo, que não é tributado”, ou «Estes fenómenos potenciam a corrupção, a venalidade e crimes de enriquecimento ilícito». Volte Cardeal, está perdoado!)

Então por uma corrupção legalzinha e limpinha: Junta-se um dirigente desportivo com as vacinas em dia com um árbitro sem alergias a fungos. Encontram-se num restaurante devidamente vistoriado e aprovado pela ASAE e de caixa registadora com o talãozinho numerado e identificado a servir de factura. O dirigente solicita o NIB ao árbitro que entretanto apresenta o documento aprovado pela câmara que o tinha licenciado para fiscal de linha. O Dirigente pega no cartão multibanco e dirige-se à caixa mais próxima na presença duma carrinha de reboques do ACP que tinha ganho a concessão para o acompanhamento das corrupções na grande Lisboa acima dos 25.000 euros. Efectuada a transferência, o árbitro emitia o respectivo recibo – estava ainda em averiguação se se tratava duma operação sujeita a IVA, ou não – e anotava no caderninho – também modelo da câmara - qual o joguinho a ser devidamente assessorado. A conta do restaurante seria paga em cheque pelo árbitro porque andava a precisar de despesas de representação verdadeiras. O clube prejudicado, por cada golo que visse anulado, poderia deduzir 5% das pretações atrasadas da SSocial, e por cada golo que levasse em fora de jogo tinha direito a abrir uma barraca de farturas na zona das bilheteiras.
The f. ’rendum

Existe um novo desporto nacional (*): acompanhar o que fernanda cancio (com circunflexo – o nome, claro) escreve, e que se encontra também em glória fácil (http://gloriafacil.blogspot.com), sobre o referendo ao ivgorto.

O conteúdo já pouco importa, e, tal como na discussão sobre o futebol, o essencial é ver se os argumentos passam ou não pelo crivo do slow motion. Ou seja, se aquilo tudo dito, mas mais devagarinho, com as câmaras a apanhar todos os ângulos, continua a fazer sentido. Basicamente, tudo me parece um pouco a famosa ‘mão de Vata’ (atenção isto não é trocadilho!!! Estou mesmo a referir-me à famosa mão do lampião Vata) um bailado esbracejante de retórica, crendices e voluntarismo, mas que por vir acompanhado de boa música nos encanta.

Mas eu confesso, gosto daquilo; não a acho tanto um Afonso Costa, como dizia o João Gonçalves do PdP (http://portugaldospequeninos.blogspot.com), mas sim um Ronaldinho Gaúcho da liberalização, (tudo comparações masculinas, que aborrecimento) alguém a quem se perdoam todos os rodriguinhos, todas as bolas que apenas foram feitas para bater no poste e rodar pela nuca, mas, desde que, meu Deus… um sorrizinho, vá, apenas um sorrizinho malandro.

A minha opinião sobre o tema é também irrelevante: votarei ‘não’ porque a Igreja manda; não bufem, trata-se dum mero raciocínio dentro da economia pessoal da salvação; já me são bastantes os pecados mais clássicos da soberba (reparem que não disse luxúria) e afins, e outras desobediências avulsas, que tenho de poupar-me nestas coisas duvidosas e menores, e dalguma forma alheias; o sufrágio é também uma legitimação democrática do egoísmo, devemos votar por nós e não pelos outros porque, regra geral, pelos outros votam eles, isto tirando a ideia - de esquerda - de que nós é que sabemos o que é bom para os outros, claro.

Farei doravante apenas uma análise puramente técnica, serei o Gabriel Alves do ‘não’, e darei o devido ênfase à cobertura dos espaços vazios e às diagonais.

IVG – O Lorosae do género feminino

Libertar o feminino do jugo duma sociedade masculinizada, falocêntrica nos preceitos e nas prioridades. Parece-me lindamente; até agora apenas a pílula, o micro-ondas, os caldos Knorr e os lubrificantes vaginais tinham feito alguma coisa de jeito pela mulher, exige-se que as leis da República acompanhem em conformidade, dado que o busto não evoluiu, e o cardeal está mais sensibilizado para a guerra química. A mulher é um paraíso petrolífero e não pode estar paralisado por ali alatas opressores e egoístas. Passada esta fase, entrando no ‘sim’ do dia seguinte, haverá sempre certamente uma Austrália qualquer para vir tomar conta da mulher, entretanto aliviada por não precisar de, clandestinamente, ir subir as saias para as montanhas.

A cada ovário o seu pilhão

A mulher é uma reserva ecológica. Parecendo claro que já não há mais argumentos nem dados novos do ‘sim’ e ‘não’, já se esgotaram as ideias peregrinas sobre contabilidades de traumas, ansiolíticos, despesas hospitalares, e prerrogativas de zigotos e companhia, a opção de curto prazo é sermos todos uma grande ASAE: a nova ética é a higiene, a comida pode ser uma merda desde que seja tudo feito muito limpinho. Procriar será apenas mais uma opção do big fuck menu, e os molhos devem ser incluídos.

A revolução grelária: o ovário a quem o trabalha

A mulher não é um pasto, não é um espaço de treino para pousios e fertilizações. É sim uma fonte de rendimento, porque, como se sabe, o verdadeiro capital são as pessoas, e tem de ser garantido que se produzem tendencialmente: boas pessoas. A mulher tem essa responsabilidade e esse direito: não é a dona do sacho, mas é ela mexe no tacho.

O tribunal das motivações

Mais importante que uma opinião é, como se sabe, uma motivação. Mais importante que o próprio ‘sim’ é que ele seja motivado pelo ‘respeito’ e não pela ‘pena’. Por exemplo, enquanto um ‘sim’ por respeito vale 10 pontos, um ‘sim’ por pena vale apenas 6, enquanto que um ‘não’ por respeito poderá valer entre 5 a 8, encontrando-se assim uma pequena franja de ‘não’s que poderão ombrear com alguns ‘sim’s que sejam apenas suscitados pela pena. O ‘não’ por ‘pena’ classifica entre 0 a 0,5 , mas até agora só foi encontrado o caso dum leitor do César das Neves que trabalha na sopa dos pobres da almirante reis e que tem medo de ficar sem hipótese de exercer a caridade às sextas em que não tem bridge. O ‘não’ apresenta ainda uma terceira motivação (aparenta ser mais rico em motivações, mas é aparente) que é o ‘não’ porque não, e classifica entre 0,5 a 5 consoante a) o cartaz que mais se identifique; b) argumento de bioética ter menos de 2 anos e não ser dum americano criacionista e evangélico; c) a fotografia de ecografia às 8 semanas já vir com o nº de sócio do sporting. O ‘sim’ de quem já deu graveto para um desmancho com anestesia e tudo (também conhecido por ‘muito boa pessoa’) tem bónus e pode encarrilar para o ‘sim’ dois votos nulos de católicos em crise pascaliana. O tribunal das urnas terá assim de fazer uma contagem ponderada, no fundo apenas uma forma mitigada do método de Hondt, e uma maneira de arranjar mais negócio à Euroexpansão.

Todos estamos de acordo, tomos queremos o melhor para as pessoas, todos sabemos o que é ‘o melhor’, todos sabemos o que é ‘querer’, só não sabemos o que são ‘pessoas’. Rushdie quando escreveu sobre a morte de Raymond Carver ( blaaaarghh) disse: «A sua morte é difícil de aceitar, mas pelo menos ele viveu». É o que se diz duma pessoa, no fundo.

(*) surripiei, corrompendo, uma expressão utilizada pela própria ‘f.’ (a propósito de Ana Gomes)
'Ser liberal como opção quando já palpita um' Estado-nação?

Manifesto pelo ‘sim’ à burocracia

Custa-me ver o país a querer simplificar-se. O Estado deve ser barroco nos procedimentos, maneirista no contacto com os cidadãos, e suprematista na sua autocrítica. O cidadão é um elemento frágil do sistema social e não tem capacidade para se organizar sem um devido enquadramento de formulários, despachos intercalares e deferimentos.

O acompanhamento do cidadão deve ser efectuado em várias sedes, somos todos uma fusão de corpo, direitos, alma e vícios, pelo que nenhum documento deverá ser de única via, só o quadruplicado protege o cidadão atormentado.

O cidadão só deverá ser confrontado com o sufrágio directo em casos de extrema delicadeza, como seja o uso da epidural, da terebintina, ou o teor de calcário na água benta, e de preferência deverão ser aproveitados experientes administrativos já bem rodados e oleados, como a declaração do irs, o selo do carro, ou, no limite, os cartões de boas festas da unicef.

O poder é pela sua essência transitivo e deve ser exercido em puro estado de representatividade. A liberdade do indivíduo deve ser algo adquirido; todos devemos nascer reclusos, doentes e réus, e ter de conquistar o livre arbítrio da cidadania progressivamente, cumprindo os procedimentos predefinidos.

Todo o cidadão tem o direito a ser um número, um dado, e, em sociedades mais desenvolvidas, um ficheiro; todos devemos ter o nosso lugar no google earth e para isso deveria ser fornecido um boné individualizado com o nosso código de barras pessoal no cocuruto. Cidadão que não é controlado, não é eficiente, cidadão que decide sozinho e sem um caminho previamente documentado é oficialmente um perigo para os outros e para si próprio.

O interesse individual não deve ser mais que um registo informático, uma estatística. A sociedade deve ser vista como um presépio e o Estado deve cumprir todas as funções: de n. senhora, s. José, vaquinha e jumento; até a Redenção está intimamente ligada a um recenseamento. Medir deve ser uma obsessão do Estado, ser medidos uma devoção do cidadão.

Só existe uma moral: a do Estado. O indivíduo tem apenas o direito a adquirir excepções; todas devem ser pagas, e preferencialmente com o corpinho para evitar descriminações abusivas e injustas. É o princípio do exceptador-pagador. A gestão da excepção é uma das funções mais elevadas do Estado. Preencher o formulário das excepções deverá ser considerada a obrigação mais nobre e prioritária do cidadão.

As leis deverão ser tendencialmente abolidas. O Estado deve evoluir para poder avaliar de forma automática todos os casos individualmente, agir em conformidade e inapelavelmente. O limite é a discriminação perfeita: o cidadão é sempre um freguês ao balcão.

O cidadão deve sentir o Estado como o próprio coração, mas não deve abusar dos actos de contrição para não aleijar o Magno Músculo. O Estado não se justifica por um desígnio de soberania mas de sim de motorização e estabilidade. O conceito de ´poder’ deve ser apenas usado metaforicamente. Sem o Estado o cidadão é uma mera extremidade mal irrigada. A burocracia é o nosso sistema linfático. Devemos protegê-la e acarinhá-la. Um expediente é uma salvação, um despacho um descanso, uma conformidade uma bênção.

O bem comum não existe. O que existe é uma fórmula mágica para vivermos juntinhos. O Estado é a primitiva dessa equação. Saibamos ser variáveis solícitas, e corresponder sempre aos insondáveis desígnios do cálculo burocrático : Todos pelo Estado, todos pela burocracia, chupem todos os dias um rebuçado juntos e nunca mais terão azia. Nem mais um euro para os hospitais do individualismo, quando já palpita um estado que toma conta de nós. Simplificar é tornar-nos insignificantes.

Se quisermos desaguar umas águas pluviais teremos de conceder direitos de excesso de velocidade, se queremos um aborto às 10 semanas e meia teremos de ceder os direitos de abater dois sobreiros, se quisermos construir sobre estacas em cima do mar da palha teremos de deixar enterrar a avozinha no aterro do Piódão, se quisermos comer uns jaquinzinhos fritos, teremos de disponibilizar os direitos de tocar acordeão no poliban a partir da meia noite. E por aí adiante. A equidade e a justiça são algo para se viver nestas pequenas coisas. Um formulário, uma repartição, um despacho, uma concessão. O indivíduo serve para atrapalhar, é a sua razão de existir.
We are our own parables

Com o mar português a balançar os seus sentimentos entre uma despenalização próxima e uma pena capital longínqua parecemos a tripulação duma traineira que não sabe se haverá de congelar se de amanhar logo o peixinho. Conhecendo apenas o que é a vida por apalpação e o que é a morte por exclusão de partes vivemos reféns duma cultura de informação e de menorização de danos. Ou seja : de sobrevivência, apesar de sermos uma espécie de aparência tendencialmente autodestruidora (inconsciente e pulsionarmente?); haja algum cabrão que explique isto sem ser à base de lapsus. Já fui tentado várias vezes a pensar que Deus não existia, mas o meu corpo expeliu mais rapidamente a ideia do que a própria mente; formigueiro nas extremidades, algum atordoamento, nem deu tempo para me mijar pelas pernas abaixo, nem para aprofundar a ideia em condições mínimas, estou por isso também refém daquele cagaço mitológico da falta de sentido; se isto tudo não tem um sentido até poderia ser filho bastardo do capitão hook e enrabador de peter pans. Foi um desabafo. Pouco convincente. O que eu penso realmente é que temos de ir levando isto com calma mas sem poupar nos lubrificantes. Saber passar ao lado da merda deixando claro que não fomos nós, se for o caso de a pisarmos deixar claro que estávamos distraídos a pensar no bem da humanidade, e saber ser dos primeiros a levantar o queixo quando o aroma começar a aflorar. Acabei de me sentir mal com o que escrevi. É uma sensação boa saber que nos custa qualquercoizinha ser execrável. Mas quantas vezes não nos sentimos reconfortados com claras manifestações de ódio, quantas vezes não nos sentimos consolados com um raciocínio não importa a que resultado chegámos, quantas vezes não nos satisfazemos por chegar onde queríamos esquecendo-nos do como, quantas vezes não percebemos nada de nada mas precisamos de ter as tais extremidades com toda a sua capacidade sensorial, de demonstrar que somos pessoas de bem, e de que sabemos separar o trigo do joio que nem sofisticados centrifugadores éticos. Teremos todos direito a uma banca de monopólio privada de fins e meios, para gerir parcimoniosamente? Teremos todos direito a uma parábola só para nós? Tenho aquela impressão que Deus muitas vezes pensou desanimado: eu dei o meu melhor… mas depois algum anjo mais atrevido com cara de jack nickolson lhe terá sussurrado: é pá, olha lá, isto não é nenhuma retrosaria, hem. Mas a minha parábola particular é a da costureira: o tamanho certo da bainha depende mais do aperto da cintura do que da altura das pernas.
E agora umas farturinhas Macias, Estaladiças e Coradinhas

Leio numa – boa - entrevista, que já tem uns dias, do Miguel Esteves Cardoso: ‘a arte está em tu abusares enquanto podes’.

Mas isto é tão errado. A arte está em: nunca abusar, mas pensando que se está a passar para lá de todos os limites; o homem nunca saberá aquilo que pode; o homem feliz é o que vive para lá do uso e do abuso, é o que vive iluso, o que funde a ilusão com o uso. Pode parecer um platonismo de vão de escada, mas é o tirinho da sorte. Coitados dos que viveram para esticar os limites, e se esqueceram que no centro é que se pode gozar verdadeiramente o movimento do carrocel.
Então e ninguém manda os gatos fedorentos para o caralho

Deu-me para escrever um post. Estava indeciso entre mais um da série ‘do cristianismo’, ou em mandar os gatos fedorentos para o caralho. Decidi-me, como se pode antever pelo titulo, pelo último tema. No fundo é apenas trocar a hermenêutica pela escatologia. A esta escolha não será alheio um sentimento que vai na cabeça de qualquer sportinguista que se preze: foram aqueles cabrões que, ao se porem a fazer chalaças apaneleiradas com o nosso Paulinho Bento, foderam a campanha vitoriosa que a lagartada vinha fazendo, secando toda a concorrência, o Custódio, inclusive, até já tinha acertado dois passes. Imagino até a cara dos jogadores quando o nosso Paulo lhes dizia para estarem tranquilos, que haveriam de dar a volta ao resultado, e que o Nuno gomes já andava descontrolado com a franja e que o Assis não snifava desde Fevereiro; certamente só lhes apareceria a correr no rodapé no bolbo raquidiano ( os jogadores do sporting são os únicos que possuem esta parte vegetal do cérebro) a imagem do esticadinho do sr Araújo, a fazer de Ribeirinho com antas.

Basicamente aquele grupo de anunciantes da PT é composto por dois gajos que ninguém sabe o nome, e que fazem de duponts e duponts – um anónimo comparado com eles parece a lili caneças - mais um que é feio e gordo - se for susceptivel pode assumir-se apenas anafado - e lagarto, o que é meio caminho andado para se julgar com piada - há uns anos iria para barbeiro nas avenidas novas- e o já referido sr. Araújo, que acaba por ser o principal responsável pelo descalabro competitivo dos lagartos, e que é uma espécie de jogador do paços de ferreira mas com capachinho. Ele, se fosse homem, ia mas era fazer imitações do Ferraz da Costa, ou do Lobo Xavier, mas não, deu-lhe para minar o balneário do nosso sporting, não encontrou piadas novas para fazer com o ar de sacristão sem hóstias do Fernando Santos, e foi-se meter com um santo rapaz que nunca foi à quadratura do circulo em nada. Ainda te haverá de correr muita água oxigenada pelas madeixas é o meu desejo, e se os lampiões não levarem 3 secos na luz, o melhor é começares a treinar imitações ao embaixador Rito, senão a Mª Morgado faz-te a folha por causa da promiscuidade entre o futebol e a piadolítica. Que deselegância, que falta de chá, e nem dão parecenças ao joaquim monchique, nem nada; de castigo acabarão a fazer imitações de guarda costas em gay parades, ou de bandeirolas no estádio da Luz.
Eu, Portugalina

Conhecemo-nos em Aljubarrota, ele era arqueiro e eu costureira, porque já não havia vagas para padeira. Apaixonei-me pelo seu modo de agarrar as flechas, pelo seu balanço de corpo, fazia de vértice no quadrado, e ao pé do meu guerreiro amado, o nuno alvares mais parecia um escanzelado. Para festejar a vitória fomos comer angulas para sanxenxo - foi tão bonito - mas não havia maneira, estava escrito, ele caiu de beicinhos com a tal padeira. E foi então que ao passar a fronteira, eu não tive outro recurso, afiei a faca, contratei uns descendentes ilegítimos da dona Urraca, e à base de enxertos feitos no momento, mandei a padeira para junto do fermento. E foi assim que fiquei com o meu arqueiro só para mim.

Foram passando os anos e tudo nos corria bem: broa de milho, cabrito no espeto, parimos três damas de honor, um carpinteiro que me saiu preto, um marinheiro, um duende, e enriquecemos com flores de cheiro vindas do oriente. Até que um dia o meu arqueiro, numa viagem a Badajoz, numa curva fria escura, ficou com aquela coisa dura e quase desflorou duas avós. O sacana afeiçoou-se ao dinheiro das velhas e não fosse eu ter herdado um rebanho de ovelhas, que ele não teria voltado aos meus braços, que ainda hoje me doem de tanta força que fiz para o prender; mas ele ainda haveria de sofrer, com aquele feitiozinho dado a tanto foder.

Não foi tarde nem cedo, foi só aparecerem duas amantes à bulha. Uma francesa que tinha bordado a casaca do Napoleão, e uma inglesa, a quem Adam Smith chamava ‘minha riqueza’, e com quem depois brincava às mãos invisíveis. Com elas fazia coisas incríveis até eu me aperceber, melhor seria se eu não tivesse dado cabo do canastro da padeira, ao menos com ela vinha coberto de farinha e eu já sabia, mas agora murmurava, ufano, línguas estranhas, mas já não prestava do cano, de fundos estava parco, e já nem a espinha vinha em condições para vergar o arco. Tive de o deixar e fugir para Sangalhos.

Aí refiz a minha vida. Cozia bainhas e punhos de renda, e apaixonei-me logo por um rapaz que pescava tainhas e fornicava com venda; mas também me saiu uma rica penda: era mestiço, fala esperta, bigode postiço; decidi acalmar até me aparecer uma coisa mais certa. Foi então que conheci um escritor, modos finos, corpo a dar pró tísico, mas letra arredondada, e como escrevia hinos para a guarda assim tinha renda constante. Apaixonei-me num instante; ele chamava-me padeira mas eu não me importava, desde que ele tivesse um forno de lenha e eu casa montada. Era o caso; nunca cheguei a ser musa mas dava-lhe aquela coisa que rima aqui bem, e com a idade começou o vaivém com os dinheiros duma tal comunidade; ele agora apenas escrevia às quartas, fornicávamos às quintas, eu bordava à sextas e, para não parecermos pelintras, pintei umas madeixas.

De vez em quando tinha saudade do arqueiro, daqueles braços robustos, do seu jeito para alisar bustos, mas habituei-me a ser padeira em Sangalhos, pus as hormonas em vinha de alhos, e agora, com uma vida sem glórias, pedi ao meu escritor enfezado que me escrevesse as memórias.
Portugal extemporâneo

O novo imaginário nacional foi fundado quando Braga de Macedo (min. das finanças de Cavaco Silva, para quem não esteja a lembrar-se assim de repente) nos informou que éramos um oásis. Na altura tudo tinha a ver com uma ligeira impressão que Portugal aparentava de contra-ciclo económico mas, de facto, a caracterização estava feita: o quinto império tinha-se transformado num ajardinado sem geadas, e a raça e o sangue lusitano eram servidos como fertilizante na rega genética gota a gota, para que as novas gerações fossem desabrochando que nem pequenos kiwis madurinhos.

A passagem de oásis a pântano fez-se naturalmente num ambiente em que nem houve tempo para fazer arranjos de flores com os nenúfares que andavam a boyar, (atentem na subtileza do ‘y’ pela vossa rica saúde) e, no laguinho resultante, uns escolhiam fazer de patinhos e outros de nadadores salvadores com tanguinha a condizer. Tendo continuado a garantir a sua posição estratégica de jardim à beira mar plantado, solarengo e folgazão, manteve o sadio equilíbrio entre silly seazons e santos populares, o que permitiu ao tal imaginário nacional em desenvolvimento fixar-se no equilíbrio entre um ‘falam falam’ e um ‘é que é já a seguir’ em detrimento dos bolorentos 3 f’s do ancient regime.

De nação que não se percebe como existe, até nação que existe para além do tempo, foi um passo de 10 séculos; o planeta entretanto amornou um pouco, segundo os especialistas de termómetro em riste, o país filipou durante sessenta anos, mas preferiu manter-se casto e lhano em vez de castelhano, uma ou outra espécie extinguiu-se, mas o autarcum portucalis foi criando mutações e tem-se aguentado graças ao processo rotundium sucessivae, sendo no entanto já mais difícil encontrarem-se pescadinhas de rabo na boca, pois o imaginário de país de pescadores deu lugar a um pais de arcas congeladoras em garagens (ultrapassada a fase da marquise).

Hoje, mantendo-se uns a boyar, outros mais em descompressão, e outros a tentar desenvolver guelras para nem sequer precisarem de vir ver o que se passa à superfície, o país volta a suspirar por ser levado por uma rede de arrasto, bem misturado com os lavagantes, onde uma sardinha (em trânsito entre um simplex e uma desova tecnológica) de barbatana mexida, possa ser olhada com carinho, e tanto sirva para conserva, como para se derreter em cima do pãozinho, dependendo da disposição das freguesas habituais da lota.
Pink-Punk

Leio hoje no Público que Sócrates vai criar o seu think- tank no ps e que confiou a sua organização a Santos Silva, o ministro dos cortes em directo - o que até bate certo pois trata-se duma vocação clara de iluminado cruzado a enciclopedista, que é das combinações mais valiosas, como sabemos.

Este think-tank do ps começará por uma 1ª fase de drink-tank que servirá para discernir sobre o papel do socialista moderno, esse novo modelo de reformista social e esclarecido, essa reincarnação de um Kerenski na alma dum Willy Brandt (mas já não houve verba para ter o corpinho do al gore ou gajas como a segolene), e promoverá a construção do chamado homem novo destilado num alambique de valores e princípios dos quais destacaria as previsíveis fraternidade e a igualdade (mas embrulhadas em celofane por causa do bolor) a par do amocha-e-não-estrebucha-que-eu-agora-não-tenho-tempo-para-te-explicar-e-o-jorge coelho-foi-comprar-gravatas-novas, e do clássico ‘o que tem que ser tem muita força’.

Quando o drink-tank passar este seu primeiro momento de adaptação – no fundo o tempo necessário para edite estrela atinar com um penteado definitivo – transformar-se-á em drunk-think aquela fase em que se escolherá o perfil do português médio: cumpridor fiscal, não produtor de coliformes, coincinerante e amante da concorrência. Manuel Pinho nessa altura ficará com os direitos exclusivos para as figuras do menino Jesus das lojas dos chineses e os ministros da cultura serão promovidos a ilustradores de fábulas de La Fontaine, a única actividade cultural que merece ser subsidiada pelo estado, a par das espargatas da Olga Roriz que passarão a ser monumento nacional itinerante.

Esgotada esta fase intermédia passar-se-á ao processo puro de think-drunk que já representa uma recuperação definitiva do imaginário português, o chamado regresso às nossas origens, a preparação da nossa alcoolização progressiva e controlada, a entrega dos fígados à ciência universal, e podermos ser finalmente as grandes iscas da Europa, senão mesmo o patê da Civilização, com o nosso Alberto João a fornecer a especialidade ‘aux herbes’.

Empolgados com esta nova faceta de Miguel Angelos da portugalidade, os socialistas entrariam num estilo mais drink pink, com patrocínio óbvio do Mateus rosé, e que servirá para relançar os valores da universalidade do 5ª império em versão largo do rato; pretende-se que cada português transporte um ser tecnológico e exportador, inovador e de griffe, sexualidade a la carte, mesmo que uns desgraçados tenham de nascer na via rápida para Badajoz, a fim de que uma gajas boas possam abortar em segurança ali na zonas de Picoas, mas repletos de consciência social que, como se sabe, é a única que não sofre de vacas locas dada a sua espongicidade natural.

A etapa final do processo criativo socialista será o think-punk; constatando a impossibilidade de em Portugal se estabelecer um estado previdência baseado no homem novo socialista, irreversivelmente conspurcado que está na origem com os ideais conservadores e salazarentos, e que nunca conseguiu assimilar os liberalismos tetrapack, verificar-se-á que é necessária uma revolução estética nas mentalidades baseada no visionarismo científico, género o ‘povo põe e o socialismo dispõe’, e que o português do futuro decidirá como Mourinho, vestirá como Severiano Teixeira, cantará o fado como Marisa, casará com modelos como o Figo, fará praia no nordeste brasileiro, só lerá autores nomeados para o booker prize, e, claro, sacará boas reformas ao arrogantemente superavitário estado espanhol e nunca mais será o drink-trunk da europa.
Amores imperfeitos e outros jardins suspensos

Na realidade, quando se entra em Dezembro o ano já acabou. Por isso, os balanços devem fazer-se já, sob pena de se confundirem com os manjericos dos santos populares.

Temos então meia dúzia de Blogs especiais por motivos diversos, dos quais destacaria o principal: leio, mas tenho alguma vergonha.

Cocanha – Visito este local de pós-medievalismo light com bastante disponibilidade de alma, mas agora apenas de forma intermitente pois já por duas vezes o meu filho mais novo estava ao pé de mim e lixei-lhe completamente a noite com pesadelos e valha-me Deus já não tenho idade para muitas noites em branco, nem posso passar os fins de semana no jardim zoológico a demonstrar ao puto que aquilo é tudo inventado por meninos que pararam nas fábulas, não passaram para as aventuras dos cinco, nem apalparam as miúdas na catequese nem nada.

Dias felizes (last-tapes) – De todas as vezes que o visitei pura e simplesmente nunca percebi rigorosamente nada; por isso continuo a visitar, não diria religiosamente, mas com uma regularidade agnóstica e como uma devoção particular – deviam distribuir terços aos leitores, é uma sugestão, aquilo acompanha muito bem com umas avé marias - na ânsia de algum dia alcançar qualquer coisinha que iluminasse esta minha existência falha de magia e inebriamento; o próprio Michaux ali sentir-se-ia um cartesiano.

Je maintiendrai – Seduziu-me de imediato por ver imagens a pulular por todo lado, absolutamente desenquadradas e encavalitadas umas nas outras. Autênticas metástases gráficas. Poucos sítios poderiam mostrar o ministro Gago entalado entre o Kaloi k’agatoi e os ovos Fabergé, sem esquecer os textos da ‘Guerra e Paz’ em francês, a língua original de Tolstoi, como se sabe. Combina o maior descalabro estético desde o chapéu de mme Sampaio no casamento de Laeticia, com o maior equívoco cultural desde que Pacheco Pereira começou a comprar livros de poesia em alfarrabista, mas aguenta-se bem a ouvir o ‘Choo Choo’ dos Artic Monkeys.

Da literatura – É basicamente um blog que me irrita desde o dedo mindinho dos pés até à moleirinha. Tem essa virtude que me é impossível de contornar, sucumbo sempre, comecei por tirá-lo dos favoritos, até cheguei a instalar um programa firewall especial para grandes secas disfarçadas de oásis, mas não foi suficiente, valha-me Deus, tenho uma vida tão boa que se não arranjar nada que me complique com os nervos até Deus me iria castigar, sei lá, ainda algum filho me saía… lampião (foda-se, e não é que uma saiu mesmo!). É o verdadeiro blog com sabor a suplementol.

Estado civil – Eu aqui, reconheço, tenho pena nem é de mim nem do Mexia, que até deve gozar o pratinho com aquilo, eu tenho é pena do pessoal que vai ler aquela coisa como quem vai a uma via sacra musicada pelo tom waits; há gente que vai lá à procura dum sentido para a vida, duma fórmula de problematismo científico-lírico, dum existencialismo pop, e não sabe que está a ser gozado, nem desconfia que do lado de lá está um gajo a rir-se, há uma neura abútrica, um hienismo (não confundir com eanismo, também não quero mal ao rapaz) que se alimenta do complexo alheio, e que palitará os dentes com o nosso olhar terno.

A sexta coluna – é um blog que tentou inventar o minimalismo chic sem citar churchill , recorrendo à formula clássica dos 3M’s : miúdas, músicas e merdas. É uma fusão entre um Haiku e um Sousa Lara. Cansa um pouco ao fim de 3 linhas, mas depois sente-se que fica incompleto só com 2, colocando-o naquele ponto certo e ingrato que são as 2 linhas e meia, que, compreende-se, é muito difícil de acertar. Acabo assim por ter pena dele porque há dias em que se sente que ele até podia ter ido lá, mas fica a parecer uma música dos Killers cantada pelo antony & johnsons.
Todos temos um bocadinho de Agustina B. Luis dentro de nós

No público leio que Maria José Nogueira Pinto depois de dizer que Sócrates não tem uma ‘agenda de valores’ (adoro estas expressões, mas ‘homens descascados de ideologias’ também não está nada mal) remata dizendo que o governo nunca lhe ‘pediu para vender a alma’. Ou distraídos, ou inconscientes mesmo; certamente uma consequência dessa negligencia socialista em se fundamentar num conjunto de valores devidamente certificados por anos e anos de bem-fazer ao próximo, filhos do jacobinismo, enteados do materialismo dialéctico e finalmente adoptados como bichos de estimação do capitalismo selvagem. Ora o governo, que tem tanto dinheiro mal gasto, (atrasava-se aí uns quinze dias o plano tecnológico), bem podia deixar-se de arrogâncias e forretices e arranjar algum para comprar a alma de Mizé Nogueira Pinto; não só ganhava uma aforista descomprometida (‘quem exerce um poder moderador tem de o exercer moderadamente’ – género: o verde seco fica sempre bem com o grená), como uma guerreira desinibida, (‘quando é preciso abrir um conflito abro até porque estou mais livre para isso que ninguém’ – é também o lado saca rolhas que nunca viu uma carica) como uma maruja convicta, melvileana até, (‘nunca saí de barco nenhum na vida’, mas que por acaso até entra um pouco em contradição com ‘gosto de laços e detesto nós’, registe-se, mas uma grande alma forja-se nestas pequenas contradições, já se sabe), sem falar do seu lado narciso-mirandico mas em chanel style (‘o grande capital desta cidade são as pessoas e não os edifícios’ - apesar do primeiro ser necessário aos segundos para obter os terceiros, salientaria) e do lado visonário (‘o meu partido tem muita gente’ – já lá vai a geração táxi, claro).

Sócrates, tem ali uma amiga para a vida; é só comprar uma agenda nova com os nomes dos santos.
Quadratura do círculo em directo I

‘Há um programa que separa as águas’ diz o genérico de apresentação. Ora o prémio Moisés do Ano vai para…

Quadratura do círculo em directo II

Lobo Xavier lembrou-se de Jorge Sampaio. (Devem estar a perder share para a RTP memória) Pacheco Pereira hoje não traz gravata. Lobo Xavier está com as mãozinhas como uma professora minha de ciências da natureza no Pedro Nunes e diz que Cavaco tem ‘problemas de tempo e forma’. Drª Maria, cuide-se, vai sobrar para si. Escrevo rápido mas não consigo apanhar estes gajos.

Quadratura do circulo em directo III

Sobre a gravata de Jota Coelho não me pronuncio por causa das buscas aqui ao blog, (se bem que ‘exaustor’ continua líder destacado de temas buscados). JC adianta que Ribeiro e Castro foi mais inteligente que Marques Mendes; Pacheco avisa que está irónico; o cameraman até tremeu. Coelho põe o dedo em riste à Portas, mas como não tem botões de punho não dá o mesmo efeito. Até agora o tema continua irrelevante e a condizer com o proigrama em si. Atenção: Coelho avisa que Santana Lopes fez profecias iguais às de Pacheco Pereira. Não sei se é aquela coisa dos vasos comunicantes.

Quadratura do círculo em directo IV

«O meu lider já percebeu», afirma PP, mas confirma-se estar de manga curta o que fica notoriamente foleiro! ALX aparenta melancolia, e é acusado por PP de ‘o estar sempre a traduzir’ , ora graça moura há só um. O tema continua a ser Cavaco mas eu por acaso acho que o tipo até já foi eleito (ou será que me escapou algo). JC diz que PP lhe cai mal, mas ALX diz que houve entre os dois sorrisos de alguma cumplicidade. Eu cá não m’acredita.

Quadratura do círculo em directo V

PP ficou chocado com uma critica que os PS’s fizeram a Carrilho. (Chocado quer dizer com olhar de choco, note-se) ALX diz que não se pode exigir a Mizé Nogueira Pinto coisas que vão contra os seus (dela) princípios - mas depois não avisou a quem é que se podia pedir isso - e afasta a ‘ciumeira’ como leitmotiv de Mizé; PP diz que os problemas da câmara de Lisboa vêm do tempo de J Soares (que já não era lembrado no programa desde o episódio elevador do Martim Moniz ou do Jonas Savimbi). Atenção, atençããão! ALX acusa PPereira de ter profetizado que Portas voltaria para entrar na estratégia de aproximação do PP ao PS. É inveja das gravatas do gajo, só pode. Mas JCoelho atalha cerce (não confundir com circe) e diz que são precisas é lideranças fortes e que serviu com muito orgulho Guterres (ninguém se riu… deve ser sinal que o cachet já não é o que era). Foda-se já acabou! Nota final: não falaram de Barroso!!!

Um jogo de bola tem de facto muito mais para comentar.

Quadratura do círculo VI (rescaldo)

Em regra estiveram muito bem, chalaceiros inclusivé; o moderador, uma fusão entre o J. M.Teixeira e o padre Borga, acho que bocejou duas vezes e sorriu três, o que o coloca a meio caminho entre uma freira e um espectador do teatro da cornucópia, mas no geral não comprometeu, é uma espécie de Custódio nos dias em que bebe compal light antes dos jogos. Pacheco ganha pontos sem a gravata mas compromete depois com o deficit de punho engomado; julgo ser também evidente que perde credibilidade profética se estiver demasiado penteado, pois o seu lado de Isaías aparece um pouco perdido na ondulação salomónica da sua peculiar correnteza de pensamentos. Lobo e Coelho, com posições invertidas nos votos daquelas que têm na cadeia alimentar, estiveram um pouco em regime de peri-enamoramento, o que poderá indicar uma ida próxima de Coelho ao Rosa e Teixeira, dado que Xavier se tem mantido belmiricamente afastado das tocas do poder. Resumindo, faltou falarem da maquilhagem de Segolène, do TBLSPTVSTUSVPTS, aquela coisa da gramática nova, e do regresso de Barroso ao aquário Vasco da gama. Mas pode-me ter passado alguma coisa, terem falado do passeio dos gajos fardados ou assim, porque o meu filho mais novo não adormeceu à primeira e tive de ir lá afirmar a minha autoridade por três vezes.
Nova encigolbédia do reynanimal em fassiclus menstruais.

Sai próximo das luas novas.

(e foi então esta a forma aligeirada que eu arranjei para contrariar a mais famosa verdade cientifica sobre o comportamento humano: a cruel interferência das traiçoeiras fases da lua)

Hoje serão quatro exemplares da família dos bloguídeos. Espécie caracterizada por cartilagens sensíveis, omnívora, guelra oleada, penugem caduca e amante de calduços na nuca.

As blosgas – animal de escrita quente e despreocupada, gosta de apanhar solinho no lombo mas qualquer fresta lhe serve para se enfiar e refrescar as ideias mais íntimas. Aproveita as superfícies especialmente rugosas para se coçar e desliza bem nas paredes estocadas em tromp d’oeil. Acasala em regime de time-sharing.

Os blogamaliões – animal de escrita pegajosa, com mudanças de tonalidade consoante a correnteza hormonal. Piscam o olho em todas as direcções mas depois acasalam em grupos seleccionados pelo cheiro. A amamentação é servida já com adoçante, contudo não se aconselha mexer muito porque pode coalhar.

As blorbletas – animal de escrita crisalizada, vivem metade do tempo pendurados e outra metade a esvoaçar, mas transportam uma constante nostalgia da fase larvar. Na ponta da curiosidade apresentam um arredondamento que lhes permite distinguirem-se das traças melancólicas, mas revelam-se viciadas em publicidade caleidoscópica. Acasalam pelas regras da feitiçaria e segregam aos pingos.

As blombrigas – animal de escrita visceral e dorida. Contorce-se por táctica e tonteia por destino. Finge serpenteamento onde apenas há uma luta entre a mucosa e a fibra, e reproduz-se por mimetismo. Acasala ao sabor do vento, copula em espasmo fino e gosta de se emular a deuses de porcelana.
Artroses mentais e outros problemas estereotipo-antropológicos

Um estudo publicado na revista Science terá concluído que ‘o desempenho feminino na matemática depende daquilo em que cada mulher acredita sobre predisposições e determinações genéticas ou sociais relativas a esta matéria’ (frase retirada do Público (6ªfª) – eu, desde que inventaram os raios laser, deixei de ler revistas científicas).

Afastando-me das piadinhas que se podiam construir à volta da matemática no feminino (vai-se ganhando um lugar no céu à conta destas pequeninas coisas) vou-me reter apenas neste conceito que é o ‘condicionamento baseado na crença em predisposições e determinações genéticas e sociais’. Dizer que a mulher está especialmente determinada por ‘aquilo que é’ + ‘aquilo que pensa que é’ + ‘o que pensa que os outros pensam que ela é’ dá obviamente uma fórmula de sucesso, apesar de ser duma banalidade confrangedora, e algo recorrente. Se eu me puser a pensar que sou piloto de fórmula 1 e pedir à minha mãezinha que mo repita três vezes seguidas olhando para a fotografia do primeiro banhinho, e além disso for multado a 237 km/hora e me descobrirem uma ligação especial entre a tíbia, o cólon diverticular, o ligamento que tricota a rótula, a espinal medula e o neurónio 5.3, nunca mais ninguém me tirará da cabeça que sou uma vocação perdida das pistas.

Mas, de facto, a mulher parece mais filiada numa corrente de condicionamentos cruzados do que o homem. É nitidamente mais sofisticada a condicionar-se, consegue mesmo transformar uma sequência de limitações numa perpetuação de psicologismos antropológicos. Aplica-se-lhe sem margem para dúvidas o que P. Johnson diz no final do texto sobre Brecht: «veiled her mind cunningly» (a).

O mecanismo da ‘percepção do estereótipo’ é uma espécie de pescadinha de rabo na boca em qualquer análise pois nada melhor que um bom sistema de crenças para tornar a antropologia num sudoku de paradigmas; tanto estudo sobre o feminino só nos servirá para crucificar ainda mais aquela costela rebelde. Eu penso que antes de se fazer mais estudos sobre homens e mulheres deveriam sempre experimentar primeiro com ratos, pois tanto a fêmea como o macho apresentam o bigode sem complexos (ou não?…).

O homem, aquele ser básico e previsível, espécie de bico de Bunsen que se movimenta sobre um tripé simples de esquemas mentais, poder-sexo-cerveja, aparentemente não tem hipóteses de se refugiar nas cordas desse violino do estigma e enrodilha-se na álgebra dos grandes números: quanto menos incompetente melhor, mas, no limite, a partir de certa altura, apenas estar por tudo para que não se perca nada; fixou-se no modelo recolector e daí não saiu. O homem quando é usado para testar a ‘consistência dos estereótipos’ revela-se pois quase sempre mais enfadonho que os ditos. Deixou por isso de ser objecto de estudo ao apresentar um espectro ainda mais reduzido que os menus de bitoque: ou são ‘à casa’ ou são ‘do lombo’.

A mulher, essa sim, é a tal viciada em se deixar condicionar, a sublimação pavloviana, desde o modelo mais Victória Beckamizado quando diz «I love all that benefits my body shape» até à Shakespeariana MacBeth em «when Duncan is asleep (…) is two chamberlains will I with wine and wassail so convince that memory, the warder of the brain, shall be a fume, and the receipt of reason a limberick only»(b) [género, embebedamo-los e limpamo-lhes o sebo como quem pinta as unhas]. Sempre umas queridas a condicionarem-se, essa é que é essa, e sem precisarem de fazer muitas contas. Se calhar lá vou ter de começar a ler outra vez revistas científicas por causa da depilação; a laser, claro.

(a) ‘The Intellectuals – Bertold Brecht: heart of ice’; (b) ‘MacBeth’ acto I, cena 7

E agora, Mme, é só escolher uma fotografiazinha a condizer, ifitsnotamaçade.
Param, scutam e otam, mas o comboio já passou há que tempos.

João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos, remata um post com a frase-trocadilho sobre a esquerda portuguesa, caracterizando-a como ‘persiste sinistra’. Literariamente feliz, mas julgo que acaba por valorizá-la em excesso. A esquerda (primeiro em regime de clandestinidade e depois de pós revolução) produziu, de facto, em Portugal, o único político de eleição depois de Salazar, que foi Soares, (Cunhal daqui a uns anos ficará apenas como um sofrível desenhador a carvão) mas de resto apenas alimenta, na regra, o que foi mantendo colado com cuspo ao longo dos anos: o intelectualismo bafiento (em média sempre mais fraco que a vida intelectual da direita - que evoluiu para mais aberta, mais culta e mais actualizada – e alinhavado numa cozedura arrastada), o tecnocratismo anedótico (sempre a meio caminho entre a incompetência, o almanaque e a flacidez - e nunca focado como o da direita- apenas babando reformas como quem palita os dentes), e o burocratismo verborreico (comprado em promoções nas escolas internacionais que vão rodando ciclicamente a moda socialoide)

Sócrates tenta encher o peito de ar , mecanizar o discurso, (analisou o inenarrável Guterres, o insuportável Vitorino, o amorfo Constâncio, o vazio Coelho, entre outros que pouco contam, e tenta fugir-lhes) mostrar que não é desse campeonato, e que poderá levar o rebanho rosa pelo menos a pastar num atmosfera mais arejada. Julgo que não vai lá. Vestem melhor, lêem autores mais cosmopolitas, sufocam sofrivelmente as asneiras mediáticas, clintonizam e blairizam, mas não dá para alegrarem. Ter como comparação as recentes ‘buchas’ da direita Barroso&Santana apenas chega para enganar a fome. Na média, a esquerda em Portugal não atrai os melhores. Sociologicamente é mais pobre. Mas como o país é Portugal, dá para governar. Persiste sem vista.

(e continuo sem perceber como se põem links nesta coisa…)
Cantinho do desfazedor
Gil a nova mascote da exposição universal do pensamento como referendo de existência

Introdução de leve pendor erudito
É sabido que o homem pode experimentar a tristeza na busca da verdade. Olhar o presente com os olhos do presente pode até fazer o homem sentir o travo da angústia. Nos dias melhores então faz de filósofo, “declinando a inúmeras espécies de pequenez” alheia e alimentando-se de “alibis de inscrição” auto construídos num altar de aparente ‘desenclausuramento’ (é que acabaram-se-me as areias porra).

Reajuste cénico
A maneira mais segura de avaliar um circo é criticar os cães amestrados com base na performance dos palhaços, assim ninguém se escapa à análise, excepto os espectadores que ficaram nas últimas filas e que assim se livram tanto do degradante espectáculo das bostas dos elefantes como de serem acusados do medo de assistir.

Poder & Sexo – buondi style
O tempo em que as elites ajudavam a definir um povo já lá vai. O tempo em que o povo ajudava a definir as elites já lá vai também. Foram-se com o café de saco, o mundo é expresso. Com creme. Quem não vê isso tem medo das novas borras dos tempos. E pensa como quem se masturba porque tem medo de parir.

Tudo ao molho
Uma nação para se perceber tem de se ver como uma mãe beija um filho e como um filho beija a sua mãe (isto por acaso está a soar-me a uma Louçãnada...) e não nas buscas etnográficas das burocracias de turno. Quando escolhe um delirium jaculatorium à falta duma boa foda, acaba por se atracar ( no sentido náutico) nos sempre recorrentes triângulos mágicos da inveja para embelezar a análise. Desconfio de quem pensa e nunca teve de pagar ordenados no fim do mês ( Louçãnada again...) e por isso não sabe distinguir o valor ontológico do medo do valor sociológico da insegurança. Falta-lhes o chamado choque do cagaço. ( é uma espécie de mistura de choque tecnológico e de choque de valores mas embebido em bagaço, o verdadeiro choque útil)

“O mundo de Sofia”
A sociedade não existe; isto é básico; Nietz & Kirk ainda fodem o juízo a muita gente que nem dá conta disso ; básico também. Moral da história: tudo se poderia resumir a gerir complexos e a não alimentar muito uma das maiores falácias do pensamento: a de que o equilíbrio provem do ajuste entre a realidade e a imagem que possuímos dela. Se Marx tivesse conseguido encaixar Deus naquela cangalhada toda hoje já não haveria filósofos e já teríamos descoberto que o complexo de inferioridade dos portugueses é uma artimanha para enganar pensadores patrocinados pelas casas da melhor delicatessen. Com recheio, claro.

Deo Gratias
Abençoado o tal de “nevoeiro entorpecedor da consciência” que provoca a tal “grosseria arrogante” dos portugueses que fala J.Gil ( felizmente a minha filha chegou agora com mais areias e vidago limão) pois será essa que sacará os melhores risos de Deus. Sem medo.