Mostrar mensagens com a etiqueta La vie au Rachat. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta La vie au Rachat. Mostrar todas as mensagens

Liga da Solidariedade

Resultados da 1ª jornada

Sport Lisboa e Bem-fazer - 1  / Companhia Portuguesa da Caridade  - 0

Depois de uma primeira parte muito equilibrada, o S.L.B. soube aproveitar muito bem uma falha da C.P.C. numa distribuição de fanecas fritas com arroz de tomate demasiado apurado e depois segurou a vantagem até ao fim, tendo até desperdiçado uma ocasião soberana de aumentar a vantagem com uma entrega de leite magro no banco alimentar de Elvas mas que acabou por ser substituída à ultima hora por duas toneladas de lingueirão de conserva que não foram aceites por pacheco pereira devido à sua origem religiosa das reservas da quermesse de páscoa da paróquia de benavente.


Desportivo das Sopas - 2 / Cobertores Sport Club - 2


Foi um jogo bastante bem disputado com incerteza constante no resultado. Se o C.S.C. com a sua primeira distribuição de edredons com enchimento de poliester conseguiu adiantar-se no marcador, rapidamente o D.dS. não enjeitou a possibilidade de empatar com uma deliciosa sopa juliana distribuída em tigelas com a imagem de kate middleton em top less no fundo. No arranque da segunda parte, quando parecia até que o DdS. se iria impor sem dificuldades com o seu famoso Creme de Cáritas, o C.S.C surpreende com uma fantástica remessa de cobertores num padrão igual à gravata de lobo xavier. No entanto, já ao cair do pano, uma rodada de caldo verde nas avenidas novas repõe justiça no resultado, já não dando tempo para nenhuma reacção de pacheco pereira que esbracejava junto ao Saldanha apontando para um crucifixo no pescoço do massagista da D.dS . Ainda saltaram do banco umas trouxas com mantas em imitação da burberis mas pouco mais fizeram que justificar o duche, ou melhor, a centrifugação a baixa temperatura.


Racing do Cesto Cheio - 5 / Lokomotiv de Enlatados - 0


Uma verdadeira demonstração de classe por parte do R.dC.C. Desde cedo se percebeu que não iriam facilitar e depois duma primeira cabazada de pêssegos em calda seguida de um fornecimento de shortcake, deixaram o L.dE. praticamente sem reacção palpável. Ainda esboçaram uma situação de perigo quando Pacheco Pereira apareceu com uma palete de sardinha com a inscrição 'este óleo vegetal não serve para utilização em unguentos sacramentais' mas foi sol de pouca dura face ao rolo compressor do R.dC.C. que não desperdiçou nenhuma oportunidade. Mais perdulários se mostrariam na parte final do encontro, quando perdoaram a meia dúzia, num falhanço incrível à boca dum lar de reformados do parlamento em que antónio costa acenava desesperadamente trajando à sans culottes.

Dívida Metódica


Subsídios para uma reestruturação
Primeiro pega-se numa dívida e analisa-se o credor; antes de nos pormos a verificar para que teríamos precisado nós do dinheiro, haverá que escalpelizar porque teria precisado o credor de nos emprestar.
Em segundo lugar haverá que dividir a dívida em várias parcelas: nunca o dinheiro serve para apenas uma coisa, a dívida é como a dor de rins: 1/3 é má postura, 1/3 é deficiente movimento de fluidos e 1/3 é a presença de cálculos agressivos. Por isso, quando nos pedem que paguemos algo, comecemos primeiro por alterar apenas a postura. É péssimo fazer reembolsos de cócoras.
Terceiramente (é o adverbio de modo de estar em terceiro) devemos considerar que antes de chegarmos ao milhão temos de passar pela dezena, depois pela centena, de seguida para o milhar e por aí adiante, e apenas se der tempo analisaremos os seguintes, pois ninguém percebe decentemente o valor de um milhão se não tiver derretido antes uma boa centena de milhar. Ou seja, antes de pagar uma centena que seja devemos pagar primeiro uma ou duas dezenas para ver a reacção. Credor que não saiba valorizar o pouco não é digno de receber o muito.
Por quarto e último, como fez o nosso descartes, a dívida deve ser revista. Uma dívida com o tempo vai-se alterando e quando chega à sua maturidade pode perfeitamente já não estar em perfeitas condições e o credor terá obrigação de nos dar uma nova. Ou seja, a renovação da dívida é uma obrigação do credor, tal como é o senhorio que tem de garantir que a casa está em boas condições de uso para o inquilino.

úlcera no duodécimo


Desde que o homem decidiu que os astros lhe comandariam a vida que dividimos o tempo em anos e os anos em meses. Daí até duodecimarmos a existência foi um pulinho mais curto que aquele que leva a gosma da faringe ao céu da boca. Assim, confrontados com uma marcação de passo que era imposta pela posição da nossa lua face ao nosso sol, quisemos libertar-nos desse espartilho astrológico através daquelas delicatessens cronológicas chamadas décimo terceiro mês e subsídio de férias. Foram épocas em que o homem se pensou um mago do tempo, um esticador de horas, um novo deus do calendário. Foram décadas bonitas, em que espatifávamos uma bastilha em cada seis meses, mesmo sem ser preciso ver a praia debaixo das pedrinhas da calçada. Mas vamos agora voltar ao mísero ano-de-doze-meses, ficando novamente reféns da ditadura da traslação e teremos de pôr a imaginação outra vez a trabalhar para driblarmos o inexorável. Como se não bastasse termos perdido a companhia desses dois duodécimos suplementares, aos quais inclusivamente já tínhamos o próprio corpinho habituado, verificamos que os restantes ficam mais vulneráveis à fiscaloscopia e observamos então que nos enfiarão pelo duodécimo adentro, qual fanáticos da biopsia e do folículo, um tubinho frenético e curioso que não vai descansar enquanto o ano não ficar com onze meses.

Ali Bábá e os quatro-mil-milhões


Quando Gaspar descobriu que na caverna do estado social estavam escondidos quatemimnhões foi a correr contar a Passos.

 - E como é que lá entramos?

 - 'Abre-te selassié', acho que é a senha, e se lá conseguirmos entrar vai ser canja pormos as mãos nos quatemimnhões!

- Achas que não vai estar lá mais ninguém?

- Vamos num dia em que haja manifestações!

Gaspar e Passos esfregavam já as mãos com a imagem de um pote cheio de quatemimnhões quando lhes apareceu Portas a dizer que também queria ter uma palavra a dizer sobre os quatemimnhões.

- Mas tu não sabes qual é a senha! - rematou logo Gaspar.  

-  Sei sissinhora, é: 'Abre-te Lagarde'!

- Não é, Toma! E essa só manda no departamento de bijutaria e marroquinaria e os quatemimnhões são despesas sociais.

- Então vou perguntar ao Bagão Felix e ele diz-me a senha

- Ora, ora, espertinho, a senha já não é a mesma, ehehe, pensas o quê!?

Portas irritado manda chamar Mota Soares.

- Mota, então não eras tu o dono do estado social, porra!? Mandei-te para lá e agora deixaste mudar a senha e perdemos o controlo à coisa!

- Chefe, desde que descobriram que estavam lá os quatemimnhões andam todos fechados em copas e a fazer panelinha com o selassié

- Sabes o número desse gajo?

- Não, ele liga-me sempre dum anónimo

- Cabrão...e agora fazemos o quê?

- Sei lá, olha, para já pomos o puto-almeida a esbracejar e depois logo se vê

Entretanto Gaspar e Passos foram para a porta do estado social e começaram a dizer baixinho:

- Abre-te selassié, abre-te selassié...

E então, num movimento lento e majestoso, as portas blindadas do estado social abrem-se de par em par e eis que um tesoiro exuberante, doirado e resplandecente de subsídios de desemprego e pensões de reforma lhes aparece a tilintar e luzir.

- Meu Deus, tanta riqueza?! Já viste ali aquela pensão de viúva? Linda de morrer!? e aquele subsídio de funeral!? Que jóia...

- Sim, Gaspar, sim, deslumbrante, e olha ali para aquela bolsa de estudo! Parece um pergaminho raro!

- Estava aqui um pote de quatemimnhões e nós nem sabíamos!

- Olha, começa a meter no saco aqueles abonos de familia que estão todos espalhados e ainda podem voar com a corrente de ar

- E cheiram tão bem...são uma autêntica especiaria social

- Não sejas depravado, Gaspar, não é para brincares com isso!

- Ao menos deixa-me ficar só esta noite com uma taxa moderadora, para brincar com ela, vá lá, depois amanhã eu trago

- Sim, mas não digas nada ao Macedo, que o gajo é invejoso, e ainda vai querer meter a unha nos nossos quatemimnhões!

- Nada disso, os quateminhões são nossos! Fomos nós que os descobrimos!

- Sim! Credo, já viste, nem pensar, com os nossos quatemimnhões ninguém brinca...Eu sou o número dois, não sou?...

- Claro, Gaspar, meu rei mago, tu és o meu número dois, pronto.

- E mais ninguém vai saber do nosso segredo, pois não, número um?

- Não, ninguém!

- Nem o Marques Mendes?

- Não...

- Humm...quatemimnhões só para nós e para os nossos modelos escanzelométricos, nham, nham.

Lafayette & Talleyrand


A revolução em Portugal acabou por não conseguir gerar uma mitologia decente e consistente. Se, por um lado, Soares ainda se aproximou do brilho da liturgia aristocratico-revolucionária, dando cores persistentes à primavera politica e construindo em seu torno uma película  lafayettiana de esplendor e espontaneidade, nada de jeito se produziu no outro extremo. Chegados à troikicidade do momento olhamos à nossa volta e não encontramos nenhum grande calculista, nenhum grande e perene manipulador de bastidores. Vários candidatos foram ficando pelo caminho (marcelos, almeidas santos, jaimes gamas, angelos correias, etc) sem deixarem nenhuma marca que não o episódio ou flirt irónico e conspirista. Chegados aqui vemos que a revolução em Portugal não produziu nenhum Grande Cínico, alguém que trouxesse no sangue a dissimulação em estado puro, um reflexivo obsessivo. E que falta nos faz a existência desse pólo agregador de todas as forças da especulação e do genuíno amor aos bastidores e aos cordelinhos. Fosse por incompetência, por excesso de vaidade mediática ou por mera mesquinhez genética, estamos órfãos desse talleyranico poder,  e o país rumina pelos cantos sem descobrir nem redenções nem conspirações que o salvem. Em nos ter falhado o poder mítico dum cavaleiro andante e duma eminência parda estamos confiados a pardos andarilhos de poder. Sempre com o picotado ao pescoço.

aguentómetro


nível 1 -  lembram-se daquele tempo maravilhoso em que se discutia se o couvert devia ser pago em separado?
nível 2 - lembram-se daquele tempo fantástico em que o grande problema do mundo era o racismo na África do sul?
nível 3 - lembram-se daquele tempo em que a salazarenta ponte 25 de abril ficou bloqueada porque os camionistas não queriam pagar o aumento das portagens?
nível 4 - lembram-se daquele tempo maravilhoso em que se era a favor ou contra a invasão do Iraque?
nível 5 - lembram-se daqueles tempos em que evitávamos comer carne de vaca por causa da espongifórmica?
nível 6 - lembram-se daquele tempo em que a principal questão nacional era um problema técnico sobre o novo aeroporto: ou em cima das estacas da Ota ou entre os sobreiros de Alcochete?
nível 7 - lembram-se daquele tempo maravilhoso em que o engenheiro guterres não sabia calcular percentagens do pib?
nível 8 - lembram-se daquele tempo em que o sporting tinha equipa de futebol?
nível 9 - lembram-se daqueles anos luminosos em que cavaco comia bolo rei?
nível 10 - lembram-se quando estávamos de tanga?

salafixologia


Ao contrário do que somos levados a pensar, o epíteto «salazarento» , que alegadamente terá ofendido Gaspar, victor e ministro,  não se deve tanto ao mobilizador ideológico-idiomático 'salazar', mas antes ao sufixo 'ento' que, com o aditivo do 'z' já possuído pelo referido salazar nos conduz directamente a 'cinzento', cor interessante para combinações mais clássicas no vestuário, mas que nos remete para um universo de retrogradismo e bafio. Vejo assim que está ao nosso alcance definir uma nova classificação semântica dos vários salazarixos. Observemos. Se utilizarmos o  'salazarosa' podemos lograr injuriar a preceito alguém que esteja próximo do lobi gay; se quisermos dizer que um politico está com um discurso mortiço e cambaleante poderemos chamar-lhe um 'salazarombi'; se por acaso alguém entrar por um discurso decadente de vaidade e bazófia poderemos utilizar o novel adjectivo 'salazarófia'; se pretendermos desconsiderar alguém e as suas ideias julgo que a utilização de 'salazareco' será de muito bom efeito. Por outro lado, ao nos depararmos com alguém que esteja a misturar tudo, naquela onda de que está tudo ligado e que tudo é igual a tudo, dará muito boa serventia a expressão achocolatada de 'salazarame', e se nos aparecer algum artolas com um estilo de romancista chato e arrastado não ficará mal de todo chamá-lo de 'salazarola', com emílio ou sem emílio. E então, por último, e para ir jantar, se quisermos arranjar uma designação acutilante para o que acabei de escrever, muito bem ficará chamar-lhe um post da salazareta.

a economia da estupidez


Ser estúpido é algo que requer uma utilização criteriosa de amplos recursos. Em geral podem encontrar-se 2 grandes tipos de estupidez: a natural e a elaborada. O primeiro tipo está bastante bem difundido pela espécie e é uma das chaves mestras da nossa sobrevivência a par do polegar pênsil, do uso do fogo, do cartão de crédito e da roda. No entanto, mesmo esse nosso talento inato para colocar a realidade ao serviço das nossas entranhas mais íntimas exige treino e interacção com vários recursos, designadamente o desprezo pelo semelhante e , nos casos mais sofisticados, o desprezo por nós próprios. Deixando um pouco de lado este tipo de estupidez natural, debruçar-me-ei no segundo tipo que chamarei de estupidez-elaborada. Quando se diz, por exemplo: não há limites para a estupidez - é precisamente desta que estamos a falar.

A estupidez elaborada tem, desde logo, um ponto de contacto muito relevante com a natural, trata-se da pose. A pose estúpida é a combinação do talento natural-estúpido com um trabalho artesanal que inclui trejeitos, tiques e fosquices, sem menosprezar esgares diversos. É, no entanto,  objecto de estudo dos fisionomistas-pantomínicos e deixamos para outra ocasião. Situemo-nos agora na observação dos mecanismos mais recorrentes na elaboração da estupidez. Em primeiro lugar temos a fenómeno da 'sobranceria'. O uso da sobranceria deve ser concretizado de forma muito parcimoniosa, não se deve esbanjar sobranceria pois se ela transbordar poderá conduzir a que não sejamos levados a sério. Um verdadeiro estúpido condimenta sempre a sua sobranceria com momentos de comiseração patética. A comiseração patética distingue-se da comiseração lúdica porque implica a maior utilização de trejeitos de lábio e em menor grau os de nariz ou testa (os olhares terão direito a dissertação específica). É talvez um tema demasiado técnico para este documento e podemos passar ao segundo elemento constituinte da estupidez-elaborada, trata-se do convencimento-misterioso. Um estúpido-elaborado apresenta-se sempre senhor de um conhecimento oculto, também conhecido nalguns fóruns técnicos como o graal-de-merda. Este aleph do estúpido deve concentrar um efeito anestesiante nos auditórios que o rodeiam e apenas tem de se ter cuidado com o efeito-fronteira da irritação alérgica. Um estúpido no ponto rebuçado deve sempre causar irritação mas jamais deve permitir que esta vire alergia. A alergia é a grande inimiga do estúpido-elaborado e funciona quase como o mau hálito do padre num confessionário, que, designadamente, pode fomentar pensamentos perturbadores do género do foda-se perdoa-me lá esta merda e afasta o bafo de cima de mim. Por último, e para não nos alongarmos neste estudo que se quer sucinto, - e eu hoje sinto-me sucinto - devemos debruçar-nos sobre o tema do olhar do estúpido-elaborado. Em primeiro lugar há que afastar o risco de confusão com o olhar de peixe, pois nem todo o olhar de peixe está afecto a um estúpido (por vezes é um peixe mesmo) e nem todos os estúpidos têm olhar de peixe. Uma coisa é clara, e todos os trabalhos de campo que efectuei o demonstram, o estúpido deve estar dotado de algum esgazeamento de olhar, algo assim entre a névoa e o alheamento e que vai muito bem juntamente com umas olheiras discretas. Há, contudo, certos patrimónios genéticos que não permitem este tipo de olhar e têm de recorrer a outros mecanismos fisionómicos, como sejam o do carneiro-mal-mortismo que é de bastante mais fácil acesso a qualquer estúpido-em-elaboração. Os olhares com tendência mais inerte poderão ter de se socorrer do plano B que se encontra no esbugalhamento. Este olhar esbugalhado é algo arriscado, e já ouve muitos espécimes que foram encarados como meros curiosos, mas afinal acabaram por funcionar muito bem como estúpidos-cientistas sociais, uma nova sub-espécie em expansão. À laia de conclusão poderemos dizer que a estupidez elaborada dá-se muito bem em ambientes de credulidade assistida, ou seja, em situações históricas nas quais, à falta de catacumbas para nos escondermos duns cabrões em legião, nos refugiamos em pastiches econométricos, o verdadeiro paraíso simbólico do novo-estúpido, fazendo as vezes daquilo que o mercedes já significou para o novo-rico. Não queria no entanto deixar-vos sem uma breve alusão à nova preciosidade da estupidez moderna que é o uso da filosofia política como muleta de estupidez. Com o advento do estúpido-com-estudos veio a tentação de sedimentar a estupidez em algo de semelhante ao que,  no passado, o piolho já tinha representado para o estúpido medieval ou a cabeleira postiça para o estúpido ancien regime. Hoje o estúpido-culto ancora-se numa visão integrada do mundo, vivendo com uma espécie de clister hiper-estruturalista sempre enfiado, camuflado, digamos. Assim, é uma estupidez que resulta muitíssimo bem, sempre fornecida de eficientes retóricas de ocasião, e permitindo o desenvolvimento sustentado de uma das quinta-essências da estupidez-elaborada que é o desdém pelo semelhante, conferindo-lhe aquela auréola de iluminismo requentado de tão belo efeito, e que inclusive vai bem com qualquer tipo de botão-de-punho.

Pussy Diet


De todos os grandes compensadores psico-fisiológicos da humanidade ( álcool, tabaco, velocidade e sexo) apenas o sexo não contribui devidamente para a cobrança fiscal. Por estar muitas vezes associado a actividades proibidas por lei, nalguns casos penalizado pela chamada moral vigente, e em muitas culturas ligado aquilo que geralmente se chama a esfera íntima de cada um, o sexo tem estado arredado da fiscalidade tradicional. Ora, sendo, destes quatro compensadores, aquele que está presente junto de nós há seguramente mais tempo e sendo aquele que, julgo, nos está mais amplamente consolidado, não parece normal que viva arredado dum papel activo de contribuição para a fazenda nacional. A dieta libidinosa a que o nosso orçamento do Estado se tem submetido deverá pois chegar ao fim. Até há alguns anos, a prática sexual , ao contrário dos outros compensadores, não compelia à utilização de nenhum produto, costume esse que com o tempo se foi alterando via o uso e consequente comercialização generalizada dos preservativos. Face à dificuldade da tributação do acto sexual em si, a possibilidade de tributar o produto associado ao acto parece ser o caminho mais razoável (da mesma forma que não se tributa o acto de beber e sim os produtos alcoólicos conexos, não se tributa o acto de fumar mas sim os cigarros ou afins e não se tributa o uso da velocidade mas sim a compra de viaturas e de refinados petrolíferos). Mesmo que a prática sexual possa estar associada a mais produtos para além dos referidos preservativos (toalhetes, motéis, algemas, lingerie ou até vendas para os olhos, entre outros) afigura-se-me pouco plausível que se alcancem resultados fiscais convincentes sem a utilização daqueles como matéria colectável. Assim sendo, dois caminhos se apresentam possíveis: ou a sua comercialização ser totalmente controlada pelo Estado (como acontece com os produtos alcoólicos ou até o tabaco nalguns países), ou a tributação ser exclusivamente efectuada no produto, independentemente dos seus canais de distribuição, com a obrigatória e solene selagem oficial. Na primeira modalidade poderiam utilizar-se as redes de lojas do cidadão, ou dos CTT, ou até a monopolização de novas máquinas dispensadoras a licenciar. Poder-se-ia inclusive conceder alvarás para lojas acreditadas (com a consequente receita adicional) o que até permitiria revitalizar sectores actualmente em esforço como a restauração ou as imobiliárias, constituindo-se assim um apetitoso cluster dos preservativadores, ou , passe o trocadilho neologístico, os novos condomínios. Se esta medida pode causar, à primeira vista, alguma estranheza, convenhamos que é meramente circunstancial, pois, repare-se bem, também não está no núcleo conceptual dos conceitos de beber álcool, fumar ou andar de carro a noção de que são actividades tributáveis, sendo que a colecta a elas associada é absolutamente artificial e só nos está entranhada por mera acostumação. Constataremos até que, neste caso, cada contribuinte sentirá que a sua participação no Orçamento do Estado é algo que lhe está bem junto ao corpo, numa verdadeira fiscalidade de proximidade, como uma segunda pele. Será obviamente natural que esta medida de tributação avulsa, e de alguma forma de emergência, leve a comportamentos de ajuste ou até evasão, quer sejam eles a utilização de alternativas sexuais, quer sejam níveis de abstinência mais elevados que os previstos pelos modelos, quer sejam o mero contrabando ou contrafacção. No entanto, uma coisa é clara, poderá não ser o fim da pica mas seguramente dará algum descanso à crica.

a economia do pensamento


Desaparecidas as ideologias em parte incerta e depois de uns anos à volta de super-estruturas de desenrasca tipo civilização, ocidente, tolerância, ética e outras avulsas da família das convicções, aterrámos na era dos conceitos. Como estamos ainda numa fase embrionária escondemo-nos frequentemente em figuras de estilo de maior ou menor efeito, metáforas de atavio, fazendo apelo a uma imaginação que vive descompensada por falta daquilo que antes lhe dava gás que eram os famosos valores.  Assim, nesta era emergente dos conceitos - à qual ainda nos adaptamos quais netherdales do pensamento abstracto - já tivemos de pôr de lado as grandes motivações e os grandes desafios e estacionámos na berma, junto ao maravilhoso mundo dos possíveis. Começamos, e bem, por baixo. Definimos os novos sofrimentos, as novas decadências e assim pensamos fugir aos cálculos piedosos da miséria e do desespero. De rabo a dar definimos como roubo a falta de jeito e como bomba o apertão, dando assim algum lastro para os conceitos terem espaço para montar a sua tenda. O Capital e a Bíblia, cumprindo o seu ciclo,  voltam a alimentar os mesmos comensais. Quando não se sabe, ensina-se, quando não se sabe ensinar, explica-se, quando não se sabe explicar conceptualiza-se. Vivemos o conceptualismo criativo. Nem está mal visto.

a economia da virtude


Há muito que o consumo tinha substituído a fé como principal motor da actividade e da ilusão humana. O consumo veio acompanhado de conceitos sedutores como a imaginação, a felicidade, o bem-estar, a liberdade, o progresso, e a fé foi ficando mais ligada a corrupção de almas, a liturgias bafientas, a estruturas de opressão emocional, a fanatismo , a irracionalidade e a regressão. Ora nestes tempos em que o processo de moeda ao ar que impregna toda a evolução humana entrou numa fase em que nos é apresentada a outra face temos para nos entreter o confronto semi-titânico entre a austeridade e a temperança. Assim, enquanto a austeridade nos revela os lados negros da privação, da insatisfação, da frustração, a temperança tem o seu tempo de antena para nos indicar o caminho da sobriedade, da paciência e da discrição. A opção para quem se sente fodido e mal pago é empertigar-se casto e ponderado. Se antes era preciso separar o consumo do desperdício, hoje é preciso separar a temperança da miséria.
Antes uma boa perspectiva na mão do que dois realismos mágicos a voar.

Tsunicómio III


A lagartada afunda-se e nós andamos preocupados com a merda do país como virgens néscias. O afundamento leonino é algo que nos devia pôr todos a pensar: há na realidade algo que está por dentro e tudo mina. Não pode ser só incompetência, não pode ser apenas cancro, não pode ser apenas aldrabice, não pode ser apenas azar. Mas também seria abusivo dizer que o Sporting encarna o grande mistério da Impenetrabilidade do Ser, ou seja, meia dúzia de caralhos que não conseguem - há anos! - pôr a jogar outra meia dúzia de caralhos (não se escandalizem com tanto caralho e pensem como as boas gentes do norte que dizem que caralho é virgula) não é o suficiente para definir um problema metafísico. No entanto, algo estará quanticamente no interior daquele cabrão de sistema chamado sporting club de portugal e que compete com o misticismo judeu, a cabeleireira da judite de sousa e até aqueles modelos empíricos do gaspar devidamente benzidos por borges & macedos. Temos excesso de interioridade e excesso de litoral, somos demasiado densos, muita uva e pouca parra, concentramos demasiada energia e precisamos de escapismos seleccionados, mas desgraçadamente as balizas adversárias não têm estado no caminho dos nossos escapes, tal como não foi na praia do bom senso que desembarcaram as derivadas de gaspar. Pensemos estar a ensaiar mais um método de interrupção involuntária da sensatez, e que algo eternamente adiado pode afinal ser apenas um embrião embriagado.

Tsunicómio II


No dia da sua implantação o presidente da dita nem sequer pode sair à rua. Não é bonito e não há busto que disfarce o desconforto que isso devia significar para quem tenha um pingo de sensibilidade e bom senso na pinha. Não se trata de um efeito secundário da hibernação de soberania em que vivemos, é importante que se diga, trata-se duma má ponderação do momento que vive o País. Um presidente que não está próximo do país, mesmo que essa proximidade fosse litúrgica ou fetichista, perdeu a sua função. Já não é símbolo, já não é refúgio, já não é inspiração e muito menos referência, tornou-se um saco de boxe, um desabafador, uma espécie de relvas com estudos. Com a relação entre cidadão e Estado a ficar reduzida e estrangulada numa relação de sacador-contribuinte vêm abaixo todos os pilares duma sociedade que se arrastou nos séculos a tentar eliminar despotismos, prepotências e iniquidades. O presidente eleito duma República  devia dar o peito ao saque e ter consciência que não está ali por nascimento ou golpe de estado, que tem um compromisso de lealdade para com aqueles que aqui nasceram sob pena de, com a sua pose, se tornar num portas de boliqueime. As instituições são importantes quando significam uma organização de poderes e conhecimentos, quando anulam os efeitos duma turba raivosa ou duma facção sinistra, quando fazem a ligação entre cada indivíduo e todos os indivíduos. O Presidente da República Portuguesa não pode ser o Administrador duma Fundação de Senadores. Para ser a salvaguarda dos direitos das pessoas não basta a representatividade, é exigível a comunhão. Ora actualmente a comunhão que se vive nem mística é, resume-se a um solilóqio num qualquer pátio da galé. E cá fora o povo feito ralé.

Tsunicómio


Um dos paradoxos básicos da eficiência é que: o mercado será tanto mais eficiente quanto menor for o nível de eficiência apercebido pelos investidores. Foi como que apostando numa extrapolação teórica deste paradoxo que muitas medidas orçamentais foram sendo tomadas: os contribuintes iriam eficientemente na onda porque não percebiam o que estaria realmente por detrás da coisa. Alguma ignorância era assim uma variável importante do modelo. Mas aparentemente incorporamos um tal nível de ignorância que faz dar a volta aos ponteiros do modelo e demos cabo dele. Nem os paradoxos resistem.

Ó da Guarda


Face às várias espirais e cornucópias do momento (recessiva, depressiva e sodomitiva) o Reino dos Céus teve de reavaliar a sua ancestral estratégia para os Anjos da Guarda. Foi assim devidamente empossada pelos Arcanjos Miguel e Gabriel uma Comissão para a Análise do Papel do Anjo da Guarda Durante o Resgaste e elaborado o respectivo livro branco.
Deste documento irei destacar alguns excertos das conclusões que, dalguma forma, poderão dar uma iluminação a todos nós, designadamente no nosso posicionamento face ao oculto, o desconhecido, e a todos os modelos econométricos em geral, com ou sem projecção arenoso-ocular.

 « (...) Esta Comissão teve o cuidado de escrutinar os conteúdos programáticos vigentes desde as aparições em Fátima, por forma a calibrar o modelo de Anjo da Guarda de Portugal face aos novos dados, quer sejam eles o grau de desprezo pelo transcendente,  quer o nível oscilante de penetração do cagaço cósmico nas consciências mais materialistas, quer mesmo o facto de já não existirem azinheiras suficientes para a quantidade de contribuintes que sonham com a pastorícia mística ou outras (...)

(...) A existência dum único modelo de simulação de Anjos da Guarda para Portugal revela-se ineficiente pois  parece haver uma movimento axífugo nas ânsias mais elementares da alma portuguesa que apresenta uma notória pendularidade entre: vontade de espetar um ferro em brasa pelo cú de todo e qualquer governante e assimilado, ou pura e simplesmente desprezá-los e viver cada um sua vidinha como se nem sequer o medina carreira existisse. (...)

(...) O cluster dos Anjos da Guarda tem vindo a perder peso junto do Grande Senado do Criador em detrimento dos sectores dos Santos Protectores, das Senhoras das Ladeiras, do Imaculado Chip do Tablet, e até inclusive, nos últimos tempos, para a própria Fundação dos Beatos Graxistas (...)

(...) Um Anjo da Guarda em ambiente de austeridade & saque orçamental pode assumir diversas formas de posicionamento: a) neutralidade orçamental: o Anjo não influencia o comportamento fiscal do seu protegido e apenas o ajuda a suportar o fardo da colecta; b) racionalidade orçamental: o Anjo dá indicações ao respectivo penitente para qual catacumba fiscal se deve pirar face a cada imposto específico; c) ilusionismo orçamental: o Anjo com o seu diáfano manto cobre o pecador e garante-lhe uma invisibilidade fiscal de cartola (...)

(...) O Anjo da Guarda de Portugal deve providenciar a adesão ao pecado único. Assim, um português só deve considerar que está em pecado por única falta fiscal, podendo dar-se o cúmulo penitencial logo após a primeira multa de estacionamento não paga (...)

(...) Para que um país como Portugal se possa defender devidamente de: secas, reality shows, coligações politicas em fase de broche assistido, politólogos, rotundas múltiplas e todo um rodízio de Altas Autoridades , o Anjo da Guarda deverá fazer a geminação com um buda em faiança para o que der e vier (...)

(...) Os Anjos da Guarda de todos e quaiquer países deverão ter um representante nos modelos econométricos que estejam a ser utilizados nos respectivos ministérios das finanças e bancos centrais; estes seus avatares estatísticos, para além de terem de apresentar um relatório discriminado por cada movimento brusco que seja detectado nas derivadas das equações, deverão imediatamente provocar um curto circuito nos postos de transformação do ministério (...)

(...) Sempre que estejam a ponto de ser introduzidas medidas parvas, quer por imposição de troikas, de casais de holdings em swing fiscal, ou mesmo de grupos de sueca, quer mesmo por simples imbecilidade endógena, o Anjo da Guarda deve providenciar um fenómeno de natureza tsunâmica que, para além de colocar vários ministros isolados em cima dum telhado de Alfama, de caminho enfie o crespo numa fresta da muralha fernandina ou definitivamente a entrevistar baratas na dispensa do capitólio. (...)»

cinzas à quarta


Ser filho da puta já não é o que era. O tema do insulto já foi tratado por especialistas (Javier Marías, por exemplo, tem dois razoáveis artigos sobre o tema) mas julgo que deverá ser continuamente acompanhado. Como regra geral podemos dizer que o insulto depende mais do contexto que do conteúdo, e como regra particular podemos dizer que ele revela mais sobre o emissor do que sobre o destinatário; como regra entre as duas posso também acrescentar para vosso proveito que a qualidade do insulto é uma fórmula que resulta da soma do inverso da raiz quadrada do alívio que provoca com a tripla potência do remorso que induz. Assim sendo, e considerando que a realidade necessita frequentemente de quem lhe ponha o dedinho na extremidade do colón com precisão e na cadência e rotação certa, julgo ser meu dever alertar toda a comunidade sobre a necessidade de aproveitar as reformas estruturais, ortográficas, mapas judiciários e outros, para acertar o relógio e o higrómetro do impropério nacional. Se assumirmos que o ataque às dívidas soberanas é o elemento chave da crise europeia há que revalorizar uma adaptação do hoje inexpressivo 'cona da tua tia', para um novo 'nos entrefolhos do teu parlamento' que, se repararem, imprime uma dinâmica mais coloquial ao insulto e em paralelo coloca um foco institucional e legalista no discurso, não o deixando sob a alçada dos laços familiares, mais atreitos à corrupção e outros favores ilícitos. A substituição dum vulgar, e inofensivo, 'brochista de merda' por um bem mais apelativo para os mercados 'chupa-me aqui um spread' parece-me então ser de elementar bom senso, e creio que tornaria qualquer agente phinanceiro bastante mais sensível a baixar as calças nas taxa de juro quando não engasgar-se mesmo durante o período de carência. Como também me parece óbvio, um "Coça-m'o default' é mais eficaz nos dias que correm do que o banalizado 'vai-te foder', quanto mais não seja porque estar fodido passou a fazer tão parte da nossa somatologia como o pingo no nariz. Penso, finalmente, ( a palavra chave aqui é o finalmente) que se o cidadão normal vive num estado de dependência total de um refogado de mercados, parlamentos, ministros, instituições, grupos de média e conglomerados de enchido, e se já passámos a fase em que fomos apenas números (que saudades de ser número) e somos agora imparidades, devemos, em substituição do 'merda para isto tudo', responder ao mundo: especula-me que eu gosto.

A minha Pátria é a míngua portuguesa


Depois de ultrapassados com sucesso os stress tests, o governo português encheu o peito de ar e disse que queria também passar nos crash tests. Como seria previsível esborrachámo-nos contra quase todo o tipo de paredes e apenas alcançámos os mínimos contra um pladur produzido em marrocos aproveitando restos de pentelhos de camelo. Face às evidências e à indigência expectável, e em vez de estarmos a vender o país às pinguinhas o governo desistiu da diplomacia económica e deu um mandato de venda de partes do país a Severiano Fernandes, o conhecido Rei dos Pastéis e das Sandes. Tendo feito fortuna a fatiar aglomerados de gordura de porco e a enfiá-los entre duas glamourosas pranchas de cereal fermentado, Severiano convenceu o governo que conseguiria enchouriçar também bocados dos país e vendê-los como lombo fumado de civilização ocidental. A sua primeira operação foi a venda da RENA (rede de esgotos nacional) a um grupo paquistanês com interesses em toda e qualquer merda e que tinham desenvolvido um método revolucionário de reciclagem de preservativos com embalagens de leite condensado produzindo estores e material para telha refractária destinada a bairros sociais no punjab. Esta receita extraordinária não só permitiu uma melhoria na auto-estima nacional, pois cada português sabia agora que cada vez que se sentava a meditar estava também a contribuir para a melhoria das condições dos monhés, como facilitou atestar os depósitos de todos os secretários de estado para um mês e duas viagens ida e volta a Paris para aquela moça de apelido medeiros (sem érre, atenção). Depois deste sucesso sem precedentes Sir Severiano (fora condecorado pela rainha de Inglaterra depois da sua invenção do courato embebido em earl grey) decidiu fazer a colocação no mercado internacional da RENAMA (rede nacional de marquises) o que criou um verdadeiro reboliço nos mercados. A marquise portuguesa tinha alcançado o estatuto de Património Imbecil da Humanidade e estava entre os bens mais cobiçados nas economias emergentes que estavam impedidos de usá-las por força duma patente inteligentemente registada por Severiano quando toda a gente estava distraída com o que ficou conhecido como a grande bolha do pastel de nata, o verdadeiro bolbo de túlipa do séc. XXI. Não foi por isso de estranhar que 40% da RENAMA tivesse sido adquirida pela sociedade gestora do Canal do Panamá, que hoje podemos observar revestido a belos perfis de alumínio com vidro martelado, permitindo assim que ninguém se molhe nos barcos ao passar e provocando de caminho a 2ª ou 3ª ou 4º crise do Suez que agora apenas tem possibilidade de se tapar com lonas ou toldos dos cafés segafredo. Impulsionado de venda em venda, Herr Severiano (entretanto nomeado embaixador mundial do leitão da bairrada, que se tinha passado a chamar Leitão de Sttutgart e que se tornou o símbolo duma 2ª marca da mercedes para os países em reestruturação de dívida) abalançou-se à sua operação mais arrojada: a venda da RECONUDA (Rede Nacional das Consoantes Mudas). Com particular olho para o negócio, Severiano antecipou que iria dar-se um excesso de consoantes no mercado nacional e que poderiam perfeitamente interessar a línguas que estivessem a sentir a sua falta. Montada toda a operação financeira, foram colocados 5 biliões de cês no mercado do mandarim, e 400 milhões de tês no mercado daquela algaraviada dos emirados árabes. Tal foi o sucesso que hoje inclusivamente o governo alemão está ultimar um novo acordo ortográfico e a subcontratar Severiano para a colocação de 3 triliões de érres em todo o mercado asiático, no que consistirá na maior colocação de consoantes de que há memória desde que cleópatra abriu as suas pernas e vogais a marco antónio. Severiano Fernandes deixou definitivamente o seu nome gravado na história económica portuguesa e mesmo europeia quando logrou criar a RENAROTA, a rede nacional de rotundas, e, numa manobra visionária, colocou-a em regime de franchise pelas várias economias em crescimento e que estavam a ponto de nos ultrapassar, que assim se viram obrigadas a marcar passo, rodopiando entre as várias rotundas com esculturas de artistas populares pagas pelos respectivos orçamentos municipais. Portugal hoje mantém-se saudável, no pelotão da frente, com as varandas todas abertas ao sol, com a sua merda criteriosamente escoada e sem uma única consoante por rentabilizar.

Como acabar com o desemprego entre os jovens licenciosos


um neodesmalthusianismo

Uma das mais nebulosas e até nefastas consequências da austeridade desbragada é deixar os jovens com a sua lubricidade exposta aos malefícios do tempo livre. Com uma química ainda sem enquadramento religioso o jovem recém-licencioso encontra-se numa encruzilhada de tentações que ora são assumidas como um lastro inesperado das novas oportunidades, ora consumidas precipitadamente como ilusórios projectos de inovadora investigação. Deixar desamparado um jovem licencioso com excesso de argumentos é como pôr uma piton num gaiolinha de hamsters de lacinho e dar azo a que desperdicem as energias na utilização ineficaz dos instrumentos realmente úteis que têm mais à mão. Sem vislumbrar um aproveitamento para a sua licenciosidade que corresponda às expectativas criadas, o jovem licencioso acabará por tornear a clássica e profilática inibição do libido por concupiscências de substituição. Empregar dinamicamente os jovens licenciosos é pois um imperativo nacional sob pena de que se esgotem ou miscigenem em paragens onde serão forçosamente vítimas do dumping sexual. Para tal desígnio é essencial criar uma bolsa de fecundidade que lhes permita orientar e fixar as suas competências para um projecto de renovação genética radical, reconstruindo-se numa concupiscência de desenvolvimento. Tornar o jovem licencioso em jovem procriador é o movimento que a nossa demografia exige e que porá a nossa segurança social daqui a vinte anos a vomitar excedentes que nem um esófago esfregado de aladino. A prosperidade está na copularidade e há que dinamitar os malvados países da moeda forte com os bastões da impotência e da frigidez.

O Ardor nos Tempos de Cólica

Leonel estava já reformado da Associação de Socorros Mútuos dos Vendedores de Bolo Rei de Loulé quando decidiu dar uma utilização mais criativa e colorida à sua reduzida reforma. Os tempos eram difíceis, já não se arranjavam amantes apenas à base de paleio e muito menos a debicar dom rodrigos depois de passeios à beira-mar, e havia que fazer muita ginástica com a sua parca pensão para alimentar os desejos mais ou menos íntimos de uma amante que fosse minimamente apresentável e que dignificasse um viúvo em fase de retoma hormonal. Sendo o seu primo dono dum pronto a vestir em Faro o problema da ornamentação têxtil parecia mais ou menos resolvido, mas o trinómio jantar-dançar-cama exigia um concentrado de despesas que fazia a sua pensão gemer ao fim de três sessões de troca de fluidos in-shore. Rapidamente teve de riscar as representantes de faixas etárias mais apelativas, estimulantes e exigentes, e pura e simplesmente esquecer em definitivo as deliciosas senhoras que tivessem plásticas em fase activa de project finance. Assim, enquanto a população em geral sofria de espasmos com os saldos bancários para preencher as boquinhas famintas das suas proles, Leonel ardia de desejos carnais e sentimentais por satisfazer. Face à forte discriminação de preços entre jantares e almoços Leonel teve de começar a optar por concentrar os seus contactos erofílicos nos almoços executivos, só que, face às maiores exigências de timming da sua digestão, quando se mostrava capaz de fazer uso das suas capacidades de propiciar consolo e êxtase já era quase hora dos telejornais; para além disso parecia ter a pila directamente ligada à pensão de reforma, numa causalidade confrangedora e não raras vezes a cópula foi acompanhada de visões com a sua falecida a acenar-lhe com o extracto bancário libertando cifrões por todo o seu cerebelo. Chegava a casa extenuado, cheirando a um misto de sexo e naftalina e adormecia a ouvir o troika-troika dos noticiários. Contudo, amaldiçoar a miséria da sua pensão e praguejar as sucessivas mudas de decoração com que a falecida tinha absorvido as poupanças, de forma alguma criava um clima de estabilidade nos seus recursos de sedução e, assim, Leonelão concentrava heroicamente os seus esforços em aproveitar o melhor possível as franjas já desfiadas da sua pensão e nunca por nunca deixar transparecer a terceiras que daí vinha qualquer sinal que fosse de travagem ou mera desaceleração nos seus argumentos de homem experimentado, sabedor, conselheiro e camarada fodilhão. Uma ou outra vez quase se deixou atraiçoar com desabafos do género querida achas mesmo que é preciso esse modelo de cuequinha com tantos rendilhados, querida em minha casa os edredons são dos mais fofinhos, ou mesmo querida então ele há pastelarias também tão jeitosas, mas acabou por saber virar a ansiedade que lhe acometiam as faltas de zeros nas transferências da caixa geral de aposentações no sentido de aparentarem ser meras apreciações estéticas ou até bucólicas. Com a sua pensão continuamente em stress test, Leonel, já nas mãos da previdência, colocou-se também nas da providência para poder coroar a sua ardente masculinidade em cada donzela que se perdesse nos seus braços e apêndices colaterais, como ela fosse uma espécie de complemento de reforma, um fundo de capitalização que ainda estivesse abrigado da permanente pré peritonite do estrangulado orçamento de estado. Há todo um modelo de sociedade que se joga nos pendentes dum reformado.

Ciência Política - Capítulo 'O pensionismo'


«Sem emprego e sem poupanças dignas de nome, Salazar não tinha condições para cuidar de si próprio; foi necessário aprovar legislação para corrigir essa situação»

in Salazar, de Filipe Ribeiro de Meneses, pág. 634