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Fado [III]


Soube-me a pouco
o teu eternamente,
esse momento louco
a que foste chamando presente,

mas que por obra duma memória avara
se transformou em passado,
como ferida que nunca sara
vestida de luto carregado.

Refrão do fado Louca Memória da autoria de Custódia Passos e imortalizado na voz de Lariza

O Prémio


Sempre me considerei um assassino de palavras. Vejo-as a nascerem na minha cabeça, viçosas, cheias de esperanças, e de repente puxo pela caneta e zás! rebento com elas, entalando-as umas nas outras como numa vala comum. Depois, ainda não contente com isso, lanço-lhes combustível, e quando acho que já estão bem regadinhas, zás! largo o fósforo em chama e transformo-as em obras de literatura, o equivalente a um jazigo nesta grande hierarquia da vida que são os símbolos mortuários. Olho para o que escrevo como múmias de miniatura  que fui juntando, num coleccionismo mórbido de ideias que nunca mais verão a luz do dia, pois uma palavra escrita, uma frase, um capítulo, tudo isso são restos mortais daquilo que nos passa pela cabeça; escrevo para matar, não tenho qualquer dúvida disso, treino homicídios com palavras escritas, crimes impossíveis de deslindar, é essa a minha felicidade, a felicidade mesquinha do assassino que sabe nunca será descoberto. Lerem-me faz-vos cúmplices, não são testemunhas, não, vocês são aqueles que ficam à esquina a dar-me o sinal de que posso continuar a matar à vontade, torcendo ainda mais e mais o pescoço das vítimas, essas pobrezinhas, que um dia se lembraram de passear incautas pela minha cabeça.

excerto do discurso proferido pelo escritor Dário Carneiro aquando da atribuição do prémio Pingo Doce das Letras, em Dezembro de 2013

O Diário [IV]


Sobram-me sentimentos, sobram-me inseguranças, sobram-me falsas esperanças, faltam-me dúvidas, faltam-me penas, faltam-me injustiças. Vivo no equilíbrio estável que fornece aquela mediocridade tão própria de quem sabe que teve uma vida banal, das que não chegam a produzir revoltas nem depressões e que se consegue arrumar num cantinho cheio de melancolias estéreis mas que aconchegam. A Viviane hoje não pode vir cá jantar, e inesperadamente ligou-me a Simone a dizer que me queria ver. Apareceu-me logo cinco minutos depois, com um ar atrevido, insinuante, como que disposta a ocupar um espaço que ela sabia estar vazio. Fez-me uma festa, deu-me um beijo, mostrou-me um colar novo que tinha comprado, dois poemas que tinha escrito para uma cantor qualquer e pediu-me atenção, não sem antes ter dito que eu era o melhor atencioso do mundo, que conseguia ouvi-la e vê-la sem ser com olhos de comer, infelizmente para ela, disse também com aquele sorriso que leva qualquer homem para entre as suas pernas em menos de 15 segundos. Queria falar-me da Custódia e queria saber se ela alguma vez se tinha apaixonado por mim. Não me conhece, devia saber que nunca ninguém se poderá apaixonar por mim e que eu, além disso, jamais poderia dar o que quer que fosse à Custódia que ela não conseguisse alcançar de forma superlativa com qualquer outro homem. Ela percebeu os meus pensamentos e atalhou que há regras da atracção que eu desconheço, que as mulheres não seguem certas lógicas de capitalismo erótico que estão imbuídas no inconsciente masculino, e continuou, continuou, continuou, até que sem pré-aviso adormeceu nos meus braços, já meio dormentes com essa fantástica sensação de que 'sou uma merda mas elas há certos merdas de quem gostam' . Entretanto, como num filme de terceira categoria, apareceu a Viviane, fresca como uma alface, para uma ceia de gula e outros pecados avulsos. Felizmente eu tenho aquele cantinho das melancolias estéreis mas que aconchegam e fui para lá, sozinho, abracei a minha mediocridade, e só acordei a meio da noite com a casa vazia e com um bilhetinho: «Amanhã vamos almoçar com a Custódia, queres aparecer? Prometemos novidades. S & V».

Excerto do Diário de Salvador Alves Arinto, entrada de Janeiro de 2013, apresentado em pré-publicação em Maio de 2015 no Agregador Cultural Sigma

O Mirone


«...estava uma mesa animada, a menina que depois acabou por morrer vinha cá quase todas as quartas feiras porque o nosso prato do dia era sempre arroz de polvo, e as outras acabaram por pedir frango da guia que também sai muito bem. Beberam todas cerveja e a menina Viviane até pediu outra quando chegaram à sobremesa. Não dava ideia de que alguma deles fosse morrer durante a digestão, e muito menos a menina Custódia que é, era vá, um pisco a comer. Mas nunca se sabe qual é a nossa hora, não é...às vezes assim de repente, e o polvo estava tão bom, até o doutor Gomes Farinha, que é sempre tão esquisito, nesse dia lambuzava-se todo, até acabou por fazer uma nódoa naquela gravata azul marinho que ele costuma trazer quando depois tem uma reunião com a menina Neide. Aí irritou-se, sim, e percebe-se, o mundo dos negócios é muito sensível aos pormenores; dizem, que eu não sei. E estava um dia tão bonito, até abrimos as persianas para entrar o sol, aqui a churrasqueira às vezes fica muito escura e é preciso valorizar o espaço, se bem que agora tivemos publicidade grátis...não é bonito dizer-se mas a morte da menina até deu um certo ânimo aqui ao negócio, que Deus me perdoe, mas já há quem chame ao prato de polvo, 'arrozinho à custódia', e no final até me dizem: «hoje soube-me a veneno, ó Sereno».

excerto do relato do almoço entre Viviane, Simone e Custódia, por Gervásio Sereno, gerente da Churrasqueira Meireles em Loures

História Mundial do Enriquecimento


{texto dedicado à C. do Malone & o caneco}

1. introdução

A riqueza é um fenómeno muito estudado em várias das suas vertentes e inclusivamente encostas - há até fenómenos de enriquecimento baseado em encostarmo-nos a alguém já de si rico. No entanto, faltava uma análise não só mais cirúrgica e que entrasse realmente naquela brecha da realidade que surge quando ela leva um traumatismo, mas também que soubesse separar o trigo do joio, principalmente nestes momentos em que já se tem de fazer muito papo-seco com grande percentagem de joio.

2. causas

Sem prejuízo de estarmos a cometer o pecado de excesso de simplificação poderemos dizer que a causa do enriquecimento é a vontade de agradar. Em geral, e em primeiro lugar, o enriquecimento surge do movimento de confluência de duas pulsões: a pulsão em satisfazer e a pulsão de necessitar: geralmente o primeiro a chegar à necessidade fica insatisfeito, e vai enriquecer quem aparece a satisfazê-lo. Ou seja, a riqueza está em relação directa com a contenção da necessidade.

Mas tal processo não explica tudo, ou seja, quem nada necessita não fica obrigatoriamente enriquecido, pode até desvanecer; surge então a segunda causa: o enriquecimento como selecção. Explico, há que saber escolher qual a necessidade que se quer satisfazer, pois sempre houve por aí muita necessidade que não rende quase nada, ou seja, a melhor necessidade é aquela que cruza com o capricho, pois assim torna-se mais exigente e remunera melhor a satisfação; trata-se do mecanismo da 'falsa gratificação': paga-se julgando que se está a agradecer.

Por último, o ciclo do enriquecimento fecha-se com o fenómeno da acumulação. A acumulação é o climax da repetição. Explico: a mera repetição origina o desgaste, a repetição com acamamento, a acumulação, origina riqueza.

Síntese: O enriquecimento é causado por três factores: a) confluência de necessidade com satisfação; b) selecção das melhores necessidades; c) acamamento de satisfações


3. consequências

A principal consequência do enriquecimento é o enriquecimento. Trata-se do conhecido fenómeno da auto-suficiência, que na filosofia económica se chama de sustentação e na carpintaria se chama de assentamento. Explico: o enriquecimento produz ricos, os ricos produzem riqueza, a riqueza produz enriquecimento: estamos na presença duma ejaculação auto-sustentada.

Ora, todos os metabolismos auto-sustentados produzem - pelo efeito da força centrifuga de autosustentação - um vácuo na periferia; a esse vácuo, no caso em análise, geralmente chama-se pobreza, ou miséria, também vulgarmente conhecidas por «situação de merda» e referidas nalguma literatura técnica como shit happens. introduzindo assim de caminho a noção de efeito colateral. O que distingue o 'efeito colateral' da 'consequência' é que geralmente o efeito colateral não cheira tanto.

Síntese: o enriquecimento é auto-suficiente mas gosta de ter room service ao dispôr.

4. factos

O enriquecimento é em si um facto, ou seja, como ideia o enriquecimento não surte especial interesse, e é substituído com evidente vantagem por ideias melhores como a sublimação, a cristalização, ou mesmo o próprio chantilly.

A História do enriquecimento é pontificada por vários sinais concretos que, mesmo evoluindo ao longo dos tempos, fornecem um padrão bem definido, com o famoso triângulo egocêntrico: corte, bajulação & felacio.

Há ainda que referir o fenómeno do falso enriquecimento. Esta corruptela do enriquecimento caracteriza-se pela quebra de um elemento essencial: privilegia a bajulação em detrimento do êxtase. Foram inclusive registadas ocorrências em que 'o enriquecido' prefere um lagostim mal cozido em detrimento dum linguado bem grelhado.

Síntese: A energia mais ligada ao enriquecimento é o calor humano que ele atrai.


5. reviravoltas

Este capítulo poderia também chamar-se os 'Senãos das Belas', mas impunha-se seguir a apuradíssima caracteriologia utilizada por C. Todo o enriquecimento que se preze tem o seu momento de inversão. Retomando a metáfora mecânica da centrifugação, observamos ciclicamente que dentro das zonas de shit happens, que rodeiam as de enriquecimento, se vão formando pequenas bolsas de bedum que, ao se despegarem, provocam deslizamento nas bordinhas das zonas de enriquecimento de tal forma que estas começam a patinar e a inverter o movimento. Chama-se a este processo o 'retrodriving', também conhecido na gíria da ergonomia económica como o 'torcicolo de budget' que geralmente resulta nos famosos thermidores de consciência, ou brumários de pescoço. Qualquer fenómeno de enriquecimento que se preze deve ter associado momentos de retrodriving que servem para filtrar impurezas nuns casos, para dar balanço noutros ou, finalmente, para dar tempo às moscas para escolherem melhor em que bosta vão poisar.


Síntese: o maior inimigo do enriquecimento é o enriquecimento; o maior amigo também.

6. conclusões

Antes de concluir propriamente, importa precisar alguns conceitos, designadamente aqueles que podem introduzir confusão, como os dos mecanismos do poder, distintos dos do enriquecimento. O poder leva ao saque (geralmente praticado por entidades públicas ou parapúblicas), e o saque diferencia-se do enriquecimento pois conduz a um mero processo de acumulação, não possuindo as componentes essenciais da dupla necessidade-satisfação, nem muitas vezes da própria selecção, pois com frequência vai tudo a eito.

Feita esta pequena derivação explicativa, imposta deixar claro que a história mundial do enriquecimento tem um claro fio condutor, por um lado: o binómio mar-rocha exige mexilhão; por outro lado: o ensopado de enguias exige enguias. A História do Enriquecimento faz-se das enguias que melhor se ajeitaram ao ensopado e dos mexilhões que estavam agarrados à rocha no pior momento da maré. Circunstância, Destino, Vontade e Inveja, compõem a quadriga (as troikas estão muito batidas) peri-existencialista do enriquecimento, são estes os pistons do motor da sua história. A embraiagem é a Angústia da Pelintrice. Como em qualquer combustão, só será verdadeiramente rico quem souber destruir para enriquecer.

Resumo do trabalho de fundo de Ernesto Mourão, 'História Mundial do Enriquecimento', publicado no número especial de Natal da Revista O Badanal em 2015

O Depoimento [III]


(continuação)

 Inspector Álvaro Simões - Concentremo-nos agora em Raimundo Múrcia...

Viviane Lopes - Humm...em que parte dele?

A.S. - Naquela que pode estar ligada à morte de Custódia Passos..

V. L. - O Raimundo é um homem muito...físico, digamos assim, se fosse ele a matá-la teria deixado mais marcas visíveis.

A.S. - É um homem violento, portanto.

V.L. - Sim, também se pode colocar a coisa assim, mas eu seria mais rigorosa: é um homem para quem as palavras não bastam.

A.S. - Mas sendo escritor..deveriam bastar, ou não?

V.L. - Sabia que ele tinha sido ( e praticado) ortopedista antes de se dedicar à escrita?

A.S. - Bem...sabia que era médico de formação, mas daí a...

V.L. - Uma falha imperdoável sua, deveria saber que os ortopedistas são uns brutos insensíveis! Essa brutalidade está entranhada no Raimundo.

A.S. - Tem então um currículo de agressões é?...

V.L. - Não... não... que eu saiba não...julgo apenas que se ele quisesse matar alguém partiria qualquer coisa, ou ossito, ou assim...há vocações que nunca desaparecem (ahah)

A.S. - Você está a divertir-se à brava com isto...também não é normal, não acha?

V.L. - Nada mesmo...

A.S. - Mas voltemos, por enquanto, ao Raimundo Múrcia, ele já tinha sido amante da Custódia, porque acabaram?

V.L. - Simone is the woman, claro!

A.S. - Seria por essa via mais normal que fosse a Simone a morrer, certo?

V.L. - «Normal»!?...Olha, olha e a brincalhona sou eu...

A.S. - Ou então a Custódia estaria a fazer alguma chantagem com qualquer um dos dois...

V.L. - São todos demasiado orgulhosos para entrarem em chantagens... e para além disso, tem de perceber isto: estamos perante pessoas que conseguem ferir de forma muito mais eficaz do que tirando a vida uns aos outros.

A.S. - Como assim?

V.L. - Sabe uma coisa, acho que está demasiado centrado na coisa passional e nem sequer ainda abordou uma outra questão básica: sabia que a Custódia era riquíssima? e, melhor ainda, era uma rica em segredo, uma rica que poucos sabiam ser rica.

A.S. - Quem sabia?

V.L. - Bem...que eu tenha conhecimento: eu, o Dário, o Salvador Arinto e, julgo... o Flávio Cossaco. Mas todos sob pacto de sangue...

A.S. - Mas todos sem motivo para a matar, suponho.

V.L. - Sou escritora, Inspector, falhada, mas escritora, não leio corações, nem mãos, nem mentes, e, o melhor de tudo: não tenho nenhum fetiche com a verdade, prefiro bons peitorais (ahahah)

A.S. - O testamento ainda não foi aberto, essa pista vai demorar a ser percorrida...Tinha alguma coisa para me dizer sobre isto?

V.L. - Acho apenas que não é do género da Custódia morrer de amores...mas tudo é possível quando se trata de morrer, até há quem morra de tédio e o tédio é das melhores coisas do mundo!

A.S. - Qual é o seu palpite sobre a morte da Custódia?

V.L. - Empate.

A.S. - Como assim...

V.L. - Alguma coisa a andava a empatar.

Transcrição do depoimento de Viviane Lopes, recolhido pelo inspector Álvaro Simões, um mês depois da morte de Custódia Passos, e publicado no Boletim Mensal do Investigador

O Testamento


«...a minha cabeleira azul fica para a Viviane Lopes, o meu recheado guarda-jóias fica para a Simone Bolina, as minhas acções na Mosca Morta ficam para o Salvador A. Arinto, o meus prédios no Campo Mártires da Pátria ficam para a filha da Simone e do Ernesto (que eu sei que um dia verá a luz), o meu vestido com uma mancha espermosa do Clinton ficam para um rapaz coleccionador de curiosidades chamado Elvis com quem dormi uma vez em Fevereiro no hotel do Buçaco, os meus títulos do tesouro ficam para o Dário (se ele sobreviver à minha morte), a minha vivenda em Torres Vedras fica para quem descobrir como morri, o meu serviço de porcelana Ming fica para a Viviane (na condição de ela o partir aos poucos nas trombas do Raimundo e do Ernesto), a minha colecção de lingerie usada fica para o Raimundo, o meu vibrador Yves Saint Laurent fica para o Ernesto, o meu soutien com marcas do polegar esquerdo do Marlon Brando fica para a Simone, as genuflexórios chippendale ficam para a Viviane, o silicone das minhas mamas fica para o rabo da Simone, a casa em St Tropez fica para quem encontrar a pilinha do Cossaco, e o resto fica para a casa-museu da Associação Portuguesa de Epigrafistas...»

excerto do testamento de Custódia Passos, aberto publicamente em Dezembro de 2014, e datado de Outubro de 2012, no Cartório Notarial da Malveira.

O Anúncio


Mulher culta, de uma beleza exótica, boa conversadora, arrojada mas enigmática, cintura bem definida e peito firme, apaixonável, livre, de figado frágil, vingativa, procura homem culto, com diplomas obtidos em qualquer dia da semana, bom conversador, persistente, propiciador e companheiro, e bom conhecedor de química alternativa, a fim de produzirem uma oração fúnebre conjunta, com ou sem epitáfio.

Anúncio dos Classificados, publicado vários dias seguidos em Dezembro de 2012 no Palmela Weekly e no Correio de Bucelas.

O Diário [III]


Hoje almocei com o Ernesto. É a mente mais brilhante que conheço. Dá quase raiva assistir aqueles momentos que se produzem na cabeça dele em que a intuição se abraça à dedução e saem ideias que flutuam que nem bolinhas de sabão, que nós, ao irmos para as agarrar, vemos desfazerem-se numa névoa fugaz e mágica. Inevitavelmente acabámos por falar da Simone e da Custódia. Há um incomodo profundo no seu interior, parece saber algo, ou pressentir algo, não sei, de repente fica bruto, radical, não foge ao tema mas torna-o tão desagradável que temos logo que o abandonar. Hoje disse-me que o Raimundo é um cabrão e que devia ter sido ele o envenenado, que a Custódia não sabia o que andava a fazer, que andava a brincar com o fogo, enfim, foi uma sucessão de observações básicas mas ou mesmo tempo sinuosas e atordoantes que me deixou incapaz de reagir. No final ainda perguntou se a Simone já me tinha falado sobre a morte da Custódia. Já nem me lembro o que respondi, e a última coisa que eu faria seria comentar o que quer que fosse sobre a Simone. Antes de se ir embora deixou-me esta bomba na mão: vou ter um filho da Simone. Só lhe respondi, - devia estar bêbedo - «bonito serviço». Riu-se, - com aquele sorriso típico dos vingativos profissionais e compulsivos - disse-me que iria ser entrevistado pela Mel & Fel, e foi-se.


Excerto do Diário de Salvador Alves Arinto, entrada de Maio de 2014, apresentado em pré-publicação em Maio de 2015 no Agregador Cultural Sigma.

O Corrimão


A ideia de suspender a democracia durante vários meses era evidentemente exagerada. Julgo que o modelo adoptado desde 2012 é bastante mais acertado: suspendê-la dia sim dia não. Por um lado não nos viciamos nela, e por outro não nos afeiçoamos em demasiado, ou seja, as duas dependências mais nefastas da nossa espécie, o vicio e a carência, ficaram postas de lado. Se uns dias somos espoliados sem consulta prévia em algo que já nem sentíamos possuir de tão habituados que estávamos de usufruir, no dia seguinte voltamos a retomar a gloriosa sensação de que nos têm de prestar contas; a nuance é esta: os poderes têm cada vez menos coisas para nos prestar contas, nós temos cada vez menos contas para prestar ou exigir, e o equilíbrio vai-se assim produzindo plácida e comodamente como numa praia mar que se estende por um vasto areal de falso dourado. Hoje a sociedade inquieta-se à segunda, revolta-se à terça, acomoda-se à quarta, indigna-se à quinta e relaxa à sexta. O fim-de-semana fica reservado para aqueles que ainda tenham energias para a perplexidade, o desencanto, a preparação dos farnéis da semana, a oração, o sexo industrial ou o suicídio. Lembremo-nos da nossa Custódia, aparentemente morreu (suicidou-se?) numa segunda feira, ao almoço, seria o excesso de amor, seria a falta dele, seria a tal atroz indiferença olímpica, não sei, mas penso que nesta agenda semanal tão rica ela não encontrava espaço para a escravidão que todos merecemos. Já no romance seminal de Raimundo Múrcia ('Purificação'), por sinal um dos homens que passou pela vida (e se calhar pela morte) de Custódia, este nos tinha apresentado o papel redentor da perca de liberdade, hoje percebemos que o nosso maior luxo é termos voltado a uma espécie de nomadismo ético: o bem comum tem dias.

Excerto da Crónica de Carlos Corrimão, publicada no Benavente Weekly, em Outubro de 2013

O Depoimento [II]


(...)

Inspector Álvaro Simões - Falávamos de Simone Bolina...

Viviane Lopes - ...sim, um bom tema (ahaha)

A.S. - Continua bem disposta...Como caracteriza a D. Simone?

V.L. - Ora resumindo...uma machorrenga!

A.S. - Como assim...uma maria-rapaz?...

V.L. - nada disso, pretendia figurar o correspondente ao homem mulherengo, mas em gaja...

A.S. - ah.. e tem sucesso?

V.L. - Muitíssimo! Não me diga que ela ainda não se atirou a si?

A.S. - Eu imponho alguma distância...

V.L. - Ora ora...o que são dois ou três metros para a Simone (ahahah)

A.S. - Simone já tinha assediado alguém de quem Custódia Passos...vá... gostasse?

V.L. - Repare, inspector Simão, se todas a mulheres a quem Simone já tivesse cobiçado, assediado, flirtado, comido, insinuado, ou roubado os amantes, namorados, amigos ou até canalizadores, morressem envenenadas, as serpentes já se tinham tornado uma espécie em extinção!

A.S. - Consigo isso também já aconteceu?

V.L. - Isso é uma pergunta muito pessoal...acha que ajudará mesmo a explicar como morreu a Custódia Passos?

A.S. - Quer tomar alguma coisa?

V.L - Eh lá...isto está a ficar quase como nos filmes...

A.S. - É apenas para a compensar da minha...do meu excessivo zelo; uma cortesia merecida, entenda-a assim

V.L. - Eu estou habituada a ser bem tratada pelos homens, deixe lá...

A.S. - A propósito, acha que algum homem se poderia querer vingar dalguma infidelidade de Custódia?

V.L. - Por acaso acho...

A.S. - Quem!?

V.L. - O Dário, claro, mas esse nunca a mataria.

A.S.. - Porquê?

V.L. - Porque é muito egoísta, o homicídio implica sempre algum desprendimento.

A.S. - Hummm...uma especialista na coisa!

V.L. - Sabe bem que eu tenho razão.

A.S. - Generalizar, encontrar padrões é um risco que eu tenho de correr...mas confesso-lhe que não gosto...gosto de pensar que me movimento entre excepções à regra.

V.L. - Então está no caso certo! (ahaha)

A.S. - O que é que este caso tem de original?...cumpre os padrões do crime passional...

V.L. - Apenas com uma pilinha desaparecida de bónus, certo? (ahaha)

A.S. - Sim...é paixão com brinde (ahah)

V.L. - Viva, sabe fazer uma piada!

A.S. - A aparente loucura é quase sempre um véu, sabe disso?

V.L. - A Custódia era uma mulher apaixonante, isso sim posso-lhe confirmar, nem a Simone, nem eu lhe chegávamos aos calcanhares, e era uma mulher linda, julgo que conseguiu reparar  nisso...ou se calhar andou atarefado nas impressões digitais...olhe que nem queira saber o que já passou por aquelas defuntas mãos! (ahah)

A.S. - Que quer dizer com isso?

V.L. - Ai que me saiu um polícia curioso, credo! (ahahah)

 (...)

Transcrição do depoimento de Viviane Lopes, recolhido pelo inspector Álvaro Simões, um mês depois da morte de Custódia Passos, e publicado no Boletim Mensal do Investigador

O Discurso


Meus queridos amigos e companheiros nesta arte da busca do epigrama ideal, a História recente mostra-nos que nem sempre as frases sabem estar à altura dos acontecimentos e nem sempre os acontecimentos sabem estar à altura das frases. Não será novidade se vos disser que determinadas frases mudaram o curso da história, não será novidade se vos disser que ideias mal expressas transformaram-se inadvertidamente em novas ideias e não será novidade se vos disser que vivemos os tempos em que se matam as mensagens para poupar e manter os mensageiros.

Como trazer de novo as ideias para a frente da História? Só nós o saberemos fazer: cuidando do belo efeito. No Jardim do Tempo florescem pequenas pérolas floridas que escapam às multidões, seja por negligência, distracção, ignorância, insensibilidade, ou mesmo desprezo e só nós podemos cuidar desses canteiros, só nós poderemos dar ao mundo a cor e o cheiro que ele necessita neste momento.

Tem sido claro que a retórica moderna se concentrou em desviar a atenção das pessoas do essencial para o acessório, pois revelou-se mais rentável manipular o acessório, é mais fácil levar-nos a crer que a bondade é um subterfúgio da beleza do que o contrário, é mais fácil fazer-nos crer que a felicidade é uma filha dilecta da vontade do que mostrar-nos que a vontade é uma enteada das circunstâncias.

Temos de saber estar à altura do momento que a História nos entrega, e temos de saber lidar com os grandes sifões do Tempo. A partir de hoje está lançado o embrião para o movimento da nova demagogia, rumo ao Partido do Belo Efeito. Será a casa comum da frase ideal, da frase inspiradora, da frase que nos mostrará o caminho certo, num ambiente hegeliano de nova geração. 'A realidade terá de se juntar a nós', será este o nosso lema.


Excerto do Discurso de tomada de posse de Flaubert Queirós como 1º Bastonário da Ordem dos Epigrafistas, eleito em Outubro de 2012.

Fado [II]


Colo marcado pela dor
que me invadiu tão cedo,
inspirada naquele estupor
escondido em segredo

num lençol manchado
de suor sem sangue,
e das lágrimas resguardado
como um bandido sem gang.


Refrão do fado 'Sudação' da autoria de Custódia Passos e imortalizado na voz de Capilé

O Diário [II]


A Viviane acabou de sair daqui. Jantámos, ela estava de poucas falas, o que é normal, a condenação de plágio, por mais que ela desvalorize e até brinque com isso, acabou por lhe reduzir as possibilidades de ser nomeada comissária para a Grande Exposição da Rima Portuguesa. E é injusto, claro que é injusto, ninguém conhece os mecanismos e a história da rima portuguesa como ela.

Fui carinhoso com ela, sim, acho que fui, fui. Tendo em conta a minha insegurança em relação aos sentimentos dela, e àquele raio de sensação que tenho de que há qualquer coisa que me falta para que ela goste realmente de mim, até fui carinhoso. Vou morrer com esta sensação de merda. As sensações deitam-nos tudo a perder. Devia ter apostado mais nas ideias quando era novo, mas se calhar fui preguiçoso, ou as sensações começaram a render-me mais cedo e acomodei-me. Ainda me lembro da minha primeira sensação romântica: uma miúda gira, esperta, muito cobiçada, e eu a imaginá-la a reprimir a atracção que tinha por mim, se tivesse pensado melhor talvez a tivesse esquecido logo e pouparia a minha úlcera e aqueles contos todos que escrevi e de que agora me arrependo. Mas são estas Vivianes que lançam os homens nas mãos das Simones.

Excerto do Diário de Salvador Alves Arinto, entrada de Novembro de 2013, apresentado em pré-publicação em Maio de 2015 no Agregador Cultural Sigma.

O Editorial


A notícia do encerramento da joint-venture para o mercado do Brasil entre as Editoras Mosca Morta e Choco com Tinta (denominada Mosca Choca) marca um revés importante não só na aposta de internacionalização de ambos os grupos mas igualmente na possibilidade de levar para mercados mais vastos da língua portuguesa escritores como Raimundo Múrcia, Ernesto Mourão ou Simone Bolina, entre outros. Queremos crer que este retrocesso nada teve a ver com as desavenças públicas entre alguns destes escritores, que têm na sua vida privada uma relação conturbada que muitas vezes é transportada para as editoras onde pertencem, se não mesmo para os próprios livros, mas é impossível não nos debruçarmos sobre este tema. Quando em Março passado Ernesto Mourão disse numa entrevista que «há situações que pedem rupturas e há rupturas que pedem destruição» o meio literário e editorial ficou estupefacto pois sabia-se da importância que revestia o projecto brasileiro para ambas as chancelas. Por outro lado, a morte da escritora Custódia Passos deixou um lastro de mistério e desconfiança no mundo editorial para o qual não ajudaram as informações que têm vindo a lume sobre o caso, e que se sucedem ao ritmo dum triller digno duma corrente paralela ao surrealismo. Custódia era uma mulher fascinante mas o seu fascínio radicava também numa total ausência de previsibilidade e estrutura; era uma mulher que se deixava levar mas consolidando sempre a sensação de que se mantinha ao comando dos acontecimentos. Sabe-se hoje que o projecto Mosca Choca tinha sido de inspiração sua e tudo leva a crer que a sua principal motivação era unir Raimundo e Ernesto num ringue em que pudesse ser ela a ditar as regras (era a principal accionista, veio a saber-se após a sua morte, mas ainda é desconhecido o teor completo do testamento), dominando-os, condicionando-os, deixando-os em suspenso dos seus caprichos, sempre protegidos pela áurea premonitória que soube criar à sua volta. O domínio feminino é um dos temas menos estudados pela sociopolítica pois apresenta um encanto literário excessivo que afasta os especialistas. Como dizia Custódia: «por detrás duma grande mulher há sempre dois homens, só um não é suficiente».

in o Editorial da Revista Cul-de-Sac Internacional

O Depoimento [I]


Inspector Álvaro Simões - Qual era a sua relação com Custódia Passos?

Viviane Lopes - Éramos amigas desde o liceu, e começámos a escrever ao mesmo tempo.

A. S. - Pode dizer-se que eram íntimas?

V. L. - Desde que o conceito não implique erotismo convencional, sim.

A. S. - Acha que ela tinha razões para se suicidar?

V.L. - Todos temos razões para nos suicidarmos....

A. S. - Mas nem todos nos suicidamos... sabe que ela tinha escrito um bilhete e que o tinha junto a ela?

V.L. - Sei porque o senhor mo mostrou no dia em que ela morreu.

A.S. - É verdade...e alguma vez sentiu, dado que eram íntimas sem erotismos convencionais, que havia uma probabilidade forte que ela cometesse suicídio?

V.L. - Não, de todo, a Custódia não se pode dizer que tivesse nenhuma nostalgia dos absolutos, ela gramava curtir os acontecimentos mesmo que lhe fossem inconvenientes.

A.S. - Não percebi, mas vou concluir que me quer dizer que não era previsível que ela se suicidasse...

V.L. - E muito menos com bilhetinhos fatelas!

A.S. - E acha que alguém teria interesse em que ela morresse?...

V.L. - Defina-me interesse.

A.S. - ...Se alguém ganhava alguma coisa com isso.

V.L. - Que eu saiba não tem herdeiros à perna...

A.S. - e desgostos de amor à ilharga?...

V.L. - Chiça, assim já cá não estava ninguém. (ahahah)

A.S. - Refiro-me a desgostos com apetência para a vingança, a destruição...

V.L. - A Custódia era daquele género de mulher que não gostava de criar expectativas a ninguém.. e isso é uma faca de dois gumes, até eu já a tinha avisado disso...

A.S. - Tinha-a avisado de que alguém a podia matar?

V.L. - Não, tinha-a a visado que o macho por muita sobranceria que tenha não sabe viver sem expectativas emocionais. Faz parte da proverbial fragilidade masculina.

A.S. - E a fragilidade pode ser agressiva...

V.L. - Não me dê dicas dessas...eu sou escritora, começo a divagar e depois não o ajudo (ahahah)

A.S.- Parece bem disposta...

V.L. - Não será aquela coisa do nervosismo?...

A.S. - Vamos supor que sim. Matou a Custódia Passos?

V.L. - Credo, claro que não, e você precisava de ser bruto, porra!?

A.S. - Não, mas o meu ordenado tem subjacente certas perguntas, a srª também não se pode esquecer de pôr um titulo nos seus livros, está a ver?

V.L. - O sr Agente está a perder-se aqui...já pensou nisso?

A.S. - Pois, mas existia uma certa rivalidade entre a Custódia e a Simone Bolina, não havia?

V.L. - Rivalidade como?

A.S. - Homens, carreira, fama, charme...

V.L. - Rivalidade não é uma boa palavra... havia guerra mesmo. (ahahah)

A.S. - E qual era o território principal em disputa?

V.L. - Então e o bilhetinho não lhe está a servir para nada?

A.S. - Que informação é que acha que tem o bilhete?

V.L. - Geralmente esses bilhetinhos são autênticos mapas do tesouro!...

A.S. - A propósito de mapas...sabe para onde foi Simone Bolina depois do almoço?

V.L. - Saber, não sei, mas ela disse-nos que ia fazer umas comprinhas.

A.S. - Mas as escritoras também fazem compras!?...

V.L. - Aquelas coisas que não conseguem sacar dos admiradores. (ahahah)

A.S. - Admiradores ou amantes...

V.L. - As escritoras têm essa vantagem: só se deixam amar por quem as admire.

A.S. - Ou desvantagem...continuamos amanhã, pode ser, hoje a Srª D. Viviane está demasiado sorridente para um inquérito.

V.L. - Claro, não fui eu que morri, já reparou?


Transcrição do depoimento de Viviane Lopes, recolhido pelo inspector Álvaro Simões, um mês depois da morte de Custódia Passos, e publicado no Boletim Mensal do Investigador


A Crónica


Foi esta semana decretado que é proibido morrer até 2017. Os cemitérios estarão com enormes deficits, e não há verba para enterros decentes nos próximos tempos, resumindo: ou há subsídios ou há enterros, houve que escolher. Ficam de fora apenas os casos de suicídios e as septicemias, mas os cancros e os traumatismos vão ter de esperar por melhores dias. Se virmos bem é uma medida acertada, há muita morte estúpida, mal planeada, muito oportunismo, muita gente que se quer aproveitar e vivemos um momento difícil em que todos têm de dar o seu contributo. Eu cá tinha decidido morrer para o ano, mas posso perfeitamente esperar e sacrificar-me um bocadinho.

Por outro lado soube-se há poucos dias que a Troika condiciona o acesso de Portugal aos mercados ao aparecimento da pilinha de Flávio Cossaco. É conhecido que tem causado mau estar nos círculos financeiros internacionais a incapacidade das autoridades portuguesas em suster a fuga de pilinhas para o estrangeiro e teme-se que este caso seja a ponta do iceberg duma rede de trafico de pilinhas. Mesmo assim, o projecto legislativo, já conhecido como a Lei Cossaco, tem levantado fortes reservas, designadamente à Ordem dos Epigrafistas que, tendo perdido o controlo da atribuição de umbigos oficiais da nação, se vê agora também na iminência de perder o controle ao contingente nacional das Pilinhas de Valor Intrínseco e Acrescentado (as pivia), algo que tinham logrado alcançar depois de muita reivindicação e que consideravam fazer jus, entre outras coisas, à memória de Custódia Passos, a malograda epigrafadora e autora de Sorte Macaca. Como ela costumava dizer: «No espremer bem é que está o ganho»; essa é que é essa.


Excerto da Crónica Mensal de Bernardo Marujo Cidreira (pseudónimo de Julio Paisana), Essa é que é essa, publicada no número especial de Páscoa de 2015 de  O Badanal.

O Diário [I]


Hoje recebi um telefonema estranho da Custódia. Chorava convulsivamente. E eu que julgava que ela vinha programada para não chorar. Não me disse a razão, disse só que precisava de alguém com quem chorar e que não perguntasse nada. Eu sou bom nisso, a não perguntar nada. Para uns parece desinteresse, mas há quem dê valor, aleluia! Está muito sobrevalorizado o conselho, deviam pôr mais os olhos naqueles que se limitam a ter paciência. Mas coitada da Custódia, também me fez pena; eu ainda não estou insensível, foi bom perceber isso. A seguir falei com a Simone; o costume. Ainda bem que nunca me apaixonei por ela, se calhar até sou o único, e nunca se sabe, num homem nunca se sabe.

Amanhã acho que acabarei o meu livro, vou-lhe dar um titulo simples, talvez o 'fim da tarde' ou simplesmente 'esplanada', não sei, na Fuligem há sempre alguém que se sente especialista em títulos, os títulos são como o bolo de chocolate, há sempre uma avozinha que faz um que nunca se esquece. Felizmente nunca conheci nenhuma avó e por isso sou um eterno apologista do pastel de nata.

Pensando bem a Simone nem é nada de deitar fora. Curiosamente ontem o Flávio disse-me que tinha namorado com ela em tempos e que se inspirara nela para uma personagem dum livro qualquer. Eu era incapaz de fazer uma confissão dessas, para mim as personagens são sagradas.

Estou sem sono. Às vezes era bom gostar mesmo de alguém; de alguém que pudesse estar por perto. A Viviane nunca esteve perto.


Excerto do Diário de Salvador Alves Arinto, entrada de Janeiro de 2013, apresentado em pré-publicação em Maio de 2015 no Agregador Cultural Sigma.

A Peritagem


Em sequência das várias sessões individuais com o Sr. Ernesto Mourão tive ocasião de poder comprovar estar na presença de uma pessoa com uma personalidade muito marcada pela timidez e a insegurança. Um domínio invulgar daquilo a que eu chamarei as 'convenções morais' construiu-lhe uma postura defensiva sobre a vida se bem que estruturada em torno de inflexibilidades e rupturas. Da sua relação, referida como «fugaz», com a vítima não transpareceram resíduos de trauma significativos, mas diga-se que na sua vida sentimental pontifica um notório mecanismo de ciúme exacerbado em torno de outra pessoa que tem alguma relação com a investigação em apreço. O paciente poderá ter manifestações violentas relacionadas com esta relação e os seus níveis de controle estão muito relacionados com, por mais estranho que pareça, com aquilo que tenha comido nas refeições anteriores. Apesar de ser raro, o Sindrome do Estômago Vazio revela-se em Ernesto Mourão de extrema importância para compreender e antecipar os seus comportamentos. Em resumo, poderemos enquadrá-lo dentro da categorias dos Previsíveis com bónus. Quanto à prevalência de impulsos que se consubstanciassem no homicídio de terceiros julgo serem de baixíssima probabilidade num ambiente de, repito, barriga cheia.

Excerto Adaptado do Retrato Psicológico de Saraiva Mourão, elaborado pelo Perito Manique Fagundes Vicente, no âmbito da investigação à morte de Custódia Passos, e publicado no número XXII da Revista de Psiquiatria de Penacova

O Badanal


Decorreu na passada 6ª feira a festa de lançamento da nova revista satírica O Badanal. O director será Vasco Dias que, para além de uma breve incursão na ficção com o seu recente romance Manjericão e Coco , na Editora Adamastor, já tinha dirigido o suplemento de viagens & gastronomia do extinto semanário A Humanidade. A nova Revista Mensal apostará, nas palavras de Vasco Dias, «numa perspicácia lúdica e numa mordacidade esclarecida» e, para além de vários nomes sonantes saídos do humorocómio nacional, contará com as estrelas literárias Raimundo Mourão e Rebelo Mendes (que acabou de receber o Prémio 'Cagões de Fafe' pelo seu Livro 'Os novos Charlatães') como colaboradores permanentes com duas colunas anunciadas eloquentemente como 'de nos mijarmos a rir' e já curiosamente patrocinadas pelas fraldas para incontinentes Lindor. Instado a responder à questão: «como se distinguir num mercado saturado de cómicos», Vasco Dias deu a palavra ao seu editor-chefe Julio Paisana ( o homem que já nos tinha contado como conhecera Kate Moss) que não se coibiu de dizer que «enquanto que uns mostram quem tem o dedo em riste nós mostraremos quem tem a pila murcha». Foi muito notada a presença de Flaubert Queirós, recentemente eleito o 1º Bastonário da Ordem dos Epigrafistas e que tudo aponta será um alvo privilegiado de inúmeras peças de 'O Badanal', a fazer fé do meme que corria na festa que encerrou o lançamento da Revista: «Quando a badana não presta até as epígrafes atrapalham».

Excerto da Notícia publicada no suplemento La Buondia do Semanário Nespresso, em Novembro de 2014